segunda-feira, abril 10, 2006

Leopoldo María Panero

PROYECTO DE UN BESO

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga
te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra
te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde
te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido
te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra
te mataré mañana cuando la luna salga,
y así desde aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación
te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida
te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas
te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

"El último hombre" 1984

[evva]

Mata! Mata!

Ao ignóbil que chegou a este blog através da pesquisa Google 'a relação homossexual do rei artur e lancelot':
fique sabendo que esta é a sede número 1 do clube de fans de Lancelot, é bom que não me apareça pela frente, seu *%#&!

evva

domingo, abril 09, 2006

A ver os blogues passar

Sempre encarei a informática como um meio moderno de fazer novos excluídos. Poderia encontrar no recôndito do meu ser vagas razões para isso ou tentar descortinar motivações sociológicas para o facto: as primeiras reservo-as só para mim; as segundas, não tenho pachorra de apresentar. Considero, por isso, ser este um momento solene: aquele em que uma voluntariamente info-excluída (ironia: a minha irmã, que adoro, é programadora informática) se estreia na blogosfera, ainda com a sensação de quem está a dominar uma fera...
Hoje, estive a ver blogues passar nas pontas dos dedos da minha amiga Elsa. E eis que se revelou a luz de alguns dos melhores tesouros da gruta de Ali Bábá. Pela primeira vez apercebi-me da existência de pérolas de cariz literário, das potencialidades e virtudes no ciberespaço. A Elsa espanta-se de que só agora lhe tenha dado ouvidos, o Henrique deve admirar-se de que finalmente deixe de encarar a Net como bicho-papão e me aperceba da nova beleza inerente à coisa!
Não digo que irei compor uma «Ode Triunfal» à blogosfera, mas confesso que me sinto um pouco como alguém a quem foi dado, por fim, ver a luz. Já Platão bradava na Caverna: a caminhada para a luz faz-se de forma gradual, pois a revelação imediata pode cegar... E São Paulo, 500 anos mais tarde, aconselhava o leite primeiro para se chegar depois ao alimento sólido. Como não sei se quero cegar como São Paulo na estrada de Damasco, e como achei que ficavam bem aqui estas referências para não me considerarem uma inculta qualquer pelo facto de só agora vislumbrar as potencialidades da blogosfera, e para não me enterrar mais, fico por aqui, por hoje! Mi aguarrrdem!!!

Cristina Costa Vieira

Como sobreviver a um coração despedaçado I

Chegar a casa, ligar o computador e publicar versos no blog, mesmo alheios, mesmo que nos façam chorar. Lá virá o tempo em que as lágrimas se estancam e começamos a amar mais as palavras, únicas, irrepetíveis, que os seres que secreta e indiferentemente as inspiraram:

Paráfrase

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos constrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta

Pedro Mexia


[evva]

P.S.: Toca a arregaçar as mangas e a analisar/comentar a 'metapoeticidade mexiana'. Esta vida são dois dias e Cristo só dormiu três.

Onde é que eu já vi esta imagem?...

evva

Do grã doo que el rey dõ Afonso fazia por seu filho

Afonso VI de Leão e Castela, re-conquistador de Toledo, perdeu o filho Sancho Afonso na batalha de Uclés, na sequência da primeira ofensiva almorávida na Península. A pressão militar e a extorsão económica do período pós-Toledo obrigaram os reinos taifas a pedir ajuda aos almorávidas que dominavam o norte de África, desencadeando uma violentíssima campanha que culminou no desastre de Uclés, em 1108. 'O lamento de Afonso VI' ao receber a notícia da morte do único filho varão é uma das mais belas páginas da literatura medieval, que me comove até às lágrimas em cada leitura:

«Conta a estoria que, quando soube el rrey a morte do fillo, disse a aquelles que vijnã da batalla:
- Ay, meu fillo!
Et esto dizia elle cõ grã door que tijna no curaçõ, dizedollis todauja:
- Ay, meu fillo, alegria do meu curaçõ, lume dos meus ollos, solaz de mjna velleçe! Ay, meu espello en que me soya ueer et con que tomaua muy grã prazer! Ay, meu herdeyro mayor!»

