domingo, junho 18, 2006

Os arquitectos e a paisagem


O Público traz hoje dois artigos sobre as intervenções urbanas do arquitecto Siza Vieira em três cidades portuguesas e onde são confrontadas as visões de dois geógrafos da Universidade do Porto, Álvaro Domingues da Faculdade de Arquitectura e Rio Fernandes da Faculdade de Letras.
Desde há muito tempo queria discutir, com alguém da área, o conceito de cidade inerente à intervenção de Siza Vieira (e Souto Moura) na Av. dos Aliados, que vinha na linha dos trabalhos realizados no jardim da Cordoaria, na Pr. dos Leões e em quase toda a baixa do Porto. Porquê a opção generalizada pela pedra, porquê o corte significativo da vegetação que lá existia, porquê a criação de espaços áridos que rapidamente se tornam desertos?
Álvaro Domingues defende a ideia de “unidade” presente na Av. dos Aliados, pois o espaço “estava pejado de vários estilos, era uma mistura de influências”, tendo ganho uma “nova espacialidade com menos acasos pelo meio”.
A Rio Fernandes não agrada a redução da diversidade da avenida, que considera “minimalista”, embora admita não gostar da anterior “profusão de vasos e flores, de bancos e quiosques”.
Tudo isto me lembra um documentário que vi na TV acerca de como a beleza estava ligada ao padrão e de como este era procurado sistematicamente pelo Homem.
É curioso como algumas das mais belas zonas do Porto são resultantes de um padrão acidental (as casas da Ribeira, as casas dos bairros da Marechal Gomes da Costa,) e muitos dos mais belos edifícios correspondem a uma ruptura mais ou menos visível com a paisagem circundante (a casa da Música, o Museu de Serralves). Um dos meus exemplos preferidos de ruptura e continuidade é o edifício que está a ser terminado na Av. da Boavista, junto ao Mcdonalds, um monólito que se enquadra perfeitamente numa paisagem de edifícios com alturas semelhantes mas com formas e histórias distintas. O importante não parece ser a unidade explicita mas sim a forma como a comunicação de elementos diferentes consegue criar essa unidade ou esse padrão. A unidade como resultado e não como objectivo.
Não entendo porque é que se retira de um espaço grande parte da sua vegetação apenas para garantir continuidade ou unidade. A intervenção de Souto Moura na rotunda da Boavista é um bom exemplo do compromisso entre os objectivos de um espaço urbano, amplo e com visibilidade, e o respeito pela sua identidade anterior de espaço verde.
O “empedramento” do espaço contíguo à antiga Cadeia da Relação, da Pr. dos Leões, da zona em frente ao Piolho e da Av. dos Aliados põe-me logo a pensar se não há um lobby da pedra a influenciar a gestão autárquica.
Mas antes de mais coloca-me perante uma cidade triste, deserta, sem espaços para as pessoas, onde a unidade estética se sobrepõe à vida do próprio espaço.
É muito triste quando a autoridade politica e técnica, responsável pelo desenvolvimento urbano, se afasta das pessoas que vivem nos espaços que ela própria cria. Desculpem mas então prefiro o nosso caos à unidade ou ao padrão asséptico que nos estão a impor.

andré

sábado, junho 17, 2006

Agora sim

PORTUGAAAAAAAL!


evva

Vítor Serpa, a remar contra a maré

«FAZ hoje oito dias publiquei um artigo sobre os professores. Era um texto que não pretendia ser de um especialista na matéria. Um texto feito com o que julgo ser um pouco de bom senso e apresentado numa perspectiva de observador atento e nunca resignado à natureza das coisas injustas.

O texto tinha, ainda, uma perspectiva de comparação entre o professor e o treinador desportivo. No fundo, o treinador é um professor de desportistas e o professor um treinador dos conhecimentos e dos saberes. Um bom professor, tal como um bom treinador, não deve ter a pretensão de ensinar tudo, mas deve ter a competência de ensinar a aprender tudo. Não apenas durante o tempo do clube ou da escola, mas durante toda a vida.

O que me faz regressar hoje ao tema são, de novo, os professores.
Ao longo da semana recebi dezenas de mails e muitos telefonemas. Não escondo que fiquei emocionado com a forma como tantos professores se reviram no meu texto e fizeram questão de enaltecer méritos que, provavelmente, nunca tive. Mas o mais importante de tudo foi constatar que os professores de Portugal, os homens e as mulheres que preparam os nossos filhos para saberem aprender toda a vida, estão no limite das suas forças, das suas resistências, sentem-se profundamente desconsiderados e estão indignados com a afronta que lhes faz quase diariamente um ministério vesgo e surdo, que ainda os responsabiliza por serem, eles próprios, violentados, sabendo, melhor do que ninguém, que foi o próprio estado que passou anos e anos a desacreditar, a fragilizar e desautorizar os professores perante os alunos, tornando-os no elo mais fraco do nosso desgraçado sistema de ensino.

E se volto ao tema neste jornal que nunca aceitou, nos 61 anos da sua história, fronteiras sociais, económicas, políticas ou desportivas, é porque não posso nem devo ficar indiferente a esses dezenas e dezenas de textos, alguns excelentemente escritos, que não escondem a mais profunda das desilusões, mas todos de uma dignidade e de um sentido ético da profissão de professor que deve ser revelado e enaltecido. Apesar de tudo o que têm sofrido, no silêncio próprio de quem não tem os microfones ministeriais sempre a jeito dos seus argumentos nunca questionados, não tenho a menor dúvida de que os professores deste país são heróis desconhecidos, que não se deixam abater, que resistem, que choram de raiva, mas que ficam de pé.

E tenho muita vergonha de viver num país onde ainda são raros os media generalistas, sejam televisões, rádios, ou jornais, que tenham o mesmo sentido crítico, a mesma frontalidade, a mesma liberdade e, até, a mesma coragem que, apesar de tudo, ainda vamos encontrando em alguns jornais desportivos.»

Para quem ainda não leu, aqui fica a crónica de Vítor Serpa "Jogo pelos professores":

«Os professores andam em pé de guerra. Como os professores são normalmente distantes uns dos outros, os seus pés de guerra andam por aí semeados como pés de salsa, espalhados pelo País. De norte a sul.

Os professores estão descontentes. Com a vida que lhes corre mal, porque ninguém os valoriza; com os colegas, que só se interessam por resolver a >sua vidinha; com os alunos, que os desconsideram e maltratam; e, acima de tudo, com o Governo da nação, que os desvaloriza, os desautoriza e os desmoraliza.

Nunca fui um estudante fácil e sabia, que um professor desautorizado era um homem (ou uma mulher) morto na escola. Não quero dizer fisicamente mas profissionalmente. Como sempre fui bom observador, conhecia de ginjeira os professores fortes e os professores fracos. Os fortes resolviam, por si próprios, a questão. Alguns pela autoridade natural do seu saber e da sua atitude, outros de forma menos académica. Os fracos eram defendidos pelos reitores. Ir à sala de um reitor era, já por si, um terrível castigo. Mas bem me lembro que professores fracos e fortes, bons e nem por isso, se protegiam, se defendiam e se reforçavam na sua autoridade comum. Já nesse tempo se percebia que tinha de ser assim, porque, se não fosse, os pais comiam-nos vivos e davam-nos, já mastigados, aos filhos relapsos. E isso a escola não consentia.

