domingo, abril 09, 2006

Do grã doo que el rey dõ Afonso fazia por seu filho

Afonso VI de Leão e Castela, re-conquistador de Toledo, perdeu o filho Sancho Afonso na batalha de Uclés, na sequência da primeira ofensiva almorávida na Península. A pressão militar e a extorsão económica do período pós-Toledo obrigaram os reinos taifas a pedir ajuda aos almorávidas que dominavam o norte de África, desencadeando uma violentíssima campanha que culminou no desastre de Uclés, em 1108. 'O lamento de Afonso VI' ao receber a notícia da morte do único filho varão é uma das mais belas páginas da literatura medieval, que me comove até às lágrimas em cada leitura:

«Conta a estoria que, quando soube el rrey a morte do fillo, disse a aquelles que vijnã da batalla:
- Ay, meu fillo!
Et esto dizia elle cõ grã door que tijna no curaçõ, dizedollis todauja:
- Ay, meu fillo, alegria do meu curaçõ, lume dos meus ollos, solaz de mjna velleçe! Ay, meu espello en que me soya ueer et con que tomaua muy grã prazer! Ay, meu herdeyro mayor!»

[evva]

sábado, abril 08, 2006

Como el rey dõ Afonso casou con a Çayda, filla del rrey de Seuilla


«Conta a estoria que el rrey dõ Afonso, estando por casar et seendo muy esforçado et auenturado (...) ouueo a saber a donzela dõna Çayda. Et, tam grande foy o bem que oyo dizer del rrey dõ Afonso, que sse namor[o]u delle, pero que nunca o vira; mays por o boo pre[z] que delle oya. Et tam grande foy o amor que delle ouue que ouue a buscar carreyra como ouuesse seu amor. Et aaçima, como as molleres som subtijs et sabedeyras do [que] querem fazer (...) envioullj dizer per seus mandadeyros que teuesse por bem de a veer. (...)
Et el rey, quando o oyo, prouguelle moyto et enviolle dizer que a yria veer hu elle quisesse. (...) Et depoys que a vyo el rrey, foy tan pagado dela como ela dele, que a vio muy fremosa et de boo doayro. Et ouuerõ sua fala em huu. Et ela disse que, se quisese casar cõ ela, que lle daria as villas et os castelos que ela avia. Et // el rrey lle disse:
- Poys conuem que seiades cristãa.
Et ela disse que o faria de muy bõamente, quanto el mandasse.
(...) Et tornousse cristãa et casou cõ ella. Et ela outorgoulle as villas et os lugares que auedes oydo. Et, quando a bautizarõ, mandou el rrey que llj nõ posesem nume Maria, por que elle nõ queria preyto cõ moller que ouuese assy nume, et poserõlle nume Ysabel. Et ouue en ela huu fillo a que diserõ dom Sancho Afonso»

Tradução galega (?) da Primeira Cronica General e da Cronica de Castela (c. 1300), ed. Ramon Lorenzo

[evva]

E agora?

Como sobreviver sem o Rodrigo Moita de Deus?

evva

domingo, abril 02, 2006

El lamento de José de Arimatea

No soporto la voz humana,
mujer, tapa los gritos del
mercado y que no vuelva
a nosotros la memoria del
hijo que nació de tu vientre.

No hay más corona de
espinas que los recuerdos
que se clavan en la carne
y hacen aullar como
aullaban
en el Gólgota los dos ladrones.
Mujer,
no te arrodilles más ante
tu hijo muerto.
Bésame en los labios
como nunca hiciste
y olvida el nombre
maldito de
Jesucristo.

Así arderá tu cuerpo
y del Sabbath quedará
tan sólo una lágrima
y tu aullido.

Leopoldo María Panero

[evva)

Adenda: uma outra abordagem do nosso bem-amado José, imprescindível em qualquer biografia autorizada ou evangelho apócrifo.

sábado, abril 01, 2006

Diario de un seductor


No es tu sexo lo que en tu sexo busco
sino ensuciar tu alma:
desflorar
con todo el barro de la vida
lo que aún no ha vivido.

