quarta-feira, maio 17, 2006

Q

A revista Men's Health (edição alemã) enviou um dos seus repórteres ao Rio de Janeiro. Uma das fotos que ilustra a reportagem mostra o quadro em que os miúdos da Escolinha do Flamengo aprendem a ler.


Atentem, por favor, na foto que ilustra a letra Q (clicar na imagem para ampliar):

evva

terça-feira, maio 16, 2006

ENCUENTRO



Ni tú ni yo estamos
en disposición
de encontrarnos.
Tú... por lo que ya sabes.
¡Yo la he querido tanto!
Sigue esa veredita.
En las manos
tengo los agujeros
de los clavos.
¿No ves cómo me estoy
desangrando?
No mires nunca atrás,
vete despacio
y reza como yo
a San Cayetano,
que ni tú ni yo estamos
en disposición
de encontrarnos.
Federico García Lorca (1898 - 1936)
[evva]

A RITA CONTINUA DESAPARECIDA



evva

Delírios

É impressão minha ou ontem ouvi sua excelência o ministro da saúde responder aos argumentos dos que defendem a continuação da maternidade no hospital de Barcelos com um furioso «e também porque queremos investir em outros serviços que esse hospital não tem, como diálise, fisioterapia e outros, para não falar no bloco operatório que funciona mal, o vosso bloco operatório é péssimo, não tem as mínimas condições» (cito de memória). É eticamente legítimo que o responsável máximo de um serviço público teça publicamente este tipo de considerações? Não é um caso premente de saúde pública? Salva a aparente demagogia, não se podiam desviar uns dinheiritos como medida extraordinária e resolver o assunto? Como se sentirão os que hoje vão ser submetidos a intervenções naquele bloco? Já não há paciência para tanta irresponsabilidade.

evva

P.S.: Sonhei ou o responsável pela tal comissão que inquiriu da viabilidade dos blocos de parto e que também dirige a maternidade Alfredo da Costa mostrou-se disponível para ir a cada uma das localidades prejudicadas com a decisão ministerial, mas tem medo de «levar uma tareia» (sic). Mas já chegamos ao Brasil*?


*Sem ofensa para os brasileiros, mas aquilo é um salve-se quem puder. E que tal proibirem os telemóveis nas prisões? Ou já o são e não há como controlar?

A ANÁLISE DAS ESCOLHAS


"É demais! Arre diabo!
E fartos de dar ao rabo lá vêm eles pró céu!"
(retirado do Coro dos Cornudos de Helder Pacheco)

Lamento muito mas já não há paciência pra tanta asneira. O povo diz que a ignorância é atrevida e é mesmo verdade.
Acabo de ver a análise à convocatória da selecção daquele que a SIC Notícias anuncia como o melhor comentador de futebol da telelevisão portuguesa, Rui Santos.
O homem diz de tudo: que a equipa mexicana é perigosa porque tem "uma mistura de futebol Europeu com Sul Americano" e que o Irão o é também porque "vai transportar a questão física para dentro de campo". Disse também que Costinha não tinha "ritmo de jogo" ao contrário dos seus colegas que chegavam ao final da época cheios com muitos jogos. Que pena não ter memória precisa para relatar o resto.

Eu percebo que os adeptos não entendam o seleccionador e se revoltem contra escolhas que não são as suas mas aos analistas exige-se algum rigor, coisa que não vigora no futebol.

É triste, muito triste, a forma como criticam as escolhas sem nunca terem treinado ou entendido as implicações do treino e da selecção de jogadores. Aliás, podíamos colocar neste lote de peritos o magnífico e sapiente Miguel Sousa Tavares, que para além de ser competente para comentar qualquer assunto, é particularmente apto e isento no caso do futebol.

Desculpem este lamento mas para alguém que estuda, ensina e vive o desporto diariamente, é muito desagradável assistir a tudo isto.
Mas o futebol é mesmo assim. Não é para se analisar com rigor mas sim com paixão. E quando assim é cada um diz o que quer, desde que acenda a chama do coração de alguém.

Enfim… é a vida.

andré

segunda-feira, maio 15, 2006

ESCOLHAS PREVISÍVEIS…

As escolhas do seleccionador para a equipa de todos nós foram o que alguns já esperavam embora não as que muitos queriam. Analisemo-las então.

Pouco havia a esperar acerca dos guarda-redes (Ricardo, Quim e Bruno Vale). A coerência face a decisões anteriores manteve-se. Colocar Vítor Baía a suplente seria uma grande indelicadeza.
Eu continuo na minha, por alturas do EURO 2004 era preferível ter Ricardo e o mesmo acontece agora. É verdade que, sobretudo na época passada, Vítor Baía esteve melhor, mas estas coisas não se fazem a curto prazo. Apesar de muito conservador, Scolari sempre preferiu olhar para a frente do que para os pés.

Sobre os centrais há pouco a dizer. Ricardo Costa surpreende menos do que outros. E convenhamos, a dupla será Ricardo Carvalho com Caneira ou Fernando Meira. Eu aposto nos dois primeiros.

No meio campo as coisas continuam como sempre estiveram. Maniche, Tiago, Costinha e Petit. Espero que em jogo esteja pelo menos um dos dois primeiros, caso contrário vamos parecer a Itália com o Catenáccio.

O mesmo se passa com os extremos. Scolari sempre optou por Figo, o capitão, Cristiano Ronaldo, um dos melhores da Europa na sua posição, e por Simão e Boa Morte para suplentes. O Boa Morte não tem feito grandes exibições mas poucas vezes joga.
Gostei do momento de humor do seleccionador ao dizer que Figo estava a correr tanto ou mais do que quando tinha 18 anos. Teve piada sim senhor.

Sobre Deco fica mal dizer alguma coisa. É para lá estar e pronto. Quanto a Hugo Viana, é uma questão de bom senso, pois sem Rui Costa não há muito mais para pensar.

Na frente o problema foi sempre o mesmo, a falta de opções, mesmo se de entre as que foram feitas – Pauleta, Nuno Gomes e Hélder Postiga – algumas estejam gastas.
Embora continue sem compreender inteiramente porquê, nunca tivemos muitos avançados-centro em condições. E continuamos na mesma.

Fossem outras as escolhas e não seriam as de Scolari. Eu cá preferia que a equipa jogasse com três centrais e dois avançados-centro mas o treinador brasileiro não. E convenhamos, é um sistema que demora mais tempo a consolidar e comporta mais riscos. Ora, para alguém que evita riscos a todo custo…

As escolhas de Scolari na selecção sempre foram como a sua contratação, conservadoras. Madaíl escolheu o treinador que menos riscos trazia à sua liderança e mais depressa o desresponsabilizaria de um insucesso.
Contudo sempre prefiro as razões de Scolari às de Madaíl. Questionado sobre o porquê das suas opções pode sempre dizer: “Fui campeão no mundial no Coreia-Japão”.
Ora, todos sabemos como correu esse mundial a Madaíl…

andré

PS: No meio disto tudo a decisão sobre Quaresma parece-me compreensível. Ele faz muito jeito aos sub21 que jogam um Europeu em casa e têm de mostrar trabalho. Nos seniores ele ia acabar muitas vezes no banco pois nem Cristiano Ronaldo nem Figo iam lá parar tão depressa.