Os pais, dito assim de forma perigosamente genérica, sempre foram entidades pouco fiáveis em matéria de juízo sobre os seus filhos e, por isso, sobre quem deles cuida, ensina e faz crescer. Os pais sempre foram o pavor dos professores de natação, dos técnicos do futebol jovem, dos animadores das corridas de rua. Os pais, em casa, acham os filhos umas pestes; mas na escola, no campo desportivo, no patamar da casa do vizinho, acham os filhos virtuosos e sábios.
Os pais são, individualmente, insuportáveis e, colectivamente, uma maldição. Claro que há pais... e pais. E vocês sabem que não me refiro aos pais a sério, que são capazes de manter a distância e o bom senso. Falo dos outros, dos pais e das mães que acham sempre que os seus filhos deviam ser os capitães da equipa e deviam jogar sempre no lugar dos outros filhos. O trágico disto tudo é que são precisamente esses pais os que, na escola, se acham verdadeiramente capazes de fazer a avaliação, o julgamento sumário dos professores dos seus filhos, achando que eles só servem para fazer atrasar os seus Einsteinzinhos.

Por isso eu aqui me declaro a favor dos professores. Quero jogar na equipa deles contra a equipa dos pais e ganhar o desafio da vida real e do futuro deste país contra o desafio virtual dos pedagogos de alcatifa.

A Bola, 3 de Junho de 2006»

evva

sexta-feira, junho 16, 2006

Numa esplanada de Viana do Castelo, antes da borrasca

«- Já se sabe que ele come de tudo. Basta ver o namorado que tem.
- ?...»

Velhos tempos em que as mãezinhas nos obrigavam a comer tudo o que nos punham no prato e só nos deixavam não gostar de favas... Depois deu no que deu.

evva

terça-feira, junho 13, 2006

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935)


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

[evva]

A melhor cobertura do Mundial

RCP ONLINE.

evva

Leitura fundamental

«A ESCOLA

Quando entrei para o liceu, em 1973-1974, havia um reitor, livros de ponto para os professores e faltas para os alunos. Mau comportamento, por exemplo, era uma falta - grave - e dava direito a ser expulso da aula, e, em casos mais sérios, do liceu. O liceu, o D. Pedro V de Lisboa, era tido por "progressista". Apesar disso e das balbúrdias do PREC, manteve-se sempre, tanto quanto me lembro, um módico de disciplina. As novas "pedagogias" que entretanto foram sendo introduzidas nos infantários e nas escolas primárias, assentes sobretudo na consideração da criança como um bibelot a quem só se pode falar, ensinar jogos idiotas e a dormir umas sestas, mud[aram] radicalmente a noção de aluno. Sem ela, a disciplina caiu na rua. O aluno passou a ser visto quase como um utente de um serviço público - a escola -, só com direitos, e não alguém sujeito a um código disciplinar de direitos e de deveres. Por consequência, a função do professor foi sendo desvalorizada e, agora, chegámos ao rídiculo de termos pais e alunos a sovarem metodicamente os docentes. É preciso também atentar na geração paternal, a maior parte dela constituída pelos "filhos de Abril" a quem notoriamente faltou um berço e, em tantos casos, "educação" e sentido cívico. Sem autoridade, as escolas públicas - os liceus - soçobram mais tarde ou mais cedo na pura anarquia. Excitar a ignorância contra os professores, metendo tudo no mesmo saco, revelar-se-á a curto prazo desastroso. A ministra da Educação (...) deve igualmente prestar atenção aos alunos e não permitir o verdadeiro assalto que alguma boçalidade familiar se permite fazer às escolas em nome dos sagrados direitos dos broncos dos filhinhos. Não há que ter medo das faltas por mau comportamento e da expulsão de delinquentes das escolas pagas pelo dinheiro dos contribuintes. Caso contrário, a autoridade - da instituição e dos professores sobre os alunos - jamais conseguirá impôr-se num lugar - a escola - onde verdadeiramente tudo começa ou tudo pode acabar.»

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, um blog de leitura diária. Os sublinhados são meus e do texto retirei uma frase de que discordo. Ler também este excelente post que João Gonçalves publicou no terceiro aniversário do blog.

evva

segunda-feira, junho 12, 2006

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
--- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder

(há uma versão lindíssima deste poema, dita pelo autor, e com arranjos musicais dos Poetas, um projecto poetico-musical de Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro, Margarida Araújo, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro)


andré

Angola-Portugal

Pronto, confesso: lá me sentei durante duas horas em frente à televisão a ver o jogo. E até trauteei o hino, naquela parte dos 'egrégios avós'. Claro que vibrei com a jogada do Figo e o golo do Pauleta, mas a meio da primeira parte já estava a torcer por Angola, para irritação de muitos presentes. Afinal, Angola é nossa ou não?
Mas do que mais gostei foi do equipamento da selecção angolana, lindo de morrer (ainda bem que não se inspiraram naquela bandeira horrorosa), e da franjinha do Loco. A minha mãe achou o Figueiredo 'muito jeitoso' (???), apesar das madeixas, e desconfio que vai ser a sua desculpa para assistir aos próximos jogos, agora que este senhor deixou de apitar.


evva

Para a Isabel

No seguimento da conversa do almoço de sexta-feira:

«É muito mais importante ler poucos livros muitas vezes, do que ler muitos livros uma única vez»

Abel Barros Baptista, idem.

[evva]

Acrescentar-lhe-ia também os bons filmes

«Um livro só é livro se exigir uma segunda leitura. Se for para ler só uma vez não conta».

Abel Barros Baptista, citado de memória, na entrevista pessoal e transmissível de Carlos Vaz Marques. O link (demorado, exige um pouco de paciência) surge já aí abaixo. Imprescindível.

evva

domingo, junho 11, 2006

Como eu gostava que todos os médicos fossem capazes de fazer isto…

“Nós temos que sofrer um bocadinho com o doente para o podermos compreender, temos de entrar um pouco na vida do doente, sofrer com ele e regressar depois ao papel de médico”
Pedro Afonso, psiquiatra em entrevista Pessoal e Transmissível com Carlos Vaz Marques na TSF

PS: para os admiradores de Abel Barros Batista, aqui vai o link para a sua entrevista.


andré

PARABÉNS

Ao Tarzan Boy pelo post 500. Venham mais 500 para continuar a celebrar a melhor década da música e o seu kitsch inconfundível. Aqueles penteados...

evva

A escutar com atenção, repetidas vezes

José Pedro Gomes, nos Cromos TSF, sobre os subsídios ao Teatro e a avaliação dos professores pelos pais dos alunos.

evva

Ainda não consegui decidir se vou ou não vaguear pela Feira do Livro durante os 90 minutos do jogo de logo. É tentador. Mas corro o perigo de encontrar alguns stands fechados, se calhar aqueles que não interessam a ninguém.

evva

Alterava propositadamente as horas dos seus posts, para que ninguém desconfiasse que passava os sábados à noite em casa, sozinho, frente ao computador.

evva

sábado, junho 10, 2006

Portugueses...

Estação de Campanhã, manhã de sexta-feira.

As recentes obras de remodelação do largo da estação praticamente eliminaram os lugares de estacionamento, com a abertura do parque subterrâneo. Como ia buscar uma amiga um pouco carregada, parei o carro por momentos em segunda fila naqueles lugares mesmo em frente às 'Entradas'. O carro à minha direita sai e estaciono no seu lugar. Eis senão quando um troglodita ao volante de um topo de gama descapotável, provavelmente furioso por ter-lhe ocupado um hipotético lugar, faz marcha atrás desde lá do fundo, onde também parara em segunda fila, e bloqueia-me a saída no mesmo instante em que a minha amiga entra no carro. Já se preparava o energúmeno para sair, a falar ao telemóvel, e deixar-me o bólide estatelado ali ao lado, mas lá lhe pedi e repedi encarecidamente para chegar o carro à frente, para que eu pudesse libertar-lhe o lugar de estacionamento. Como falava ao telemóvel só à quarta ou quinta vez é que me deu atenção, mas juro que da próxima vez chamo o reboque da Psp para me tirar a carroça da frente.
evva

domingo, junho 04, 2006

desabafos

Uma sugestão para os promotores do Plano Nacional de Leitura:

- permitir aos professores de português dos Ensinos Básico e Secundário o regresso aos 'clássicos' da literatura universal na sala de aula, em vez de obrigar ao cumprimento de um quilométrico 'programa' que inclui os famigerados 'Textos do Domínio Transaccional' (jargão que designa 'a declaração, a acta, o relatório, o contrato' e outras idiotices que nos fazem perder tempo em vez de ensinar o essencial);

- reduzir a obrigatoriedade da permanência dos professores na escola para as 22 horas lectivas, e não fazer-nos perder tempo em reuniões inúteis, salas de estudo, substituições, horas de biblioteca, etc. É claro que todas estas actividades são imprescindíveis numa escola (excepto aquelas reuniões intermináveis a discutir o sexo dos anjos), mas elas não devem existir sobrecarregando a carga horária dos docentes.

