terça-feira, abril 25, 2006

Comoção


Extraordinária a surpresa que a RTP proporcionou esta noite, ao transmitir o último concerto de Zeca Afonso no Coliseu (1983). Apesar de alguns elementos da assistência merecerem estar presos (e uma certa irritação quase involuntária por pouco me fazia mudar de canal cada vez que os filmavam, de cravinho na mão), e sem querer deixar de realçar a já tradicional polidez indígena no adequado uso dos aplausos (então aquela 'malta' não sabe que não se interrompe um Fado de Coimbra com palmas?), que memórias desfilaram ao escutar a voz trémula e embargada de um José Afonso já claramente debilitado... O meu tio Adriano, de olhar azul maroto, a dedilhar e a cantar a Balada de Outono ("Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/ Que eu não volto a cantar"), as noites adormecidas ao som da Canção de Embalar e todas as músicas que integraram a banda sonora despolitizada da minha infância, mais preocupada em cantarolar os refrães do que inquirir do seu significado profundo.
Confesso que desliguei no final para não ouvir a irritante Grândola, mas o que me ficou deste concerto único foi nele entrever uma certa (certeira?) imagem do 25 de Abril hoje, velho, doente e anacrónico. Haverá ainda motivo para comemorações?

evva

domingo, abril 23, 2006

Questões de geografia


Não posso deixar de concordar com o coro de vozes que por aí grassa e indignar-me com a cobertura televisiva da vitória do Futebol Clube do Porto no campeonato. Se fosse um desses clubezecos que lutam (?) pelo segundo lugar, interrompiam-se emissões com directos vários, abriam-se telejornais e alongavam-se reportagens.
Acredito que a visibilidade que o fenómeno futebolístico tem nos media nacionais é um claro sinal do atraso do país, conto refugiar-me numa ilha durante o próximo campeonato do mundo, a aguardar que a 'selecção' tropece logo na primeira fase para nos livrarmos do estado catatónico e começarmos a pensar em coisas sérias e abomino visceralmente o discurso norte-sul incendiário do inconsequente Jorge N. Pinto da Costa (responsável, entre outros quejandos, pelo meu crescente desinteresse por futebol), mas é em situações como esta que por vezes não deixa de fazer sentido. Parafraseando um post blasfemo, CURVEM-SE PERANTE A GLÓRIA DO GRANDE DRAGÃO!

evva

O Livro

(O Livro e o Beijo; Dante e Virgílio no Inferno observando os dois amantes assolados pelo vento infernal)
Paolo e Francesca de Rimini, Dante Gabriel Rossetti

No Canto V d' O Inferno, justamente intitulado 'Os Luxuriosos', Dante classifica a lascívia como o menos grave dos pecados, colocando-o no círculo mais externo (por curiosidade, na visão do próprio Dante, é coincidentemente o mais grave dos pecados por si experimentados). O castigo condena o pecador a ser eternamente arrastado por uma espécie de furacão. É neste passo que Dante evoca os amores adúlteros e funestos de Francesca de Rimini, filha do Duque de Polenta, e Paolo Malatesta, transformado em eterno parceiro no turbilhão infernal, duplo do vento passional que os arrastou em vida.

Os amantes foram mortos no momento em que liam o episódio onde Lancelot, apaixonado por Genevra (consorte de Artur), é induzido a beijá-la por Galeote. Paolo e Francesca perdem-se também num beijo e são surpreendidos pelo marido e irmão traído, Gianciotto Malatesta. Corria o ano de 1289.

Na Comédia, Francesca narra o esforço de ambos para resistir ao pecado. A tudo resistiram, de facto, excepto à sedução despertada pela leitura:


Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa 'l tuo dottore.

Ma s'a conoscer la prima radice
del nostro amor tu hai cotanto affetto,
dirò come colui che piange e dice.

Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.

Per più fiate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.

Quando leggemmo il disiato riso
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,

la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu 'l libro e chi lo scrisse:
quel giorno più non vi leggemmo avante.

[evva]

P.S.: Não tive oportunidade (nem tempo) de procurar o excerto que Paolo e Francesca liam. Fica para mais tarde.

Uma paixão

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

[evva]

AMADEO MODIGLIANI & JEANNE HÉBUTERNE

amadeo:
certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
- bebes para te matares.
e eu perguntei-lhe:
- e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.

jeanne:
soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amadeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.

amadeo:
jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.

soutine:
a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amadeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele.

Al Berto

["Olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo que se vira para o interior", disse a historiadora Helena de Freitas de um outro “Retrato de Jeanne Hébuterne”, mas que se aplica quase exemplarmente a todos os retratos que Amedeo Modigliani pintou da sua última musa.
Modigliani realizou um "trabalho obsessivo sobre o corpo da mulher, a partir do conceito de idealidade e de decifração de um enigma feminino". Artista de paixões e (des)encontros, alimentou "o mito do pintor boémio". Mas "não se limitava a pintar os seus modelos" - as mulheres tornam-se "imagens de devoção e, mesmo nas representações mais abstractas, percebe-se a intensa relação do artista com a ideia de modelo." A historiadora chama-lhes "fetiches de felicidade ou de plenitude".

Modigliani "atinge um nível de caracterização extrema da figura - o rosto da mulher é o resultado dessa síntese, tentativa de seleccionar linhas puras, contornos certos". O espaço de representação é "restrito e magnetizado por campos de cor intensos". E mais não é do que o "cenário de um jogo entre quem pinta e quem se deixa pintar".
Essa tensão "quase hipnótica" passa "intensamente" pelo olhos - "neste olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo e dominado, que se vira para o interior". Escreveu o pintor: 'A beleza tem seus direitos dolorosos: cria, porém, os mais belos esforços da alma'.
Em 24 de janeiro de 1920, Modigliani morre no Charité de Paris, vítima de tuberculose. No dia seguinte, grávida de nove meses, Jeanne Hébuterne suicida-se. Uma grande multidão assiste ao funeral de ambos no cemitério de Père Lachaise.

A 11 de Maio de 2006 estreia o filme Modigliani , de Mike Davis, com Andy Garcia, Elsa Zylberstein e Omid Djalili.

evva]

sábado, abril 22, 2006

Pura poesia



Oh meu Porto onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal

Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto

Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós

Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto



evva

sexta-feira, abril 21, 2006

Hoje...


decidi abandonar por um dia os manuscritos e dedicar-me a livros impressos

evva

quinta-feira, abril 20, 2006

A Morte convida...


Filme de diálogos extraordinários e fotografia de uma beleza perturbadora, difícil de igualar, O Sétimo Selo (1956, Ingmar Bergman) passa hoje pelas 19,30 no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito do ciclo A Idade Média no Cinema.

A projecção será seguida de um debate dinamizado pelos Professores José Carlos Miranda (Literatura Medieval) e Serge Abramovici (Literatura Francesa). Imprescindível a qualquer cinéfilo que se preze, este jogo de xadrez inquietante e magnífico.

evva

quarta-feira, abril 19, 2006

Calla lily, Zantedeschia aethiopica


Estas são das minhas flores preferidas e que actualmente ornam duas jarras cá em casa. Ando há mais de um mês a espiar atentamente os canteiros do meu pai, ansiosamente à espera da floração, que este ano tardou muito. Elegantes e muito sensuais, quase fálicas, gosto de colocá-las sobretudo no quarto, apesar de serem tóxicas (encerram ráfides de oxalato de cálcio e saponinas, não aproximar os olhos ou a boca...).


