quarta-feira, maio 24, 2006

Por que é que eu, que já passei a idade de Cristo, continuo a ter um pavor enorme de uma simples doação de sangue para análise?

evva

terça-feira, maio 23, 2006

A querela do peixe podre

A melhor ilustração do debate de ontem (via Smal Brother)

evva

segunda-feira, maio 22, 2006

ESTE HOMEM É UM COBARDE!


Porque traz à discussão um facto, a corrupção no jornalismo, que nunca ousa provar.
Porque discute o tema de uma forma vaga que o favorece.
Porque o faz à custa de um mediatismo que também o beneficia.
Porque critica o status-quo que o ajudou a subir e que agora o parece ter abandonado.

Mas sobretudo porque este é um dos mais brilhantes intelectuais do nosso país, que tinha a obrigação de impedir que esta discussão se tornasse numa óbvia vingança pessoal.

andré

Do que o Portugal de hoje precisava era de um Prior destes

Via Esplanar

Setença Proferida em 1487 no Processo contra o Prior de Trancoso:


«Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres».

«El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e demais papeis que formaram o processo».

evva

O sonho de todo o medievalista


Ser um dia uma capital ornamentada.

evva

Francisco José Viegas disserta no Origem das Espécies sobre o sururu levantado em torno da recusa de Umberto Eco em encontrar-se em Vinci, na Toscânia, com Dan Brown. FJV tem toda a razão, mas deixem-me reproduzir aqui as palavras do Santo Padre do medievalismo (autor, entre uma série infindável de opera magna incontornáveis, de uma das bíblias cá da estante, Arte e Beleza na Estética Medieval) ao La Repubblica:

«Nem morto. Irei a Vinci quando lá estiver um verdadeiro escritor».
[evva]

Por que é que eu gosto de Frederico Lourenço


«me marcou profundamente o fascínio pelo Condado Portucalense nos alvores da nacionalidade, o que me levaria mais tarde a sentir-me sempre mais em casa a norte do que a sul do rio Douro. Do Porto a Valença: o meu mundo de eleição.»
Frederico Lourenço, Amar não acaba, 2004, Cotovia, Lisboa, 3ª edição, p. 72.
Amar não acaba foi o último livro que li de um só fôlego, pela noite dentro até ao amanhecer, depois de o ter comprado na Feira do Livro do ano passado. Não pela declaração acima transcrita, é claro, mas por um irresistível fascínio pela escrita semi-autobiográfica do autor. Que surpresas trará a Feira deste ano? Será desta que colocarão on-line os 'Livros do Dia'?


Sobre Amar não acaba escreveu o Abrupto em Dezembro de 2004:

Leiam, leiam, leiam este livro estranho, memória autobiográfica da adolescência, escrita a vinte anos de distância – muito pouco. Um retrato de uma família portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir à sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais “pesadas”: a ópera, a música, as línguas, o comunitarismo panteísta de Lanza del Vasto. Este texto é uma surpresa: não sabia que alguém vivia assim entre nós. O relato de Frederico Lourenço é umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos lied, do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presenças tão intensas e tão inequívocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espaço do sentimento? O que é que sobra? Pode-se ser feliz num universo tão povoado de sentido? Duvido, mas também este livro não é sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento.
evva

domingo, maio 21, 2006

No 557º aniversário da Batalha de Alfarrobeira

O Infante D. Pedro, Regente de Portugal
empunhando Désir na Batalha de Alfarrobeira


Pranto pelo infante D. Pedro das sete partidas

(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

evva

sábado, maio 20, 2006

A FRASE DA SEMANA

"É sempre o evangelista que cria o Cristo."

António Tabucchi em entrevista com Carlos Vaz Marques no dia 11/05/06 no programa Pessoal e Transmissível, disponível em Podcast.

andré

Rafael


Mais logo, na Igreja de Santa Cruz, será baptizado o nosso Infante de Coimbra, futuro cavaleiro andante e acérrimo pelejador dos ultrajes ao Graal.