Para ensinar é preciso estudar, muito para além do que se aprende nos cinco anos de licenciatura. É um dos aspectos que mais me agrada nesta profissão, para além do contacto com os alunos, vê-los crescer em maturidade e conhecimentos, capacidade de reflexão e argúcia. Mas para estudar e adaptar os conteúdos à sala de aula é preciso tempo. Tempo de leitura, de selecção de informação, a mais adequada aos alunos que se tem pela frente, a mais actualizada. Os manuais escolares continuam a ser elaborados em função do aluno citadino. O que fazer quando um texto de um manual de sugere a um aluno de uma zona rural que escreva sobre a azáfama das grandes cidades ou sobre a última vez que foi ao cinema? A maior parte deles só pensa em andar de bicicleta pelos campos fora e não é raro encontrar quem nunca tenha ido a um cinema.

Para tudo isto, para ler os textos que os alunos escrevem, para corrigi-los, para poder fomentar o gosto pela leitura, um professor de português precisa de tempo, de um local tranquilo e silencioso. Obrigar os professores a permanecer na escola numa multiplicidade de tarefas, muitas delas burocráticas, é roubar-lhes esse tempo imprescindível. As escolas não têm condições para que os professores possam preparar aulas ou corrigir testes e exercícios. Não têm computadores para professores. Se um professor tivesse uma sala ou gabinete onde pudesse realizar essa parte importante do trabalho de docência, nunca traria trabalho para casa, nunca passaria noites e fins-de-semana inteiros em branco.

Finalmente, para ensinar o prazer da leitura (sim, porque o gosto também se ensina) é preciso amar os livros, a leitura e a escrita. Só há alguns anos percebi que muitos professores de português não gostam de ler ou não gostam de poesia. Na minha santa ingenuidade pensava que todos tinham escolhido a profissão por amor ao saber, ou a partilhá-lo. Puro engano.

evva

Serviço Público

Um muito sincero Obrigada a O Jumento por publicar on-line as crónicas de Vasco Pulido Valente no Público:

«O ETERNO RETORNO

Com eterno retorno, em que se tornou a vida portuguesa, volta a leitura, desta vez com um "plano". Pôr a criançada a ler e o público em geral. Muito bem. A ler o quê? Os "clássicos", dizem. Mas que espécie de "clássicos"? Gil Vicente, Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Eça, Oliveira Martins, Cesário, Pessoa? Infelizmente, não há "clássicos" que se possam ler: tirando a poesia (um caso complicado), um pouco de Eça, de Camilo e Oliveira Martins, quanto muito. E o inevitável Júlio Dinis, se conseguir passar por "clássico" e se alguém hoje o aturar. O facto é que a literatura portuguesa é pobre. Ainda por cima, os "protegidos" do "plano" não a percebem: nunca viram grande parte das palavras, tropeçam na sintaxe, ignoram as referências. Pegue, por exemplo, um dos promotores do "plano" em, por exemplo, Viagens na Minha Terra ou A Relíquia e explique o que lá está (um centésimo basta). Gostava de assistir.
Não conheço muita gente, gente da minha idade, que leia, apesar de uma educação tradicional. Porquê? Porque ler implica um esforço: de atenção, de inteligência, de memória. Ler é uma actividade e a nossa cultura é quase inteiramente passiva. A televisão, o DVD, a música popular ou a conversa de computador não exigem nada, deixam a pessoa num repouso imperturbado e bovino. Mudar isto equivale a mudar o mundo. Não se faz com um "plano". Claro que o romance de aeroporto se continua a vender, e bem: não puxa pela cabeça e vai matando o tempo. Talvez que Miguel Sousa Tavares (300 mil exemplares só em Portugal, mandou ele corrigir) e Margarida Rebelo Pinto levem a melhor. O Estado missionário não leva com certeza a parte alguma. Ou leva, leva a uns milhares de empregos para burocratas, bibliotecários, "mediadores de leitura" (um truque novo) e para a tropa fandanga do costume.
José Manuel Fernandes lamenta que os portugueses não leiam jornais, sentimento que do coração partilho. Mas também não existe em Portugal uma verdadeira discussão política (nem no Parlamento). A sério, a sério, não se discute coisíssima nenhuma: nem o regime, nem a ideologia do regime, nem religião, nem moral, nem moral social, nem sequer os deploráveis costumes da tribo. Porque iria um cidadão comprar sofregamente o jornal? E por que raio de lógica ler Eça e Camilo (que, de resto, execravam jornalistas) convenceria um adulto (ou uma criança) da bondade da imprensa? Desde o "25 de Abril", Portugal sofreu uma série infinita de obras de misericórdia, para chegar ao poço. É altura de acabar com a brincadeira.»



evva

76ª Feira do Livro do Porto

Os Livros do Dia. Aqui.

evva

sábado, junho 03, 2006

What kind of evil are you?

You Are 26% Evil
A bit of evil lurks in your heart, but you hide it well.
In some ways, you are the most dangerous kind of evil.



Ok, assim fico mais descansada, de santinhas de altar está o Inferno cheio. Bem dizia o outro, está-me no sangue...

evva

O MONSTRO



Vasco Pulido Valente, no Público:

«Voltou a discussão sobre a violência na escola. É assunto tão velho que já tresanda. Mas neste país, que não aprende, e nunca aprendeu, é sempre preciso repetir o óbvio. Vêm as desculpas do costume (o "meio social", a "família" e por aí fora). E os remédios do costume (a autoridade dos professores, a participação dos pais, como se eles se ralassem, ou do mirífico dinheiro da "iniciativa privada"). Infelizmente, nada disso leva a parte alguma. Os "reformadores" têm de meter na cabeça uma verdade básica: na prática, o sistema de ensino não permite expulsar, repito, expulsar ninguém e assim, como se depreenderá, qualquer aluno tem a impunidade garantida. Do ministro ao último professor, toda a gente acredita que expulsar um aluno equivale a uma espécie de condenação à morte. Marçal Grilo, uma das pessoas mais deletérias que passaram pelo Governo, reservou para si a autoridade de aplicar essa pena capital e, segundo nos disse depois, ficou muito emocionado e tremente, quando em três casos durante quatro anos não a pôde evitar. Isto quase que significa uma licença para matar, coisa que as criancinhas percebem muito bem.

Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute. Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (como defende o PSD), que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores. Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais; precisa que os pais paguem pelo menos parte da educação dos filhos (mesmo que em muitos casos esse pagamento seja um gesto simbólico).

A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite.»

evva

Ítaca

Se vais iniciar a viagem para Ítaca,
pede que o teu caminho seja longo,
rico em experiências e em conhecimento.
A Lestrígones e a Cíclope,
ou ao irado Poseidon, nunca temas,
não encontrarás tais seres na tua rota
se mantiveres alto o pensamento e limpa
a emoção do teu espírito e o teu corpo.
Nem Lestrígones, nem Cíclope,
nem o feroz Poseidon, encontrarás jamais,
se não os levares na tua alma,
se a tua alma não os colocar diante dos teus passos.