O que pensamos ser a flor, não são mais do que folhas transformadas em cálice, que contêm no seu interior milhares de verdadeiras flores.

evva

terça-feira, abril 18, 2006

Segredo


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta
Minha Senhora de Mim, Gótica, 2001 (5ª edição)

[evva]

domingo, abril 16, 2006

Marcelo's new girl

Aleluia!
Arranjaram uma nova partenaire para o programa "As escolhas de Marcelo". Como não sou espectador regular (na verdade quase nunca o vejo) não sei se a Maria Flor Pedroso já lá está há muito ou não.
Mas está bem.
Sempre me pareceu que o programa era um sofrimento quer para a Ana Sousa Dias, que parecia estar a fazer o frete, quer para o Marcelo Rebelo de Sousa, que me parecia entediado pelo frete da senhora.
Deixem a Ana Sousa Dias com as entrevistas que ela faz tão bem na 2:, e deixem o "Acelerador de Particulas" com quem gosta ou parece gostar de o aturar. Para além do mais, a Maria Flor Pedroso (cuja competência aprecio) é, ao contrário da sua colega, uma jornalista da política e sabe manter aquela pose de confronto controlado típico deste tipo de jornalistas.
Vai, vai Ana que estás perdoada.

andré

Splendor in the grass

"No nice girl feels like that."

Não me interessa se Elia Kazan foi ou não um delator, para mim há-de ser sempre um dos melhores realizadores do século XX. Basta olhar a sua filmografia e as obras-primas com que a 2: nos tem brindado aos sábados a horas tardias. Já rever East of Eden havia sido intenso, mas que dizer de Splendor in the grass, em que Natalie Wood tem em Deanie Loomis a interpretação da sua vida? Asolutamente arrebatador.

Alguém consegue esquecer aquele final em que Deanie recorda os versos de Wordsworth da Ode on the Intimations of Immortality?

"Though nothing can bring back the hour
of splendour in the grass,
of glory in the flower,
we will grieve not,
rather find strength in what remains behind."

E não resisto a evocar, uma vez mais, os versos que Ruy Belo dedicou a uma das mais belas e frágeis personagens do cinema.

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, O Bosque Sagrado
(colectânea de poemas sobre cinema)


evva

P.S.: Não, não perdoo aos que sabiam que ele ia passar na 2: e 'esqueceram-se' de avisar, fazendo-me perder os primeiros 20 minutos de filme!

sábado, abril 15, 2006

A noite em que descobri Chloris

Lembram-se daqueles serões dos romances de Jane Austen, em que uma voz cristalina sentada ao piano entoa as mais belas melodias? Ontem tive uma noite assim, encantadora, no Clube Literário do Porto. Obrigada, Catarina Sereno (soprano) e Joana Resende (piano), que melhor companhia para uma noite de tempestade?
Apesar de só ter chegado na segunda parte do recital, tocou-me maravilhosamente esta canção de Reynaldo Hahn (1875-1947), amante de Proust, um dos poucos a ousar defender publicamente Dreyfus no célebre affair (o que fez com durante anos e até mesmo depois de reconhecida a inocência fosse alvo de pateadas), director da Ópera de Paris a partir de 1945, depois da sua música ter sido proibida durante o regime de Vichy.
Por que não são assim todas as noites de chuva, sem o ruído da televisão, em volta de um piano e de uma voz tão bonita? Até a chuva se torna agradável. Fiquem com À Chloris, poema de Théohile de Viau (1590 -1626), conhecido pelo seu ateísmo e os versos licenciosos (a melodia, que mais uma vez não consegui postar, é uma infinitamente bela homenagem a Bach e consegue-se até ouvir no leit motiv umas notinhas das Variações Goldberg):

S'il est vrai, Chloris, que tu m'aimes,
Mais j'entends, que tu m'aimes bien,
Je ne crois pas que les rois mêmes
Aient un bonheur pareil au mien.
Que la mort serait importune
De venir changer ma fortune
A la félicité des cieux!
Tout ce qu'on dit de l'ambroisie
Ne touche point ma fantaisie
Au prix des grâces de tes yeux.

Cloris prestes a ser raptada por Zéfiro, na Primavera de Botticelli

[evva]

sexta-feira, abril 14, 2006

Sexta-Feira Santa

AQUI ESCOMIENZA EL DUELO QUE FIZO LA VIRGEN MARIA EL DIA DE LA PASION DE SU FIJO JESUCHRISTO
(...)
Conviene que fablemos en la nuestra privanza
Del pleito del mi duelo, de la mi mal andanza,
Commo sufri martirio sin gladio e sin lanza,
Si Dios nos aiudara fer una remembranza.

Fraire, verdat te digo, debesme tu creer:
Querrie seer muerta mas que viva seer;
Mas al Rey del çielo nol cadió en plaçer,
Oviemos del absinçio larga-mente a beber.

Con rabia del mi Fiio, mi padre, mi sennor,
Mi lumne, mi confuerto, mi salut, mi pastor,
Mi vida, mi conseio, mi gloria, mi dulzor,
Nin avia de vida nin cobdiçia nin sabor.

Tant era la mi alma cargada de tristiçia.
Non avia de vida nin sabor nin cobdiçia,
Qui fablarme quissiesse palabras de letiçia.
Non serie de buen sesso, nin sabrie de iustiçia.

Vediendo al mi Fiio seer en tal estado,
Entre dos malos omnes seer cruçifigado,
El mal non mereçiendo seer tan mal iudgado,
Ia nunqua podie seer mi corazon pagado.
(...)
Fiio dulz e sombroso, tiemplo de caridat,
Archa de sapiençia, fuente de piedat,
Non desses a tu Madre en tal soçiedat,
Qua non saben conoçer mesura nin bondat.

Fiio, tu de las cosas eres bien sabidor,
Tu eres de los pleitos sabio avenidor,
Non desses a tu. Madre en esti tal pudor
Do los sanctos enforcan e salvan al traydor.

Fiio, siempre oviemos io e tu una vida,
Io a ti quissi mucho, e fui de ti querida:
Io siempre te crey, e fui de ti creyda,
La tu piadat larga ahora me oblida.

Fiio, non me oblides e lievame contigo,
Non me finca en sieglo mas de un buen amigo,
Iuan quem dist por fiio, aqui plora conmigo:
Ruegote quem condones esto que io te digo.

Ruegote quem condones esto que io te pido,
Assaz es pora Madre esti poco pidido:
Fiio, bien te lo ruego, e io te me convido
Que esta petiçion non caya en oblido.

Recudió el Sennor, dixo palabras tales:
Madre, mucho me duelo de los tus grandes males,
Muevenme tos lagrimas, los tus dichos capdales,
Mas me amarga esso que los colpes mortales.

Madre, bien te lo dixi, mas aslo oblidado,
Tuelletelo el duelo que es grant e pesado.
Porque fui del Padre del çielo enviado
Por reçibir martirio, seer cruçifigado.
(...)
Madre, cata mesura, atiempra mas to planto:
Madre, por Dios te sea, non te crebrantes tanto.
A todos nos crebantas con essi tu quebranto:
Madre, que tu lo hagas por Dios el Padre sancto.

