quarta-feira, julho 05, 2006
segunda-feira, julho 03, 2006
Como avaliar os professores malucos?
«Nunca conheci um professor que gostasse de avaliar; é ingrato; quase sempre injusto. Mesmo em ciências exactas é difícil avaliar justamente as aprendizagens. Um bom aluno pode mostrar-se incapaz de realizar um exercício específico, e ter aprendido muito mais do que qualquer outro, globalmente; ser excelente. Por isso, classificações obtidas numa situação de avaliação nem sempre reflectem a aprendizagem realizada. Os professores sabem-no; o ministério sabe-o e, anualmente, emana despachos normativos e circulares inúmeras aconselhando moderação, ponderação, discussão das classificações, que são apenas sugeridas pelos professores das disciplinas, e aprovadas, ou não, pelos conselhos de turma.
Os professores do sistema, sentadinhos na secretária, com seus fatinhos de saia e casaco de fazenda azulinha ou de calça e casaco, cinzentinhos, as mãozinhas brancas de dedo curto com aliança, muito graves e científicos, gostosamente entalados na forma canónica, e incapazes de sair dela, sempre me causaram... borbulhagem.
sábado, julho 01, 2006
cavalarias
Num fim de tarde em que os sorrisos abundam, aproveito a alegria que também sinto (grande, grande, grande Ricardo!!!!!!!) para começar a fazer o balanço anual. Como sou professora, costumo começar a colocar as venturas e desventuras do ano nesta altura em que o calendário lectivo também chega frenéticamente ao fim.
A ventura às vezes conduz-nos para encruzilhadas que nos apresentam aventuras difíceis, sobretudo se o nosso percurso cavaleiresco se parece afastar cada vez mais da Távola Redonda.
Como Perceval, sentimo-nos a deambular pela floresta, frustradas por não termos acedido ao enigma, sem ânimo para regressar para junto dos que sentimos nossos.
Vemo-nos rodeados por Florestas da Serpe, no meio da Terra Gasta, e às tantas perdemos o rumo que queriamos dar ao nosso morzelo... Não sabemos, como Boorz soube, responder aos nossos dilemas. Porque são dificeis, mas sobretudo porque mexem connosco. Com o brilho que temos nos olhos. Por amor de um ideal, em serviço de uma causa e de um, ainda, nobre cavaleiro, percorremos lagos ferventes. fontes enganadoras, enfrentámos falsas Genevras e donzelas diabólicas. E hoje, numa encruzilhada, sentimos falta do nosso leal companheiro. Como o nobre Galeote, caímos do nosso cavalo porque os nossos pensamentos nos doem demais para vermos a carreira em que seguimos.
Suplicamos a Lancelot, embora tentando disfarçar a nossa coita, que continue a partilhar venturas na nossa corte. Não raptamos genevras, nem oferecemos reinos grandiosos. mas estamos dispostos a prescindir de sono, a percorrer viagens desgastantes, até a convencer o resto da nossa mesnada com palavras eloquentes. Mas a Távola Redonda não admite cavaleiros estrangeiros. Faltar-nos-á o baptismo de Palamedes? Não sei.
Sei que me sinto muito só e cada vez mais longe do graal. Cada vez com mais provas da espada ao meu alcance. cada vez com menos partilha.
cada vez com menos tempo.
Só uma das pessoas deste blogue entenderá, suponho, esta prosa enredada. E estou certa de que a sentirá como sua. Ainda que, tendo partido hoje em mais uma demanda em que eu, por estar longe da corte dos eleitos, não estive, se tenha esquecido de um relato, com o fizera Boors, seu antigo cavaleiro. Ainda que a Távola Redonda se fique pelo elogio dos meus feitos, mas não faça sequer um esforço que dê a entender que o meu lugar na Távola não se transformou na seda perigosa.
E estou em muitas encruzilhadas. E hoje vou resolver uma delas. Deixo este blog, para sempre, com esta longa prosa, porque não faz sentido. Porque o tempo já é tão pouco. Porque sentimos longe os sorrisos. Os brindes que não fizemos. Só a voz cndescendente que nos diz. Nós compreendemos. Mas que eu esperava ouvir, como dantes, vem. Sem ti é diferente.
Com este egoísmo volto a embrenhar-me nas outras escolhas, estas mais dificeis. E requerem noites de descanso, ponderação e algum consilium. Ou então esperar um sinal de um cavaleiro Branco que nos desvende a narrativa nestas carreiras enredadiças.
Isabel Sofia
terça-feira, junho 27, 2006
Jogar Bonito

Apesar deste ter sido o lema que a NIKE escolheu para a promoção da sua imagem neste Mundial, nem os jogadores que a representam nem os outros o têm seguido muito. E se retirar os 6-0 que essa máquina de jogar futebol que está a ser a Argentina deu à Servia e Montenegro, não me recordo, de entre os jogos que vi, de um que me tenha enchido as medidas. Até há uns momentos atrás quando assisti ao França-Espanha.