Pede que o teu caminho seja longo.
Que numerosas sejam as manhãs de Verão
em que com prazer, chegues feliz
a portos nunca vistos;
detém-te nos empórios da Fenícia
para comprar as formosas mercadorias,
nácar e coral, ambar e ébano,
e perfumes sensuais e diversos,
quanto houver de aromas deleitosos;
peregrina as cidades do Egipto
e avidamente aprende com seus sábios.

Mantém Ítaca sempre no teu espírito.
Chegar lá é o teu destino.
Mas nunca apresses a viagem.
Melhor será que ela se estenda por muitos anos;
e na tua velhice ancores na ilha
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca ofereceu-te uma viagem maravilhosa.
Sem ela, jamais terias partido.
Mas nenhuma outra coisa te poderá dar.

Ainda que pobre a encontres, Ítaca não te enganou.
Rico em saber e em experiência de vida, como chegaste,
sem dúvida saberás o que Ítaca significa.

Kavafis (1911)


Espero, no regresso, ouvir recitar este poema na língua de origem. Aqui fica.

Ιθάκη
Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρείς,
αν μέν' η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωϊά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους•
να σταματήσεις σ' εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν' αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ' έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά•
σε πόλεις Αιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ' τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν' ο προορισμός σου.
Αλλά μη βιάζεις το ταξίδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει•
και γέρος πια ν' αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ' έδωσε το ωραίο ταξίδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Αλλο δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Ετσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης (1911)


evva

sexta-feira, junho 02, 2006

E depois de onze anos de serviço


regresso finalmente à minha cidade.

Adeus auto-estradas, adeus portagens, um terço do ordenado gasto em gasolina. Hoje vou dormir em paz (se conseguir sequer adormecer...).

evva

TEMOS PRESIDENTE

Cavaco Silva veta a absurda Lei da Paridade:

«Mensagem do Presidente da República à Assembleia da República, a propósito do Decreto nº 52/X (Lei da Paridade)
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República

Excelência

I. Recebi para ser promulgado sob a forma de lei orgânica o Decreto nº 52/X da Assembleia da República, designado por “Lei da Paridade”, o qual “Estabelece que as listas para a Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as Autarquias Locais são compostas de modo a assegurar a representação mínima de 33% de cada um dos sexos”.

Trata-se de um diploma estruturante do funcionamento da democracia representativa e relevante para o exercício de direitos e liberdades políticas fundamentais, reclamando, por essa mesma razão, um escrutínio particularmente atento por parte do Presidente da República.

Considero um pilar fundamental da qualidade da democracia portuguesa o aumento da participação das mulheres na vida política.

Como tal, à luz das disposições do artigo 109º da Constituição, entendo constituir uma obrigação do legislador, tanto a remoção de discriminações negativas em razão do sexo no acesso a cargos políticos, como, também, a promoção da igualdade no exercício de direitos políticos.

Contudo, a legitimidade dos valores a proteger e dos fins a alcançar através de medidas positivas que promovam a paridade não justifica a utilização de todo o tipo de meios para os atingir. Isto, sobretudo, se os mesmos meios comprimirem desproporcionadamente e sem fundamento material razoável, outros valores de relevo político e constitucional que mereçam ser acautelados.

Tal é, claramente, o caso do artigo 3º da “lei da Paridade”.

II. A objecção de fundo que coloco ao mérito do diploma centra-se, precisamente, na circunstância de o seu artigo 3º, ao prever a possibilidade de rejeição das listas de candidaturas desconformes com o respectivo preceituado, se afigurar como um regime sancionador excessivo e desproporcionado e, como tal, desadequado para preencher os fins prosseguidos pela mesma legislação.

O carácter excessivo e desproporcionado do meio consagrado deriva da circunstância de o mesmo:

- Constituir uma severa restrição à liberdade e ao pluralismo de opções que inerem á democracia representativa, na medida em que pode impedir que certos partidos ou listas de candidaturas eleitorais, que não aceitem ou que não possam cumprir com os rígidos critérios do diploma, sejam impedidos de concorrer a eleições;

- Interferir, de forma exorbitante, na liberdade e identidade ideológica de cada partido relativamente à matéria da paridade e limitar a sua autodeterminação política interna em poder organizar as listas de candidatos de acordo com a vontade dos respectivos órgãos eleitos democraticamente;

- Restringir, sem fundamento razoável, a liberdade de escolha do eleitorado relativamente às listas de candidatos, mediante uma inclusão artificial e forçada em lugares elegíveis de candidaturas desconhecidas ou não desejadas, de um ou de outro sexo;

- Dificultar, desnecessariamente, a constituição de listas nas eleições locais onde, em certas áreas menos povoadas do interior e com elevado índice de envelhecimento (nas quais não seja aplicável a excepção do nº 4 do artº 2º do decreto), se torna problemático recrutar candidatos dentro dos estritos limites da representação de género impostos pelo diploma;

- Petrificar um regime limitativo da liberdade política já que, sendo a fixação de índices de representação em razão do sexo uma medida naturalmente transitória destinada a inverter situações de sub-representação de género, se verifica que no diploma inexiste qualquer cláusula com esse carácter transitório, ficando um regime restritivo que por natureza deveria ser temporário envolvido na rigidez própria das leis orgânicas;

- Forçar a passagem súbita de um sistema que não prevê índices mínimos de representação de género na apresentação de candidaturas eleitorais, como o actual, para um dos regimes mais dirigistas da Europa, o qual vai ao ponto de admitir a proibição da apresentação de partidos ou de listas de candidaturas a eleições.

Para além das razões expostas, considero, ainda, que carece de sentido, em termos de necessidade, a opção de criar uma das disciplinas sancionatórias mais rigorosas em matéria de representação de género de entre os Estados da União Europeia, sem que se tenha, previamente, intentado esgotar outras soluções adoptadas por vários desses Estados que correspondem às melhores práticas e que se revelam mais afeiçoadas à liberdade política.

III. A dignificação dos direitos políticos das mulheres constitui uma prioridade constitucional que deve ser atingida através de meios adequados, progressivos e proporcionados e não por mecanismos sancionatórios e proibicionistas que concedam às mulheres que assim acedam a cargos públicos um inadmissível estatuto de menoridade.

Do mesmo modo, importa fazer primar os valores fundamentais da liberdade e do pluralismo na selecção, apresentação e votação dos candidatos a eleições políticas, sobre uma opção penalizadora destinada a alcançar, mediante sacrifícios e restrições excessivas, uma paridade de género que poderia ser atingida por meios mais razoáveis.

Assim, ao abrigo da alínea b) do artigo 134º da Constituição da República e nos termos e para os efeitos do disposto no nº 1 do artigo 136º da CRP, decidi não promulgar como lei orgânica o Decreto nº 52/X da Assembleia da República, solicitando, pelos fundamentos apresentados, uma nova apreciação do diploma.

