terça-feira, junho 13, 2006

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935)


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

[evva]

A melhor cobertura do Mundial

RCP ONLINE.

evva

Leitura fundamental

«A ESCOLA

Quando entrei para o liceu, em 1973-1974, havia um reitor, livros de ponto para os professores e faltas para os alunos. Mau comportamento, por exemplo, era uma falta - grave - e dava direito a ser expulso da aula, e, em casos mais sérios, do liceu. O liceu, o D. Pedro V de Lisboa, era tido por "progressista". Apesar disso e das balbúrdias do PREC, manteve-se sempre, tanto quanto me lembro, um módico de disciplina. As novas "pedagogias" que entretanto foram sendo introduzidas nos infantários e nas escolas primárias, assentes sobretudo na consideração da criança como um bibelot a quem só se pode falar, ensinar jogos idiotas e a dormir umas sestas, mud[aram] radicalmente a noção de aluno. Sem ela, a disciplina caiu na rua. O aluno passou a ser visto quase como um utente de um serviço público - a escola -, só com direitos, e não alguém sujeito a um código disciplinar de direitos e de deveres. Por consequência, a função do professor foi sendo desvalorizada e, agora, chegámos ao rídiculo de termos pais e alunos a sovarem metodicamente os docentes. É preciso também atentar na geração paternal, a maior parte dela constituída pelos "filhos de Abril" a quem notoriamente faltou um berço e, em tantos casos, "educação" e sentido cívico. Sem autoridade, as escolas públicas - os liceus - soçobram mais tarde ou mais cedo na pura anarquia. Excitar a ignorância contra os professores, metendo tudo no mesmo saco, revelar-se-á a curto prazo desastroso. A ministra da Educação (...) deve igualmente prestar atenção aos alunos e não permitir o verdadeiro assalto que alguma boçalidade familiar se permite fazer às escolas em nome dos sagrados direitos dos broncos dos filhinhos. Não há que ter medo das faltas por mau comportamento e da expulsão de delinquentes das escolas pagas pelo dinheiro dos contribuintes. Caso contrário, a autoridade - da instituição e dos professores sobre os alunos - jamais conseguirá impôr-se num lugar - a escola - onde verdadeiramente tudo começa ou tudo pode acabar.»

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, um blog de leitura diária. Os sublinhados são meus e do texto retirei uma frase de que discordo. Ler também este excelente post que João Gonçalves publicou no terceiro aniversário do blog.

evva

segunda-feira, junho 12, 2006

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
--- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder

(há uma versão lindíssima deste poema, dita pelo autor, e com arranjos musicais dos Poetas, um projecto poetico-musical de Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro, Margarida Araújo, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro)


andré

Angola-Portugal

Pronto, confesso: lá me sentei durante duas horas em frente à televisão a ver o jogo. E até trauteei o hino, naquela parte dos 'egrégios avós'. Claro que vibrei com a jogada do Figo e o golo do Pauleta, mas a meio da primeira parte já estava a torcer por Angola, para irritação de muitos presentes. Afinal, Angola é nossa ou não?
Mas do que mais gostei foi do equipamento da selecção angolana, lindo de morrer (ainda bem que não se inspiraram naquela bandeira horrorosa), e da franjinha do Loco. A minha mãe achou o Figueiredo 'muito jeitoso' (???), apesar das madeixas, e desconfio que vai ser a sua desculpa para assistir aos próximos jogos, agora que este senhor deixou de apitar.


evva

Para a Isabel

No seguimento da conversa do almoço de sexta-feira:

«É muito mais importante ler poucos livros muitas vezes, do que ler muitos livros uma única vez»

Abel Barros Baptista, idem.

[evva]

Acrescentar-lhe-ia também os bons filmes

«Um livro só é livro se exigir uma segunda leitura. Se for para ler só uma vez não conta».