[evva]

sábado, abril 08, 2006

Como el rey dõ Afonso casou con a Çayda, filla del rrey de Seuilla


«Conta a estoria que el rrey dõ Afonso, estando por casar et seendo muy esforçado et auenturado (...) ouueo a saber a donzela dõna Çayda. Et, tam grande foy o bem que oyo dizer del rrey dõ Afonso, que sse namor[o]u delle, pero que nunca o vira; mays por o boo pre[z] que delle oya. Et tam grande foy o amor que delle ouue que ouue a buscar carreyra como ouuesse seu amor. Et aaçima, como as molleres som subtijs et sabedeyras do [que] querem fazer (...) envioullj dizer per seus mandadeyros que teuesse por bem de a veer. (...)
Et el rey, quando o oyo, prouguelle moyto et enviolle dizer que a yria veer hu elle quisesse. (...) Et depoys que a vyo el rrey, foy tan pagado dela como ela dele, que a vio muy fremosa et de boo doayro. Et ouuerõ sua fala em huu. Et ela disse que, se quisese casar cõ ela, que lle daria as villas et os castelos que ela avia. Et // el rrey lle disse:
- Poys conuem que seiades cristãa.
Et ela disse que o faria de muy bõamente, quanto el mandasse.
(...) Et tornousse cristãa et casou cõ ella. Et ela outorgoulle as villas et os lugares que auedes oydo. Et, quando a bautizarõ, mandou el rrey que llj nõ posesem nume Maria, por que elle nõ queria preyto cõ moller que ouuese assy nume, et poserõlle nume Ysabel. Et ouue en ela huu fillo a que diserõ dom Sancho Afonso»

Tradução galega (?) da Primeira Cronica General e da Cronica de Castela (c. 1300), ed. Ramon Lorenzo

[evva]

E agora?

Como sobreviver sem o Rodrigo Moita de Deus?

evva

domingo, abril 02, 2006

El lamento de José de Arimatea

No soporto la voz humana,
mujer, tapa los gritos del
mercado y que no vuelva
a nosotros la memoria del
hijo que nació de tu vientre.

No hay más corona de
espinas que los recuerdos
que se clavan en la carne
y hacen aullar como
aullaban
en el Gólgota los dos ladrones.
Mujer,
no te arrodilles más ante
tu hijo muerto.
Bésame en los labios
como nunca hiciste
y olvida el nombre
maldito de
Jesucristo.

Así arderá tu cuerpo
y del Sabbath quedará
tan sólo una lágrima
y tu aullido.

Leopoldo María Panero

[evva)

Adenda: uma outra abordagem do nosso bem-amado José, imprescindível em qualquer biografia autorizada ou evangelho apócrifo.

sábado, abril 01, 2006

Diario de un seductor


No es tu sexo lo que en tu sexo busco
sino ensuciar tu alma:
desflorar
con todo el barro de la vida
lo que aún no ha vivido.

Do poète maudit Leopoldo María Panero (El que no ve, 1980)

[evva]

sexta-feira, março 24, 2006

The end of the affair


Um filme que entra directamente para o meu top ten de 'Como terminar uma história de amor?'. É claro que a história é muito previsível e deliciosamente piegas, e que a posteridade recordará apenas a interpretação de Meryl Streep, mas às vezes precisamos de filmes assim, que nos levem ao colo e que em pequenas coisas nos revelem as grandes verdades. E agora vou comprar outra embalagem de lenços e estancar as lágrimas...
evva

quinta-feira, março 23, 2006

Ah, Baía!


E não me venham dizer que este não é o melhor guarda-redes português! E que Quaresma ainda tem de provar que merece estar no Mundial 2006, enquanto que Costinha tem lugar garantido! Não há por aí quem queira fazer uma OPA sobre a Federação Portuguesa de Futebol e levar-nos de vez o Scolari?
evva

quarta-feira, março 22, 2006

amores

Diz Galeote, o mais nobre dos reis-senhores, a Lanzarote, o mais nobre dos cavaleiros:

"ella vos ama tan lealmente e de tan grande amor que yo bien creo que ante ella querra ser señora de una poca de tierra convusco que de todo el mundo sin vos”.

Ms. 9611 BN Madrid

E depois de ler coisas destas pareço uma tontinha com a lágrima no olho...
Isabel Sofia

terça-feira, março 21, 2006

Poesia

Todos os anos lectivos, tenho o devaneio de fazer despertar nos alunos, num que seja, aquela voz interior que os fará amar as palavras até ao fim dos seus dias. Seduzo-os com lugares comuns, que a poesia se come, que os versos se trituram na boca, agitam-nos o sangue, enchem a alma...