Com elevada consideração.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Aníbal Cavaco Silva


02.06.2006»

evva

Por estas e por outras é que nunca faço greve

«A Ministra e a Fenprof


Na SicNotícias, ao fim da noite, a ministra da Educação lá veio dizer que não chamou incompetentes a todos os professores, nem os acusou de serem os principais ou os únicos responsáveis pela situação actual do ensino.
Em entrevista ao mesmo canal, António Avelãs, dirigente da Fenprof, acaba de anunciar que a atitude normal do seu sindicato é negociar. Como prova deste princípio, está convocada uma greve a exigir a demissão da ministra, porque o projecto de estatuto é... inegociável.
E quando será implementada esta inovadora, criativa forma de luta?
Fantástica coincidência: dia 14.
Precisamente 4ª feira, dia 14, aquele dia que ali estava, a meio da semana, a estragar as mini-férias de 13 a 15!
Está ganha a semana, com apenas dois dias de trabalho, para a malta de Lisboa, e três para o resto do país. (Talvez não fosse má ideia uma greve para exigir a instituição do 13 de Junho como feriado nacional).
Abençoado seja o Sindicato, que tanto zela por nós, sofredores!
É assim que a Fenprof defende os interesses dos professores?
É assim que contribui para dignificar a imagem da classe?
É esta uma postura responsável e séria, de diálogo e negociação?
É esta a melhor forma de pugnar por uma escola de qualidade?
Considera injusta a criação de duas categorias na carreira, mas acha que não vale a pena negociar.
Acha que o novo estatuto é um subterfúgio para poupar dinheiro ao orçamento de Estado, mas entende que não serve como base negocial.
Julga necessária a avaliação dos docentes, mas não com base neste documento de trabalho.
Então, o que é que negoceia? E com base em quê?
Quem nos leva a sério, com sindicatos destes?E como vamos sair daqui, sem ninguém disponível para aceitar que o erro não é só do outro?
Sobre a actual situação, pergunto:
Como chegámos a este modelo de avaliação de professores, onde todos são suficientes?
Quem esgalhou este sistema de formação contínua, com acções de formação em Tapetes de Arraiolos, ou em Danças de Salão, a contar para a progressão na carreira?
Que voz tiveram os professores na retirada da sua autoridade na sala de aula, engolida pela panaceia burocrática dos procedimentos disciplinares?
Quem decidiu que o aluno podia aprender, e ter sucesso escolar sem esforço, nem trabalho, nem responsabilidade?
Quem convenceu os pais de que ir à escola era só um direito, e não um dever?
Quem esvaziou de verdadeiro sentido os órgãos de gestão intermédia das escolas, atacando-os de reuninite aguda?
Quem não percebeu que uma escola obsecada pela projectite crónica perde de vista os alunos, e fica sem tempo para se debruçar sobre o essencial, que são eles, a sala de aula, as aprendizagens, ou os materiais didácticos?
Quem nos conduziu até aqui?
Os sindicatos e sucessivos Ministérios da Educação (com uma ajudinha da Confederação de Associações de Pais) têm trabalhado afincada e meticulosamente, ao longo dos anos, para nos deixar neste estado.
Sendo assim, e já que estamos em tempo de acusações, que cada um tome conta do seu quinhão, porque há dose para todos!
Até porque, neste momento, parece que ninguém tem culpa. Só se vislumbram vítimas:
Os pais, na sua condição de parceiros, são alvo do complexo de inferioridade dos professores;
Os professores, enquanto rosto da escola, são insultados pelo descontentamento dos pais;
A ministra, enquanto política, é acusada do falhanço passado e do fracasso futuro.
Com tudo isto, nem sei como é que consigo gostar da minha escola, prezar o meu trabalho, respeitar os alunos, dialogar com os pais, coexistir pacificamente comigo mesma, suportar as contrariedades, sobreviver e dormir em paz!».

evva

E hoje apetece-me ouvir

MARIA BETHÂNIA

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei.
Eu nada sei.
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor para poder pulsar
É preciso paz para poder sorrir
É preciso chuva para florir...
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha, ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada
Eu vou, estrada eu sou...
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora.
Cada um de nós compõe a sua história.
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz.

[evva]

quinta-feira, junho 01, 2006

Camilo suicidou-se há 116 anos


Um dos meus heróis. E este há-de ser sempre um dos livros a que mais vezes regresso e a adaptação que dele fez Manoel de Oliveira um dos meus filmes favoritos. Poucas vezes o cinema conseguiu uma capacidade narrativa assim.


evva

Se um dia coligirem os melhores textos da blogosfera, de certeza que este lá estará

Flashback

Por RAF.

«Cara Sinapse,

Nos meus Verões, apanhava amoras no Douro para a minha irmã mais velha fazer doce. Acordava antes das oito e meia (hora a que soava um silencioso e discreto recolher obrigatório do que havia na mesa do pequeno-almoço); e garanto-te que não era necessário despertador, esse objecto triturador de tímpanos e indutor de AVC’s, porque torradas no forno pinceladas com manteiga previamente derretida faziam muito mais por me acordar do que dez galos a cantar em uníssono, quanto mais esses subprodutos fabricados na China ou em Taiwan, inventados por um sádico (certamente um adepto do neo-capitalismo selvagem), que retiram qualquer glamour à alvorada. Vivia assim o dia como não o faço hoje, perdido que fico nas férias a resmungar no vale dos lençóis.

Tomava banho no Corgo, ainda o comboio serpenteava até Vila Real, em locais onde os pais de hoje jamais deixariam ir os seus filhos sozinhos. Saía de espingarda de chumbos para apanhar passarecos. Nunca acertei em nenhum. Talvez por isso seja agora contra a caça, usando argumentos dignos para camuflar a minha ausência total de pontaria.

Depois do almoço, à hora do calor, recolhia à "loja" ou ao lagar, onde um frio bom convidava à leitura. Ou a uma partida de xadrez. King. Póquer, literalmente a feijões, até ser banido pelo Conselho de Pais: era demasiado interessante e perturbava outros hábitos mais calmos; as peças do jogo acabaram no tacho, misturadas com tripas.

Após o lanche, o pátio era dominado pelo esférico; no fim das férias, as paredes, provisoriamente balizas, tinham de ser novamente caiadas; os grandes golos eram aqueles que traziam consigo a queda vertiginosa de um bom bocado de cal. Quando calhava, descia pela estrada de terra ou a cortar caminho pelas vinhas até Santo Xisto, ao Manel da Venda, para levar o correio ou comprar o que houvesse: em geral, não havia nada: vinho a copo, de um vermelho que manchava, bagaço ou cerveja não faziam parte da minha dieta; ficava tonto só com cheiro; a minha primeira bebedeira foi assim olfactiva; questionava-me onde tinha posto o Manel os seus dentes; e como é que tão bêbado nunca se enganava no troco. Hoje, mando e-mails.

Foi nas férias de verão que descobri que os gatos caem sempre direitos, independentemente da altura e do carácter voluntário ou não do respectivo salto.

Nesta época da vida reservei ainda o meu bilhete de ida para o Céu (em classe executiva); Missa e Terço faziam parte da rotina diária. Havia tempo até para nos lembrarmos de Deus. Desde que não mate ninguém e não desvie subsídios da PAC estou certo que os Jardins do Éden já não me escapam!

Ao fim do dia, gostava de olhar ao longe as Serras das Meadas e do Gerês; durante anos, pensava com o meu primo Miguel que um dia a haveríamos de subir. E subimos! Desde a estação da Rede, até à Ermida, pelos trilhos desenhados nas cartas militares!

À noite, conversávamos nos terraços, vendo a estrelas; televisão, às vezes, quando a antena caprichosa o permitia, captando o sinal; com sorte, alimentávamos a síndrome de Nero, apreciando o fogo nas montanhas em redor, num tempo em que os incêndios eram sobretudo fruto da acção da Natureza ou da mera incúria, e não da maldade e da ganância dos homens.

Nas férias havia também tempo para o mar. Nas praias de Leça, Beijinhos e Fuzelhas, a água era gelada, mas curiosamente não parecia. As ondas eram enormes, muito maiores do que agora; o mar não proibia nem aplicava coimas; colaborava com os pais, e fazia por animar as crianças. O vento era sempre presença assídua, pelo que nos fazíamos acompanhar de pesados "pára-ventos", os arqui-inimigos da "Nortada"; e que permitiam além do mais delimitar o nosso pedaço de areia; quando não havia vento, então era porque tinha fugido o sol; nesses dias tinha na mesma de pôr creme porque, segundo a minha mãe, o nevoeiro queimava com mais força; o que era para mim um grande mistério pois não via o sol nem sentia o calor a aquecer-me a pele; foi assim que aprendi o que era a Fé: acreditar naquilo que a minha mãe me dizia, mesmo que não fizesse sentido nenhum. Ela também me explicava que as praias do Norte me faziam bem, "porque tinham iodo".