A SELECÇÃO DE ALGUNS II

Não resisto a transcrever aqui este desabafo blasfemo, com o qual estou plenamente de acordo. Eis CAA:

'QUE ME DESCULPE QUEM PUDER...
... mas eu que estive em Inglaterra no Euro 96, na Holanda no Euro 2000, que fiquei prostrado com a vergonha da Coreia 2002, que até me consegui animar durante o Euro 2004, pela primeira vez na minha vida não vou apoiar a selecção durante este Mundial. Não consigo.O intenso desprezo que sinto pelo burlão que está por cá a viver umas férias muito bem pagas, a par da cumplicidade da lamentável FPF que temos, o modo como o sujeito nos gozou a todos na sua prosa inicial, na conferência de imprensa que está a decorrer, ironizando com tudo aquilo que qualquer português, de qualquer clube, esperaria, não me deixam puxar por esta equipa. Que não é a "nossa" mas sim a dele. Com este grupo de "amigalhaços" que prescinde de Quaresma, Moutinho, João Tomás e Paulo Santos, entre tantos outros, a favor de jogadores suplentes ou que não jogam há 6 meses e outros que nunca tiveram qualidade (Boa Morte, Postiga), não pode haver terceira via: ou esse senhor ganha o campeonato ou terá de se ir embora. Espero que acompanhado pela múmia que preside à Federação.'

evva

A SELECÇÃO DE ALGUNS



Decididamente, esta não é a minha selecção. Ainda bem que, lá para Junho, vou ter mais do que fazer do que ver Scolari e convocados a estatelar-se nas relvas germânicas. O pleno das televisões generalistas a abrir os seus noticiários das 20h com o discursozinho do presidente da FPF e as desculpas arrogantes e esfarrapadas do seu assalariado diz bem do país que temos. Quando se eleva um pormenor desportivo à novidade mais importante de um estado*, não há a menor dúvida, batemos no fundo. Muitas vezes, infelizmente.

Lista de convocados para o Mundial 2006:

- Guarda-redes: Ricardo (Sporting), Quim (Benfica) e Bruno Vale (Estrela da Amadora);

- Defesas: Miguel (Valência, Esp), Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho (Chelsea, Ing), Fernando Meira (Estugarda, Ale), Ricardo Costa (FC Porto), Caneira (Sporting) e Nuno Valente (Everton, Ing);

- Médios: Costinha (Dínamo de Moscovo, Rus), Petit (Benfica), Maniche (Chelsea, Ing), Tiago (Lyon, Fra), Deco (FC Barcelona, Esp) e Hugo Viana (Valência, Esp);

- Avançados: Figo (Inter de Milão, Ita), Cristiano Ronaldo (Manchester United, Ing), Boa Morte (Fulham, Ing), Simão e Nuno Gomes (Benfica), Pauleta (Paris Saint-Germain, Fra) e Hélder Postiga (Saint-Etienne, Fra).

evva

* A próxima grande novidade com direito a pleno na abertura de 'telejornais' será a contratação do treinador que se segue naquele clube que ficou em 3º lugar no Campeonato de Futebol 2005/2006. Querem apostar?

A FLECHA ENVENENADA (relato budista)

Dacos, Nu dans la mémoire blanche


A memória é como o homem atingido pela flecha envenenada: antes que curem a ferida ele pergunta quem o atingiu, como se chama, onde está, o seu aspecto. Então talvez saiba mais sobre a flecha e o archeiro, mas é demasiado tarde para ser salvo.


Pedro Mexia

Em Memória, Gótica, Lisboa, 2000, p. 15


[evva]

Foz do Douro, entardecer

Um casal octagenário caminha vagarosamente na direcção de um automóvel topo de gama estacionado na Avenida Montevideu. Curiosamente, ambos se dirigem para o lado do condutor, ele à frente, lento, curvado, ela logo atrás, vertical e um sorriso suportando o peso dos anos.
Ele abre-lhe delicadamente a porta para que ela se sente no lugar do condutor e com dificuldade contorna a viatura e senta-se no lado oposto. Já não tem carta, pensámos, é ela que conduz. Mas ele, mesmo debilitado, ainda insiste na delicadeza natural de abrir-lhe a porta. Gestos que se perderam no infortúnio dos tempos, respondi. Palavras largadas ao vento da tarde.
evva

domingo, maio 14, 2006

Há qualquer coisa de absolutamente único na espera. Lenta, ansiosa, demorada. Como esperar que uma árvore que amamos floresça.
Aguardo sempre impaciente o florescer das árvores, mais do que a chegada dos frutos. Um desperdício, já se sabe. Mas haverá algo mais belo (claro que há...) do que vigiar atentamente o crescimento de uma planta? Hoje, ao abrir a persiana do meu micro-terraço, oh surpresa!, floriram os canteiros de gerânios. Bom dia!

Daqui a pouco, ao aproximar-me de casa de meus pais, já sei que pela janela do carro chegará o perfume das flores das laranjeiras muito antes de avistar o portão. Para os que ainda usufruem deste privilégio singular, um bom domingo.
evva

sexta-feira, maio 12, 2006

quinta-feira, maio 11, 2006

À espera


Continuamos a perscrutar o céu, a tentar descortinar a direcção dos ventos desde Paris. Mas a cegonha persiste em trocar-nos as voltas. Entretanto, no Tapado é a festa da cor, uma azáfama.
Uma homenagem sentida a todas as mães para quem a maternidade não é o mar de rosas que apregoam os anais, as que só conseguem ver os filhos ao fim de alguns dias, às que sofrem por vê-los chorar e chorar, às que os criam lá longe e sem família e amigos por perto a quem acorrer e suportam enfermidades e doenças, as noites sem dormir, a preocupação constante, a manhã que chega demasiado depressa, que enfrentam a rotina de ânimo renovado, o emprego, os colegas, os aborrecimentos do dia-a-dia de trabalho e no final do dia regressam a casa para trabalhos dobrados. Às minhas amigas que estão longe. Bem-hajam! Por serem super-mulheres e as melhores amigas do mundo.
evva

Ele dizia isto tão bem…

Separata Gratuita
Mário Henrique Leiria


O QUE ACONTECERIA
SE O ARCEBISPO DE BEJA
FOSSE AO PORTO
E DISSESSE QUE ERA NAPOLEÃO

Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.


Então o arcebispo dizia:
- Sou a Josefa de Óbidos.

Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso, davam-lhe trouxas d’ovos.

Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de Beja.

Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.


Esta e outras peças ditas de forma suberba por Mário Viegas.
Todas agora disponíveis na colecção do Público.


andré

quarta-feira, maio 10, 2006

PAREM AS ROTATIVAS!


Deus regressa à blogosfera. Aqui.
evva

Chema Madoz (1996)


Suave como el peligro atravesaste un día
con tu mano imposible la frágil medianoche
y tu mano valía mi vida, y muchas vidas
y tus labios casi mudos decían lo que era el pensamiento.
Pasé una noche a ti pegado como a un árbol de vida
porque eras suave como el peligro,
como el peligro de vivir de nuevo.