Disso la Madre: Fijo, lo que vos me fablades,
Quomo de muert a vida asi me revisclades,
Con esso que diçides mucho me confortades,
Qua io bien veo que vos por todos nos lazdrades.
(...)
Madre, disso el Fijo, de oy a terçer dia
Seré vivo contigo, verás grant alegria,
Visitaré primero a ti, Virgo Maria,
Desende a don Peidro con la su compannia,

Madre, de ti con tanto me quiero despedir,
Todo te lo e dicho lo que he de deçir.
Inclinó la cabeza commo qui quier dormir,
Rendió a Dios la alma, e dessóse morir.

Gonzalo de Berceo (séc. XIII)

[evva]

quinta-feira, abril 13, 2006

Parte do problema da França



Estátua de Charles de Gaulle nos Champs-Elysées em Paris onde se pode ler: Il y a un pacte vingt fois seculaire entre la grandeur de la France et la liberté du monde.

andré

Tempo lento


Foi um dia a pousar de café em café ao rítmo de um livro e da disposição.
A poesia da contemplação transmite um misto de tranquilidade pelo tempo que também é nosso, e de culpa, pelo luxo de o poder usar desta maneira.
Mais do que tudo, a dupla satisfação de poder fugir à opressão do trabalho, da produção, e do progresso, e de conseguir disfrutar da calma e da paz que está tão perto mas que mesmo assim é muitas vezes difícil de encontrar.

andré

Aos meus amigos

Aos que me escutam, aos que me consolam, aos que me dão colo, aos que se riem dos meus dramas e teimam com um sorriso em mostrar-me a suave naturalidade deste rio que flui e que insisto em agitar, eu, que tudo sinto intensa e dolorosamente, aos que vibram com as minhas pequenas alegrias, aos que aturam o meu espírito díficil, insuportavelmente persistente, aos que perdoam os meus excessos, aos que os apontam para que não volte a soçobrar, aos que agradecem, cada dia, os momentos que partilhamos e aos que me fazem, a cada momento, querer ser um pouco melhor:

«a iiª ygualeza que he antre persoas desvayradas chama-se amizade. Esta tem fundamento en o ben honesto e vertuoso, e nom ama por entender seu proveyto nem seu prazer en a cousa amada, mas tam soomente por ella seer boa sente o amor dentro en sy meesmo delectoso contentamento (...). [Segundo diz Seneca] en hua sua epistolla, as cousas seguras mostram os amigos e os fazem parecer, mas as tribulaçoões os provam, demonstrando quaaes son certos e quaaes nom. (...)

E porem diz Seneca en o Livro dos costumes que o meu amigo he outro eu. E quem tal cobrar, seendo como elle, stara soo e acompanhado. E, demonstrando a elle o segredo do seu conselho, sentirá alivamento, assy como se o dissesse a outrem, e avera segurança de sse nunca saber, como se o sempre tevera calado, nem avera que recear, pois homem strangeyro non sta antre elles, mas cada huu he tornado en outro e ambos son feytos hua persoa. Desta amaviosa ygualeza nace grande segurança, per cujo aazo o amante acha sempre prestes e aparelhados os peytos do seu amigo, en que seguramente possa deitar qualquer cousa que trouxer maginada, da qual sempre sera tam seguro como se a tevesse çarrada en sy meesmo

Deste amigo se diz aquella palavra comuu, convem a ssaber: "Non ha en o mundo cousa mais doce que teer amigo com que homem ouse de falar todallas cousas assy como consigo". E por seer achado tal como este compre a cada huu de aver cuydado special. E, depois que o tever gaançado, ponha en o guardar boa femença, per tal maneyra que o sentimento que ambos ouverem perteeça juntamente a hua persoa. E stonce os seus coraçoões acharam dentro en sy muy doce e leal benquerença, que antre os prazeres do mundo he mais delectosa. E as palavras do verdadeiro amador abrandaram o cuydado do seu amigo. Elle per sua sentença dara desembargo ao seu dovidoso conselho, e, avendo compaixom dos padecimentos do amado, apouquentará sua doença e con prazivel ledice tirará sua tristura. E cada huu, enquanto stever en presença do outro, sentirá doce folgança.»

Livro da Vertuosa Benfeytoria, Infante D. Pedro/ Frei João Verba, Ed. crítica, organização, introdução e notas de Adelino de almeida Calado, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1994.

[evva]

segunda-feira, abril 10, 2006

Leopoldo María Panero

PROYECTO DE UN BESO

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga
te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra
te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde
te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido
te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra
te mataré mañana cuando la luna salga,
y así desde aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación
te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida
te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas
te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

"El último hombre" 1984

[evva]

Mata! Mata!

Ao ignóbil que chegou a este blog através da pesquisa Google 'a relação homossexual do rei artur e lancelot':
fique sabendo que esta é a sede número 1 do clube de fans de Lancelot, é bom que não me apareça pela frente, seu *%#&!

evva

domingo, abril 09, 2006

A ver os blogues passar

Sempre encarei a informática como um meio moderno de fazer novos excluídos. Poderia encontrar no recôndito do meu ser vagas razões para isso ou tentar descortinar motivações sociológicas para o facto: as primeiras reservo-as só para mim; as segundas, não tenho pachorra de apresentar. Considero, por isso, ser este um momento solene: aquele em que uma voluntariamente info-excluída (ironia: a minha irmã, que adoro, é programadora informática) se estreia na blogosfera, ainda com a sensação de quem está a dominar uma fera...
Hoje, estive a ver blogues passar nas pontas dos dedos da minha amiga Elsa. E eis que se revelou a luz de alguns dos melhores tesouros da gruta de Ali Bábá. Pela primeira vez apercebi-me da existência de pérolas de cariz literário, das potencialidades e virtudes no ciberespaço. A Elsa espanta-se de que só agora lhe tenha dado ouvidos, o Henrique deve admirar-se de que finalmente deixe de encarar a Net como bicho-papão e me aperceba da nova beleza inerente à coisa!
Não digo que irei compor uma «Ode Triunfal» à blogosfera, mas confesso que me sinto um pouco como alguém a quem foi dado, por fim, ver a luz. Já Platão bradava na Caverna: a caminhada para a luz faz-se de forma gradual, pois a revelação imediata pode cegar... E São Paulo, 500 anos mais tarde, aconselhava o leite primeiro para se chegar depois ao alimento sólido. Como não sei se quero cegar como São Paulo na estrada de Damasco, e como achei que ficavam bem aqui estas referências para não me considerarem uma inculta qualquer pelo facto de só agora vislumbrar as potencialidades da blogosfera, e para não me enterrar mais, fico por aqui, por hoje! Mi aguarrrdem!!!

Cristina Costa Vieira

Como sobreviver a um coração despedaçado I

Chegar a casa, ligar o computador e publicar versos no blog, mesmo alheios, mesmo que nos façam chorar. Lá virá o tempo em que as lágrimas se estancam e começamos a amar mais as palavras, únicas, irrepetíveis, que os seres que secreta e indiferentemente as inspiraram:

Paráfrase

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos constrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta

Pedro Mexia


[evva]

P.S.: Toca a arregaçar as mangas e a analisar/comentar a 'metapoeticidade mexiana'. Esta vida são dois dias e Cristo só dormiu três.