É praticamente impossível, no emaranhado de conteúdos programáticos a cumprir, mas sonho com o dia em que poderemos começar cada aula com a leitura de um poema ou de um qualquer texto, explorá-lo em conjunto e que tudo isso lhes faça sentido. E lá para Junho, no final do ano, poder deixar-lhes numa fotocópia este testamento:


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas onças víboras
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ninfas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembram liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destrói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras

David Mourão-Ferreira
Obra Poética, Lisboa, Editorial Presença, 1988, 1º edição


[evva]

segunda-feira, março 20, 2006

Coimbra, noite de nevoeiro cinza-molhado

Há dias em que quando tudo parece fazer sentido, todas as coisas se encaixam...eis que nos apercebemos que a chuva lá fora deixa passar o cinzento de uma tristeza desconhecida, mas que nos perturba. Então, temos vontade de abrir os braços. Mas contentamo-nos com a presença e o sorriso que oferecemos na tentativa de uma reconstrução.
Valham-nos os sonhos e as eternas demandas.
Isabel Sofia

quarta-feira, março 08, 2006

Não sei como confessar...

Mas hoje dei por mim a torcer pelos lampiões e a vibrar com os golos, tal o descalabro daquela equipa do Liverpool. Estou a perder qualidades.

evva

Antes que me esqueça...


Terminam hoje dez anos de uma presidência desastrosa, a manter-se em silêncio quando devia intervir e a interferir no rumo da governação em proveito dos interesses da esquerda bloco central. Por mim, já vai tarde. E não deixa saudades.

evva.

Dia da Mulher

Convém esclarecer de antemão que sou particularmente avessa a todas as jornadas pseudo-celebrativas, do não fumador, dos avós, do animalzinho de estimação (quando vivi em França lembro-me de haver um dia destes), etc, e irrita-me particularmente a que hoje se celebra.

Há uns anos trabalhei no Alentejo, num daqueles munícipios sempre pronto a gastar rios de dinheiro nestes folclores e a poupar em infrastruturas essenciais. Começou logo em Setembro, com a oferta de um mega-jantar à comunidade educativa no pavilhão gimnodesportivo, para celebrar a abertura do ano lectivo. Largas e largas dezenas a auferir gratuitamente de respasto com entradas diversas, dois pratos, bons vinhos e sobremesas variadas, tudo à discrição, com música ao vivo e bailarico a condizer. Lembro-me de a cada passo ouvir o tilintar de uma caixa registadora na minha cabeça, atónita com tamanho despesismo. Nenhum de nós, registe-se, se teria importado de pagar pelo jantar.

Seguiram-se inúmeros espectáculos, todos de borla, como manda a tradição da pseudo-igualdade de direitos e oportunidades em terras alentejanas. Teatro, bailado, as mais prestigiadas companhias nacionais, concertos, marionetas, todos de impoluta qualidade. Pérolas a porcos, perdoem-me. Num dos muitos concertos a que assisti no tal pavilhão gimonodesportivo, lembro-me de uma noite em que os belle chase hotel tocaram para uma plateia cheia mas absolutamente desinteressada de tudo o que se passava em palco. A certa altura, a conversa e o entra-e-sai da assistência eram de tal ordem que mal se conseguia ouvir a banda e eu contava-me entre os 0,00001% que tentava responder às solicitações do vocalista, dançar ao ritmo das músicas ou cantar os refrões. Para os restantes, o concerto passou ao lado. Seria possível tal desrespeito se cada uma das pessoas que assistiu ao concerto tivesse desembolsado dois ou três euritos, ou mais?


Não é distribuindo gratuitamente cultura pelo povo que se formam gerações instruídas, com gosto pela arte e sensibilidade para os eventos culturais, já se sabe. É investindo na sua formação, fornecendos-lhe, com rigor, as ferramentas e os conteúdos indispensáveis para que saibam apreciar e criar. Nunca de forma lúdica, ou gratuita, mas insistindo sempre para que prestem provas exigentes, invistam em si próprios e no seu trabalho e apenas por esse esforço sejam recompensados. Só quem está fora do sistema educativo desconhece as enormes pressões a que são sujeitos os professores para transitar de ano os alunos que nada fazem para incrementar artificialmente as taxas de sucesso, e não falo apenas do ensino básico obrigatório.