Leopoldo María Panero
Last night together 1980
evva

Caríssima,


eu sei que o céu de Paris tem andado conturbado. Ele é disparates à Chirac, Sarkozy-Villepin a faiscar e a Ségolène a silenciar os machões socialistas... mas era preciso demorar tanto?! É que por cá já ninguém aguenta.
evva

terça-feira, maio 09, 2006

EUROPA

Europa, sonho futuro!
Europa, manhã por vir,
fronteiras sem cães de guarda
nações com seu riso franco
abertas de par em par!


Europa sem misérias arrastando seus
andrajos, virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?
Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Saberás renascer, Fénix, das cinza
sem que arda enfim, falsa grandeza,
a glória que teus povos se sonharam
- cada um para si te querendo toda?

Europa, sonho futuro,
se algum dia há-de ser!
Europa que não soubeste
ouvir do fundo dos tempos
a voz na treva clamando
que tua grandeza não era
só do espírito seres pródiga
se do pão eras avara!
Tua grandeza a fizeram
os que nunca perguntaram
a raça por quem serviam.
Tua glória a ganharam
mãos que livre modelaram
teu corpo livre de algemas
num sonho sempre a alcançar!

Europa, ó mundo a criar
Europa, ó sonho por vir
enquanto à terra não desçam
as vozes que já moldaram
tua figura ideal!
Europa, sonho incriado,
até ao dia em que desça
teu espírito sobre as águas!

Europa sem misérias arrastando seus
andrajos, virás um dia? virá o dia
em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram
no teu solo devastado?
Renascerás, Fénix, das cinzas
do teu corpo dividido?

Europa, tu virás só quando entre nações
o ódio não tiver a última palavra,
ao ódio não guiar a mão avara,
à mão não der alento o cavo som de enterro
dos cofres dirigindo o sangue do rebanho
- e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,
o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

Adolfo Casais Monteiro
Poesias Completas, INCM, Lisboa, 1993 (publicado pela primeira vez em 1946)
Não é dos meus poemas preferidos de Casais Monteiro, por demasiado exclamativo. Composto, segundo creio, durante a Segunda Guerra Mundial e lido, salvo erro, em plena conflito por António Pedro aos microfones da BBC, o que me agrada nele é esta idéia de Europa como sonho adiado, em busca de uma falsa grandeza e glória perdidas, a ambição de muitos que a sonharam e construíram, cada um para si te querendo toda, e uma certa nostalgia de unidade. Será possível?
[evva]

E durante os próximos tempos...

The Go-Betweens (1978-1990)


... só se ouvirá cá em casa este vinyl
evva

The Go-Between


Grant Mclennan (1958-2006)

Era a voz dos Go-Betweens e compôs muitos dos temas que integraram a banda sonora da minha adolescência. Vi-o uma única vez ao vivo, num concerto acústico em que tocaram, perante uma plateia estarrecida, na primeira parte de um Loyd Cole atónito com a chuva de roupa interior feminina que lhe caía aos pés. Nos idos 80 do século passado, alguém muito respeitável dizia que Loyd Cole era a voz perfeita para acordar ao lado. Pois a de Grant Mclennan era ideal para passar o resto do dia. Todos os dias. Deixou-nos durante o sono, na noite de 6 de Maio.
Doesn't matter how far you come
You've always got further to go
I tried to tell you
I can only say it when were apart
About this storm inside of me
And how I miss your quiet,
quiet
heart

evva

segunda-feira, maio 08, 2006

Por cá não se faz outra coisa...


... além de vasculhar manuscritos e passar horas a discutir o que é exactamente um 'salto do mesmo ao mesmo' e saber se foi o copista que saltou se a frase e onde se meteu Nascião e a sua espada timorense se estará com o livro do terramoto que levou a menina dos caracóis e o Ms. 116 será mais tardio que o 112 mas esse sarrabisco não é um 'r' mas um 'y' meio apagado e afinal Artur também filha a espada no Livro de Galaaz maldito aquele não este que nem para isso serve e a Foz num púrpura deslumbrante mas nada nada disto importa e continuamos ansiando a Hora

evva

Aos economistas e aos economicistas




The greatest problem with economics is its “wilful denial of the presence of power and political interests”. By positing an idealised world of perfect competition economic theory assumes away the factors that drove societies.

John Kenneth Galbraith

(retirado e adaptado da última edição da revista Economist, a propósito da morte deste economista americano)

andré

Há quanto tempo...


... não tenho um dia assim?

evva

BENFICA NO MERCADO

Aceitam-se apostas. Há quem profetize Jesualdo Ferreira ou suspire por Vítor Pontes, mas eu gostava muito de ver por lá este senhor. Era um favor que faziam ao país.

evva

Lição de grego II

MAR DA MANHÃ

Que eu me detenha aqui. E que também eu contemple um pouco a natureza.

De um mar da manhã e um céu sem nuvens
cores azuis brilhantes e margem amarela, tudo
belo grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E me iluda a ver isto
(sim, por instantes o vi, quando aqui parei)
e não aqui também meus devaneios,
recordações, imagens de volúpia.

Kavafis (1915), sempre ele.

É um dos mais belos poemas de Kavafis. Lembrei-me hoje dele ao folhear as fotos de mais um excelente site dedicado ao Porto. A tradução é muito livre, mas quando há tempos foi publicado no Abrupto despoletou uma das mais interessantes polémicas que até hoje foi dado observar na blogosfera. Aqui fica o original, para os puristas e os que amam a língua.
ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ
Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ’ εγώ την φύσι λίγο.
Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού
λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη· όλα
ωραία και μεγάλα φωτισμένα.
Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά
(τα είδ’ αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)·
κι όχι κ’ εδώ τες φαντασίες μου,
τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.
evva
P.S.: Um dia destes quero ouvi-lo na língua de origem, sim?

domingo, maio 07, 2006

THAT IS THE QUESTION

Dois e dois são quatro.
Nasci cresci
para me converter em retrato?
em fonema? em morfema?

Aceito
ou detono o poema?
Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 521.
evva

sábado, maio 06, 2006

GACELA DEL AMOR IMPREVISTO



Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.

Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.

Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre.

Siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.

Federico García Lorca, Antologia Poética, Relógio D'Água, 1993, p. 352
(Tenho uma edição mais antiga, e mais amada. Onde andará?)

[evva]

Poema para Franz Weissmann



Ao contrário
do escultor de antes
que
para dissipar a noite
(mítica)
que habita a matéria
imprimia à superfície
da massa
velocidades de luz,
Weissmann
escultor de hoje
abre
a matéria
e mostra que dentro dela
não há noite mas
espaço

puro espaço

modalidade transparente
de existência



Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 511.


[evva]

sexta-feira, maio 05, 2006

Lição de grego I

DOS HEBREUS (50 D.C.)

Pintor e poeta, corredor e discóbolo,
belo como Endymíon, Iántis Antoníu.
De família amiga da Sinagoga.

