terça-feira, abril 25, 2006
domingo, abril 23, 2006
Questões de geografia
evva
O Livro
(O Livro e o Beijo; Dante e Virgílio no Inferno observando os dois amantes assolados pelo vento infernal)Na Comédia, Francesca narra o esforço de ambos para resistir ao pecado. A tudo resistiram, de facto, excepto à sedução despertada pela leitura:
Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa 'l tuo dottore.
Ma s'a conoscer la prima radice
del nostro amor tu hai cotanto affetto,
dirò come colui che piange e dice.
Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.
Per più fiate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.
Quando leggemmo il disiato riso
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,
la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu 'l libro e chi lo scrisse:
quel giorno più non vi leggemmo avante.
[evva]
P.S.: Não tive oportunidade (nem tempo) de procurar o excerto que Paolo e Francesca liam. Fica para mais tarde.
Uma paixão
Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem
antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
Al Berto
[evva]
AMADEO MODIGLIANI & JEANNE HÉBUTERNE
amadeo:certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
- bebes para te matares.
e eu perguntei-lhe:
- e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.
jeanne:
soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amadeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.
amadeo:
jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.
soutine:
a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amadeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele.
Al Berto
["Olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo que se vira para o interior", disse a historiadora Helena de Freitas de um outro “Retrato de Jeanne Hébuterne”, mas que se aplica quase exemplarmente a todos os retratos que Amedeo Modigliani pintou da sua última musa.
Essa tensão "quase hipnótica" passa "intensamente" pelo olhos - "neste olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo e dominado, que se vira para o interior". Escreveu o pintor: 'A beleza tem seus direitos dolorosos: cria, porém, os mais belos esforços da alma'.
evva]
sábado, abril 22, 2006
Pura poesia
Oh meu Porto onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal
Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto
Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós
Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto

evva
sexta-feira, abril 21, 2006
quinta-feira, abril 20, 2006
A Morte convida...

Filme de diálogos extraordinários e fotografia de uma beleza perturbadora, difícil de igualar, O Sétimo Selo (1956, Ingmar Bergman) passa hoje pelas 19,30 no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito do ciclo A Idade Média no Cinema.
A projecção será seguida de um debate dinamizado pelos Professores José Carlos Miranda (Literatura Medieval) e Serge Abramovici (Literatura Francesa). Imprescindível a qualquer cinéfilo que se preze, este jogo de xadrez inquietante e magnífico.
quarta-feira, abril 19, 2006
Calla lily, Zantedeschia aethiopica

O que pensamos ser a flor, não são mais do que folhas transformadas em cálice, que contêm no seu interior milhares de verdadeiras flores.
evva
terça-feira, abril 18, 2006
Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
Minha Senhora de Mim, Gótica, 2001 (5ª edição)
[evva]
domingo, abril 16, 2006
Marcelo's new girl
Aleluia!
Arranjaram uma nova partenaire para o programa "As escolhas de Marcelo". Como não sou espectador regular (na verdade quase nunca o vejo) não sei se a Maria Flor Pedroso já lá está há muito ou não.
Mas está bem.
Sempre me pareceu que o programa era um sofrimento quer para a Ana Sousa Dias, que parecia estar a fazer o frete, quer para o Marcelo Rebelo de Sousa, que me parecia entediado pelo frete da senhora.
Deixem a Ana Sousa Dias com as entrevistas que ela faz tão bem na 2:, e deixem o "Acelerador de Particulas" com quem gosta ou parece gostar de o aturar. Para além do mais, a Maria Flor Pedroso (cuja competência aprecio) é, ao contrário da sua colega, uma jornalista da política e sabe manter aquela pose de confronto controlado típico deste tipo de jornalistas.
Vai, vai Ana que estás perdoada.
andré
Splendor in the grass
Não me interessa se Elia Kazan foi ou não um delator, para mim há-de ser sempre um dos melhores realizadores do século XX. Basta olhar a sua filmografia e as obras-primas com que a 2: nos tem brindado aos sábados a horas tardias. Já rever East of Eden havia sido intenso, mas que dizer de Splendor in the grass, em que Natalie Wood tem em Deanie Loomis a interpretação da sua vida? Asolutamente arrebatador.