Abel Barros Baptista, citado de memória, na entrevista pessoal e transmissível de Carlos Vaz Marques. O link (demorado, exige um pouco de paciência) surge já aí abaixo. Imprescindível.

evva

domingo, junho 11, 2006

Como eu gostava que todos os médicos fossem capazes de fazer isto…

“Nós temos que sofrer um bocadinho com o doente para o podermos compreender, temos de entrar um pouco na vida do doente, sofrer com ele e regressar depois ao papel de médico”
Pedro Afonso, psiquiatra em entrevista Pessoal e Transmissível com Carlos Vaz Marques na TSF

PS: para os admiradores de Abel Barros Batista, aqui vai o link para a sua entrevista.


andré

PARABÉNS

Ao Tarzan Boy pelo post 500. Venham mais 500 para continuar a celebrar a melhor década da música e o seu kitsch inconfundível. Aqueles penteados...

evva

A escutar com atenção, repetidas vezes

José Pedro Gomes, nos Cromos TSF, sobre os subsídios ao Teatro e a avaliação dos professores pelos pais dos alunos.

evva

Ainda não consegui decidir se vou ou não vaguear pela Feira do Livro durante os 90 minutos do jogo de logo. É tentador. Mas corro o perigo de encontrar alguns stands fechados, se calhar aqueles que não interessam a ninguém.

evva

Alterava propositadamente as horas dos seus posts, para que ninguém desconfiasse que passava os sábados à noite em casa, sozinho, frente ao computador.

evva

sábado, junho 10, 2006

Portugueses...

Estação de Campanhã, manhã de sexta-feira.

As recentes obras de remodelação do largo da estação praticamente eliminaram os lugares de estacionamento, com a abertura do parque subterrâneo. Como ia buscar uma amiga um pouco carregada, parei o carro por momentos em segunda fila naqueles lugares mesmo em frente às 'Entradas'. O carro à minha direita sai e estaciono no seu lugar. Eis senão quando um troglodita ao volante de um topo de gama descapotável, provavelmente furioso por ter-lhe ocupado um hipotético lugar, faz marcha atrás desde lá do fundo, onde também parara em segunda fila, e bloqueia-me a saída no mesmo instante em que a minha amiga entra no carro. Já se preparava o energúmeno para sair, a falar ao telemóvel, e deixar-me o bólide estatelado ali ao lado, mas lá lhe pedi e repedi encarecidamente para chegar o carro à frente, para que eu pudesse libertar-lhe o lugar de estacionamento. Como falava ao telemóvel só à quarta ou quinta vez é que me deu atenção, mas juro que da próxima vez chamo o reboque da Psp para me tirar a carroça da frente.
evva

domingo, junho 04, 2006

desabafos

Uma sugestão para os promotores do Plano Nacional de Leitura:

- permitir aos professores de português dos Ensinos Básico e Secundário o regresso aos 'clássicos' da literatura universal na sala de aula, em vez de obrigar ao cumprimento de um quilométrico 'programa' que inclui os famigerados 'Textos do Domínio Transaccional' (jargão que designa 'a declaração, a acta, o relatório, o contrato' e outras idiotices que nos fazem perder tempo em vez de ensinar o essencial);

- reduzir a obrigatoriedade da permanência dos professores na escola para as 22 horas lectivas, e não fazer-nos perder tempo em reuniões inúteis, salas de estudo, substituições, horas de biblioteca, etc. É claro que todas estas actividades são imprescindíveis numa escola (excepto aquelas reuniões intermináveis a discutir o sexo dos anjos), mas elas não devem existir sobrecarregando a carga horária dos docentes.

Para ensinar é preciso estudar, muito para além do que se aprende nos cinco anos de licenciatura. É um dos aspectos que mais me agrada nesta profissão, para além do contacto com os alunos, vê-los crescer em maturidade e conhecimentos, capacidade de reflexão e argúcia. Mas para estudar e adaptar os conteúdos à sala de aula é preciso tempo. Tempo de leitura, de selecção de informação, a mais adequada aos alunos que se tem pela frente, a mais actualizada. Os manuais escolares continuam a ser elaborados em função do aluno citadino. O que fazer quando um texto de um manual de sugere a um aluno de uma zona rural que escreva sobre a azáfama das grandes cidades ou sobre a última vez que foi ao cinema? A maior parte deles só pensa em andar de bicicleta pelos campos fora e não é raro encontrar quem nunca tenha ido a um cinema.