Onde é que eu já vi esta imagem?...

evva

Do grã doo que el rey dõ Afonso fazia por seu filho

Afonso VI de Leão e Castela, re-conquistador de Toledo, perdeu o filho Sancho Afonso na batalha de Uclés, na sequência da primeira ofensiva almorávida na Península. A pressão militar e a extorsão económica do período pós-Toledo obrigaram os reinos taifas a pedir ajuda aos almorávidas que dominavam o norte de África, desencadeando uma violentíssima campanha que culminou no desastre de Uclés, em 1108. 'O lamento de Afonso VI' ao receber a notícia da morte do único filho varão é uma das mais belas páginas da literatura medieval, que me comove até às lágrimas em cada leitura:

«Conta a estoria que, quando soube el rrey a morte do fillo, disse a aquelles que vijnã da batalla:
- Ay, meu fillo!
Et esto dizia elle cõ grã door que tijna no curaçõ, dizedollis todauja:
- Ay, meu fillo, alegria do meu curaçõ, lume dos meus ollos, solaz de mjna velleçe! Ay, meu espello en que me soya ueer et con que tomaua muy grã prazer! Ay, meu herdeyro mayor!»

[evva]

sábado, abril 08, 2006

Como el rey dõ Afonso casou con a Çayda, filla del rrey de Seuilla


«Conta a estoria que el rrey dõ Afonso, estando por casar et seendo muy esforçado et auenturado (...) ouueo a saber a donzela dõna Çayda. Et, tam grande foy o bem que oyo dizer del rrey dõ Afonso, que sse namor[o]u delle, pero que nunca o vira; mays por o boo pre[z] que delle oya. Et tam grande foy o amor que delle ouue que ouue a buscar carreyra como ouuesse seu amor. Et aaçima, como as molleres som subtijs et sabedeyras do [que] querem fazer (...) envioullj dizer per seus mandadeyros que teuesse por bem de a veer. (...)
Et el rey, quando o oyo, prouguelle moyto et enviolle dizer que a yria veer hu elle quisesse. (...) Et depoys que a vyo el rrey, foy tan pagado dela como ela dele, que a vio muy fremosa et de boo doayro. Et ouuerõ sua fala em huu. Et ela disse que, se quisese casar cõ ela, que lle daria as villas et os castelos que ela avia. Et // el rrey lle disse:
- Poys conuem que seiades cristãa.
Et ela disse que o faria de muy bõamente, quanto el mandasse.
(...) Et tornousse cristãa et casou cõ ella. Et ela outorgoulle as villas et os lugares que auedes oydo. Et, quando a bautizarõ, mandou el rrey que llj nõ posesem nume Maria, por que elle nõ queria preyto cõ moller que ouuese assy nume, et poserõlle nume Ysabel. Et ouue en ela huu fillo a que diserõ dom Sancho Afonso»

Tradução galega (?) da Primeira Cronica General e da Cronica de Castela (c. 1300), ed. Ramon Lorenzo

[evva]

E agora?

Como sobreviver sem o Rodrigo Moita de Deus?

evva

domingo, abril 02, 2006

El lamento de José de Arimatea

No soporto la voz humana,
mujer, tapa los gritos del
mercado y que no vuelva
a nosotros la memoria del
hijo que nació de tu vientre.

No hay más corona de
espinas que los recuerdos
que se clavan en la carne
y hacen aullar como
aullaban
en el Gólgota los dos ladrones.
Mujer,
no te arrodilles más ante
tu hijo muerto.
Bésame en los labios
como nunca hiciste
y olvida el nombre
maldito de
Jesucristo.

Así arderá tu cuerpo
y del Sabbath quedará
tan sólo una lágrima
y tu aullido.

Leopoldo María Panero

[evva)

Adenda: uma outra abordagem do nosso bem-amado José, imprescindível em qualquer biografia autorizada ou evangelho apócrifo.

sábado, abril 01, 2006

Diario de un seductor


No es tu sexo lo que en tu sexo busco
sino ensuciar tu alma:
desflorar
con todo el barro de la vida
lo que aún no ha vivido.

Do poète maudit Leopoldo María Panero (El que no ve, 1980)

[evva]

sexta-feira, março 24, 2006

The end of the affair


Um filme que entra directamente para o meu top ten de 'Como terminar uma história de amor?'. É claro que a história é muito previsível e deliciosamente piegas, e que a posteridade recordará apenas a interpretação de Meryl Streep, mas às vezes precisamos de filmes assim, que nos levem ao colo e que em pequenas coisas nos revelem as grandes verdades. E agora vou comprar outra embalagem de lenços e estancar as lágrimas...
evva

quinta-feira, março 23, 2006

Ah, Baía!


E não me venham dizer que este não é o melhor guarda-redes português! E que Quaresma ainda tem de provar que merece estar no Mundial 2006, enquanto que Costinha tem lugar garantido! Não há por aí quem queira fazer uma OPA sobre a Federação Portuguesa de Futebol e levar-nos de vez o Scolari?
evva

quarta-feira, março 22, 2006

amores

Diz Galeote, o mais nobre dos reis-senhores, a Lanzarote, o mais nobre dos cavaleiros:

"ella vos ama tan lealmente e de tan grande amor que yo bien creo que ante ella querra ser señora de una poca de tierra convusco que de todo el mundo sin vos”.

Ms. 9611 BN Madrid

E depois de ler coisas destas pareço uma tontinha com a lágrima no olho...
Isabel Sofia

terça-feira, março 21, 2006

Poesia

Todos os anos lectivos, tenho o devaneio de fazer despertar nos alunos, num que seja, aquela voz interior que os fará amar as palavras até ao fim dos seus dias. Seduzo-os com lugares comuns, que a poesia se come, que os versos se trituram na boca, agitam-nos o sangue, enchem a alma...


É praticamente impossível, no emaranhado de conteúdos programáticos a cumprir, mas sonho com o dia em que poderemos começar cada aula com a leitura de um poema ou de um qualquer texto, explorá-lo em conjunto e que tudo isso lhes faça sentido. E lá para Junho, no final do ano, poder deixar-lhes numa fotocópia este testamento:


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas onças víboras
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ninfas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembram liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destrói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras

David Mourão-Ferreira
Obra Poética, Lisboa, Editorial Presença, 1988, 1º edição


[evva]

segunda-feira, março 20, 2006

Coimbra, noite de nevoeiro cinza-molhado

Há dias em que quando tudo parece fazer sentido, todas as coisas se encaixam...eis que nos apercebemos que a chuva lá fora deixa passar o cinzento de uma tristeza desconhecida, mas que nos perturba. Então, temos vontade de abrir os braços. Mas contentamo-nos com a presença e o sorriso que oferecemos na tentativa de uma reconstrução.
Valham-nos os sonhos e as eternas demandas.
Isabel Sofia

quarta-feira, março 08, 2006

Não sei como confessar...

Mas hoje dei por mim a torcer pelos lampiões e a vibrar com os golos, tal o descalabro daquela equipa do Liverpool. Estou a perder qualidades.

evva

Antes que me esqueça...


Terminam hoje dez anos de uma presidência desastrosa, a manter-se em silêncio quando devia intervir e a interferir no rumo da governação em proveito dos interesses da esquerda bloco central. Por mim, já vai tarde. E não deixa saudades.

evva.

Dia da Mulher

Convém esclarecer de antemão que sou particularmente avessa a todas as jornadas pseudo-celebrativas, do não fumador, dos avós, do animalzinho de estimação (quando vivi em França lembro-me de haver um dia destes), etc, e irrita-me particularmente a que hoje se celebra.