Que Deus proteja o seu caminho.

evva

UM DOS MAIS BELOS ELOGIOS DO CINEMA



I might be the only person in the world that knows how wonderful you are, (…) how you always say what you mean and how whatever you say is always about being honest and straight. Everytime I look at the people that you serve at the table I wonder how they are unaware that they are facing the most beautiful woman alive.
And the fact that I can feel and tell you all this makes me feel good… about me.

ou então

"You make me want to be a better man"


andré


Não percam tempo a ver o filme. Um enorme bocejo de banalidades cinematográficas. Erros de casting. Salva-se Paul Bettany no papel Silas. E aquela música pavorosa aparentemente inspirada em Vangelis? Aterrador. Leiam o livro. Não, não leiam essa porcaria. Querem mesmo encontrar o Graal? Demandai por aqui:
Vespera de Pinticoste foi grande gente assuada em Camaalot, assi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas. El-rei, que era ende mui ledo, honrou-os muito e feze-os mui bem servir; e toda rem que entendeo per que aquela corte seeria mais viçosa e mais leda, todo o fez fazer.
Aquel dia que vos eu digo, direitamente quando queriam poer as mesas, esto era ora de noa, aveeo que ua donzela chegou i, mui fremosa e mui bem vestida. E entrou no paaço a pee como mandadeira. Ela começou a catar de ua parte e da outra, pelo paaço; e perguntavam-na que demandava.
– Eu demando – disse ela – por Dom Lancelot do Lago. É aqui ?
– Si, donzela – disse uu cavaleiro. Veede-lo: sta aaquela freesta, falando com Dom Galvam.
Ela foi logo pera el e salvô-o. Ele, tanto que a vio, recebeo-a mui bem e abraçou-a, ca aquela era ua das donzelas que moravam na Insoa da Lediça, que a filha Amida d'el-rei Peles amava mais que donzela da sua companha.
– Ai, donzela! – disse Lancelot –que ventura vos adusse aqui? Que bem sei que sem razom nom veestes vós.
– Senhor, verdade é; mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo aaquela foresta de Camaalot; e sabede que manhãa, ora de comer, seeredes aqui.
– Certas, donzela – disse el – muito me praz; ca teudo soom de vos fazer serviço em todalas cousas que eu poder.
Entam pedio suas armas. E quando el-rei vio que se fazia armar a tam gram coita, foi a el com a raia e disse-lhe:
– Como?! Leixar-nos queredes a atal festa, u cavaleiros de todo o mundo veem aa corte, e mui mais ainda por vos veerem ca por al – deles por vos veerem e deles por averem vossa companha?
– Senhor, – disse el – nom vou senam a esta foresta com esta donzela que me rogou; mais cras, ora de terça, seerei aqui.
Entom se saio Lancelot do Lago e sobio em seu cavalo, e a donzela em seu palafrem; e forom com a donzela dous cavaleiros e duas donzelas. E quando ela tornou a eles, disse-lhes:
– Sabede que adubei o por que viim: Dom Lancelot do Lago ira comnosco.