Do poète maudit Leopoldo María Panero (El que no ve, 1980)

[evva]

sexta-feira, março 24, 2006

The end of the affair


Um filme que entra directamente para o meu top ten de 'Como terminar uma história de amor?'. É claro que a história é muito previsível e deliciosamente piegas, e que a posteridade recordará apenas a interpretação de Meryl Streep, mas às vezes precisamos de filmes assim, que nos levem ao colo e que em pequenas coisas nos revelem as grandes verdades. E agora vou comprar outra embalagem de lenços e estancar as lágrimas...
evva

quinta-feira, março 23, 2006

Ah, Baía!


E não me venham dizer que este não é o melhor guarda-redes português! E que Quaresma ainda tem de provar que merece estar no Mundial 2006, enquanto que Costinha tem lugar garantido! Não há por aí quem queira fazer uma OPA sobre a Federação Portuguesa de Futebol e levar-nos de vez o Scolari?
evva

quarta-feira, março 22, 2006

amores

Diz Galeote, o mais nobre dos reis-senhores, a Lanzarote, o mais nobre dos cavaleiros:

"ella vos ama tan lealmente e de tan grande amor que yo bien creo que ante ella querra ser señora de una poca de tierra convusco que de todo el mundo sin vos”.

Ms. 9611 BN Madrid

E depois de ler coisas destas pareço uma tontinha com a lágrima no olho...
Isabel Sofia

terça-feira, março 21, 2006

Poesia

Todos os anos lectivos, tenho o devaneio de fazer despertar nos alunos, num que seja, aquela voz interior que os fará amar as palavras até ao fim dos seus dias. Seduzo-os com lugares comuns, que a poesia se come, que os versos se trituram na boca, agitam-nos o sangue, enchem a alma...


É praticamente impossível, no emaranhado de conteúdos programáticos a cumprir, mas sonho com o dia em que poderemos começar cada aula com a leitura de um poema ou de um qualquer texto, explorá-lo em conjunto e que tudo isso lhes faça sentido. E lá para Junho, no final do ano, poder deixar-lhes numa fotocópia este testamento:


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas onças víboras
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ninfas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembram liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destrói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras

David Mourão-Ferreira
Obra Poética, Lisboa, Editorial Presença, 1988, 1º edição


[evva]

segunda-feira, março 20, 2006

Coimbra, noite de nevoeiro cinza-molhado

Há dias em que quando tudo parece fazer sentido, todas as coisas se encaixam...eis que nos apercebemos que a chuva lá fora deixa passar o cinzento de uma tristeza desconhecida, mas que nos perturba. Então, temos vontade de abrir os braços. Mas contentamo-nos com a presença e o sorriso que oferecemos na tentativa de uma reconstrução.
Valham-nos os sonhos e as eternas demandas.
Isabel Sofia

quarta-feira, março 08, 2006

Não sei como confessar...

Mas hoje dei por mim a torcer pelos lampiões e a vibrar com os golos, tal o descalabro daquela equipa do Liverpool. Estou a perder qualidades.

evva

Antes que me esqueça...


Terminam hoje dez anos de uma presidência desastrosa, a manter-se em silêncio quando devia intervir e a interferir no rumo da governação em proveito dos interesses da esquerda bloco central. Por mim, já vai tarde. E não deixa saudades.

evva.

Dia da Mulher

Convém esclarecer de antemão que sou particularmente avessa a todas as jornadas pseudo-celebrativas, do não fumador, dos avós, do animalzinho de estimação (quando vivi em França lembro-me de haver um dia destes), etc, e irrita-me particularmente a que hoje se celebra.

Há uns anos trabalhei no Alentejo, num daqueles munícipios sempre pronto a gastar rios de dinheiro nestes folclores e a poupar em infrastruturas essenciais. Começou logo em Setembro, com a oferta de um mega-jantar à comunidade educativa no pavilhão gimnodesportivo, para celebrar a abertura do ano lectivo. Largas e largas dezenas a auferir gratuitamente de respasto com entradas diversas, dois pratos, bons vinhos e sobremesas variadas, tudo à discrição, com música ao vivo e bailarico a condizer. Lembro-me de a cada passo ouvir o tilintar de uma caixa registadora na minha cabeça, atónita com tamanho despesismo. Nenhum de nós, registe-se, se teria importado de pagar pelo jantar.