Há uns anos trabalhei no Alentejo, num daqueles munícipios sempre pronto a gastar rios de dinheiro nestes folclores e a poupar em infrastruturas essenciais. Começou logo em Setembro, com a oferta de um mega-jantar à comunidade educativa no pavilhão gimnodesportivo, para celebrar a abertura do ano lectivo. Largas e largas dezenas a auferir gratuitamente de respasto com entradas diversas, dois pratos, bons vinhos e sobremesas variadas, tudo à discrição, com música ao vivo e bailarico a condizer. Lembro-me de a cada passo ouvir o tilintar de uma caixa registadora na minha cabeça, atónita com tamanho despesismo. Nenhum de nós, registe-se, se teria importado de pagar pelo jantar.

Seguiram-se inúmeros espectáculos, todos de borla, como manda a tradição da pseudo-igualdade de direitos e oportunidades em terras alentejanas. Teatro, bailado, as mais prestigiadas companhias nacionais, concertos, marionetas, todos de impoluta qualidade. Pérolas a porcos, perdoem-me. Num dos muitos concertos a que assisti no tal pavilhão gimonodesportivo, lembro-me de uma noite em que os belle chase hotel tocaram para uma plateia cheia mas absolutamente desinteressada de tudo o que se passava em palco. A certa altura, a conversa e o entra-e-sai da assistência eram de tal ordem que mal se conseguia ouvir a banda e eu contava-me entre os 0,00001% que tentava responder às solicitações do vocalista, dançar ao ritmo das músicas ou cantar os refrões. Para os restantes, o concerto passou ao lado. Seria possível tal desrespeito se cada uma das pessoas que assistiu ao concerto tivesse desembolsado dois ou três euritos, ou mais?


Não é distribuindo gratuitamente cultura pelo povo que se formam gerações instruídas, com gosto pela arte e sensibilidade para os eventos culturais, já se sabe. É investindo na sua formação, fornecendos-lhe, com rigor, as ferramentas e os conteúdos indispensáveis para que saibam apreciar e criar. Nunca de forma lúdica, ou gratuita, mas insistindo sempre para que prestem provas exigentes, invistam em si próprios e no seu trabalho e apenas por esse esforço sejam recompensados. Só quem está fora do sistema educativo desconhece as enormes pressões a que são sujeitos os professores para transitar de ano os alunos que nada fazem para incrementar artificialmente as taxas de sucesso, e não falo apenas do ensino básico obrigatório.


E eis que somos chegados ao dia 8 de Março. Sem surpresas, a tal edilidade alentejana mandou distribuir pelas mulheres do concelho milhares e milhares de flores (bem tratadas com químicos de florista, não daquelas que pintam intensamente a planície alentejana por esta altura, as minhas preferidas), acompanhadas de um convite para mega-jantar no pavilhão gimnodesportivo. Claro que, na escola, logo se combinaram romagens ao banquete. Vinte minutos antes da hora marcada, saio de casa e dirijo-me ao recinto. A 200 metros de distância já se ouvia o cacarejar. Indescritível. Centenas de mulheres acumulavam-se ruidosamente nas ruas limítrofes do pavilhão, novas, velhas, casadas, viúvas, solteiras ou nem por isso, saltitavam, abraçavam-se, gritavam como nunca nos braços de maridos e amantes. Mal nos avistámos, as minhas amigas e eu entreolhámo-nos com a expressão 'Help! Tirem-nos daqui!' a empalidecer-nos o rosto e decidimos juntarmo-nos aos homens que jantavam em desagravo no ponto de encontro do costume. Foi um dos melhores jantares de 8 de Março que já tive, celebrado com homens, amigos e amigas do peito.


Mulheres! Deixem-se de lamúrias feministas e carpideiras esquizofrénicas. A melhor maneira de celebrar este dia, e todos os que nos sobejam, é junto deles, rindo com eles, gritando com eles e por eles. Tudo o resto, a tal igualdade e liberdade, virá por acréscimo, pelo nosso empenhamento único e incansável no amor, na verdade e na vida. Bem hajam.


evva

FILMES…



Agora percebo que o cinema sempre me fascinou pelo conteúdo e não tanto pelas soluções técnicas, estejamos perante um filme de ficção científica ou de acção. Reconheço a importância central da técnica mas não tenho nem a sensibilidade nem a formação suficiente para a entender na totalidade. Daí que não goste do “Gladiador” ainda que me digam que é tecnicamente bom, e goste do “Exterminador Implacável 2” (T2) que qualquer um reconhece como fraco, ainda que tecnicamente extraordinário.

Interessa-me a seriedade e a honestidade com que uma obra é feita, o que me faz insurgir contra engodos como o “Munique” ou o “Million Dollar Baby” que abordam questões complexas de forma ligeira e tendenciosa, encostando-nos a situações que são facilmente julgadas de uma forma ou de outra, a favor ou contra. O caso do “Munique” é muito mais interessante porquanto o encosto é sistematicamente disfarçado.
A vida não é a preto e branco, nem as pessoas o são. Daí que filmes como o “Mar adentro”, a “Lista de Schindler” ou a “Queda” sejam objectos que respeito porque me deixam na dúvida, porque me obrigam a pensar nas intenções e na natureza das pessoas. Porque é sempre mais fácil ver os problemas a partir das convicções que nos são mais próximas e com as quais nos sentimos mais confortáveis.

Os filmes maus são como os refrigerantes, a comida fast food ou as chiclets, gosta-se mesmo que se saiba que são maus.
O que é espectacular no “T2" é o homem a surgir do chão, ou a refazer-se a partir de gotas de mercúrio não tanto a tecnologia que está por detrás disso. No “Tigre e o Dragão” (que é apesar de tudo melhor do que o “T2”) é o imaginário das artes marciais, e acrescento que nada me incomoda a tentativa eventual de cruzamento com a realidade.

O Clint Eastwood, que sigo incondicionalmente, também fez filmes fracos – “Poder Absoluto”, “Dívida de Sangue”, “Cowboys do Espaço” – onde a personagem dele acaba sempre com a miúda, bastante mais nova, e em que maus são castigados no fim. Contudo fez filmes bons – “Imperdoável”, “Caçador Branco coração negro”, “O Mundo Perfeito” – onde as personagens são frágeis e fortes, em que a realidade é ambígua ou pelo menos mais verosímil, e o quotidiano está mais presente.

É por essas e por outras que apesar de preferir o cinema europeu – onde os sentidos são explorados de forma mais profunda e as explicações ficam para quem vê –, não resisto às produções de Hollywood, cheias de diversão e a imaginação.

Não sei muito sobre filmes mas o que mais detesto é que me tentem impingir opiniões ou pontos de vista. É por isso que não gosto da maioria dos filmes do Spielberg e que acho que será difícil haver este ano algo melhor do que o “Match Point”, um filme em que muita gente (eu incluído) se sente bem pelo facto de a pessoa que cometeu o crime se safar no fim.

Mas esse é talvez o facto mais interessante da arte. Todos queremos encontrar nela algo que nos conforte, e ficamos quase sempre desiludidos quando isso não acontece. E quanto maior é a nossa afectividade em relação à mensagem e a quem a emite mais dificuldade temos em admitir ou lidar com esse desconforto.

andré

PS: A imagem que vêem é do Blade Runner, um dos meus filmes preferidos e um dos melhores de Ficção Científica que alguma vez vi.

domingo, março 05, 2006

Momento radical


Conduzir um carro no IP4, Alto do Marão, noite cerrada e a nevar intensamente. Belo.

evva

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

ANDAR DE AVIÃO


Gosto muito de andar de avião. Mesmo muito.