Talvez por estar carregadinho de iodo, na praia, apaixonava-me, dia sim, dia não. Nada contudo que interferisse com as rotinas diárias: apanhar "ranhosas" e caranguejos, de baldinho na mão; coleccionar "sameiras" (a que o meu primo de Lisboa chamava "caricas"; e ainda dizem que somos um país uno; tornei-me na praia um fervoroso adepto da "Regionalização"); esférico: horas atrás do esférico; e piadinhas, centenas de histórias e piadinhas (efeitos colaterais do excesso de iodo, talvez). O meu irmão mais novo, esse preferiu aprender sozinho a ler no meio da areia, esvaziando de responsabilidade e necessidade a função do seu professor primário; foi ele o primeiro a provar-me a inutilidade do Estado.

Lembro-me, como tu, das vendedoras ambulantes, que impingiam os seus bolos ou berravam, "Pipocas ou Batatinhas! Pipocas ou Batatinhas!". O pregão que mais me marcou, contudo, surgia ao longe, cada vez mais perto, cantado por uma velha senhora, carregada de saiotes e lenços, que se arrastava desde Leça até à Boa Nova, e com uma pronúncia que não enganava, entoava: "Olhaaaai os biscoitinhos de Baluanguuuu; Olhaaaai os biscoitinhos de Baluanguuuu". Baluangu. Demorei dez anos a perceber onde fica...

Este fim-de-semana vou ao Douro.

Rodrigo Adão da Fonseca»
evva

terça-feira, maio 30, 2006

Está demasiado calor para me pronunciar sobre o assunto, mas aqui ficam algumas leituras imprescindíveis

Ensino, Ministério de Educação & Professores

"O sentido não se decreta, não existe em nenhuma parte se não estiver em todo o lado" [Lévy-Strauss]

A animosidade intelectual do Ministério da Educação contra os professores e a quixotesca reorganização do sistema educativo a que se assiste (misturando teorias de management duvidosas, de enorme frivolidade, com mudanças de características pedagógica desajustadas, pouco rigorosas, ineficazes e de má fé) deixa as famílias, os pais, os encarregados de educação e os docentes à beira de um ataque de nervos. O economicismo pacóvio revelado pela tutela governamental não só põe em causa, definitivamente, todo o sistema educativo (já de si quebrado pelo recheio pedagógico do eduquês, curiosamente apadrinhado por esses mesmíssimos intervenientes e por quem os apoia cegamente) mas, pela afronta à civilidade e à inteligência de todos nós, compromete qualquer passo em frente no desenvolvimento económico do país. A não ser que se tenha, exclusivamente, a intenção malévola de proporcionar passagens administrativas para inclusão nas estatísticas, não se consegue alcançar a bondade das medidas presentes na proposta de alteração do "Regime Legal da Carreira do Pessoal Docente" e o que consta do documento da "Política Educativa e Organização do Ano Lectivo 2006/07". São tantas as contradições e tão evidente a má fé, que julgamos que só razões do foro psicanalítico explicarão as inenarráveis reformas tomadas. O eduquês é só por si um mistério e, deste modo, o discurso oficial deixa de ter qualquer lucidez. Incapaz, pela natureza própria do eduquês, de mudar a matriz curricular inadequada ao perfil dos alunos em diferentes Cursos (que o inefável David Justino instituiu), desistindo de reformar métodos e procedimentos curriculares e psico-pedagógicos, mostrando (e de que maneira infausta) que não está disposta a alterar o facilitismo educativo e o pouco rigor avaliativo (e que os professores, pela sua condição de funcionários, não controlam), introduzindo com requintes de malvadez o confronto entre docentes e entre estes e os pais, a equipa da senhora Ministra da Educação fomenta a agonia na Instituição Escola e presta um mau serviço ao país. A fuga à prática escolar lectiva e a desvalorização da componente pedagógica-curricular em troca de um economicismo inebriante, determinaram a necessidade da tutela configurar um maior controlo disciplinar e punitivo sobre os docentes, que estão assim reféns de si próprios e da perversidade das medidas ministeriais. Não se pense que a voragem ministeriável iliba os vários e insanos discursos dos sindicatos sobre a Escola, a sua actividade lectiva e não-lectiva ou a avaliação do desempenho dos seus associados. Os sindicatos (evidentemente que não se refere, aqui, à FNE, dado ser um grupo de vassalos da quadrilha rotativa governamental ao longo de todos estes anos) contribuíram para a situação a que se chegou. Tantos anos sem qualquer preocupação de rigor pelo trabalho e avaliação dos professores teriam que levar a todo este desastre educativo, que se aproxima em grande exaltação. E quando se tem governos autoritários e incompetentes dum lado e sindicatos autistas de outro, nada se pode fazer. Infelizmente»

Sobre o mesmo assunto, ler também o que publicou o Abrupto. Acha que o ensino vai mal em Portugal? Pois não queira esperar pelo que aí vem. Se hoje em dia é difícil reprovar um aluno nas Escolas Básicas e Secundárias, se o facilitismo e a indisciplina abundam, se poucos encaram a aprendizagem como um trabalho sério de desenvolvimento de conhecimentos e capacidades, depois de aprovado o novo e desastroso Estatuto da Carreira Docente não sei se quero cá estar para ver.

evva

QUE CALOR


Alguém me arranja um Gin Fizz?

segunda-feira, maio 29, 2006

A Parada

Casa paterna, almoço dominical. O meu avô, homem de esquerda dos cinco costados, inquire a mesa:
- A que horas é a Parada?
- ...?
- Que Parada, Paizinho?, interroga meu pai.
- Então hoje não é 28 de Maio?! E não costuma haver uma grande Parada?
- Mas isso era no tempo do Salazar. Depois do 25 de Abril deixou de haver Paradas..., vociferou o filho impaciente.
Lá tentei explicar calmamente que a 28 de Maio se comemorava a sublevação que pôs fim à I República de má memória e o início do regime a que se chamou Estado Novo. Não sei se terá ficado convencido com o actual esvaziamento de sentido do 28 de Maio, mas pus-me a pensar se este ténue primeiro sinal de uma memória confusa num homem que foi entusiasticamente receber Humberto Delgado à estação na sua vinda ao Porto durante a campanha eleitoral de 1958 (não porque o General participara no golpe militar de 28 de Maio de 1926, mas pelo que representava de oposição a um regime que acusava já profundos sinais de desgaste), um homem que sempre votou à esquerda no pós-25 de Abril e sempre votará, se tudo isto não significará algo mais profundo. Sabe-se que a velhice só não traz uma diminuição da lucidez a uns tantos quantos felizardos e que normalmente os que vão perdendo essa capacidade nunca apagam da memória os momentos felizes da juventude e que gastam a eternidade do tempo que lhes resta a obsessiva e reiteradamente evocá-los. O meu avô paterno não guardará decerto muito boas recordações do Estado Novo, creio, mas aquela Parada e o que ela significará na sua memória far-lhe-ão provavelmente algum sentido, na degradação dos dias que correm.

evva

Adenda: ainda sobre o 28 de Maio, ler este post.

domingo, maio 28, 2006

PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA


A 28 de Maio de 1926, estes senhores montados em cavalos, e mais uns outros tantos, cavalos ou a cavalo, empurraram um país à deriva, que era o nosso, para um dos mais profundos abismos da sua história, o Estado Novo do senhor ministro das finanças.
Se o senhor era ou não fascista (o historiador inglês Eric Hobsbawm no seu livro "A Era dos Extremos", diz que não era) é absolutamente irrelevante. O senhor professor catedrático de finanças retirou-nos a liberdade, manteve-nos pobres, subdesenvolvidos, analfabetos, mas ordenados, quietinhos, "bem comportados". Sim, se não tivesse havido 25 de Abril, provavelmente este blog não existiria. Provavelmente…
Hoje o Público trás uma reportagem interessante sobre o 28 de Maio. Coitado do general Carmona, tão bem intencionado que ele era. Mas o povo já diz há muito que "de boas intenções …".

