sábado, maio 06, 2006

Poema para Franz Weissmann



Ao contrário
do escultor de antes
que
para dissipar a noite
(mítica)
que habita a matéria
imprimia à superfície
da massa
velocidades de luz,
Weissmann
escultor de hoje
abre
a matéria
e mostra que dentro dela
não há noite mas
espaço

puro espaço

modalidade transparente
de existência



Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 511.


[evva]

sexta-feira, maio 05, 2006

Lição de grego I

DOS HEBREUS (50 D.C.)

Pintor e poeta, corredor e discóbolo,
belo como Endymíon, Iántis Antoníu.
De família amiga da Sinagoga.

"Meus dias mais preciosos são aqueles
em que deixo a busca sensual,
em que abandono o belo e rígido helenismo,
com seu apego soberano
a membros brancos perfeitamente feitos e corruptíveis.
E torno-me aquele que desejaria
sempre permanecer; o filho dos Hebreus, dos sagrados Hebreus."

Mui calorosa sua declaração. "Permanecer
sempre dos Hebreus, dos sagrados Hebreus –"

Porém de modo algum permanecia tal.
O Hedonismo e a Arte de Alexandria
tinham-no por filho dedicado.

Kavafis, 1919

Também eu tento permanecer fiel, acreditem. Mas a Arte e o Hedonismo vencem sempre.

Em grego original é ainda mais bonito:

ΤΩΝ ΕΒΡΑΙΩΝ (50 μ.X.)

Ζωγράφος και ποιητής, δρομεύς και δισκοβόλος,
σαν Ενδυμίων έμορφος, ο Ιάνθης Aντωνίου.
Aπό οικογένειαν φίλην της Συναγωγής.

«Η τιμιότερές μου μέρες είν’ εκείνες
που την αισθητική αναζήτησιν αφίνω,
που εγκαταλείπω τον ωραίο και σκληρόν ελληνισμό,
με την κυρίαρχη προσήλωσι
σε τέλεια καμωμένα
και φθαρτά άσπρα μέλη. Και γένομαι αυτός που θα ήθελα
πάντα να μένω· των Εβραίων, των ιερών Εβραίων, ο υιός.»

Ένθερμη λίαν η δήλωσίς του. «Πάντα
να μένω των Εβραίων, των ιερών Εβραίων —»

Όμως δεν έμενε τοιούτος διόλου.
Ο Ηδονισμός κ’ η Τέχνη της Aλεξανδρείας
αφοσιωμένο τους παιδί τον είχαν.

ΚΑΒΑΦΗΣ, 1919

Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos

[evva]

Rússia

"Rússia, com a razão não te podem compreender,
Nem com medida comum te medir.
És um mundo à parte.
Só fé em ti podemos ter".

Esta quadra foi escrita pelo poeta russo do séc. XIX Fiodor Tiutchev. Hoje, não temos a verdade na mão, mas tentamos aproximar-nos dela.

(retirado do Blog da Rússia do jornalista José Milhazes)


andré

quarta-feira, maio 03, 2006

Addicted

Manhã de domingo a preguiçar entre lençóis:
ELA: Queriiidooo! Nunca mais chegam as férias... Queria tanto a ilha Formosa, o mar, a praia...
ELE: Querida... (Suspiros ensonados) Eu só quero o meu computador...

evva

terça-feira, maio 02, 2006

What animal were you in a past life?




You Were a Porcupine



You have created your own path in life, and you encourage others to do the same.

Even as life progresses, you always maintain a sense of wonder and innocence.




Eu sabia! Não se aproximem demasiado...

evva

O novo Profeta

Depois do gás natural e do petróleo,
Evo Morales anuncia mais nacionalizações

Conheço muito boa gente que adorava emigrar para o paraíso na terra que este senhor está a construir.
evva

E por falar em grandes amigos...


Parabéns, Isabel!


É uma honra partilhar contigo grandes e pequenas demandas.

evva

Bem-vindo, Edgar!


Já nasceu o cavaleiro desejado. Parabéns aos papás babados, dos melhores amigos do mundo. A Martinha ainda não tem pressa, mas já podemos começar a tratar dos esponsais.

evva

Por que é que Tom Waits não canta nos meus sonhos?