Pensava que era pelas imagens. Para alguém fascinado pelas nuvens, estar ao lado delas é como estar em casa. E para quem anda com a cabeça no ar, estar no mesmo sítio onde a cabeça costuma estar é sem dúvida confortável.
Ainda não sei se prefiro ver um céu com ou sem nuvens. Ver a terra do ar é como uma imagem de satélite ou uma daquelas plantas de arquitectura paisagística. Mas as nuvens têm formas incríveis e sempre diferentes.
Mas já não passo assim tanto tempo a olhar para fora e o tempo a bordo é cada vez mais utilizado para ler, ouvir música, dormir ou até trabalhar.

Gosto muito de tudo o que tem a ver com andar de avião. Acho os aeroportos fascinantes. Quanto maiores são mais eu gosto deles. O movimento, as pessoas, a complexidade, os aviões, a luz, as mangas. É tudo muito diferente do nosso dia-a-dia.
O problema é que não conheço tantos aeroportos como gostaria e, para quem descola do Porto, Frankfurt torna-se uma passagem tão frequente que começa gradualmente a perder a piada. Ainda não conheço Heathrow nem o JFK, passei pelo Charles de Gaulle a correr e acho que vai demorar até ir aos alucinantes aeroportos asiáticos de Singapura, Tóquio ou Hong Kong.

Desculpem mas acho muita piada ao serviço de comida a bordo por muito fraco que seja. A Lufthansa tem uns copos de plástico muito elegantes, uma comida simpática e vinhos que se conseguem apreciar. Por isso não acho piada à Ryanair. Mas o que é que isso interessa quando se paga 50 euros por uma viagem a Paris?

Gosto da emoção da descolagem e da aterragem e fico com um sorriso completamente infantil quando, já no ar, vejo um avião a passar perto do meu. Esta situação não muito comum permite-nos apreciar melhor a velocidade e dá uma imagem estranha de um corpo imperceptivelmente suspenso no ar.

Mas o que mais me agrada é a sensação de sair e de me encontrar a seguir num sítio diferente. O facto de o fazer através de aviões e aeroportos só reforça ainda mais o meu fascínio de estar quase sempre no ar. A imaginar.

andré

sábado, fevereiro 25, 2006

Poema VIII

A pedido de várias famílias:

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos
Vira uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
........................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.........................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro

evva

A arca do guardador de rebanhos

Quando me sentei hoje frente ao computador, a minha intenção era escrever algo que acalmasse a fúria provocada pelo visionamento do mais recente Spielberg e a sua retórica moralista. Mas mergulhei a fundo no espólio de Alberto Caeiro, disponibilizado esta semana no site da Biblioteca Nacional, «até me doerem os olhos», e ainda não consegui regressar à superfície...

Qual Munique!? Até deixei passar sem me importar a hora do lançamento do último livro de crónicas do Lobo Antunes na Fundação Eugénio de Andrade. Claro que procurei imediatamente o Poema VIII, demasiado longo, neste formato, para colocá-lo aqui no blog. Escolhi a página onde se encontram os últimos versos, o Poema IX, na íntegra, as duas primeiras estrofes do Poema X, outro dos meus preferidos, e a página seguinte, com as estrofes finais e os Poemas XI e XII. Deliciem-se.

evva

Brokeback Mountain, by Annie Proulx

Antes de ver o filme, leiam o conto, publicado pela primeira vez na New Yorker, em 1997. Vale a pena.

Para verem o que se perdeu na adaptação cinematográfica. destaco apenas um pormenor, a fazer toda a diferença. Depois de um afastamento de 4 anos, Jack e Ennis reencontram-se, acabando a noite num motel. It´s the intimate talk after sex: «Ennis pulled Jack's hand to his mouth, took a hit from the cigarette, exhaled.». Um andamento em três tempos, perfeito. A terminar num verbo que prolonga a frase numa respiração. Mas não me lembro de ver no filme de Ang Lee a acuidade em filmar estes pequenos detalhes que faz os grandes realizadores e que encontro sempre em Manoel de Oliveira, por exemplo, nomeadamente numa cena do Vale Abraão em que uma personagem acende um cigarro no de outra e que é um dos melhores momentos do seu cinema. Talvez Ang Lee não tenha tido tempo de se demorar nestes detalhes na sua ânsia de querer contar os 20 anos da relação de Ennis e Jack, e optou por passar rapidamente sobre pormenores que valeriam todo um filme. Mas eu gosto do cinema que se demora.

[link via Cinema2000]


evva

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

It takes two for tango el sur


Tango for two

óleo de Olga Sinclair (2001)

Este tango de Astor Piazzola, com letra do realizador Fernando Solanas, foi em tempos a banda sonora dos meus dias. É o meu tango preferido. Se bem que atravesso um momento lunar, como está um magnífico dia de sol no Porto dedico-o aos amigos a viver na cinzenta Europa central, a contar os dias para o regresso ao Sul:

El Sur

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.

Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.

Te quiero Sur,
Sur, te quiero.

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur...

Rua de Cima do Muro

José Paulo Andrade

Ruas do Porto

evva

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Os melhores diálogos do cinema II

Das muitas passagens que poderia destacar de Magnolia, obra-prima de Paul Thomas Anderson, esta conserva-se sempre na memória, mesmo involuntariamente, muito depois do filme ter terminado:

[singing along to Aimée Mann's "Wise Up"]

«Claudia Wilson Gator: It's not / What you thought / When you first began it / You got / What you want / Now you can hardly stand it though / By now you know / It's not going to stop

Jim Kurring: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up

Jimmy Gator: You're sure / There's a cure / And you have finally found it

Quiz Kid Donnie Smith: You think / One drink / Will shrink you 'til you're
underground / And living down / But it's not going to stop


Phil Parma: It's not going to stop

Earl Partridge: It's not going to stop / 'Til you wise up


Linda Partridge: Prepare a list for what you need / Before you sign away the deed / 'Cause it's not going to stop



Frank T. J. Mackey: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop

Stanley Spector: So just... give up»

evva

P.S.: Há ainda aquela frase de Claudia, depois de ter saído com Jim, na que é para mim a melhor cena do filme. Uma actriz em estado de graça: «Now that I've met you, would you object to never seeing me again?». Foi inspirada na canção "Deathly" ("Now that I've met you / Would you object to / Never seeing / Each other again"), de Aimée Mann.

De tarde

Giorgio de Chirico

L'énigme de l'arrivée et de l'après-midi

(1911-1912)


evva

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Sem comentários

Eis o registo on-line do Ms. 2594 da Biblioteca Nacional de Viena, convenientemente intitulado "A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal". Atentem, por favor, no pormenor 'sprache...':


[1 Cod. 2594, Wien, Österreichische Nationalbibliothek

--------------------------------------------------------------------------------

1.1
Registereintrag & Text, A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal


Registereintrag & Text

Sprache: spanisch

Beziehung zum lit. Werk: Abschrift

GI-Sachtitel: A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal

Literaturgattung: Poetae et oratores hispani et lusitani]


evva

domingo, fevereiro 19, 2006

Contagem decrescente



O meu destaque vai para a retrospectiva do expressionismo alemão de Fritz Lang e Murnau. Espero conseguir sobreviver à legendagem em castelhano...

evva

P.S.: Amigos da mouraria, já sabem que podem pernoitar cá em casa.

sábado, fevereiro 18, 2006

As Portas do Paraíso II

Chema Madoz

[evva]

As Portas do Paraíso

Chema Madoz (s/t, 1992)

[evva]

Bahaus


Uma das minhas bandas favoritas de sempre actuou hoje no Porto. Confesso que não pensei sequer em reservar bilhete.