Ainda bem que hoje podemos discutir a retórica conservadora de direita e a sua homónima panfletária de esquerda. Eu cá não me importo nada. Discutamos então. É sinal de que somos livres para o fazer. Livres. Percebem?…

andré

A seguir atentamente

A querelle 'O Estado Novo não foi um regime fascista', n'O Insurgente:

«Vital Moreira está preocupado com o terreno que tem vindo a ser ganho nos últimos tempos por leituras históricas da I República e do Estado Novo que fogem à cartilha de propaganda pseudo-historiográfica esquerdista que dominou o tratamento oficial desses temas desde o 25 de Abril de 1974 até muito recentemente.

No topo da lista de preocupações de Vital Moreira, a avaliar pelo título do post, está aparentemente a desconstrução do mito propagandístico segundo o qual o Estado Novo teria sido fascista. A verdade é que, por muito que isso custe ao imaginário revolucionário de Vital Moreira, o fascismo nunca "existiu" em Portugal, pelo menos enquanto ideologia dominante no aparelho de Estado. A menos, claro, que a definição de "fascismo" de Vital Moreira seja de tal modo caricatural que inclua todos quantos se posicionam à direita de marxistas, neo-marxistas e sociais-democratas.

É compreensível o desconforto de Vital Moreira quando se vê confrontado com uma crescente contestação aos dogmas em que assenta a mitologia construída em torno do 25 de Abril mas será melhor ir-se habituando. Três décadas são tempo suficiente para que se comece a desmontar a propaganda e a combater a ignorância. Por muito que isso custe a quem gostaria de poder continuar a moldar sem contestação a história para a utilizar como instrumento de propaganda política.»

Por André Azevedo Alves, um dos mais esclarecidos da blogosfera.

evva



Adenda: ler também no Tugir o post 'Pontos nos i, os revisionismo da história portuguesa', sugestão de 'O Estado novo não foi um regime fascista 2', e os posts que se lhe seguiram.

Momento MUU


Em Ponta Delgada, foi recentemente inaugurada a Igreja do Colégio dos Jesuítas, destinada a albergar a Colecção de Arte Sacra do Museu Carlos Machado.

[A última vez que lá entrámos ainda estava a ser restaurada, lembram-se?

evva]

Na Feira do Livro do Porto

DOMINGO, 28 (18h00)
AH, COMO SERÍAMOS TODOS MAIS FELIZES SE LÊSSEMOS OS CLÁSSICOS!
Frederico Lourenço / Carlos Ascenso André / Daniel Jonas / Manuel Gomes da Torre

SEGUNDA-FEIRA, 29 (21h30)
PORTOGAIA. A PONTE É UMA PASSAGEM?
Álvaro Domingues / Germano Silva / Manuel Jorge Marmelo / Mário Dorminski
Moderação: Luís Costa

TERÇA-FEIRA, 30 (21h30)
PORTUGAL ANGOLA. ESTE MAR QUE NOS UNE
Ana Paula Tavares / Francisco José Viegas / José Eduardo Agualusa / Manuel Jorge Marmelo

QUINTA-FEIRA, 1 de Junho (21h30)
FICÇÃO. NOVOS AUTORES NOVOS
Jorge Reis-Sá / Lourença Baldaque / Rui Vieira

SEXTA-FEIRA, 2 (18h30)
DIÁLOGO DE GERAÇÕES
Agustina Bessa-Luís / Inês Pedrosa

SÁBADO, 3 (17h30)
DIÁLOGO DE GERAÇÕES
Nuno Júdice / Fernando Pinto do Amaral

DOMINGO, 4 (17h30)
DIÁLOGO DE GERAÇÕES
José Saramago / Gonçalo M. Tavares
Moderação: Luísa Mellid-Franco

SEGUNDA-FEIRA, 5 (21h30)
QUANTO MAIS SURREAL MAIS VERDADEIRO
A. Pedro Ribeiro / Daniel Maia Pinto / João Gesta / João Habitualmente
Moderação: Adolfo Luxúria Canibal
Leitura de textos pelo actor Isaque Ferreira

QUARTA-FEIRA, 7 (21h30)
IMAGEM. PALAVRA. IMAGEM. Conversa à volta do cinema
Beatriz Pacheco Pereira / Mário Augusto
Moderação: António Reis

QUINTA-FEIRA, 8 (21h30)
DIÁLOGO DE GERAÇÕES
Fernando Dacosta / José Luís Peixoto

SEXTA-FEIRA, 9 (21h30)
CHE COS`É LA POESIA?
António Osório / João Luís Barreto Guimarães / Manuel António Pina / Pedro Mexia
Moderação: Luís Miguel Queirós

SÁBADO, 10 (18h30)
EM DESTAQUE: MÁRIO CLÁUDIO
Carlos Ascenso André / Maria João Reynaud / Miguel Veiga / valter hugo mãe
Leitura de textos pelo actor António Durães

Mas nem morta me apanham naquele pavilhão sufocante (prevêem-se trinta e tal graus à sombra das tílias) num fim de tarde de domingo*. Só de imaginar o mar de gente... Vou mas é abanar o leque para dentro de água. Gelada.

evva

*O Frederico desculpe, sim?

sábado, maio 27, 2006

E hoje vou torcer por


CABO VERDE

evva

THE DIVINE MILES


Se não tivesse partido, faria ontem 80 anos. E eu, sem saber da efeméride, lá o pus a tocar no computador para purificar o ambiente contaminado pelo disco sound de pacotilha que tocava do outro lado e para me animar da perda de trinta e tal páginas de notas de rodapé. Bem-hajas, Miles.

evva

Antes

Antes que sejas tarde
sem que tenhas sido cedo.
Antes que a noite guarde
o que nos era segredo.
Antes que venha o medo
do fogo que em nós arde.

Antes que escureça
e tudo fique incerto.
Antes que sejas deserto
e eu te esqueça.

Torquato da Luz, 2006 (no Ofício Diário)

evva

A minha bandeira é outra

Se há dois anos não aderi à piroseira das bandeirinhas nas janelas e na antena do carro também não vai ser desta que tal acontecerá. Até porque a minha bandeira é azul e branca.

evva

A BOA MÚSICA É...

"…aquilo que você sente muito mais do que sabe"

Hermeto Pascoal em entrevista com Carlos Vaz Marques na TSF.
Pessoal e Transmissível em Podcast.

andré

quarta-feira, maio 24, 2006

Espelho de Duas Faces

Connie Imboden, Untitled (1990)

Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aleluia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.

Há muitos anos que sei este poema de cor sem conseguir recordar o seu autor. Jorge de Sena? José Gomes Ferreira? Talvez porque fossem os poetas que mais lia quando inúmeras vezes o li e reli até os versos fazerem parte da minha memória. Esqueci o autor tal como esqueci o motivo por que tantas vezes procurei decifrá-lo. Hoje, finalmente, fez-se luz. Quem diria? É de António Gedeão.

[evva]

Quiz Copas do Mundo

Eis um teste do Folha de S. Paulo (via A Origem das Espécies) para conferir os conhecimentos a nível de campeonatos do mundo de futebol. O meu score foi 10-12-17, fraquinho, fraquinho. Curiosamente, acertei nas mais difíceis. Boa sorte!
evva

Joseph Brodsky (24 de Maio de 1940 - 28 de Janeiro de 1996)*


May 24, 1980

I have braved, for want of wild beasts, steel cages,
carved my term and nickname on bunks and rafters,
lived by the sea, flashed aces in an oasis,
dined with the-devil-knows-whom, in tails, on truffles.
From the height of a glacier I beheld half a world, the earthly
width. Twice have drowned, thrice let knives rake my nitty-gritty.
Quit the country the bore and nursed me.
Those who forgot me would make a city.
I have waded the steppes that saw yelling Huns in saddles,
worn the clothes nowadays back in fashion in every quarter,
planted rye, tarred the roofs of pigsties and stables,
guzzled everything save dry water.
I've admitted the sentries' third eye into my wet and fou
ldreams. Munched the bread of exile; it's stale and warty.
Granted my lungs all sounds except the howl;
switched to a whisper. Now I am forty.
What should I say about my life? That it's long and abhors transparence.
Broken eggs make me grieve; the omelette, though, makes me vomit.
Yet until brown clay has been rammed down my larynx,
only gratitude will be gushing from it.