"Meus dias mais preciosos são aqueles
em que deixo a busca sensual,
em que abandono o belo e rígido helenismo,
com seu apego soberano
a membros brancos perfeitamente feitos e corruptíveis.
E torno-me aquele que desejaria
sempre permanecer; o filho dos Hebreus, dos sagrados Hebreus."

Mui calorosa sua declaração. "Permanecer
sempre dos Hebreus, dos sagrados Hebreus –"

Porém de modo algum permanecia tal.
O Hedonismo e a Arte de Alexandria
tinham-no por filho dedicado.

Kavafis, 1919

Também eu tento permanecer fiel, acreditem. Mas a Arte e o Hedonismo vencem sempre.

Em grego original é ainda mais bonito:

ΤΩΝ ΕΒΡΑΙΩΝ (50 μ.X.)

Ζωγράφος και ποιητής, δρομεύς και δισκοβόλος,
σαν Ενδυμίων έμορφος, ο Ιάνθης Aντωνίου.
Aπό οικογένειαν φίλην της Συναγωγής.

«Η τιμιότερές μου μέρες είν’ εκείνες
που την αισθητική αναζήτησιν αφίνω,
που εγκαταλείπω τον ωραίο και σκληρόν ελληνισμό,
με την κυρίαρχη προσήλωσι
σε τέλεια καμωμένα
και φθαρτά άσπρα μέλη. Και γένομαι αυτός που θα ήθελα
πάντα να μένω· των Εβραίων, των ιερών Εβραίων, ο υιός.»

Ένθερμη λίαν η δήλωσίς του. «Πάντα
να μένω των Εβραίων, των ιερών Εβραίων —»

Όμως δεν έμενε τοιούτος διόλου.
Ο Ηδονισμός κ’ η Τέχνη της Aλεξανδρείας
αφοσιωμένο τους παιδί τον είχαν.

ΚΑΒΑΦΗΣ, 1919

Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos

[evva]

Rússia

"Rússia, com a razão não te podem compreender,
Nem com medida comum te medir.
És um mundo à parte.
Só fé em ti podemos ter".

Esta quadra foi escrita pelo poeta russo do séc. XIX Fiodor Tiutchev. Hoje, não temos a verdade na mão, mas tentamos aproximar-nos dela.

(retirado do Blog da Rússia do jornalista José Milhazes)


andré

quarta-feira, maio 03, 2006

Addicted

Manhã de domingo a preguiçar entre lençóis:
ELA: Queriiidooo! Nunca mais chegam as férias... Queria tanto a ilha Formosa, o mar, a praia...
ELE: Querida... (Suspiros ensonados) Eu só quero o meu computador...

evva

terça-feira, maio 02, 2006

What animal were you in a past life?




You Were a Porcupine



You have created your own path in life, and you encourage others to do the same.

Even as life progresses, you always maintain a sense of wonder and innocence.




Eu sabia! Não se aproximem demasiado...

evva

O novo Profeta

Depois do gás natural e do petróleo,
Evo Morales anuncia mais nacionalizações

Conheço muito boa gente que adorava emigrar para o paraíso na terra que este senhor está a construir.
evva

E por falar em grandes amigos...


Parabéns, Isabel!


É uma honra partilhar contigo grandes e pequenas demandas.

evva

Bem-vindo, Edgar!


Já nasceu o cavaleiro desejado. Parabéns aos papás babados, dos melhores amigos do mundo. A Martinha ainda não tem pressa, mas já podemos começar a tratar dos esponsais.

evva

Por que é que Tom Waits não canta nos meus sonhos?

You can never hold back Spring
you can be sure that i will never
stop believing
The blushing rose will climb
Spring ahead or fall behind
Winter dreams the same dream
Every time
you can never hold back springs
even thought you've lost your way
the world keeps dreaming of spring
So close your eyes
Open your heart
To one who's dreaming of you
You can never hold back spring
Baby
Remember everything that spring can bring
You can never hold back spring

Tom Waits
[evva]

segunda-feira, maio 01, 2006

VIVA O BOB!


«Eu sou o Bob
Construtor!

Eu sou o Bob
TRABALHADOR

evva

ABAIXO O NODDY!


«Não há pachorra para o Noddy
Já ninguém o consegue aturar...»
(trautear ao som da música da série)

Já não há paciência para a histeria em torno deste boneco tresloucado, perito em entrar a assapar nos cruzamentos da Cidade dos Brinquedos e em destruir os jardins e as cercas das casas dos amigos sempre que pega no carro.

evva


P.S.: Pena é ser Enid Blyton a autora deste disparate, logo ela que foi uma das heroínas da minha infância.

Um dia para não feriar

TOCA A TRABALHAR, QUE É PARA ISSO QUE AQUI ESTAMOS!

evva

Agora levantas-te tu, agora levanto-me eu

(Foto via arquivos d' A Cidade Surpreendente)


Se há pormenor que absolutamente me irrita na Casa da Música são as 'cómodas' cadeiras da Sala Guilhermina Suggia. Há um ano que assisto a concertos naquele espaço e só hoje consegui acertar com a posição das malfadadas cadeiras, que seguramente custaram uma fortuna. Ora acontece que é humanamente impossível um espectador conseguir manter-se imóvel durante as quase duas horas que normalmente dura um concerto. Assistimos então ao hilariante espectáculo dos que se levantam ligeiramente (quando pretendem mudar a posição das pernas, ou apenas mover-se uns milímetros), seguram a cadeirinha com as mãos para que não fuja e voltam a sentar-se sustendo a respiração, rezando para que o confortável assento deslize para a posição correcta. O que nem sempre acontece e minutinhos depois a complexa manobra repete-se. Sinceramente, não consigo perceber como é que os Assistentes conseguem disfarçar o riso e ainda ninguém se lembrou de reparar o ridículo.

evva
P. S.: Onde será que armazenaram as cadeiras dos cinemas Lumière?

«Prepara-te, que nunca mais vais esquecer este concerto»

Assim dizia um dos privilegiados que tiveram a oportunidade única de assistir ao que foi provavelmente um dos melhores concertos que se hospedaram na Casa da Música. Estava sentado atrás de mim, na quarta fila da plateia, e durante quase duas horas trauteou, enlevado, as notas que Abdullah Ibrahim criava.
Teve tudo, este concerto. A entrega desmedida do septuagenário, em comunhão perfeita com o piano. As exclamações que ouvimos nos discos e cds, de quem tira um prazer absoluto da música que executa. A inesperada condução e interligação das músicas, que é do melhor que o jazz tem. Aquele trecho do Desert Flowers, leitmotiv imprevisto e desejado. O último tema, em que me pareceu ficar magistralmente suspensa uma nota... Conhecem aquela sensação de certas músicas que ludribiam a nossa expectativa e quando pensamos chegado o momento do arrebatamento a nota não surge e nos deixa na ânsia do quase?