Para tudo isto, para ler os textos que os alunos escrevem, para corrigi-los, para poder fomentar o gosto pela leitura, um professor de português precisa de tempo, de um local tranquilo e silencioso. Obrigar os professores a permanecer na escola numa multiplicidade de tarefas, muitas delas burocráticas, é roubar-lhes esse tempo imprescindível. As escolas não têm condições para que os professores possam preparar aulas ou corrigir testes e exercícios. Não têm computadores para professores. Se um professor tivesse uma sala ou gabinete onde pudesse realizar essa parte importante do trabalho de docência, nunca traria trabalho para casa, nunca passaria noites e fins-de-semana inteiros em branco.

Finalmente, para ensinar o prazer da leitura (sim, porque o gosto também se ensina) é preciso amar os livros, a leitura e a escrita. Só há alguns anos percebi que muitos professores de português não gostam de ler ou não gostam de poesia. Na minha santa ingenuidade pensava que todos tinham escolhido a profissão por amor ao saber, ou a partilhá-lo. Puro engano.

evva

Serviço Público

Um muito sincero Obrigada a O Jumento por publicar on-line as crónicas de Vasco Pulido Valente no Público:

«O ETERNO RETORNO

Com eterno retorno, em que se tornou a vida portuguesa, volta a leitura, desta vez com um "plano". Pôr a criançada a ler e o público em geral. Muito bem. A ler o quê? Os "clássicos", dizem. Mas que espécie de "clássicos"? Gil Vicente, Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Eça, Oliveira Martins, Cesário, Pessoa? Infelizmente, não há "clássicos" que se possam ler: tirando a poesia (um caso complicado), um pouco de Eça, de Camilo e Oliveira Martins, quanto muito. E o inevitável Júlio Dinis, se conseguir passar por "clássico" e se alguém hoje o aturar. O facto é que a literatura portuguesa é pobre. Ainda por cima, os "protegidos" do "plano" não a percebem: nunca viram grande parte das palavras, tropeçam na sintaxe, ignoram as referências. Pegue, por exemplo, um dos promotores do "plano" em, por exemplo, Viagens na Minha Terra ou A Relíquia e explique o que lá está (um centésimo basta). Gostava de assistir.
Não conheço muita gente, gente da minha idade, que leia, apesar de uma educação tradicional. Porquê? Porque ler implica um esforço: de atenção, de inteligência, de memória. Ler é uma actividade e a nossa cultura é quase inteiramente passiva. A televisão, o DVD, a música popular ou a conversa de computador não exigem nada, deixam a pessoa num repouso imperturbado e bovino. Mudar isto equivale a mudar o mundo. Não se faz com um "plano". Claro que o romance de aeroporto se continua a vender, e bem: não puxa pela cabeça e vai matando o tempo. Talvez que Miguel Sousa Tavares (300 mil exemplares só em Portugal, mandou ele corrigir) e Margarida Rebelo Pinto levem a melhor. O Estado missionário não leva com certeza a parte alguma. Ou leva, leva a uns milhares de empregos para burocratas, bibliotecários, "mediadores de leitura" (um truque novo) e para a tropa fandanga do costume.
José Manuel Fernandes lamenta que os portugueses não leiam jornais, sentimento que do coração partilho. Mas também não existe em Portugal uma verdadeira discussão política (nem no Parlamento). A sério, a sério, não se discute coisíssima nenhuma: nem o regime, nem a ideologia do regime, nem religião, nem moral, nem moral social, nem sequer os deploráveis costumes da tribo. Porque iria um cidadão comprar sofregamente o jornal? E por que raio de lógica ler Eça e Camilo (que, de resto, execravam jornalistas) convenceria um adulto (ou uma criança) da bondade da imprensa? Desde o "25 de Abril", Portugal sofreu uma série infinita de obras de misericórdia, para chegar ao poço. É altura de acabar com a brincadeira.»



evva

76ª Feira do Livro do Porto

Os Livros do Dia. Aqui.

evva

sábado, junho 03, 2006

What kind of evil are you?