Seguiram-se inúmeros espectáculos, todos de borla, como manda a tradição da pseudo-igualdade de direitos e oportunidades em terras alentejanas. Teatro, bailado, as mais prestigiadas companhias nacionais, concertos, marionetas, todos de impoluta qualidade. Pérolas a porcos, perdoem-me. Num dos muitos concertos a que assisti no tal pavilhão gimonodesportivo, lembro-me de uma noite em que os belle chase hotel tocaram para uma plateia cheia mas absolutamente desinteressada de tudo o que se passava em palco. A certa altura, a conversa e o entra-e-sai da assistência eram de tal ordem que mal se conseguia ouvir a banda e eu contava-me entre os 0,00001% que tentava responder às solicitações do vocalista, dançar ao ritmo das músicas ou cantar os refrões. Para os restantes, o concerto passou ao lado. Seria possível tal desrespeito se cada uma das pessoas que assistiu ao concerto tivesse desembolsado dois ou três euritos, ou mais?


Não é distribuindo gratuitamente cultura pelo povo que se formam gerações instruídas, com gosto pela arte e sensibilidade para os eventos culturais, já se sabe. É investindo na sua formação, fornecendos-lhe, com rigor, as ferramentas e os conteúdos indispensáveis para que saibam apreciar e criar. Nunca de forma lúdica, ou gratuita, mas insistindo sempre para que prestem provas exigentes, invistam em si próprios e no seu trabalho e apenas por esse esforço sejam recompensados. Só quem está fora do sistema educativo desconhece as enormes pressões a que são sujeitos os professores para transitar de ano os alunos que nada fazem para incrementar artificialmente as taxas de sucesso, e não falo apenas do ensino básico obrigatório.


E eis que somos chegados ao dia 8 de Março. Sem surpresas, a tal edilidade alentejana mandou distribuir pelas mulheres do concelho milhares e milhares de flores (bem tratadas com químicos de florista, não daquelas que pintam intensamente a planície alentejana por esta altura, as minhas preferidas), acompanhadas de um convite para mega-jantar no pavilhão gimnodesportivo. Claro que, na escola, logo se combinaram romagens ao banquete. Vinte minutos antes da hora marcada, saio de casa e dirijo-me ao recinto. A 200 metros de distância já se ouvia o cacarejar. Indescritível. Centenas de mulheres acumulavam-se ruidosamente nas ruas limítrofes do pavilhão, novas, velhas, casadas, viúvas, solteiras ou nem por isso, saltitavam, abraçavam-se, gritavam como nunca nos braços de maridos e amantes. Mal nos avistámos, as minhas amigas e eu entreolhámo-nos com a expressão 'Help! Tirem-nos daqui!' a empalidecer-nos o rosto e decidimos juntarmo-nos aos homens que jantavam em desagravo no ponto de encontro do costume. Foi um dos melhores jantares de 8 de Março que já tive, celebrado com homens, amigos e amigas do peito.


Mulheres! Deixem-se de lamúrias feministas e carpideiras esquizofrénicas. A melhor maneira de celebrar este dia, e todos os que nos sobejam, é junto deles, rindo com eles, gritando com eles e por eles. Tudo o resto, a tal igualdade e liberdade, virá por acréscimo, pelo nosso empenhamento único e incansável no amor, na verdade e na vida. Bem hajam.


evva

FILMES…



Agora percebo que o cinema sempre me fascinou pelo conteúdo e não tanto pelas soluções técnicas, estejamos perante um filme de ficção científica ou de acção. Reconheço a importância central da técnica mas não tenho nem a sensibilidade nem a formação suficiente para a entender na totalidade. Daí que não goste do “Gladiador” ainda que me digam que é tecnicamente bom, e goste do “Exterminador Implacável 2” (T2) que qualquer um reconhece como fraco, ainda que tecnicamente extraordinário.