Abdullah Ibrahim, num concerto em Stuttgart


No final, com gestos de rara humildade, Ibrahim agradeceu as palmas e a plateia em pé, rendida, como se não merecesse tamanha consideração e estima. Nós é que não te merecemos, Abdullah. E continuo à espera daquela nota.


evva

domingo, abril 30, 2006

The south african piano of Abdullah Ibrahim


Hoje à noite, a Casa da Música acolhe um concerto a solo do pianista de jazz Abdullah Ibrahim. Ouvi-o pela primeira vez em 22 de Abril de 2003, nesse espaço singular que é o Tapado, em volta de uma lareira acesa a degustar um tinto de eleição, música excelente e conversas intermináveis pela madrugada dentro.
O Tapado é um dos meus recantos preferidos e hoje à noite, pelas 22h, mais do que a música singularemente intimista e extraordinária de Abdullah Ibrahim que então gravei num cd e que toca em praticamente todos os jantares que se organizam cá em casa, naquele momento em que depois de repasto os corpos se afundam nos sofás a saborear um bom uísque (I hope...), vou celebrar esse lugar único e os que o construíram e habitam e me fazem sempre renascer a cada encontro.

evva

DEFINIÇÃO DA MOÇA



Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do quando nua?

como possuí-la
quando está desnuda
se ela é toda chuva?
se ela é toda vulva?

Ferreira Gullar, Obra Poética, Edições Quasi, 2003, p. 496.

[evva]

Adenda: Oops, esqueci de agradecer a quem me deu a conhecer pela primeira vez o poeta excepcional que é Ferreira Gullar. Sorry, Dulce, não sei se vou conseguir devolver-te o livro...

sábado, abril 29, 2006

Do 25 de Abril

Ainda a propósito do 25 de Abril (é como o Natal, há datas que se comemoram sempre que o homem quiser...), vejam o que se passou no programa da manhã liderado pelo Sr. Manuel Luís Goucha neste 25 de Abril.
Sucedeu que as duas convidadas do dia (pertinentíssimas para a data!), Lili Caneças e Cinha Jardim, partilharam as suas ilustres opiniões sobre o dia da Liberdade. E já estou como o outro, todos gostam de dar as suas «opiniães», pois não pagam imposto nem exigem sabedoria de quem as profere. O caso que me ocorre, todavia, comentar, é a questão das palmas do estimado público convidado pelo programa: Lili Caneças dizia que se hoje ainda há pobreza em Portugal, antes do 25 de Abril o povo realmente passava sérias dificuldades e muitas misérias que obrigaram a uma emigração massiva, e que hoje há a liberdade para expor estas questões, coisa que não era permitida durante a ditadura. Ó tempora! Ó mores! De facto, os aliados podem por vezes encontrar-se junto das pessoas mais insuspeitas! Qual a reacção do público do programa? Nem uma única palma! Comentário da tia Cinha: o 25 de Abil foi responsável pela descolonização, pela miséria de muitos retornados (que aí exploravam os autóctones e as riquezas naturais..., comentário meu), pela morte de sua mãe(certamente de desgosto, pois as únicas mortes desta revolução poética foram causadas pelos PIDES, comentário meu), etc, etc. Reacção do público: estrondosas palmas!
Ah! Que não se diga não haver por aí muitos saudosos do antigamente, e não apenas entre aqueles que realmente saíram economicamente prejudicados pela mudança para a democracia! Entre a gente ignorante e pobre também se encontram muitos nostálgicos do 24 de Abril, permanecendo na ignorância em que o Salazarismo os quis (e parece ter conseguido) manter. Citarei a Bíbila, «Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!», ou Sophia, «Senhor, perdoai-lhes, porque sabem o que fazem?»

Cristina Costa Vieira

Vermelho é meu sangue e meu coração...

Não tenho sangue azul. Aliás, ninguém tem sangue azul...
Desde que há 33 anos a minha mãe ME DEU À LUZ,
todo o sangue que percorre meu corpo é vermelho.
E o sangue é que me faz viver, e a vida é que me faz sonhar,
e o sonho é que me faz crer que...
PARA O ANO A ÁGUIA HÁ-DE SER A RAINHA DOS CÉUS,
AFUGENTAR OS LEÕES NA TERRA,
E BICAR DOLOROSAMENTE OS DRAGÕES.
ESPEREM LÁ...
ESSE ANIMAL NEM SEQUER EXISTE

Com fair-play
(Este ano mereceram!)

HENRIQUE

Splendour in the air


O meu maior sonho sempre foi ser bailarina. Uma homenagem aos que conseguiram galgar a montanha de obstáculos que uma tal escolha implica e, uma vez lá em cima, lançarem-se no ar. Só quem tem música e ritmo dentro de si entende a sensação absolutamente única que é mover-se assim.

evva

quarta-feira, abril 26, 2006


Il n'y a de réellement obscènes que les gens chastes.

Joris-Karl Huysmans


[evva]

terça-feira, abril 25, 2006

25/04/74

O 25 de Abril pode ser apenas uma data, tal como qualquer outra que se considera importante. Pode ser um motivo de amuo ou de frustração para muitos que gostariam que o futuro tivesse sido outro.
Infelizmente não é razão suficiente para o povo português vir para as ruas celebrar, tal como faz a propósito da vitória do seu clube na primeira liga.
Mas também digam-me lá, de entre as mais importantes para a memória histórica do país, quais as celebrações que o povo reconhece como suas?
Felizmente há uns quantos que sorriem pelo facto de poderem estar a escrever e a falar livremente, e pelo facto de haver ainda pessoas que ainda não entenderam por completo o facto de que a sua frustração não advém do que se passou a seguir mas sim do facto não saberem exactamente o que esse futuro lhes vai trazer. O drama da insegurança e do medo, tão bem retratado naquele desenho animado do filme “Bowling for Columbine” de Michael Moore.
Obrigado Isabel, obrigado Filipe.
Felizmente vamos poder continuar a sorrir. Sorrateiramente. Para não ofender.

andré

Desculpem, mas não resisto a citar...

«Trincheiras

Os meus amigos de direita estão sempre em desacordo com os meus amigos de esquerda. Ou melhor, os meus amigos de esquerda fazem questão de estar permanentemente em confronto com os meus amigos de direita.
A hostilidade vem sempre do lado onde o sentido de humor escasseia.»
(via A Origem das Espécies)


Ah, que falta faz O Acidental!
Eu adorava ter mais amigos de direita, a sério que gostava. O que não quer dizer que certos Amigos de esquerda (pelo menos aqueles a quem posso designar por tal) não deixem de ter algum sentido de humor.

evva

O que eu hoje vou realmente comemorar


A minha irmã chegou à idade de Cristo. Parabéns, Xaninha!