E eis que somos chegados ao dia 8 de Março. Sem surpresas, a tal edilidade alentejana mandou distribuir pelas mulheres do concelho milhares e milhares de flores (bem tratadas com químicos de florista, não daquelas que pintam intensamente a planície alentejana por esta altura, as minhas preferidas), acompanhadas de um convite para mega-jantar no pavilhão gimnodesportivo. Claro que, na escola, logo se combinaram romagens ao banquete. Vinte minutos antes da hora marcada, saio de casa e dirijo-me ao recinto. A 200 metros de distância já se ouvia o cacarejar. Indescritível. Centenas de mulheres acumulavam-se ruidosamente nas ruas limítrofes do pavilhão, novas, velhas, casadas, viúvas, solteiras ou nem por isso, saltitavam, abraçavam-se, gritavam como nunca nos braços de maridos e amantes. Mal nos avistámos, as minhas amigas e eu entreolhámo-nos com a expressão 'Help! Tirem-nos daqui!' a empalidecer-nos o rosto e decidimos juntarmo-nos aos homens que jantavam em desagravo no ponto de encontro do costume. Foi um dos melhores jantares de 8 de Março que já tive, celebrado com homens, amigos e amigas do peito.


Mulheres! Deixem-se de lamúrias feministas e carpideiras esquizofrénicas. A melhor maneira de celebrar este dia, e todos os que nos sobejam, é junto deles, rindo com eles, gritando com eles e por eles. Tudo o resto, a tal igualdade e liberdade, virá por acréscimo, pelo nosso empenhamento único e incansável no amor, na verdade e na vida. Bem hajam.


evva

FILMES…



Agora percebo que o cinema sempre me fascinou pelo conteúdo e não tanto pelas soluções técnicas, estejamos perante um filme de ficção científica ou de acção. Reconheço a importância central da técnica mas não tenho nem a sensibilidade nem a formação suficiente para a entender na totalidade. Daí que não goste do “Gladiador” ainda que me digam que é tecnicamente bom, e goste do “Exterminador Implacável 2” (T2) que qualquer um reconhece como fraco, ainda que tecnicamente extraordinário.

Interessa-me a seriedade e a honestidade com que uma obra é feita, o que me faz insurgir contra engodos como o “Munique” ou o “Million Dollar Baby” que abordam questões complexas de forma ligeira e tendenciosa, encostando-nos a situações que são facilmente julgadas de uma forma ou de outra, a favor ou contra. O caso do “Munique” é muito mais interessante porquanto o encosto é sistematicamente disfarçado.
A vida não é a preto e branco, nem as pessoas o são. Daí que filmes como o “Mar adentro”, a “Lista de Schindler” ou a “Queda” sejam objectos que respeito porque me deixam na dúvida, porque me obrigam a pensar nas intenções e na natureza das pessoas. Porque é sempre mais fácil ver os problemas a partir das convicções que nos são mais próximas e com as quais nos sentimos mais confortáveis.

Os filmes maus são como os refrigerantes, a comida fast food ou as chiclets, gosta-se mesmo que se saiba que são maus.
O que é espectacular no “T2" é o homem a surgir do chão, ou a refazer-se a partir de gotas de mercúrio não tanto a tecnologia que está por detrás disso. No “Tigre e o Dragão” (que é apesar de tudo melhor do que o “T2”) é o imaginário das artes marciais, e acrescento que nada me incomoda a tentativa eventual de cruzamento com a realidade.

O Clint Eastwood, que sigo incondicionalmente, também fez filmes fracos – “Poder Absoluto”, “Dívida de Sangue”, “Cowboys do Espaço” – onde a personagem dele acaba sempre com a miúda, bastante mais nova, e em que maus são castigados no fim. Contudo fez filmes bons – “Imperdoável”, “Caçador Branco coração negro”, “O Mundo Perfeito” – onde as personagens são frágeis e fortes, em que a realidade é ambígua ou pelo menos mais verosímil, e o quotidiano está mais presente.

É por essas e por outras que apesar de preferir o cinema europeu – onde os sentidos são explorados de forma mais profunda e as explicações ficam para quem vê –, não resisto às produções de Hollywood, cheias de diversão e a imaginação.

Não sei muito sobre filmes mas o que mais detesto é que me tentem impingir opiniões ou pontos de vista. É por isso que não gosto da maioria dos filmes do Spielberg e que acho que será difícil haver este ano algo melhor do que o “Match Point”, um filme em que muita gente (eu incluído) se sente bem pelo facto de a pessoa que cometeu o crime se safar no fim.

Mas esse é talvez o facto mais interessante da arte. Todos queremos encontrar nela algo que nos conforte, e ficamos quase sempre desiludidos quando isso não acontece. E quanto maior é a nossa afectividade em relação à mensagem e a quem a emite mais dificuldade temos em admitir ou lidar com esse desconforto.

andré

PS: A imagem que vêem é do Blade Runner, um dos meus filmes preferidos e um dos melhores de Ficção Científica que alguma vez vi.

domingo, março 05, 2006

Momento radical


Conduzir um carro no IP4, Alto do Marão, noite cerrada e a nevar intensamente. Belo.

evva