You Are 26% Evil
A bit of evil lurks in your heart, but you hide it well.
In some ways, you are the most dangerous kind of evil.



Ok, assim fico mais descansada, de santinhas de altar está o Inferno cheio. Bem dizia o outro, está-me no sangue...

evva

O MONSTRO



Vasco Pulido Valente, no Público:

«Voltou a discussão sobre a violência na escola. É assunto tão velho que já tresanda. Mas neste país, que não aprende, e nunca aprendeu, é sempre preciso repetir o óbvio. Vêm as desculpas do costume (o "meio social", a "família" e por aí fora). E os remédios do costume (a autoridade dos professores, a participação dos pais, como se eles se ralassem, ou do mirífico dinheiro da "iniciativa privada"). Infelizmente, nada disso leva a parte alguma. Os "reformadores" têm de meter na cabeça uma verdade básica: na prática, o sistema de ensino não permite expulsar, repito, expulsar ninguém e assim, como se depreenderá, qualquer aluno tem a impunidade garantida. Do ministro ao último professor, toda a gente acredita que expulsar um aluno equivale a uma espécie de condenação à morte. Marçal Grilo, uma das pessoas mais deletérias que passaram pelo Governo, reservou para si a autoridade de aplicar essa pena capital e, segundo nos disse depois, ficou muito emocionado e tremente, quando em três casos durante quatro anos não a pôde evitar. Isto quase que significa uma licença para matar, coisa que as criancinhas percebem muito bem.

Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute. Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (como defende o PSD), que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores. Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais; precisa que os pais paguem pelo menos parte da educação dos filhos (mesmo que em muitos casos esse pagamento seja um gesto simbólico).

A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite.»

evva

Ítaca

Se vais iniciar a viagem para Ítaca,
pede que o teu caminho seja longo,
rico em experiências e em conhecimento.
A Lestrígones e a Cíclope,
ou ao irado Poseidon, nunca temas,
não encontrarás tais seres na tua rota
se mantiveres alto o pensamento e limpa
a emoção do teu espírito e o teu corpo.
Nem Lestrígones, nem Cíclope,
nem o feroz Poseidon, encontrarás jamais,
se não os levares na tua alma,
se a tua alma não os colocar diante dos teus passos.

Pede que o teu caminho seja longo.
Que numerosas sejam as manhãs de Verão
em que com prazer, chegues feliz
a portos nunca vistos;
detém-te nos empórios da Fenícia
para comprar as formosas mercadorias,
nácar e coral, ambar e ébano,
e perfumes sensuais e diversos,
quanto houver de aromas deleitosos;
peregrina as cidades do Egipto
e avidamente aprende com seus sábios.

Mantém Ítaca sempre no teu espírito.
Chegar lá é o teu destino.
Mas nunca apresses a viagem.
Melhor será que ela se estenda por muitos anos;
e na tua velhice ancores na ilha
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca ofereceu-te uma viagem maravilhosa.
Sem ela, jamais terias partido.
Mas nenhuma outra coisa te poderá dar.

Ainda que pobre a encontres, Ítaca não te enganou.
Rico em saber e em experiência de vida, como chegaste,
sem dúvida saberás o que Ítaca significa.

Kavafis (1911)


Espero, no regresso, ouvir recitar este poema na língua de origem. Aqui fica.

Ιθάκη
Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρείς,
αν μέν' η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωϊά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους•
να σταματήσεις σ' εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν' αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ' έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά•
σε πόλεις Αιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ' τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν' ο προορισμός σου.
Αλλά μη βιάζεις το ταξίδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει•
και γέρος πια ν' αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ' έδωσε το ωραίο ταξίδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Αλλο δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Ετσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης (1911)


evva

sexta-feira, junho 02, 2006

E depois de onze anos de serviço


regresso finalmente à minha cidade.

Adeus auto-estradas, adeus portagens, um terço do ordenado gasto em gasolina. Hoje vou dormir em paz (se conseguir sequer adormecer...).

evva