evva

25 de Abril de 1974

Sem recorrer a opiniões mais ou menos credíveis de mais ou menos sumidades (sumidas ou a sumir-se...) para mim, mesmo correndo o risco de cair no cliché, hoje comemora-se a liberdade. A liberdade que se conquistou pelas mãos de homens e mulheres que estavam cansados de não poder falar, de não poder fazerloucuras, mais ou menos sérias, de não poder exigir salários justos, de não poder, se lhes apetecesse, sair do país. Homens e mulhers cansados de serem perseguidos só porque o vinho e o pão não lhes era suficiente. Porque acreditavam e criam em algo melhor. Melhor do que a bacoquice dos três Fs! Porque não acreditavam em padrões!
O que se fez ou faz hoje dessa liberdade é discutível. E ainda bem! Foi isso o 25 de Abril!!!! O tornar possível posts como o anterior e os comentários que lhe estão adjacentes.
Para mim, que não o vivi, mas que o sinto e respeito como um dia pleno de significado, o 25 de Abril é sinónimo de sonho, de construção. Claro que todos os sonhos e construções são imperfeitos... Mas ser sonho é sinónimo de pensamento, coisa que antes desta data não deveria passar disso mesmo: de pensamento escondido.
Claro que a seguir houve perseguições. O ser humano é mesquinho... anseia, pela sua natureza primária, vingança. Mas por mais cruel e injustificada que a violência da esquerda fosse, o que se chama à bacoquice (sim, repito o termo de propósito) pseudotirana do regime?
E quanto a brilhantes gestores, economistas e outras coisas acabadas ou não em istas, creio que ainda hoje se podem encontrar uns quantos... talvez menos escol, mas mais gente. Gente que quis falar, sonhar, bem ou mal não importa, mas que se recusou a ficar entorpecida
Por isso, hoje, colho um cravo vermelho e com muito, muito, muito orgulho escuto a grândola de lágrima no olho pelo profundo respeito que esta data me inspira. Porque me permite isso: sair à rua, com um cravo vermelho. Porque sou livre para o fazer.
25 de Abril, sempre!
Isabel Sofia

O que hoje se comemora

Subscrevo, mas não na íntegra (daí não linkar, mas apenas apresentar um excerto), este post de Karloos, no Small Brother:

«25 de Abril
Faz hoje trinta e dois anos que um grupo de soldados decidiu que não queria ir para uma guerra imbecil, e que a única forma de o evitar era acabar com um regime. O regime estava podre e sentia-se que ao primeiro abanão cairia. O regime caiu naquilo que se convencionou chamar a revolução da liberdade. Muitos pensaram que seria, efectivamente, a revolução da liberdade e da democracia, mas cedo se concluiu que aqueles que tomaram a revolução para si pouco sabiam de liberdade e não gostavam de democracia. A liberdade surgiu, sim, mas só para alguns.
Os anos que se seguiram à revolução foram de perseguições tão más ou piores do que aquelas que tinham sido feitas durante a ditadura. A revelação dos nomes dos informadores da PIDE provocou uma chacina em muitas zonas rurais e mesmo aqueles que mais tarde vieram a provar-se inocentes tiveram a sua vida arruinada. Os que de alguma forma tiveram sucesso antes de Abril foram perseguidos, chamados de fascistas, nem Amália Rodrigues escapou. Entre os empresários havia muitos que tinham enriquecido graças ao regime, mas muitos também pelo seu trabalho e parcimónia: todos acabaram expulsos do país, expurgados da sua riqueza. Nos meses seguintes à revolução o país viu sair os melhores gestores e técnicos, aqueles que podiam dar um rumo ao país, criar alternativas. O resultado foi que em 1976 o país estava muito mais pobre e a classe operária iria reparar que apesar de receberem muito mais, podiam comprar muito menos.
Quanto ao sentido de democracia de quem se apoderou da revolução, penso não haver grandes dúvidas. Em entrevista a Oriana Falacci, Álvaro Cunhal disse (entre outras coisas): “Nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (...) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria (…) Estou a dizer que as eleições não têm nada, ou muito pouco, a ver com a dinâmica revolucionária (...) Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento (...) Nós, os comunistas, já tínhamos afirmado aos militares que o PPD não devia estar presente [nas eleições], que não se podia conduzir o país ao socialismo por meio de uma ampla coligação democrática. Mas eles quiseram juntar socialistas, comunistas, sociais-democratas e as diversas correntes do MFA... Tínha-mo-los avisado de que as eleições constituíam um perigo, que eram prematuras, que se não se tomassem precauções as perderíamos (…) Democracia para mim significa liquidar o capitalismo, os monopólios. E acrescento: não existe hoje em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental”. Quando se apoderaram da revolução, os comunistas não queriam a democracia, queriam voltar o regime ao contrário e durante algum tempo conseguiram-no. O 25 de Abril não foi a revolução da liberdade nem da democracia. (...)»

Sublinhados meus. Ando há anos a repetir o que acabo de citar, mas até os mais esclarecidos se recusam a ouvir.

evva

Play it again, Sam



A minha tem um cabo madrepérola e a lâmina sempre afiada. Para os que se atreverem a dizer que estamos perante os novos Joy division.

evva

Comoção


Extraordinária a surpresa que a RTP proporcionou esta noite, ao transmitir o último concerto de Zeca Afonso no Coliseu (1983). Apesar de alguns elementos da assistência merecerem estar presos (e uma certa irritação quase involuntária por pouco me fazia mudar de canal cada vez que os filmavam, de cravinho na mão), e sem querer deixar de realçar a já tradicional polidez indígena no adequado uso dos aplausos (então aquela 'malta' não sabe que não se interrompe um Fado de Coimbra com palmas?), que memórias desfilaram ao escutar a voz trémula e embargada de um José Afonso já claramente debilitado... O meu tio Adriano, de olhar azul maroto, a dedilhar e a cantar a Balada de Outono ("Águas das fontes calai/ Ó ribeiras chorai/ Que eu não volto a cantar"), as noites adormecidas ao som da Canção de Embalar e todas as músicas que integraram a banda sonora despolitizada da minha infância, mais preocupada em cantarolar os refrães do que inquirir do seu significado profundo.
Confesso que desliguei no final para não ouvir a irritante Grândola, mas o que me ficou deste concerto único foi nele entrever uma certa (certeira?) imagem do 25 de Abril hoje, velho, doente e anacrónico. Haverá ainda motivo para comemorações?

evva

domingo, abril 23, 2006

Questões de geografia


Não posso deixar de concordar com o coro de vozes que por aí grassa e indignar-me com a cobertura televisiva da vitória do Futebol Clube do Porto no campeonato. Se fosse um desses clubezecos que lutam (?) pelo segundo lugar, interrompiam-se emissões com directos vários, abriam-se telejornais e alongavam-se reportagens.
Acredito que a visibilidade que o fenómeno futebolístico tem nos media nacionais é um claro sinal do atraso do país, conto refugiar-me numa ilha durante o próximo campeonato do mundo, a aguardar que a 'selecção' tropece logo na primeira fase para nos livrarmos do estado catatónico e começarmos a pensar em coisas sérias e abomino visceralmente o discurso norte-sul incendiário do inconsequente Jorge N. Pinto da Costa (responsável, entre outros quejandos, pelo meu crescente desinteresse por futebol), mas é em situações como esta que por vezes não deixa de fazer sentido. Parafraseando um post blasfemo, CURVEM-SE PERANTE A GLÓRIA DO GRANDE DRAGÃO!

evva

O Livro

(O Livro e o Beijo; Dante e Virgílio no Inferno observando os dois amantes assolados pelo vento infernal)
Paolo e Francesca de Rimini, Dante Gabriel Rossetti

No Canto V d' O Inferno, justamente intitulado 'Os Luxuriosos', Dante classifica a lascívia como o menos grave dos pecados, colocando-o no círculo mais externo (por curiosidade, na visão do próprio Dante, é coincidentemente o mais grave dos pecados por si experimentados). O castigo condena o pecador a ser eternamente arrastado por uma espécie de furacão. É neste passo que Dante evoca os amores adúlteros e funestos de Francesca de Rimini, filha do Duque de Polenta, e Paolo Malatesta, transformado em eterno parceiro no turbilhão infernal, duplo do vento passional que os arrastou em vida.