Alguém consegue esquecer aquele final em que Deanie recorda os versos de Wordsworth da Ode on the Intimations of Immortality?
of glory in the flower,
we will grieve not,
rather find strength in what remains behind."
evva
P.S.: Não, não perdoo aos que sabiam que ele ia passar na 2: e 'esqueceram-se' de avisar, fazendo-me perder os primeiros 20 minutos de filme!
sábado, abril 15, 2006
A noite em que descobri Chloris
Por que não são assim todas as noites de chuva, sem o ruído da televisão, em volta de um piano e de uma voz tão bonita? Até a chuva se torna agradável. Fiquem com À Chloris, poema de Théohile de Viau (1590 -1626), conhecido pelo seu ateísmo e os versos licenciosos (a melodia, que mais uma vez não consegui postar, é uma infinitamente bela homenagem a Bach e consegue-se até ouvir no leit motiv umas notinhas das Variações Goldberg):
S'il est vrai, Chloris, que tu m'aimes,
Mais j'entends, que tu m'aimes bien,
Je ne crois pas que les rois mêmes
Aient un bonheur pareil au mien.
Que la mort serait importune
De venir changer ma fortune
A la félicité des cieux!
Tout ce qu'on dit de l'ambroisie
Ne touche point ma fantaisie
Au prix des grâces de tes yeux.

Cloris prestes a ser raptada por Zéfiro, na Primavera de Botticelli
[evva]
sexta-feira, abril 14, 2006
Sexta-Feira Santa
AQUI ESCOMIENZA EL DUELO QUE FIZO LA VIRGEN MARIA EL DIA DE LA PASION DE SU FIJO JESUCHRISTO
(...)
Conviene que fablemos en la nuestra privanza
Del pleito del mi duelo, de la mi mal andanza,
Commo sufri martirio sin gladio e sin lanza,
Si Dios nos aiudara fer una remembranza.
Fraire, verdat te digo, debesme tu creer:
Querrie seer muerta mas que viva seer;
Mas al Rey del çielo nol cadió en plaçer,
Oviemos del absinçio larga-mente a beber.
Con rabia del mi Fiio, mi padre, mi sennor,
Mi lumne, mi confuerto, mi salut, mi pastor,
Mi vida, mi conseio, mi gloria, mi dulzor,
Nin avia de vida nin cobdiçia nin sabor.
Tant era la mi alma cargada de tristiçia.
Non avia de vida nin sabor nin cobdiçia,
Qui fablarme quissiesse palabras de letiçia.
Non serie de buen sesso, nin sabrie de iustiçia.
Vediendo al mi Fiio seer en tal estado,
Entre dos malos omnes seer cruçifigado,
El mal non mereçiendo seer tan mal iudgado,
Ia nunqua podie seer mi corazon pagado.
(...)
Fiio dulz e sombroso, tiemplo de caridat,
Archa de sapiençia, fuente de piedat,
Non desses a tu Madre en tal soçiedat,
Qua non saben conoçer mesura nin bondat.
Fiio, tu de las cosas eres bien sabidor,
Tu eres de los pleitos sabio avenidor,
Non desses a tu. Madre en esti tal pudor
Do los sanctos enforcan e salvan al traydor.
Fiio, siempre oviemos io e tu una vida,
Io a ti quissi mucho, e fui de ti querida:
Io siempre te crey, e fui de ti creyda,
La tu piadat larga ahora me oblida.
Fiio, non me oblides e lievame contigo,
Non me finca en sieglo mas de un buen amigo,
Iuan quem dist por fiio, aqui plora conmigo:
Ruegote quem condones esto que io te digo.
Ruegote quem condones esto que io te pido,
Assaz es pora Madre esti poco pidido:
Fiio, bien te lo ruego, e io te me convido
Que esta petiçion non caya en oblido.
Recudió el Sennor, dixo palabras tales:
Madre, mucho me duelo de los tus grandes males,
Muevenme tos lagrimas, los tus dichos capdales,
Mas me amarga esso que los colpes mortales.
Madre, bien te lo dixi, mas aslo oblidado,
Tuelletelo el duelo que es grant e pesado.
Porque fui del Padre del çielo enviado
Por reçibir martirio, seer cruçifigado.
(...)
Madre, cata mesura, atiempra mas to planto:
Madre, por Dios te sea, non te crebrantes tanto.
A todos nos crebantas con essi tu quebranto:
Madre, que tu lo hagas por Dios el Padre sancto.
Disso la Madre: Fijo, lo que vos me fablades,
Quomo de muert a vida asi me revisclades,
Con esso que diçides mucho me confortades,
Qua io bien veo que vos por todos nos lazdrades.
(...)