Entam se filharom andar e entrarom na foresta; e nom andarom muito per ela que chegarom a casa do ermitam que soía a falar com Galaz. E quando el vio Lancelot ir e a donzela, logo soube que ia pera fazer Galaaz cavaleiro, e leixou sua irmida por ir ao mosteiro das donas, ca nom queria que se fosse Galaaz ante que o el visse, ca bem sabia que, pois se el partia dali, que nom tornaria i, ca lhe convenria e, tanto que fosse cavaleiro, entrar aas venturas do reino de Logres. E por esto lhe semelhava que o avia perdudo e que o nom veeria a meude, e temia, ca avia em ele mui grande sabor, porque era santa cousa e santa creatura.
Quando eles cheguarom aa abadia, levarom Lancelot pera ua camara, e desarmarom-no. E veo a ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz: tam fremosa cousa era, que maravilha era; e andava tam bem vestido, que nom podia milhor. E a abadessa chorava muito com prazer. Tanto que vio Lancelot, disse-lhe:
– Senhor, por Deos, fazede vós nosso novel cavaleiro, ca nom queriamos que seja cavaleiro por mão doutro; ca milhor cavaleiro ca vós nom no pode fazer cavaleiro; ca bem creemos que ainda seja tam bõo que vos acharedes ende bem, e que será vossa honra de o fazerdes; e se vos el ende nom rogasse, vo-lo deviades de fazer, ca bem sabedes que é vosso filho.
– Galaaz – disse Lancelot – queredes vós seer cavaleiro?
El respondeo baldosamente:
– Senhor, se prouvesse a vós, bem no queria seer, ca nom ha cousa no mundo que tanto deseje como honra de cavalaria, e seer da vossa mão, ca doutra nom no queria seer, que tanto vos ouço louvar e preçar de cavalaria, que nenhuu, a meu cuidar, nom podia seer covardo nem mao que vós fezessedes cavaleiro. E esto é ua das cousas do mundo que me dá maior esperança de seer homem bõo e bõo cavaleiro.
– Filho de Galaaz – disse Lançalot – stranhamente vos fez Deos fremosa creatura. Par Deos, se vós nom cuidades seer bõo homem ou bõo cavaleiro, assi Deos me conselhe, sobejo seria gram dapno e gram malaventura de nom seerdes bõo cavaleiro, ca sobejo sedes fremoso.
E ele disse:
– Se me Deos fez assi fremoso, dar-mi-á bondade, se lhe prouver; ca, em outra guisa, valeria pouco. E ele querrá que serei bõo e cousa que semelhe minha linhagem e aaqueles onde eu venho; e metuda ei minha sperança em Nosso Senhor. E por esto vos rogo que me façades cavaleiro.
E Lançalot respondeo:
– Filho, pois vos praz, eu vos farei cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a el aprouver e o poderá fazer, vos faça tam bõo cavaleiro como sodes fremoso.
E o irmitam respondeo a esto:
– Dom Lancelot, nom ajades dulda de Galaaz, ca eu vos digo que de bondade de cavalaria os milhores cavaleiros do mundo passará.
E Lançalot respondeo:
– Deos o faça assi como eu queria.
Entam começarom todos a chorar com prazer quantos no lugar stavam.