Os amantes foram mortos no momento em que liam o episódio onde Lancelot, apaixonado por Genevra (consorte de Artur), é induzido a beijá-la por Galeote. Paolo e Francesca perdem-se também num beijo e são surpreendidos pelo marido e irmão traído, Gianciotto Malatesta. Corria o ano de 1289.

Na Comédia, Francesca narra o esforço de ambos para resistir ao pecado. A tudo resistiram, de facto, excepto à sedução despertada pela leitura:


Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa 'l tuo dottore.

Ma s'a conoscer la prima radice
del nostro amor tu hai cotanto affetto,
dirò come colui che piange e dice.

Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.

Per più fiate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.

Quando leggemmo il disiato riso
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,

la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu 'l libro e chi lo scrisse:
quel giorno più non vi leggemmo avante.

[evva]

P.S.: Não tive oportunidade (nem tempo) de procurar o excerto que Paolo e Francesca liam. Fica para mais tarde.

Uma paixão

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Al Berto

[evva]

AMADEO MODIGLIANI & JEANNE HÉBUTERNE

amadeo:
certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
- bebes para te matares.
e eu perguntei-lhe:
- e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.

jeanne:
soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amadeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.

amadeo:
jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.

soutine:
a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amadeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele.

Al Berto

["Olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo que se vira para o interior", disse a historiadora Helena de Freitas de um outro “Retrato de Jeanne Hébuterne”, mas que se aplica quase exemplarmente a todos os retratos que Amedeo Modigliani pintou da sua última musa.
Modigliani realizou um "trabalho obsessivo sobre o corpo da mulher, a partir do conceito de idealidade e de decifração de um enigma feminino". Artista de paixões e (des)encontros, alimentou "o mito do pintor boémio". Mas "não se limitava a pintar os seus modelos" - as mulheres tornam-se "imagens de devoção e, mesmo nas representações mais abstractas, percebe-se a intensa relação do artista com a ideia de modelo." A historiadora chama-lhes "fetiches de felicidade ou de plenitude".

Modigliani "atinge um nível de caracterização extrema da figura - o rosto da mulher é o resultado dessa síntese, tentativa de seleccionar linhas puras, contornos certos". O espaço de representação é "restrito e magnetizado por campos de cor intensos". E mais não é do que o "cenário de um jogo entre quem pinta e quem se deixa pintar".
Essa tensão "quase hipnótica" passa "intensamente" pelo olhos - "neste olhar esvaziado como uma lâmina de vidro, não é de cegueira que se trata, mas da representação abstracta de um olhar introspectivo e dominado, que se vira para o interior". Escreveu o pintor: 'A beleza tem seus direitos dolorosos: cria, porém, os mais belos esforços da alma'.
Em 24 de janeiro de 1920, Modigliani morre no Charité de Paris, vítima de tuberculose. No dia seguinte, grávida de nove meses, Jeanne Hébuterne suicida-se. Uma grande multidão assiste ao funeral de ambos no cemitério de Père Lachaise.

A 11 de Maio de 2006 estreia o filme Modigliani , de Mike Davis, com Andy Garcia, Elsa Zylberstein e Omid Djalili.

evva]

sábado, abril 22, 2006

Pura poesia



Oh meu Porto onde a eterna mocidade
Diz à gente o que é ser nobre e leal
Teu pendão leva o escudo da cidade
Que na história deu o nome a Portugal

Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto

Quando alguém se atrever a sufocar
O grito audaz da tua ardente voz
Oh, Oh, Porto, então verás vibrar
A multidão num grito só de todos nós

Oh campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto, Porto, Porto
Porto, Porto



evva

sexta-feira, abril 21, 2006

Hoje...


decidi abandonar por um dia os manuscritos e dedicar-me a livros impressos

evva

quinta-feira, abril 20, 2006

A Morte convida...


Filme de diálogos extraordinários e fotografia de uma beleza perturbadora, difícil de igualar, O Sétimo Selo (1956, Ingmar Bergman) passa hoje pelas 19,30 no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito do ciclo A Idade Média no Cinema.

A projecção será seguida de um debate dinamizado pelos Professores José Carlos Miranda (Literatura Medieval) e Serge Abramovici (Literatura Francesa). Imprescindível a qualquer cinéfilo que se preze, este jogo de xadrez inquietante e magnífico.

evva

quarta-feira, abril 19, 2006

Calla lily, Zantedeschia aethiopica


Estas são das minhas flores preferidas e que actualmente ornam duas jarras cá em casa. Ando há mais de um mês a espiar atentamente os canteiros do meu pai, ansiosamente à espera da floração, que este ano tardou muito. Elegantes e muito sensuais, quase fálicas, gosto de colocá-las sobretudo no quarto, apesar de serem tóxicas (encerram ráfides de oxalato de cálcio e saponinas, não aproximar os olhos ou a boca...).


O que pensamos ser a flor, não são mais do que folhas transformadas em cálice, que contêm no seu interior milhares de verdadeiras flores.

evva

terça-feira, abril 18, 2006

Segredo


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta
Minha Senhora de Mim, Gótica, 2001 (5ª edição)

[evva]

domingo, abril 16, 2006

Marcelo's new girl

Aleluia!
Arranjaram uma nova partenaire para o programa "As escolhas de Marcelo". Como não sou espectador regular (na verdade quase nunca o vejo) não sei se a Maria Flor Pedroso já lá está há muito ou não.
Mas está bem.
Sempre me pareceu que o programa era um sofrimento quer para a Ana Sousa Dias, que parecia estar a fazer o frete, quer para o Marcelo Rebelo de Sousa, que me parecia entediado pelo frete da senhora.
Deixem a Ana Sousa Dias com as entrevistas que ela faz tão bem na 2:, e deixem o "Acelerador de Particulas" com quem gosta ou parece gostar de o aturar. Para além do mais, a Maria Flor Pedroso (cuja competência aprecio) é, ao contrário da sua colega, uma jornalista da política e sabe manter aquela pose de confronto controlado típico deste tipo de jornalistas.
Vai, vai Ana que estás perdoada.

andré

Splendor in the grass

"No nice girl feels like that."