You can never hold back Spring
you can be sure that i will never
stop believing
The blushing rose will climb
Spring ahead or fall behind
Winter dreams the same dream
Every time
you can never hold back springs
even thought you've lost your way
the world keeps dreaming of spring
So close your eyes
Open your heart
To one who's dreaming of you
You can never hold back spring
Baby
Remember everything that spring can bring
You can never hold back spring

Tom Waits
[evva]

segunda-feira, maio 01, 2006

VIVA O BOB!


«Eu sou o Bob
Construtor!

Eu sou o Bob
TRABALHADOR

evva

ABAIXO O NODDY!


«Não há pachorra para o Noddy
Já ninguém o consegue aturar...»
(trautear ao som da música da série)

Já não há paciência para a histeria em torno deste boneco tresloucado, perito em entrar a assapar nos cruzamentos da Cidade dos Brinquedos e em destruir os jardins e as cercas das casas dos amigos sempre que pega no carro.

evva


P.S.: Pena é ser Enid Blyton a autora deste disparate, logo ela que foi uma das heroínas da minha infância.

Um dia para não feriar

TOCA A TRABALHAR, QUE É PARA ISSO QUE AQUI ESTAMOS!

evva

Agora levantas-te tu, agora levanto-me eu

(Foto via arquivos d' A Cidade Surpreendente)


Se há pormenor que absolutamente me irrita na Casa da Música são as 'cómodas' cadeiras da Sala Guilhermina Suggia. Há um ano que assisto a concertos naquele espaço e só hoje consegui acertar com a posição das malfadadas cadeiras, que seguramente custaram uma fortuna. Ora acontece que é humanamente impossível um espectador conseguir manter-se imóvel durante as quase duas horas que normalmente dura um concerto. Assistimos então ao hilariante espectáculo dos que se levantam ligeiramente (quando pretendem mudar a posição das pernas, ou apenas mover-se uns milímetros), seguram a cadeirinha com as mãos para que não fuja e voltam a sentar-se sustendo a respiração, rezando para que o confortável assento deslize para a posição correcta. O que nem sempre acontece e minutinhos depois a complexa manobra repete-se. Sinceramente, não consigo perceber como é que os Assistentes conseguem disfarçar o riso e ainda ninguém se lembrou de reparar o ridículo.

evva
P. S.: Onde será que armazenaram as cadeiras dos cinemas Lumière?

«Prepara-te, que nunca mais vais esquecer este concerto»

Assim dizia um dos privilegiados que tiveram a oportunidade única de assistir ao que foi provavelmente um dos melhores concertos que se hospedaram na Casa da Música. Estava sentado atrás de mim, na quarta fila da plateia, e durante quase duas horas trauteou, enlevado, as notas que Abdullah Ibrahim criava.
Teve tudo, este concerto. A entrega desmedida do septuagenário, em comunhão perfeita com o piano. As exclamações que ouvimos nos discos e cds, de quem tira um prazer absoluto da música que executa. A inesperada condução e interligação das músicas, que é do melhor que o jazz tem. Aquele trecho do Desert Flowers, leitmotiv imprevisto e desejado. O último tema, em que me pareceu ficar magistralmente suspensa uma nota... Conhecem aquela sensação de certas músicas que ludribiam a nossa expectativa e quando pensamos chegado o momento do arrebatamento a nota não surge e nos deixa na ânsia do quase?

Abdullah Ibrahim, num concerto em Stuttgart


No final, com gestos de rara humildade, Ibrahim agradeceu as palmas e a plateia em pé, rendida, como se não merecesse tamanha consideração e estima. Nós é que não te merecemos, Abdullah. E continuo à espera daquela nota.