Madre, disso el Fijo, de oy a terçer dia
Seré vivo contigo, verás grant alegria,
Visitaré primero a ti, Virgo Maria,
Desende a don Peidro con la su compannia,
Madre, de ti con tanto me quiero despedir,
Todo te lo e dicho lo que he de deçir.
Inclinó la cabeza commo qui quier dormir,
Rendió a Dios la alma, e dessóse morir.
Gonzalo de Berceo (séc. XIII)
[evva]
quinta-feira, abril 13, 2006
Parte do problema da França
Tempo lento

Foi um dia a pousar de café em café ao rítmo de um livro e da disposição.
A poesia da contemplação transmite um misto de tranquilidade pelo tempo que também é nosso, e de culpa, pelo luxo de o poder usar desta maneira.
Mais do que tudo, a dupla satisfação de poder fugir à opressão do trabalho, da produção, e do progresso, e de conseguir disfrutar da calma e da paz que está tão perto mas que mesmo assim é muitas vezes difícil de encontrar.
andré
Aos meus amigos
E porem diz Seneca en o Livro dos costumes que o meu amigo he outro eu. E quem tal cobrar, seendo como elle, stara soo e acompanhado. E, demonstrando a elle o segredo do seu conselho, sentirá alivamento, assy como se o dissesse a outrem, e avera segurança de sse nunca saber, como se o sempre tevera calado, nem avera que recear, pois homem strangeyro non sta antre elles, mas cada huu he tornado en outro e ambos son feytos hua persoa. Desta amaviosa ygualeza nace grande segurança, per cujo aazo o amante acha sempre prestes e aparelhados os peytos do seu amigo, en que seguramente possa deitar qualquer cousa que trouxer maginada, da qual sempre sera tam seguro como se a tevesse çarrada en sy meesmo
Deste amigo se diz aquella palavra comuu, convem a ssaber: "Non ha en o mundo cousa mais doce que teer amigo com que homem ouse de falar todallas cousas assy como consigo". E por seer achado tal como este compre a cada huu de aver cuydado special. E, depois que o tever gaançado, ponha en o guardar boa femença, per tal maneyra que o sentimento que ambos ouverem perteeça juntamente a hua persoa. E stonce os seus coraçoões acharam dentro en sy muy doce e leal benquerença, que antre os prazeres do mundo he mais delectosa. E as palavras do verdadeiro amador abrandaram o cuydado do seu amigo. Elle per sua sentença dara desembargo ao seu dovidoso conselho, e, avendo compaixom dos padecimentos do amado, apouquentará sua doença e con prazivel ledice tirará sua tristura. E cada huu, enquanto stever en presença do outro, sentirá doce folgança.»
segunda-feira, abril 10, 2006
Leopoldo María Panero
PROYECTO DE UN BESO
Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga
te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra
te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde
te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido
te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra
te mataré mañana cuando la luna salga,
y así desde aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación
te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida
te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas
te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche
te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.
"El último hombre" 1984
[evva]
Mata! Mata!
evva
domingo, abril 09, 2006
A ver os blogues passar
Como sobreviver a um coração despedaçado I
Paráfrase
Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
introduzem o tema da luz
e dos constrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta
Pedro Mexia
[evva]
P.S.: Toca a arregaçar as mangas e a analisar/comentar a 'metapoeticidade mexiana'. Esta vida são dois dias e Cristo só dormiu três.
Onde é que eu já vi esta imagem?...
Adam and Eve (ca. 1932) Petit Palais, GenevaTamara de Lempicka - Pintora Art Deco norte-americana, nascida polaca (1898-1980)
(via arquivos de O SÉCULO PRODIGIOSO)
Do grã doo que el rey dõ Afonso fazia por seu filho
«Conta a estoria que, quando soube el rrey a morte do fillo, disse a aquelles que vijnã da batalla:
- Ay, meu fillo!
Et esto dizia elle cõ grã door que tijna no curaçõ, dizedollis todauja:
- Ay, meu fillo, alegria do meu curaçõ, lume dos meus ollos, solaz de mjna velleçe! Ay, meu espello en que me soya ueer et con que tomaua muy grã prazer! Ay, meu herdeyro mayor!»
[evva]
sábado, abril 08, 2006
Como el rey dõ Afonso casou con a Çayda, filla del rrey de Seuilla
Et el rey, quando o oyo, prouguelle moyto et enviolle dizer que a yria veer hu elle quisesse. (...) Et depoys que a vyo el rrey, foy tan pagado dela como ela dele, que a vio muy fremosa et de boo doayro. Et ouuerõ sua fala em huu. Et ela disse que, se quisese casar cõ ela, que lle daria as villas et os castelos que ela avia. Et // el rrey lle disse:
- Poys conuem que seiades cristãa.