Uau! Que coisa tão bonita. Passes consecutivos entre jogadores, alternância constante da posse de bola entre as equipas, trocas de bola ao primeiro toque, desmarcações premanentes dos jogadores, alternância regular do sentido do jogo (direita-esquerda, cima-baixo), pressão sobre a bola à saída da grande área do adversário, ocupação de todo o espaço de jogo, remates, cruzamentos, fintas, golos (4). Ai ai (suspiro)…
E tudo isto com equipas que, apesar de tudo, privilegiam (sobretudo a França) a segurança da defesa ao risco do ataque, e que nem sequer jogam muito rápido. Era como se fosse um grupo de 22 amigos a disputar a partida e a disfrutar do prazer (e o espectador da beleza) do jogo.
No final, a equipa que eu apoiava perdeu por 3-1 com a França. É assim, ganha-se ou perde-se. E quando se tem Patrick Vieira e Zinedine Zidane na equipa e um lateral direito como Ribery a fazer o "jogaço" que fez hoje, pronto. Dá nisto.
Um apontamento para o árbitro italiano Roberto Rosetti (da mesma nacionalidade do deus-árbitro Colina) que fez uma actuação excelente. 1º Teve a ajuda das equipas. 2º Apitou quase sempre em cima das jogadas e quando não o fez foi assistido (na maioria das vezes bem) pelos juizes de linha. 3º Todas os lances em que os jogadores se envolviam fisicamente (intencionalmente ou não) foram assinalados (mais vezes bem do que mal, mas isso não é relevante), evitando assim qualquer margem para conflitos ou querelas individuais entre os jogadores. 4º Sempre que necessário, estava perto do jogador faltoso e garantia, com gestos, expressões faciais ou palavras, a passagem da mensagem ("não repitas isso muitas vezes…"). Resultado: antecipação das situaçõees, controlo do jogo e apenas três cartões amarelos (quase todos no final), mostrados com tanta calma e tranquilidade que até parecia brincadeira de meninos. Erros houve com certeza, mas isso não é o mais importante. O essencial é que os jogadores confiaram nele. E mai' nada!
Como dizia o House no episódio desta semana, "é simples mas é dificil". A razão pela qual os restantes árbitros não fazem o mesmo que este fez ainda me escapa.
Para os apreciadores do jogo bonito, fica aqui o aviso: o Alemanha-Argentina é na sexta-feira às 16h00. Nham, nham…
andré
PS: Portugal ainda não fez um jogo que mereça um comentário assim, mas no sábado pelas 16h00 ninguém me tira da frente do televisor. Coitado do Erikson… está destinado a ter-nos como uma espinha na garganta.
Play fair
Não entendo como é que se pode celebrar uma selecção que será recordada, se mais não fizer, por ter participado, e com uma boa dose de responsabilidade, no jogo mais violento de que há memória num Mundial de futebol. E não me venham dizer que a culpa foi do árbitro por não ter expulsado o carniceiro do Cristiano Ronaldo e mais não sei o quê. Como é que conseguem não aceitar as críticas e acusar quem coloca objecções àquele comportamento lamentável de anti-scolarianismo primário?
evva
segunda-feira, junho 26, 2006
URGENTE!!!
A DIFÍCIL TAREFA DE ARBITRAR

Desde de há uns anos para cá, quando me fartei da clubite insuportável das opiniões sobre futebol e do comportamento inaceitável de alguns adeptos, que torço pelos árbitros e pelos treinadores. Em relação aos segundos creio que é por mero corporativismo, pelo menos em relação àqueles que têm o mesmo curso que eu. Pelos outros, não morro muito de amores.
Quando aos primeiros é por um sentimento de injustiça permanente que sinto haver para com eles e para com a função que desempenham dentro do campo.
De todos os desportos que conheço o futebol é quase de certeza o mais difícil de apitar pelo simples facto de que, para o variado leque de situações e circunstâncias, um árbitro tem apenas três penas possíveis: marcar falta, mostrar um cartão amarelo ou um cartão vermelho. A isto acresce que a avaliação da situação e a penalização têm de ser feitas num mesmo curto instante.
Para os que possam dizer que as circunstâncias são fáceis de analisar e que estamos apenas perante um jogo, eu peço o seguinte favor: tentem imaginar-se numa eliminatória de um campeonato da Europa ou do Mundo num estádio com 60 mil pessoas, milhões a ver na televisão, e isto tudo integrado num fenómeno planetário que envolve paixões, identidades, interesses e dinheiro, muito dinheiro. Tentem imaginar o peso de uma decisão neste contexto. Se ainda acharem fácil, convidos-o, sinceramente, a ir para um estádio ao domingo e insultar quem lhes apetecer, tal qual o adepto comum que provavelmente tanto criticam e lamentam.