Deixei-me de lirismos há uns anos, depois de uma série de desilusões com bandas que actuam em Portugal já passado o prazo de validade. The Waterboys sem violino não são os Waterboys, entendem? Podiam ao menos ter arranjado alguém que substituísse o violinista naquele concerto do Hard Club... Foi a gota de água.

O tempo não volta atrás. Prefiro pôr a rodar os velhinhos discos de vinil e voltar a saltar bem alto com o Kick In The Eye, ou dançar o Bela Lugosi's Dead com aquele ondear com que o Peter Murphy nos interrogava no teledisco. Ou ainda gritar o The Passion Of Lovers até enrouquecer. Há letras que nunca se esquecem:

She had nut painted arms
That were hers to keep
And in her fear
She sought cracked pleasures
The passion of lovers is for death said she
Licked her lips
And turned to feather

And as I watched from underneath
I came aware of all that she keep
The little foxes so safe and sound
They were not dead
They'd gone to ground

The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death

She breaks her hear
Just a little too much
And her jokes attract the lucky bad type
As she dips and wails
And slips her banshee smile
She gets the better of the bigger to the letter

The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she

evva

P.S.: Não trocava o meu mergulho a pique desta noite na filologia medieval pelo concerto dos Bahaus no Coliseu. Estarei a ficar velha? Alguém consegue imaginar o gozo enorme que é justificar a ausência de ressonância nasal no adjectivo 'boo' e argumentar com uma série de ocorrências em textos coevos? Indescritível!



Adenda: Ainda não descobri como se coloca música no blog, mas se quiserem vibrar com Peter Murphy e sus muchachos visitem o Queridos Anos 80, um blog que acompanho assiduamente (o que também é válido para os 0,0000000001% de infiéis que nunca ouviram falar dos Bauhaus... Cinquenta chibatadas ao som do She's In Parties!)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O elogio da Filologia


«um sentimento íntimo da vida da linguagem, um tacto fino e delicado no discriminar e apreciar os fenómenos, mesmo os que ao primeiro exame parecem mais subtis, estranhos e contraditórios»

Elogio académico do Professor José Joaquim Nunes, Gustavo Cordeiro Ramos, antigo ministro da Educação Nacional, 27 de Fevereiro de 1937


evva

A irrelevância de muitos Mestrados dava uma óptima Tese de Doutoramento

A ler: Mestrado em Irrelevância, por Rui Ângelo de Araújo, n' Os Canhões de Navarone.

Um dia, quando se redigir a história do ensino superior português na alvorada do século XXI, ficará registado como, por motivos de sobrevivência e escassez de alunos de licenciatura, pulularam neste país pós-graduações e mestrados absolutamente medíocres.

Pior: as gerações vindouras conseguirão compreender como se poderá recusar uma Dissertação de Mestrado sobre Filosofia ou Narrativa Medievais para creditação na carreira docente do Ensino Não-Superior, com base no argumento único e inquestionável de que o Mestrado se intitulava 'História e Cultura Medievais' e nada disso contribui para a valorização científica e pedagógica de professores de português e filosofia do ensino secundário, e se continue a aceitar, para os mesmos grupos disciplinares, a creditação de Dissertações em Administração, Estatística, Ciências da Educação (se alguém me conseguir explicar o que significa, agradeço; eu que estou há mais de um década no ramo ainda não consegui perceber...), "A angústia (ou falta dela) do cábula antes do teste de avaliação", ou "Mil e uma maneiras de passar de ano os alunos preguiçosos para melhorar as estatísticas de 'sucesso educativo' "...?


Ou ainda: como compreender que se aprovem (por vezes com Muito Bom, quando essa classificação existe) certas Dissertações de Mestrado ou Teses de Doutoramento fraquíssimas só porque o candidato em causa é docente da casa (apesar do arguente não o ser, eu sei) e, coitado, tem de defender depressa a tese ou então, coitadinho, vai para a rua...? Já agora, alguém me explica o que é o Português Arcaico Médio?


As Instituições portuguesas de Ensino Superior, sobretudo as Faculdades de Letras, têm de repensar com urgência a sua função e estratégia e questionar se serão ou querem ser meros redutos de formação de professores para o desemprego ou preferem tornar-se centros de excelência, de investigação, defesa e publicação de um saber que é a pedra angular da formação de qualquer indivíduo.


Nada melhor do que os medievais para nos recordarem, lá dos confins da sua Tenebrosa Idade, o que um intelectual que se preze devia valorizar, sempre:


«Somos anões aos ombros de gigantes: vemos mais longe».


evva

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Philologia


«para mim, filologia tem verdadeiramente coincidido com busca da verdade num sentido total, absoluto, na vida mais ainda que nos textos literários»

Luciana Steggagno Pichio
A Lição do Texto. Filologia e Literatura. I A Idade Média, Edições 70, Lisboa, 1979

evva

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Esplendor

Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.

Ruy Belo

[evva)

É triste, muito triste, o politicamente correcto deste país

"Gaspar Castelo-Branco – foi decidido esquecê-lo

Com este título, o hoje moribundo jornal “O Semanário”, nomeava Gaspar Castelo-Branco como a figura nacional do ano de 1986.

Era Director-Geral dos Serviços Prisionais quando, a 15 de Fevereiro de 1986, véspera da segunda volta das eleições presidenciais, foi assassinado pelas FP-25 Abril com dois tiros na nuca. Foi o mais alto cargo dirigente do Estado a ser vítima de um brutal e cobarde ataque no pleno exercício das suas funções.

Nessa altura, os terroristas das FP-25A, por excesso de tolerância e decisão política, estavam em regime de cela aberta e misturados com presos de delito comum. Após a fuga de um grupo dos mais perigosos terroristas da Penitenciária de Lisboa, em Setembro de 1985, impôs medidas e condições duras de isolamento e separação entre reclusos. Estas eram contestadas pelos terroristas com uma pretensa “greve da fome”. Não cedeu. “Em países ocidentais os governos não cedem às greves da fome e pouca importância lhes dão” dizia. Mas por cá, era constantemente pressionado pela Comissão Parlamentar de Direitos Liberdades e Garantias, em particular por alguns deputados socialistas, bem como alguns movimentos cívicos de duvidosa parcialidade, mas que obtinham ainda assim algum eco na imprensa.

Perante as críticas da comunicação social e dos ditos movimentos, o Ministro da tutela, Mário Raposo, declinava responsabilidades encaminhando-as para o seu director-geral, como se a orientação deste não fosse tomada de acordo com o próprio Ministro. O culpado seria o Director-Geral. Perante a demissão dos seus superiores hierárquicos e o silêncio imposto pelo governo, Gaspar Castelo-Branco assumiu as responsabilidades, que verdadeiramente não lhe cabiam, em circunstâncias particularmente difíceis. Só isso fazia sentido: por personalidade era um homem corajoso e frontal com um enorme sentido do dever e do bem público. Tornou-se o bode expiatório e pagou-o com a vida.

O Governo acobardou-se e quinze dias após o seu brutal assassinato, os presos retomaram a cela aberta durante o dia, apenas fechada durante a noite. Conforme escreveu na altura José Miguel Júdice, parecia que afinal o assassinato teve uma justificação e uma razão de ser.
A partir desse dia, o País apercebeu-se que o terrorismo era uma ameaça real. Nos dias seguintes, Cavaco Silva, então primeiro-ministro, mudou-se com a família para a residência oficial em São Bento. Todos os ministros, sem excepção, passaram a andar com guarda-costas e escoltados por vários seguranças pessoais. Os juízes e procuradores do processo FP-25A passaram a ser guardados dia e noite, pernoitando, às vezes, em locais alternados e sempre secretos.