Não me interessa se Elia Kazan foi ou não um delator, para mim há-de ser sempre um dos melhores realizadores do século XX. Basta olhar a sua filmografia e as obras-primas com que a 2: nos tem brindado aos sábados a horas tardias. Já rever East of Eden havia sido intenso, mas que dizer de Splendor in the grass, em que Natalie Wood tem em Deanie Loomis a interpretação da sua vida? Asolutamente arrebatador.

Alguém consegue esquecer aquele final em que Deanie recorda os versos de Wordsworth da Ode on the Intimations of Immortality?

"Though nothing can bring back the hour
of splendour in the grass,
of glory in the flower,
we will grieve not,
rather find strength in what remains behind."

E não resisto a evocar, uma vez mais, os versos que Ruy Belo dedicou a uma das mais belas e frágeis personagens do cinema.

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, O Bosque Sagrado
(colectânea de poemas sobre cinema)


evva

P.S.: Não, não perdoo aos que sabiam que ele ia passar na 2: e 'esqueceram-se' de avisar, fazendo-me perder os primeiros 20 minutos de filme!

sábado, abril 15, 2006

A noite em que descobri Chloris

Lembram-se daqueles serões dos romances de Jane Austen, em que uma voz cristalina sentada ao piano entoa as mais belas melodias? Ontem tive uma noite assim, encantadora, no Clube Literário do Porto. Obrigada, Catarina Sereno (soprano) e Joana Resende (piano), que melhor companhia para uma noite de tempestade?
Apesar de só ter chegado na segunda parte do recital, tocou-me maravilhosamente esta canção de Reynaldo Hahn (1875-1947), amante de Proust, um dos poucos a ousar defender publicamente Dreyfus no célebre affair (o que fez com durante anos e até mesmo depois de reconhecida a inocência fosse alvo de pateadas), director da Ópera de Paris a partir de 1945, depois da sua música ter sido proibida durante o regime de Vichy.
Por que não são assim todas as noites de chuva, sem o ruído da televisão, em volta de um piano e de uma voz tão bonita? Até a chuva se torna agradável. Fiquem com À Chloris, poema de Théohile de Viau (1590 -1626), conhecido pelo seu ateísmo e os versos licenciosos (a melodia, que mais uma vez não consegui postar, é uma infinitamente bela homenagem a Bach e consegue-se até ouvir no leit motiv umas notinhas das Variações Goldberg):

S'il est vrai, Chloris, que tu m'aimes,
Mais j'entends, que tu m'aimes bien,
Je ne crois pas que les rois mêmes
Aient un bonheur pareil au mien.
Que la mort serait importune
De venir changer ma fortune
A la félicité des cieux!
Tout ce qu'on dit de l'ambroisie
Ne touche point ma fantaisie
Au prix des grâces de tes yeux.

Cloris prestes a ser raptada por Zéfiro, na Primavera de Botticelli

[evva]

sexta-feira, abril 14, 2006

Sexta-Feira Santa

AQUI ESCOMIENZA EL DUELO QUE FIZO LA VIRGEN MARIA EL DIA DE LA PASION DE SU FIJO JESUCHRISTO
(...)
Conviene que fablemos en la nuestra privanza
Del pleito del mi duelo, de la mi mal andanza,
Commo sufri martirio sin gladio e sin lanza,
Si Dios nos aiudara fer una remembranza.

Fraire, verdat te digo, debesme tu creer:
Querrie seer muerta mas que viva seer;
Mas al Rey del çielo nol cadió en plaçer,
Oviemos del absinçio larga-mente a beber.

Con rabia del mi Fiio, mi padre, mi sennor,
Mi lumne, mi confuerto, mi salut, mi pastor,
Mi vida, mi conseio, mi gloria, mi dulzor,
Nin avia de vida nin cobdiçia nin sabor.

Tant era la mi alma cargada de tristiçia.
Non avia de vida nin sabor nin cobdiçia,
Qui fablarme quissiesse palabras de letiçia.
Non serie de buen sesso, nin sabrie de iustiçia.

Vediendo al mi Fiio seer en tal estado,
Entre dos malos omnes seer cruçifigado,
El mal non mereçiendo seer tan mal iudgado,
Ia nunqua podie seer mi corazon pagado.
(...)
Fiio dulz e sombroso, tiemplo de caridat,
Archa de sapiençia, fuente de piedat,
Non desses a tu Madre en tal soçiedat,
Qua non saben conoçer mesura nin bondat.

Fiio, tu de las cosas eres bien sabidor,
Tu eres de los pleitos sabio avenidor,
Non desses a tu. Madre en esti tal pudor
Do los sanctos enforcan e salvan al traydor.

Fiio, siempre oviemos io e tu una vida,
Io a ti quissi mucho, e fui de ti querida:
Io siempre te crey, e fui de ti creyda,
La tu piadat larga ahora me oblida.

Fiio, non me oblides e lievame contigo,
Non me finca en sieglo mas de un buen amigo,
Iuan quem dist por fiio, aqui plora conmigo:
Ruegote quem condones esto que io te digo.

Ruegote quem condones esto que io te pido,
Assaz es pora Madre esti poco pidido:
Fiio, bien te lo ruego, e io te me convido
Que esta petiçion non caya en oblido.

Recudió el Sennor, dixo palabras tales:
Madre, mucho me duelo de los tus grandes males,
Muevenme tos lagrimas, los tus dichos capdales,
Mas me amarga esso que los colpes mortales.

Madre, bien te lo dixi, mas aslo oblidado,
Tuelletelo el duelo que es grant e pesado.
Porque fui del Padre del çielo enviado
Por reçibir martirio, seer cruçifigado.
(...)
Madre, cata mesura, atiempra mas to planto:
Madre, por Dios te sea, non te crebrantes tanto.
A todos nos crebantas con essi tu quebranto:
Madre, que tu lo hagas por Dios el Padre sancto.

Disso la Madre: Fijo, lo que vos me fablades,
Quomo de muert a vida asi me revisclades,
Con esso que diçides mucho me confortades,
Qua io bien veo que vos por todos nos lazdrades.
(...)
Madre, disso el Fijo, de oy a terçer dia
Seré vivo contigo, verás grant alegria,
Visitaré primero a ti, Virgo Maria,
Desende a don Peidro con la su compannia,

Madre, de ti con tanto me quiero despedir,
Todo te lo e dicho lo que he de deçir.
Inclinó la cabeza commo qui quier dormir,
Rendió a Dios la alma, e dessóse morir.

Gonzalo de Berceo (séc. XIII)

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quinta-feira, abril 13, 2006

Parte do problema da França



Estátua de Charles de Gaulle nos Champs-Elysées em Paris onde se pode ler: Il y a un pacte vingt fois seculaire entre la grandeur de la France et la liberté du monde.

andré

Tempo lento


Foi um dia a pousar de café em café ao rítmo de um livro e da disposição.
A poesia da contemplação transmite um misto de tranquilidade pelo tempo que também é nosso, e de culpa, pelo luxo de o poder usar desta maneira.
Mais do que tudo, a dupla satisfação de poder fugir à opressão do trabalho, da produção, e do progresso, e de conseguir disfrutar da calma e da paz que está tão perto mas que mesmo assim é muitas vezes difícil de encontrar.

andré