O árbitro Valentin Ivanov fez de facto uma lamentável actuação no jogo Portugal-Holanda, e Joseph Blatter, presidente da FIFA, tem razão ao criticá-lo (embora não creia que devesse ser ele a fazê-lo). O mesmo aconteceu ao árbitro Graham Poll (ver secção de desporto do Público de Domingo) e a outros neste Mundial. Não sei se é pelo facto de trabalhar com árbitros noutra modalidade mas agora reparo mais nestas coisas.
O que para mim é interessante é que embora a crítica do sr. Blatter seja feita no momento certo, ela é de facto incorrecta. O árbitro foi consistente, as suas decisões foram coerentes. O problema foi, na minha opinião, que ao penalizar a entrada ao Cristiano Ronaldo com cartão amarelo ele abriu um precedente que não mais conseguiu contornar. Entradas daquelas iriam ser permitidas. A partir daí foi só juntar lume à fogueira e os portugueses quiseram garantir várias vezes que não se iam ficar, reagindo com igual violência.
Com tão poucos instrumentos de penalização, ao árbitro de futebol não interessa ser consistente na penalização mas sim no julgamento e para isso tem de entender que cada situação pode e deve ter uma penalização diferente. É só olhar para o sr. Pier-Luigi Colina (na foto) para perceber isto.
Como que é que num jogo dos oitavos de final de um Campeonato do Mundo pode haver um árbitro que não entende isto é algo que tenho dificuldade em perceber.
andré
domingo, junho 25, 2006
Valeu Maniche...
(foto publicada em O Jumento)evva
sexta-feira, junho 23, 2006
BOM S. JOÃO!

E o prémio da melhor quadra vai para:
Quem te viu e quem te vê
Ó meu rico S. João
Pareces a FCT
Pões-nos a olhar pró balão...
evva
E como já há algum tempo que não volto ao assunto...
"Aspectos que toda a gente parece ignorar sobre a profissão de professor e que será bom esclarecer:
quinta-feira, junho 22, 2006
Colheita de luxo II

Deixas
Deixar num verso
ao menos
o perfume labiado da sálvia
e sua flor,
azul da montanha.
Casas térreas
ou templos
para o sol que se levanta.
António Osório, Décima Aurora (1982), Na Regra do Jogo, p. 72.
evva]
quarta-feira, junho 21, 2006
Colheita de luxo
Se há duas semanas encontrei uma óptima edição do Amada de Toni Morrison, a colheita de hoje, apesar dos míseros 400 grs a menos na balança (pouquinho, pouquinho, mas devagar se vai bem longe), foi um exemplar do Décima Aurora, de António Osório (1977-1981) com dedicatória redigida pela mão do poeta, quatro desenhos de Mário Botas e um interessante prefácio de Joaquim Manuel Magalhães.
Mal abri o livro e encontrei os versos que se seguem, ficou selado o destino dos últimos trocos que trazia. Vou andar a pão e água uns dias, mas terei com que alimentar a alma.
[evva]
Perguntar não ofende. Responder também não.
- O que preferes? Uma vitória da selecção portuguesa no Mundial da Alemanha ou mais uma Liga dos Campeões para o Futebol Clube do Porto?
- Mas isso nem se pergunta! Amigos, amigos, coração à parte. Chovam vitórias do Dragão e levantem bem alto a taça da Champions. Tudo o resto, entusiasma-me medianamente.
evva
terça-feira, junho 20, 2006
Dias
Eugénio

Há um ano atrás, uma azáfama de mails, sms e conversas apaixonadas discutia a perenidade dos que nos deixaram na madrugada de 13 de Junho de 2005. Toda essa agitação daria origem a um blog, hoje extinto, e muitas outras discussões, que confirmaram uma amizade inabalável e minaram uma afeição que se esfumou.
Mas hoje apetece-me voltar em tom de solilóquio àquele velho assunto e reafirmar o que disse quando nem sequer sonhava escrevinhar na blogosfera. É que, apesar do esforço dos media com documentários de inegável valor histórico e inúmeros textos mais ou menos laudatórios e evocativos, Álvaro Cunhal acabará por se tornar apenas numa nota de pé de página dos livros de história, ou nem isso, e a poesia de Eugénio de Andrade continuará a ser infinitamente lida e amada.