Apesar disso o Presidente da República em exercício Ramalho Eanes ou o recém-eleito Mário Soares não estiveram presentes no enterro tal como faltou o primeiro-ministro Cavaco Silva. Não houve um gesto visível de apoio público à vítima pelos seus superiores hierárquicos e membros dos órgãos de soberania. Curiosamente, nesse mesmo mês, na vizinha Espanha, um agente da Guardia Civil era assassinado pela ETA. O seu funeral teve honras de estado e contou com a presença de Felipe Gonzalez e Juan Carlos.

“Se me derem um tiro, como reagirão os defensores dos direitos humanos, os mesmos que pretendem condições mais brandas para os terroristas?” - afirmava numa entrevista a um jornal 15 dias antes de morrer. A verdade, é que a sua profecia se realizou e não houve um único acto de repúdio público aos ditos movimentos.

Em Outubro do mesmo ano começava o julgamento da organização. O maior fracasso do Estado de Direito do Portugal democrático. Não conseguiu condenar quem contra ele atentou.

Mário Soares, com uma visão muito própria sobre a justiça, preferiu primeiro indultar e depois amnistiar as FP-25A com total passividade do governo PSD. Preferiu cumprimentar Otelo Saraiva de Carvalho após a sua saída da prisão e recusou uma legítima condecoração, proposta pelo governo, para o mais alto funcionário do Estado a cair no cumprimento do seu dever no Portugal democrático. Para ele, as vitimas e as suas famílias eram um pormenor desagradável num processo que queria resolver politicamente.

O tempo pode atenuar a dor de um filho, mas não apaga a vergonha que o País sente por não ter sido feita justiça: os assassinos não cumpriram a pena, apesar de julgados e condenados em tribunal, e as vítimas foram esquecidas.

[Manuel Castelo-Branco]"


evva

Doctor Subtilis


JOHN DUNS SCOTUS (1265-1308), um dos mais 'difíceis' filósofos da Escolástica, cuja complexidade muitos apelidaram de apurada subtileza. Escutêmo-lo:
«Todo o filósofo estava certo de que o que postulava como primeiro princípio era um ser; por exemplo, um estava certo e que o fogo era um ser e outro de que a água era um ser. Mas não estava certo de que era um ser criado ou incriado, primeiro ou não-primeiro. De facto, não estava certo de que era primeiro, pois então estaria certo de algo falso e o falso não é susceptível de saber rigoroso. Nem estava certo de que fosse um ser não-primeiro, porque então não teria postulado o oposto.
Este primeiro argumento é confirmado da seguinte maneira: Alguém, vendo os filósofos discordarem entre si, pode estar certo de que o que quer que seja que qualquer um deles postulou como primeiro princípio é um ser. No entanto, por causa da contrariedade das opiniões dos filósofos, poderia duvidar se o primeiro princípio é este ou aquele ser. Se se fizesse, para tal pessoa em dúvida, a demonstração conclusiva ou refutativa de algum destes conceitos inferiores, por exemplo, de que o fogo não é o ser primeiro, mas um determinado ser posterior ao ser primeiro, não se destruiria o primeiro conceito certo que esta pessoa teve [de que é um ser], mas tal conceito ainda se encontraria no conceito particular que fosse provado do fogo. Assim prova-se a proposição suposta na última consequência deste argumento, isto é, que o conceito que de si não é nenhum dos dois conceitos duvidosos encontra-se em ambos.» Opus Oxoniense, I, d. 3, parte 1, q. 1 (tradução de C. A. Nascimento e R. Vier).

[Subtilezas destas conseguem dar um 'nó escolástico' no raciocínio mais exercitado...]

evva

Calendário

O fabuloso Calendário 2006 da Federação Portuguesa de Hóquei



Direcção artística, fotografia e design de Armando Vilas Boas.


evva

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor


agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente


lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


valter hugo mãe

O Resto Da Minha Vida seguido de A Remoção das Almas (2003)
Porto, Cadernos do Campo Alegre

[evva]

mistério de ambos em cada criatura

Como recebeu ela Adão?
Despojou-o,
e o desflorou, ajudando?

Adão, brutal ou terno?
Acometeu, cervo
ou foi penetrante andorinha?

Arrancou de si
sementes, o coração
latindo, cão grato?

Felizes, torturantes,
aprendizes, falsos,
sortílegos, infames?

Inteiraram-se um no outro?
Desejaram a morte
de quantos séculos?

António Osório

[evva]

Frases inaugurais, em Português

No Geração-Rasca, aberturas memoráveis da ficção em língua portuguesa. Eis algumas das minhas favoritas, numa lista alternativa:

«Aqui o mar acaba e a terra principia»
do meu romance preferido de Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

«Começou por me dizer que o seu caso era simples - e que se chamava Macário...»
Singularidades de Uma Rapariga Loura, Eça de Queirós

«Muitas vezes, pela tarde, quando o Sol, transpondo a baía de Carteia descia afogueado para a banda de Melária, dourando com os últimos esplendores os cimos da montanha piramidal do Calpe, via-se ao longo da praia vestido com a flutuante estringe o presbítero Eurico, encaminhando-se para os alcantis aprumados à beira-mar.»
Eurico o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano, páginas que agitaram a minha imaginação adolescente e fixaram para sempre uma paixão desmedida e incurável pela Idade Média

«Vespera de Pinticoste foi grande gente asũada em Camaalot, asi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas»
Demanda do Santo Graal (anónimo, séc. XIII)

«Fecharam os telhais.»
Esteiros (1941), de Soeiro Pereira Gomes, o neo-realismo poético

Mas a abertura que elejo como a melhor de sempre de um romance em língua portuguesa é de Fernando Assis Pacheco, em Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993). Não resisto a transcrevê-la na íntegra, só ela dava um romance inteiro:
«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
"Caramba", disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, "é à segoviana!".
"Mas não lhe pões o dente", cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
"É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno".
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquelo momento, teria respondido:
"Assar-lhe até a memória"»

evva

P.S.: Quis incluir também as primeiras linhas do Finisterra (1978), de Carlos de Oliveira, mas não o encontrei. Se alguém não se importar de mo devolver, agradeço desde já.

São Valentim

Cativos do consumismo, não se esqueçam dos presentes. Eis algumas sugestões, bem a propósito:

Chema Madoz (sem título, 2001)


Chema Madoz (s/t, s/d)

evva

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Frases inaugurais

A American Book Review elenca as cem melhores aberturas de romance do Cânone Ocidental. Se bem que qualquer lista deste tipo é pródiga em omissões, sobrevalorizações várias e inclusões discutíveis, constatei com agrado que a minha favorita de sempre ocupa o quarto lugar:

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.» Cem Anos de Solidão (1967), Gabriel Garcia Márquez.

Se bem que o 33º lugar de Gertrud Stein a tenha colocado no 1º da minha lista de compras:

«Once an angry man dragged his father along the ground through his own orchard. "Stop!" cried the groaning old man at last, "Stop! I did not drag my father beyond this tree."» The Making of Americans (1925).

evva

domingo, fevereiro 12, 2006

Já é oficial


No próximo Verão, mais um sobrinho/a. Iupi!

evva

P.S.: Ou muito me engano, ou este/a já nasce a falar latim. São os ares da serra.