Interessa-me a seriedade e a honestidade com que uma obra é feita, o que me faz insurgir contra engodos como o “Munique” ou o “Million Dollar Baby” que abordam questões complexas de forma ligeira e tendenciosa, encostando-nos a situações que são facilmente julgadas de uma forma ou de outra, a favor ou contra. O caso do “Munique” é muito mais interessante porquanto o encosto é sistematicamente disfarçado.
A vida não é a preto e branco, nem as pessoas o são. Daí que filmes como o “Mar adentro”, a “Lista de Schindler” ou a “Queda” sejam objectos que respeito porque me deixam na dúvida, porque me obrigam a pensar nas intenções e na natureza das pessoas. Porque é sempre mais fácil ver os problemas a partir das convicções que nos são mais próximas e com as quais nos sentimos mais confortáveis.

Os filmes maus são como os refrigerantes, a comida fast food ou as chiclets, gosta-se mesmo que se saiba que são maus.
O que é espectacular no “T2" é o homem a surgir do chão, ou a refazer-se a partir de gotas de mercúrio não tanto a tecnologia que está por detrás disso. No “Tigre e o Dragão” (que é apesar de tudo melhor do que o “T2”) é o imaginário das artes marciais, e acrescento que nada me incomoda a tentativa eventual de cruzamento com a realidade.

O Clint Eastwood, que sigo incondicionalmente, também fez filmes fracos – “Poder Absoluto”, “Dívida de Sangue”, “Cowboys do Espaço” – onde a personagem dele acaba sempre com a miúda, bastante mais nova, e em que maus são castigados no fim. Contudo fez filmes bons – “Imperdoável”, “Caçador Branco coração negro”, “O Mundo Perfeito” – onde as personagens são frágeis e fortes, em que a realidade é ambígua ou pelo menos mais verosímil, e o quotidiano está mais presente.

É por essas e por outras que apesar de preferir o cinema europeu – onde os sentidos são explorados de forma mais profunda e as explicações ficam para quem vê –, não resisto às produções de Hollywood, cheias de diversão e a imaginação.

Não sei muito sobre filmes mas o que mais detesto é que me tentem impingir opiniões ou pontos de vista. É por isso que não gosto da maioria dos filmes do Spielberg e que acho que será difícil haver este ano algo melhor do que o “Match Point”, um filme em que muita gente (eu incluído) se sente bem pelo facto de a pessoa que cometeu o crime se safar no fim.

Mas esse é talvez o facto mais interessante da arte. Todos queremos encontrar nela algo que nos conforte, e ficamos quase sempre desiludidos quando isso não acontece. E quanto maior é a nossa afectividade em relação à mensagem e a quem a emite mais dificuldade temos em admitir ou lidar com esse desconforto.

andré

PS: A imagem que vêem é do Blade Runner, um dos meus filmes preferidos e um dos melhores de Ficção Científica que alguma vez vi.

domingo, março 05, 2006

Momento radical


Conduzir um carro no IP4, Alto do Marão, noite cerrada e a nevar intensamente. Belo.

evva

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

ANDAR DE AVIÃO


Gosto muito de andar de avião. Mesmo muito.

Pensava que era pelas imagens. Para alguém fascinado pelas nuvens, estar ao lado delas é como estar em casa. E para quem anda com a cabeça no ar, estar no mesmo sítio onde a cabeça costuma estar é sem dúvida confortável.
Ainda não sei se prefiro ver um céu com ou sem nuvens. Ver a terra do ar é como uma imagem de satélite ou uma daquelas plantas de arquitectura paisagística. Mas as nuvens têm formas incríveis e sempre diferentes.
Mas já não passo assim tanto tempo a olhar para fora e o tempo a bordo é cada vez mais utilizado para ler, ouvir música, dormir ou até trabalhar.

Gosto muito de tudo o que tem a ver com andar de avião. Acho os aeroportos fascinantes. Quanto maiores são mais eu gosto deles. O movimento, as pessoas, a complexidade, os aviões, a luz, as mangas. É tudo muito diferente do nosso dia-a-dia.
O problema é que não conheço tantos aeroportos como gostaria e, para quem descola do Porto, Frankfurt torna-se uma passagem tão frequente que começa gradualmente a perder a piada. Ainda não conheço Heathrow nem o JFK, passei pelo Charles de Gaulle a correr e acho que vai demorar até ir aos alucinantes aeroportos asiáticos de Singapura, Tóquio ou Hong Kong.