Et ela disse que o faria de muy bõamente, quanto el mandasse.
(...) Et tornousse cristãa et casou cõ ella. Et ela outorgoulle as villas et os lugares que auedes oydo. Et, quando a bautizarõ, mandou el rrey que llj nõ posesem nume Maria, por que elle nõ queria preyto cõ moller que ouuese assy nume, et poserõlle nume Ysabel. Et ouue en ela huu fillo a que diserõ dom Sancho Afonso»
Tradução galega (?) da Primeira Cronica General e da Cronica de Castela (c. 1300), ed. Ramon Lorenzo
[evva]
domingo, abril 02, 2006
El lamento de José de Arimatea
No soporto la voz humana,
mujer, tapa los gritos del
mercado y que no vuelva
a nosotros la memoria del
hijo que nació de tu vientre.
No hay más corona de
espinas que los recuerdos
que se clavan en la carne
y hacen aullar como
aullaban
en el Gólgota los dos ladrones.
Mujer,
no te arrodilles más ante
tu hijo muerto.
Bésame en los labios
como nunca hiciste
y olvida el nombre
maldito de
Jesucristo.
Así arderá tu cuerpo
y del Sabbath quedará
tan sólo una lágrima
y tu aullido.
Leopoldo María Panero
[evva)
Adenda: uma outra abordagem do nosso bem-amado José, imprescindível em qualquer biografia autorizada ou evangelho apócrifo.
sábado, abril 01, 2006
Diario de un seductor
sexta-feira, março 24, 2006
The end of the affair

Um filme que entra directamente para o meu top ten de 'Como terminar uma história de amor?'. É claro que a história é muito previsível e deliciosamente piegas, e que a posteridade recordará apenas a interpretação de Meryl Streep, mas às vezes precisamos de filmes assim, que nos levem ao colo e que em pequenas coisas nos revelem as grandes verdades. E agora vou comprar outra embalagem de lenços e estancar as lágrimas...
quinta-feira, março 23, 2006
Ah, Baía!
quarta-feira, março 22, 2006
amores
Diz Galeote, o mais nobre dos reis-senhores, a Lanzarote, o mais nobre dos cavaleiros:
"ella vos ama tan lealmente e de tan grande amor que yo bien creo que ante ella querra ser señora de una poca de tierra convusco que de todo el mundo sin vos”.
Ms. 9611 BN Madrid
E depois de ler coisas destas pareço uma tontinha com a lágrima no olho...
Isabel Sofia
terça-feira, março 21, 2006
Poesia
É praticamente impossível, no emaranhado de conteúdos programáticos a cumprir, mas sonho com o dia em que poderemos começar cada aula com a leitura de um poema ou de um qualquer texto, explorá-lo em conjunto e que tudo isso lhes faça sentido. E lá para Junho, no final do ano, poder deixar-lhes numa fotocópia este testamento:
Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra
Adeus ó pombas onças víboras
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ninfas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis
Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembram liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras
Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade
Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destrói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras
David Mourão-Ferreira
[evva]
segunda-feira, março 20, 2006
Coimbra, noite de nevoeiro cinza-molhado
Há dias em que quando tudo parece fazer sentido, todas as coisas se encaixam...eis que nos apercebemos que a chuva lá fora deixa passar o cinzento de uma tristeza desconhecida, mas que nos perturba. Então, temos vontade de abrir os braços. Mas contentamo-nos com a presença e o sorriso que oferecemos na tentativa de uma reconstrução.
Valham-nos os sonhos e as eternas demandas.
Isabel Sofia
quarta-feira, março 08, 2006
Não sei como confessar...
evva
Dia da Mulher
Não é distribuindo gratuitamente cultura pelo povo que se formam gerações instruídas, com gosto pela arte e sensibilidade para os eventos culturais, já se sabe. É investindo na sua formação, fornecendos-lhe, com rigor, as ferramentas e os conteúdos indispensáveis para que saibam apreciar e criar. Nunca de forma lúdica, ou gratuita, mas insistindo sempre para que prestem provas exigentes, invistam em si próprios e no seu trabalho e apenas por esse esforço sejam recompensados. Só quem está fora do sistema educativo desconhece as enormes pressões a que são sujeitos os professores para transitar de ano os alunos que nada fazem para incrementar artificialmente as taxas de sucesso, e não falo apenas do ensino básico obrigatório.