evva

domingo, abril 30, 2006

The south african piano of Abdullah Ibrahim


Hoje à noite, a Casa da Música acolhe um concerto a solo do pianista de jazz Abdullah Ibrahim. Ouvi-o pela primeira vez em 22 de Abril de 2003, nesse espaço singular que é o Tapado, em volta de uma lareira acesa a degustar um tinto de eleição, música excelente e conversas intermináveis pela madrugada dentro.
O Tapado é um dos meus recantos preferidos e hoje à noite, pelas 22h, mais do que a música singularemente intimista e extraordinária de Abdullah Ibrahim que então gravei num cd e que toca em praticamente todos os jantares que se organizam cá em casa, naquele momento em que depois de repasto os corpos se afundam nos sofás a saborear um bom uísque (I hope...), vou celebrar esse lugar único e os que o construíram e habitam e me fazem sempre renascer a cada encontro.

evva

DEFINIÇÃO DA MOÇA



Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do quando nua?

como possuí-la
quando está desnuda
se ela é toda chuva?
se ela é toda vulva?

Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 496.

[evva]

Adenda: Oops, esqueci de agradecer a quem me deu a conhecer pela primeira vez o poeta excepcional que é Ferreira Gullar. Sorry, Dulce, não sei se vou conseguir devolver-te o livro...

sábado, abril 29, 2006

Do 25 de Abril

Ainda a propósito do 25 de Abril (é como o Natal, há datas que se comemoram sempre que o homem quiser...), vejam o que se passou no programa da manhã liderado pelo Sr. Manuel Luís Goucha neste 25 de Abril.
Sucedeu que as duas convidadas do dia (pertinentíssimas para a data!), Lili Caneças e Cinha Jardim, partilharam as suas ilustres opiniões sobre o dia da Liberdade. E já estou como o outro, todos gostam de dar as suas «opiniães», pois não pagam imposto nem exigem sabedoria de quem as profere. O caso que me ocorre, todavia, comentar, é a questão das palmas do estimado público convidado pelo programa: Lili Caneças dizia que se hoje ainda há pobreza em Portugal, antes do 25 de Abril o povo realmente passava sérias dificuldades e muitas misérias que obrigaram a uma emigração massiva, e que hoje há a liberdade para expor estas questões, coisa que não era permitida durante a ditadura. Ó tempora! Ó mores! De facto, os aliados podem por vezes encontrar-se junto das pessoas mais insuspeitas! Qual a reacção do público do programa? Nem uma única palma! Comentário da tia Cinha: o 25 de Abil foi responsável pela descolonização, pela miséria de muitos retornados (que aí exploravam os autóctones e as riquezas naturais..., comentário meu), pela morte de sua mãe(certamente de desgosto, pois as únicas mortes desta revolução poética foram causadas pelos PIDES, comentário meu), etc, etc. Reacção do público: estrondosas palmas!
Ah! Que não se diga não haver por aí muitos saudosos do antigamente, e não apenas entre aqueles que realmente saíram economicamente prejudicados pela mudança para a democracia! Entre a gente ignorante e pobre também se encontram muitos nostálgicos do 24 de Abril, permanecendo na ignorância em que o Salazarismo os quis (e parece ter conseguido) manter. Citarei a Bíbila, «Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!», ou Sophia, «Senhor, perdoai-lhes, porque sabem o que fazem?»

Cristina Costa Vieira

Vermelho é meu sangue e meu coração...

Não tenho sangue azul. Aliás, ninguém tem sangue azul...
Desde que há 33 anos a minha mãe ME DEU À LUZ,
todo o sangue que percorre meu corpo é vermelho.
E o sangue é que me faz viver, e a vida é que me faz sonhar,
e o sonho é que me faz crer que...
PARA O ANO A ÁGUIA HÁ-DE SER A RAINHA DOS CÉUS,
AFUGENTAR OS LEÕES NA TERRA,
E BICAR DOLOROSAMENTE OS DRAGÕES.
ESPEREM LÁ...
ESSE ANIMAL NEM SEQUER EXISTE

Com fair-play
(Este ano mereceram!)

HENRIQUE

Splendour in the air


O meu maior sonho sempre foi ser bailarina. Uma homenagem aos que conseguiram galgar a montanha de obstáculos que uma tal escolha implica e, uma vez lá em cima, lançarem-se no ar. Só quem tem música e ritmo dentro de si entende a sensação absolutamente única que é mover-se assim.

evva

quarta-feira, abril 26, 2006


Il n'y a de réellement obscènes que les gens chastes.

Joris-Karl Huysmans


[evva]