Desculpem mas acho muita piada ao serviço de comida a bordo por muito fraco que seja. A Lufthansa tem uns copos de plástico muito elegantes, uma comida simpática e vinhos que se conseguem apreciar. Por isso não acho piada à Ryanair. Mas o que é que isso interessa quando se paga 50 euros por uma viagem a Paris?

Gosto da emoção da descolagem e da aterragem e fico com um sorriso completamente infantil quando, já no ar, vejo um avião a passar perto do meu. Esta situação não muito comum permite-nos apreciar melhor a velocidade e dá uma imagem estranha de um corpo imperceptivelmente suspenso no ar.

Mas o que mais me agrada é a sensação de sair e de me encontrar a seguir num sítio diferente. O facto de o fazer através de aviões e aeroportos só reforça ainda mais o meu fascínio de estar quase sempre no ar. A imaginar.

andré

sábado, fevereiro 25, 2006

Poema VIII

A pedido de várias famílias:

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos
Vira uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
........................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.........................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro

evva

A arca do guardador de rebanhos

Quando me sentei hoje frente ao computador, a minha intenção era escrever algo que acalmasse a fúria provocada pelo visionamento do mais recente Spielberg e a sua retórica moralista. Mas mergulhei a fundo no espólio de Alberto Caeiro, disponibilizado esta semana no site da Biblioteca Nacional, «até me doerem os olhos», e ainda não consegui regressar à superfície...

Qual Munique!? Até deixei passar sem me importar a hora do lançamento do último livro de crónicas do Lobo Antunes na Fundação Eugénio de Andrade. Claro que procurei imediatamente o Poema VIII, demasiado longo, neste formato, para colocá-lo aqui no blog. Escolhi a página onde se encontram os últimos versos, o Poema IX, na íntegra, as duas primeiras estrofes do Poema X, outro dos meus preferidos, e a página seguinte, com as estrofes finais e os Poemas XI e XII. Deliciem-se.

evva

Brokeback Mountain, by Annie Proulx

Antes de ver o filme, leiam o conto, publicado pela primeira vez na New Yorker, em 1997. Vale a pena.

Para verem o que se perdeu na adaptação cinematográfica. destaco apenas um pormenor, a fazer toda a diferença. Depois de um afastamento de 4 anos, Jack e Ennis reencontram-se, acabando a noite num motel. It´s the intimate talk after sex: «Ennis pulled Jack's hand to his mouth, took a hit from the cigarette, exhaled.». Um andamento em três tempos, perfeito. A terminar num verbo que prolonga a frase numa respiração. Mas não me lembro de ver no filme de Ang Lee a acuidade em filmar estes pequenos detalhes que faz os grandes realizadores e que encontro sempre em Manoel de Oliveira, por exemplo, nomeadamente numa cena do Vale Abraão em que uma personagem acende um cigarro no de outra e que é um dos melhores momentos do seu cinema. Talvez Ang Lee não tenha tido tempo de se demorar nestes detalhes na sua ânsia de querer contar os 20 anos da relação de Ennis e Jack, e optou por passar rapidamente sobre pormenores que valeriam todo um filme. Mas eu gosto do cinema que se demora.

[link via Cinema2000]


evva

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

It takes two for tango el sur


Tango for two

óleo de Olga Sinclair (2001)

Este tango de Astor Piazzola, com letra do realizador Fernando Solanas, foi em tempos a banda sonora dos meus dias. É o meu tango preferido. Se bem que atravesso um momento lunar, como está um magnífico dia de sol no Porto dedico-o aos amigos a viver na cinzenta Europa central, a contar os dias para o regresso ao Sul:

El Sur

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.

Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.

Te quiero Sur,
Sur, te quiero.

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur...

Rua de Cima do Muro

José Paulo Andrade

Ruas do Porto

evva