E eis que somos chegados ao dia 8 de Março. Sem surpresas, a tal edilidade alentejana mandou distribuir pelas mulheres do concelho milhares e milhares de flores (bem tratadas com químicos de florista, não daquelas que pintam intensamente a planície alentejana por esta altura, as minhas preferidas), acompanhadas de um convite para mega-jantar no pavilhão gimnodesportivo. Claro que, na escola, logo se combinaram romagens ao banquete. Vinte minutos antes da hora marcada, saio de casa e dirijo-me ao recinto. A 200 metros de distância já se ouvia o cacarejar. Indescritível. Centenas de mulheres acumulavam-se ruidosamente nas ruas limítrofes do pavilhão, novas, velhas, casadas, viúvas, solteiras ou nem por isso, saltitavam, abraçavam-se, gritavam como nunca nos braços de maridos e amantes. Mal nos avistámos, as minhas amigas e eu entreolhámo-nos com a expressão 'Help! Tirem-nos daqui!' a empalidecer-nos o rosto e decidimos juntarmo-nos aos homens que jantavam em desagravo no ponto de encontro do costume. Foi um dos melhores jantares de 8 de Março que já tive, celebrado com homens, amigos e amigas do peito.
Mulheres! Deixem-se de lamúrias feministas e carpideiras esquizofrénicas. A melhor maneira de celebrar este dia, e todos os que nos sobejam, é junto deles, rindo com eles, gritando com eles e por eles. Tudo o resto, a tal igualdade e liberdade, virá por acréscimo, pelo nosso empenhamento único e incansável no amor, na verdade e na vida. Bem hajam.
evva
FILMES…

Agora percebo que o cinema sempre me fascinou pelo conteúdo e não tanto pelas soluções técnicas, estejamos perante um filme de ficção científica ou de acção. Reconheço a importância central da técnica mas não tenho nem a sensibilidade nem a formação suficiente para a entender na totalidade. Daí que não goste do “Gladiador” ainda que me digam que é tecnicamente bom, e goste do “Exterminador Implacável 2” (T2) que qualquer um reconhece como fraco, ainda que tecnicamente extraordinário.
Interessa-me a seriedade e a honestidade com que uma obra é feita, o que me faz insurgir contra engodos como o “Munique” ou o “Million Dollar Baby” que abordam questões complexas de forma ligeira e tendenciosa, encostando-nos a situações que são facilmente julgadas de uma forma ou de outra, a favor ou contra. O caso do “Munique” é muito mais interessante porquanto o encosto é sistematicamente disfarçado.
A vida não é a preto e branco, nem as pessoas o são. Daí que filmes como o “Mar adentro”, a “Lista de Schindler” ou a “Queda” sejam objectos que respeito porque me deixam na dúvida, porque me obrigam a pensar nas intenções e na natureza das pessoas. Porque é sempre mais fácil ver os problemas a partir das convicções que nos são mais próximas e com as quais nos sentimos mais confortáveis.
Os filmes maus são como os refrigerantes, a comida fast food ou as chiclets, gosta-se mesmo que se saiba que são maus.
O que é espectacular no “T2" é o homem a surgir do chão, ou a refazer-se a partir de gotas de mercúrio não tanto a tecnologia que está por detrás disso. No “Tigre e o Dragão” (que é apesar de tudo melhor do que o “T2”) é o imaginário das artes marciais, e acrescento que nada me incomoda a tentativa eventual de cruzamento com a realidade.
O Clint Eastwood, que sigo incondicionalmente, também fez filmes fracos – “Poder Absoluto”, “Dívida de Sangue”, “Cowboys do Espaço” – onde a personagem dele acaba sempre com a miúda, bastante mais nova, e em que maus são castigados no fim. Contudo fez filmes bons – “Imperdoável”, “Caçador Branco coração negro”, “O Mundo Perfeito” – onde as personagens são frágeis e fortes, em que a realidade é ambígua ou pelo menos mais verosímil, e o quotidiano está mais presente.
É por essas e por outras que apesar de preferir o cinema europeu – onde os sentidos são explorados de forma mais profunda e as explicações ficam para quem vê –, não resisto às produções de Hollywood, cheias de diversão e a imaginação.
Não sei muito sobre filmes mas o que mais detesto é que me tentem impingir opiniões ou pontos de vista. É por isso que não gosto da maioria dos filmes do Spielberg e que acho que será difícil haver este ano algo melhor do que o “Match Point”, um filme em que muita gente (eu incluído) se sente bem pelo facto de a pessoa que cometeu o crime se safar no fim.