E há também a figura maior do homem que foi Eugénio e que a crónica de António Lobo Antunes recordada no Kontratempos tão bem evoca:
«O poeta Eugénio de Andrade está muito doente. É meu amigo e não tenho coragem de o visitar. Quando ia à sua casa, no Passeio Alegre, um espaço de cuidadosa brancura diante das palmeiras e do mar, recebia-me com vinho fino, biscoitos, livros, pequenas atenções que me tocavam, conforme me tocava a sua delicadeza, a sua fidalguia. A mesa de mármore para escrever. Nunca me disse mal de ninguém e a vaidade que o habitava, tão ingénua, comovia-me. (...) A sua solicitude e a sua ternura em relação a mim eram infinitas. Já doente e estando eu em Roma para um prémio, o padre e poeta José Tolentino Mendonça, que ele apreciava grandemente e é um dos poucos que admiro e respeito, contava-me que o Eugénio o chamava, preocupado que eu estivesse bem. Punha, na camaradagem, um desvelo fraterno (...) Dele recebi, durante anos e anos, inúmeras provas de estima. Censuro-me não o visitar agora; é que não suporto vê-lo acabar assim, reduzido a um pobre fantasma titubeante. A ele, que tanto prezada a beleza e a sua própria beleza (o Eduardo Lourenço, amigo de ambos - E então chegou-nos a Coimbra aquele Rimbaud) a doença resolveu destruí-lo, horrivelmente, no que mais lhe importava, tornando-o um Rimbaud desfigurado, dependente, trágico (...). Ao Eugénio prefiro lembrá-lo como o conheci: orgulhoso, altivo, falando-me de jacarandás e frésias, amando (e era verdade) o 'repouso no coração do lume'. E, depois, havia pequenos actos que o definiam inteiro: uma das ocasiões em que fui ao Porto encontrei um livro de Jorge de Sena, um livro póstumo, horrível, em que Sena atacava companheiros de viagem (Cesariny e Vitorino Nemésio, por exemplo, muito melhores artistas do que ele) de um modo tão vil que me indignou. Referi o livro ao Eugénio. Ele ficou longamente em silêncio e, depois, tirou o seu exemplar de baixo de um móvel e poisou-o no sofá. Segredou - Tinha-o aqui escondido, sabe, porque não queria que pensasse mal do Jorge. (...) Reparo, agora, que estou a relatar tudo isto no passado, como se o Eugénio tivesse morrido. Talvez porque o homem que continua vivo não é ele. Talvez por pudor meu. Talvez porque o fim de um amigo me seja difícil. (...)».
E curiosamente, dias depois de ter relido este texto, eis que entre os ravioli e o gelado de nozes com molho de chocolate de uma noite recheada de poesia (desculpem referir constantemente os pormenores gastronómicos da minha parda existência...), encontro o poema que Eugénio escreveu após a notícia da morte de Sena:
A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA
É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?
Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em tio rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?
Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.
No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.
Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.
Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.
Agosto, 1978
[evva]
Ah, Camilo!

E de repente, entre sardinhas e pimentos assados numa tasca de Matosinhos, depois de magnífica caminhada pela Foz, L. abre o pequeno volume que trazia e lê a frase sublinhada:
«Não era muito que Tadeu de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas variantes são tantas e tão caprichosas que eu não sei se alguma máxima pode ser-nos guia a não ser esta: "Em cada mulher, quatro mulheres incompreensíveis, pensando alternadamente como se hão-de desmentir umas às outras". Isto é o mais seguro; mas não é infalível.»
evva
segunda-feira, junho 19, 2006
Para ler, reler e guardar
Lembro-me agora de todos os teus gestos, o olhar sobre os muitos netos espalhados pela casa, comendo pão com doce de tomate, explorando os mosaicos da varanda, debruçados da janela para a rua com poucos carros. Éramos todos tão pequenos e tu tão lúcida, a avó em cujo colo cabíamos todos à vez, a avó fustigada pela vida mas sempre generosa, de braços abertos, infinitamente terna. Havia um cheiro naquela casa que não encontrei em mais lado nenhum: um cheiro de quartos na penumbra e mobiliário escuro, de décadas atravessadas com esforço e entrega absoluta aos outros. Lembro-me agora das coisas mais insignificantes: um sofá cor-de-laranja que refulgia sob o sol da tarde, o quadro que representava um barco perdido na tormenta em alto mar, um banco de madeira na cozinha, conversas de adultos que eu não percebia. E a bondade da minha avó confundido-se com a casa, emanando das paredes como matéria luminosa, beijos e abraços e afagos, enquanto o Alentejo entrava pelas janelas, já tão perto de Lisboa.Agora essa casa há muito desabitada ficou ainda mais distante, ilha que só a memória resgata. Morreu a última avó, a avó que a doença foi tornando ausente, numa espécie de morte antes da morte, num afastamento progressivo, lento e cruel. Algures um fio partiu-se, fechando a história de uma geração, enquanto se abrem os diques da tristeza adiada. Lembro-me agora de todos os teus gestos, avó. Vejo-te atravessando a escuridão da infância, belíssima. E apaziguas-me, novamente, nestas horas de despedida e melancolia.