A Demanda do Santo Graal, fl. I.

evva

P.S.: Aos especialistas: o texto acima transcrito não foi revisto. Tenho de acordar daqui a poucas horas para um casamento que só terminará muito para além da meia-noite de Domingo. Vou dormir, então. Depois revejo.

D. Pedro (1392 - Alfarrobeira, 20 de Maio de 1449)


D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir,
é claro no querer;
indiferente ao que há em conseguir
que seja só obter;
dúplice dono, sem me dividir,
de dever e de ser-

não me podia a Sorte dar guarida
por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
calmo sob mudos céus,
fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus!

Fernando Pessoa, Mensagem
evva

O DESÍGNIO NACIONAL DO MOMENTO



É curioso ouvir no Expresso da Meia Noite da SIC Notícias (agora disponível em Podcast), e em muitos outros lugares, subvalorizar o peso do Futebol no recente fenómeno da adesão aos símbolos nacionais do hino e da bandeira. Como se o Desporto, neste caso o Futebol, fosse pouco relevante na explicação do fenómeno.
Desafio qualquer pessoa a tentar encontrar um acontecimento social capaz de mobilizar pessoas com tal profundidade como o Desporto. É certo que o Futebol consegue ser, mais do que qualquer outra modalidade, uma actividade de massas, mas a identificação com uma causa ou com os valores de uma instituição (o clube é a mais popular neste sector) é algo que encontramos, diria eu, em quase todas as modalidades desportivas.
O Desporto é hoje a forma mais intensa de ligação à nossa antiguidade, à caça, ao combate, à guerra, à violência. O Desporto é, em muitos aspectos, a sublimação da nossa animalidade.
E para além do mais, é hoje provavelmente o mais poderoso álibi para realização de actividade física. Depois de sairmos dos campos e do mar, depois de nos termos tornado eminentemente sedentários, o Desporto é, em muitos sentidos, a melhor forma de lidarmos com o nosso corpo, com o nosso físico, com uma parte importante da nossa essência.
Voltando ao Expresso da Meia Noite, eu estou como o jornalista da revista Sábado, em transe à espera do Campeonato do Mundo. Campeonato do Mundo. Futebol. Alemanha. Selecção Nacional. Cristiano Ronaldo. Ronaldinho Gaúcho. Beckham. Livre directo. Fora de jogo. Golo…

andré

sexta-feira, maio 19, 2006

Metonímia

- Olá, primo! Como tem passado?
- Ainda a tentar recuperar dos incêndios do Verão passado. Não atingiram a casa da Quinta por pouco. Se não fossem os vizinhos a ajudar... Mesmo assim, foi uma desgraça. Foram-se laranjeiras, figueiras, cerejeiras e três pipas de vinho. Uma tragédia.
evva

quinta-feira, maio 18, 2006

SHIJIE (O Mundo). Recomendado.

Em exibição no Cine-estúdio do Teatro do Campo Alegre

Só lhe retirava aquele pseudo-diálogo final. De resto, é um murro no estômago de normalização numa sociedade globalizada. E de como sobreviver-lhe (?) desenraízada, procurando manter a inocência.




evva

quarta-feira, maio 17, 2006

Momento ER

Top 20 Things You Don't Want To Hear During Surgery

1. Better save that. We'll need it for the autopsy.
2. "Accept this sacrifice, O Great Lord of Darkness"
3. Hand me that...uh...that uh...thingie.
4. Oh no! I just lost my Rolex.
5. Oops! Hey, has anyone ever survived 500ml of this stuff before?
6. There go the lights again...
7. "Ya know, there's big money in kidneys...and this guy's got two of 'em."
8. Everybody stand back! I lost my contact lens!
9. Could you stop that thing from beating, it's throwing my concentration off.
10. Sterile, schmerile. The floor's clean, right?
11. What do you mean he wasn't in for a sex change?
12. This patient has already had some kids, am I correct?
13. Nurse, did this patient sign the organ donation card?
14. What do you mean "You want a divorce!"
15. Fire! Fire! Everyone get out.
16. Damn! Page 47 of the manual is missing.
17. Oh, look everyone. It's lunch time.
18. The foot bone's connected to the... leg bone...
19. That's cool! Now can you make his leg twitch?!
20. Hey, if you pull on this it makes a funny noise.

evva

OS SILÊNCIOS

Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta
Só de Amor, Quetzal Editores, 1999

[evva]

Q

A revista Men's Health (edição alemã) enviou um dos seus repórteres ao Rio de Janeiro. Uma das fotos que ilustra a reportagem mostra o quadro em que os miúdos da Escolinha do Flamengo aprendem a ler.


Atentem, por favor, na foto que ilustra a letra Q (clicar na imagem para ampliar):

evva

terça-feira, maio 16, 2006

ENCUENTRO



Ni tú ni yo estamos
en disposición
de encontrarnos.
Tú... por lo que ya sabes.
¡Yo la he querido tanto!
Sigue esa veredita.
En las manos
tengo los agujeros
de los clavos.
¿No ves cómo me estoy
desangrando?
No mires nunca atrás,
vete despacio
y reza como yo
a San Cayetano,
que ni tú ni yo estamos
en disposición
de encontrarnos.
Federico García Lorca (1898 - 1936)
[evva]