Mas esse é talvez o facto mais interessante da arte. Todos queremos encontrar nela algo que nos conforte, e ficamos quase sempre desiludidos quando isso não acontece. E quanto maior é a nossa afectividade em relação à mensagem e a quem a emite mais dificuldade temos em admitir ou lidar com esse desconforto.
andré
PS: A imagem que vêem é do Blade Runner, um dos meus filmes preferidos e um dos melhores de Ficção Científica que alguma vez vi.
domingo, março 05, 2006
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
ANDAR DE AVIÃO

Gosto muito de andar de avião. Mesmo muito.
Pensava que era pelas imagens. Para alguém fascinado pelas nuvens, estar ao lado delas é como estar em casa. E para quem anda com a cabeça no ar, estar no mesmo sítio onde a cabeça costuma estar é sem dúvida confortável.
Ainda não sei se prefiro ver um céu com ou sem nuvens. Ver a terra do ar é como uma imagem de satélite ou uma daquelas plantas de arquitectura paisagística. Mas as nuvens têm formas incríveis e sempre diferentes.
Mas já não passo assim tanto tempo a olhar para fora e o tempo a bordo é cada vez mais utilizado para ler, ouvir música, dormir ou até trabalhar.
Gosto muito de tudo o que tem a ver com andar de avião. Acho os aeroportos fascinantes. Quanto maiores são mais eu gosto deles. O movimento, as pessoas, a complexidade, os aviões, a luz, as mangas. É tudo muito diferente do nosso dia-a-dia.
O problema é que não conheço tantos aeroportos como gostaria e, para quem descola do Porto, Frankfurt torna-se uma passagem tão frequente que começa gradualmente a perder a piada. Ainda não conheço Heathrow nem o JFK, passei pelo Charles de Gaulle a correr e acho que vai demorar até ir aos alucinantes aeroportos asiáticos de Singapura, Tóquio ou Hong Kong.
Desculpem mas acho muita piada ao serviço de comida a bordo por muito fraco que seja. A Lufthansa tem uns copos de plástico muito elegantes, uma comida simpática e vinhos que se conseguem apreciar. Por isso não acho piada à Ryanair. Mas o que é que isso interessa quando se paga 50 euros por uma viagem a Paris?
Gosto da emoção da descolagem e da aterragem e fico com um sorriso completamente infantil quando, já no ar, vejo um avião a passar perto do meu. Esta situação não muito comum permite-nos apreciar melhor a velocidade e dá uma imagem estranha de um corpo imperceptivelmente suspenso no ar.
Mas o que mais me agrada é a sensação de sair e de me encontrar a seguir num sítio diferente. O facto de o fazer através de aviões e aeroportos só reforça ainda mais o meu fascínio de estar quase sempre no ar. A imaginar.
andré
sábado, fevereiro 25, 2006
Poema VIII
A pedido de várias famílias:
VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos
Vira uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
........................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.........................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Alberto Caeiro
evva
A arca do guardador de rebanhos

evva
Brokeback Mountain, by Annie Proulx
Para verem o que se perdeu na adaptação cinematográfica. destaco apenas um pormenor, a fazer toda a diferença. Depois de um afastamento de 4 anos, Jack e Ennis reencontram-se, acabando a noite num motel. It´s the intimate talk after sex: «Ennis pulled Jack's hand to his mouth, took a hit from the cigarette, exhaled.». Um andamento em três tempos, perfeito. A terminar num verbo que prolonga a frase numa respiração. Mas não me lembro de ver no filme de Ang Lee a acuidade em filmar estes pequenos detalhes que faz os grandes realizadores e que encontro sempre em Manoel de Oliveira, por exemplo, nomeadamente numa cena do Vale Abraão em que uma personagem acende um cigarro no de outra e que é um dos melhores momentos do seu cinema. Talvez Ang Lee não tenha tido tempo de se demorar nestes detalhes na sua ânsia de querer contar os 20 anos da relação de Ennis e Jack, e optou por passar rapidamente sobre pormenores que valeriam todo um filme. Mas eu gosto do cinema que se demora.
evva
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
It takes two for tango el sur
Tango for two óleo de Olga Sinclair (2001)
El Sur
Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.
Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.
Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.
Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Te quiero Sur,
Sur, te quiero.
Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.
Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur...
Rua de Cima do Muro
José Paulo Andrade
evva
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Os melhores diálogos do cinema II
Das muitas passagens que poderia destacar de Magnolia, obra-prima de Paul Thomas Anderson, esta conserva-se sempre na memória, mesmo involuntariamente, muito depois do filme ter terminado:
[singing along to Aimée Mann's "Wise Up"]
«Claudia Wilson Gator: It's not / What you thought / When you first began it / You got / What you want / Now you can hardly stand it though / By now you know / It's not going to stop
Jim Kurring: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up
Jimmy Gator: You're sure / There's a cure / And you have finally found it
Quiz Kid Donnie Smith: You think / One drink / Will shrink you 'til you're
underground / And living down / But it's not going to stop
Phil Parma: It's not going to stop
Earl Partridge: It's not going to stop / 'Til you wise up
Linda Partridge: Prepare a list for what you need / Before you sign away the deed / 'Cause it's not going to stop

Frank T. J. Mackey: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop
Stanley Spector: So just... give up»
evva

terça-feira, fevereiro 21, 2006
Sem comentários
[1 Cod. 2594, Wien, Österreichische Nationalbibliothek
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1.1
Registereintrag & Text, A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal
Registereintrag & Text
Sprache: spanisch
Beziehung zum lit. Werk: Abschrift
GI-Sachtitel: A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal
Literaturgattung: Poetae et oratores hispani et lusitani]
evva
domingo, fevereiro 19, 2006
Contagem decrescente
O meu destaque vai para a retrospectiva do expressionismo alemão de Fritz Lang e Murnau. Espero conseguir sobreviver à legendagem em castelhano...
evva
P.S.: Amigos da mouraria, já sabem que podem pernoitar cá em casa.
sábado, fevereiro 18, 2006
Bahaus

Uma das minhas bandas favoritas de sempre actuou hoje no Porto. Confesso que não pensei sequer em reservar bilhete.
Deixei-me de lirismos há uns anos, depois de uma série de desilusões com bandas que actuam em Portugal já passado o prazo de validade. The Waterboys sem violino não são os Waterboys, entendem? Podiam ao menos ter arranjado alguém que substituísse o violinista naquele concerto do Hard Club... Foi a gota de água.
O tempo não volta atrás. Prefiro pôr a rodar os velhinhos discos de vinil e voltar a saltar bem alto com o Kick In The Eye, ou dançar o Bela Lugosi's Dead com aquele ondear com que o Peter Murphy nos interrogava no teledisco. Ou ainda gritar o The Passion Of Lovers até enrouquecer. Há letras que nunca se esquecem:
She had nut painted arms
That were hers to keep
And in her fear
She sought cracked pleasures
The passion of lovers is for death said she
Licked her lips
And turned to feather
And as I watched from underneath
I came aware of all that she keep
The little foxes so safe and sound
They were not dead
They'd gone to ground
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
She breaks her hear
Just a little too much
And her jokes attract the lucky bad type
As she dips and wails
And slips her banshee smile
She gets the better of the bigger to the letter
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
evva
P.S.: Não trocava o meu mergulho a pique desta noite na filologia medieval pelo concerto dos Bahaus no Coliseu. Estarei a ficar velha? Alguém consegue imaginar o gozo enorme que é justificar a ausência de ressonância nasal no adjectivo 'boo' e argumentar com uma série de ocorrências em textos coevos? Indescritível!
Adenda: Ainda não descobri como se coloca música no blog, mas se quiserem vibrar com Peter Murphy e sus muchachos visitem o Queridos Anos 80, um blog que acompanho assiduamente (o que também é válido para os 0,0000000001% de infiéis que nunca ouviram falar dos Bauhaus... Cinquenta chibatadas ao som do She's In Parties!)
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
O elogio da Filologia
Elogio académico do Professor José Joaquim Nunes, Gustavo Cordeiro Ramos, antigo ministro da Educação Nacional, 27 de Fevereiro de 1937
evva
A irrelevância de muitos Mestrados dava uma óptima Tese de Doutoramento
Um dia, quando se redigir a história do ensino superior português na alvorada do século XXI, ficará registado como, por motivos de sobrevivência e escassez de alunos de licenciatura, pulularam neste país pós-graduações e mestrados absolutamente medíocres.
Pior: as gerações vindouras conseguirão compreender como se poderá recusar uma Dissertação de Mestrado sobre Filosofia ou Narrativa Medievais para creditação na carreira docente do Ensino Não-Superior, com base no argumento único e inquestionável de que o Mestrado se intitulava 'História e Cultura Medievais' e nada disso contribui para a valorização científica e pedagógica de professores de português e filosofia do ensino secundário, e se continue a aceitar, para os mesmos grupos disciplinares, a creditação de Dissertações em Administração, Estatística, Ciências da Educação (se alguém me conseguir explicar o que significa, agradeço; eu que estou há mais de um década no ramo ainda não consegui perceber...), "A angústia (ou falta dela) do cábula antes do teste de avaliação", ou "Mil e uma maneiras de passar de ano os alunos preguiçosos para melhorar as estatísticas de 'sucesso educativo' "...?
Ou ainda: como compreender que se aprovem (por vezes com Muito Bom, quando essa classificação existe) certas Dissertações de Mestrado ou Teses de Doutoramento fraquíssimas só porque o candidato em causa é docente da casa (apesar do arguente não o ser, eu sei) e, coitado, tem de defender depressa a tese ou então, coitadinho, vai para a rua...? Já agora, alguém me explica o que é o Português Arcaico Médio?
As Instituições portuguesas de Ensino Superior, sobretudo as Faculdades de Letras, têm de repensar com urgência a sua função e estratégia e questionar se serão ou querem ser meros redutos de formação de professores para o desemprego ou preferem tornar-se centros de excelência, de investigação, defesa e publicação de um saber que é a pedra angular da formação de qualquer indivíduo.
Nada melhor do que os medievais para nos recordarem, lá dos confins da sua Tenebrosa Idade, o que um intelectual que se preze devia valorizar, sempre:
«Somos anões aos ombros de gigantes: vemos mais longe».
evva
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Philologia
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Esplendor
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.
Ruy Belo
[evva)
É triste, muito triste, o politicamente correcto deste país
Com este título, o hoje moribundo jornal “O Semanário”, nomeava Gaspar Castelo-Branco como a figura nacional do ano de 1986.
evva
Doctor Subtilis

JOHN DUNS SCOTUS (1265-1308), um dos mais 'difíceis' filósofos da Escolástica, cuja complexidade muitos apelidaram de apurada subtileza. Escutêmo-lo:
evva
Calendário

Direcção artística, fotografia e design de Armando Vilas Boas.
evva
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor
agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente
lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor
valter hugo mãe
O Resto Da Minha Vida seguido de A Remoção das Almas (2003)
Porto, Cadernos do Campo Alegre
[evva]
mistério de ambos em cada criatura
Como recebeu ela Adão?
Despojou-o,
e o desflorou, ajudando?
Adão, brutal ou terno?
Acometeu, cervo
ou foi penetrante andorinha?
Arrancou de si
sementes, o coração
latindo, cão grato?
Felizes, torturantes,
aprendizes, falsos,
sortílegos, infames?
Inteiraram-se um no outro?
Desejaram a morte
de quantos séculos?
António Osório
[evva]
Frases inaugurais, em Português
«Aqui o mar acaba e a terra principia»
do meu romance preferido de Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
«Muitas vezes, pela tarde, quando o Sol, transpondo a baía de Carteia descia afogueado para a banda de Melária, dourando com os últimos esplendores os cimos da montanha piramidal do Calpe, via-se ao longo da praia vestido com a flutuante estringe o presbítero Eurico, encaminhando-se para os alcantis aprumados à beira-mar.»
Eurico o Presbítero (1844), de Alexandre Herculano, páginas que agitaram a minha imaginação adolescente e fixaram para sempre uma paixão desmedida e incurável pela Idade Média
«Fecharam os telhais.»
Mas a abertura que elejo como a melhor de sempre de um romance em língua portuguesa é de Fernando Assis Pacheco, em Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1993). Não resisto a transcrevê-la na íntegra, só ela dava um romance inteiro:
«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
"Caramba", disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, "é à segoviana!".
"Mas não lhe pões o dente", cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
"É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno".
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquelo momento, teria respondido:
"Assar-lhe até a memória"»
evva
P.S.: Quis incluir também as primeiras linhas do Finisterra (1978), de Carlos de Oliveira, mas não o encontrei. Se alguém não se importar de mo devolver, agradeço desde já.
São Valentim
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Frases inaugurais
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.» Cem Anos de Solidão (1967), Gabriel Garcia Márquez.
Se bem que o 33º lugar de Gertrud Stein a tenha colocado no 1º da minha lista de compras:
«Once an angry man dragged his father along the ground through his own orchard. "Stop!" cried the groaning old man at last, "Stop! I did not drag my father beyond this tree."» The Making of Americans (1925).
evva






