(tradução para inglês do próprio Brodsky)

evva

*Dedicado a quem pela primeira vez me falou em Serralves da obra deste poeta russo, a partir de um livrinho que trazia. Obrigada Lurdes.

Por que é que eu, que já passei a idade de Cristo, continuo a ter um pavor enorme de uma simples doação de sangue para análise?

evva

terça-feira, maio 23, 2006

A querela do peixe podre

A melhor ilustração do debate de ontem (via Smal Brother)

evva

segunda-feira, maio 22, 2006

ESTE HOMEM É UM COBARDE!


Porque traz à discussão um facto, a corrupção no jornalismo, que nunca ousa provar.
Porque discute o tema de uma forma vaga que o favorece.
Porque o faz à custa de um mediatismo que também o beneficia.
Porque critica o status-quo que o ajudou a subir e que agora o parece ter abandonado.

Mas sobretudo porque este é um dos mais brilhantes intelectuais do nosso país, que tinha a obrigação de impedir que esta discussão se tornasse numa óbvia vingança pessoal.

andré

Do que o Portugal de hoje precisava era de um Prior destes

Via Esplanar

Setença Proferida em 1487 no Processo contra o Prior de Trancoso:


«Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres».

«El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e demais papeis que formaram o processo».

evva

O sonho de todo o medievalista


Ser um dia uma capital ornamentada.

evva

Francisco José Viegas disserta no Origem das Espécies sobre o sururu levantado em torno da recusa de Umberto Eco em encontrar-se em Vinci, na Toscânia, com Dan Brown. FJV tem toda a razão, mas deixem-me reproduzir aqui as palavras do Santo Padre do medievalismo (autor, entre uma série infindável de opera magna incontornáveis, de uma das bíblias cá da estante, Arte e Beleza na Estética Medieval) ao La Repubblica:

«Nem morto. Irei a Vinci quando lá estiver um verdadeiro escritor».
[evva]

Por que é que eu gosto de Frederico Lourenço


«me marcou profundamente o fascínio pelo Condado Portucalense nos alvores da nacionalidade, o que me levaria mais tarde a sentir-me sempre mais em casa a norte do que a sul do rio Douro. Do Porto a Valença: o meu mundo de eleição.»
Frederico Lourenço, Amar não acaba, 2004, Cotovia, Lisboa, 3ª edição, p. 72.
Amar não acaba foi o último livro que li de um só fôlego, pela noite dentro até ao amanhecer, depois de o ter comprado na Feira do Livro do ano passado. Não pela declaração acima transcrita, é claro, mas por um irresistível fascínio pela escrita semi-autobiográfica do autor. Que surpresas trará a Feira deste ano? Será desta que colocarão on-line os 'Livros do Dia'?


Sobre Amar não acaba escreveu o Abrupto em Dezembro de 2004:

Leiam, leiam, leiam este livro estranho, memória autobiográfica da adolescência, escrita a vinte anos de distância – muito pouco. Um retrato de uma família portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir à sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais “pesadas”: a ópera, a música, as línguas, o comunitarismo panteísta de Lanza del Vasto. Este texto é uma surpresa: não sabia que alguém vivia assim entre nós. O relato de Frederico Lourenço é umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos lied, do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presenças tão intensas e tão inequívocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espaço do sentimento? O que é que sobra? Pode-se ser feliz num universo tão povoado de sentido? Duvido, mas também este livro não é sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento.
evva

domingo, maio 21, 2006

No 557º aniversário da Batalha de Alfarrobeira

O Infante D. Pedro, Regente de Portugal
empunhando Désir na Batalha de Alfarrobeira


Pranto pelo infante D. Pedro das sete partidas

(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte


Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruido
Por troças, por insídias, por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

evva

sábado, maio 20, 2006

A FRASE DA SEMANA

"É sempre o evangelista que cria o Cristo."

António Tabucchi em entrevista com Carlos Vaz Marques no dia 11/05/06 no programa Pessoal e Transmissível, disponível em Podcast.

andré

Rafael


Mais logo, na Igreja de Santa Cruz, será baptizado o nosso Infante de Coimbra, futuro cavaleiro andante e acérrimo pelejador dos ultrajes ao Graal.

Que Deus proteja o seu caminho.

evva

UM DOS MAIS BELOS ELOGIOS DO CINEMA



I might be the only person in the world that knows how wonderful you are, (…) how you always say what you mean and how whatever you say is always about being honest and straight. Everytime I look at the people that you serve at the table I wonder how they are unaware that they are facing the most beautiful woman alive.
And the fact that I can feel and tell you all this makes me feel good… about me.

ou então

"You make me want to be a better man"


andré


Não percam tempo a ver o filme. Um enorme bocejo de banalidades cinematográficas. Erros de casting. Salva-se Paul Bettany no papel Silas. E aquela música pavorosa aparentemente inspirada em Vangelis? Aterrador. Leiam o livro. Não, não leiam essa porcaria. Querem mesmo encontrar o Graal? Demandai por aqui:
Vespera de Pinticoste foi grande gente assuada em Camaalot, assi que podera homem i veer mui gram gente, muitos cavaleiros e muitas donas mui bem guisadas. El-rei, que era ende mui ledo, honrou-os muito e feze-os mui bem servir; e toda rem que entendeo per que aquela corte seeria mais viçosa e mais leda, todo o fez fazer.
Aquel dia que vos eu digo, direitamente quando queriam poer as mesas, esto era ora de noa, aveeo que ua donzela chegou i, mui fremosa e mui bem vestida. E entrou no paaço a pee como mandadeira. Ela começou a catar de ua parte e da outra, pelo paaço; e perguntavam-na que demandava.
– Eu demando – disse ela – por Dom Lancelot do Lago. É aqui ?
– Si, donzela – disse uu cavaleiro. Veede-lo: sta aaquela freesta, falando com Dom Galvam.
Ela foi logo pera el e salvô-o. Ele, tanto que a vio, recebeo-a mui bem e abraçou-a, ca aquela era ua das donzelas que moravam na Insoa da Lediça, que a filha Amida d'el-rei Peles amava mais que donzela da sua companha.
– Ai, donzela! – disse Lancelot –que ventura vos adusse aqui? Que bem sei que sem razom nom veestes vós.
– Senhor, verdade é; mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo aaquela foresta de Camaalot; e sabede que manhãa, ora de comer, seeredes aqui.
– Certas, donzela – disse el – muito me praz; ca teudo soom de vos fazer serviço em todalas cousas que eu poder.
Entam pedio suas armas. E quando el-rei vio que se fazia armar a tam gram coita, foi a el com a raia e disse-lhe:
– Como?! Leixar-nos queredes a atal festa, u cavaleiros de todo o mundo veem aa corte, e mui mais ainda por vos veerem ca por al – deles por vos veerem e deles por averem vossa companha?
– Senhor, – disse el – nom vou senam a esta foresta com esta donzela que me rogou; mais cras, ora de terça, seerei aqui.
Entom se saio Lancelot do Lago e sobio em seu cavalo, e a donzela em seu palafrem; e forom com a donzela dous cavaleiros e duas donzelas. E quando ela tornou a eles, disse-lhes:
– Sabede que adubei o por que viim: Dom Lancelot do Lago ira comnosco.
Entam se filharom andar e entrarom na foresta; e nom andarom muito per ela que chegarom a casa do ermitam que soía a falar com Galaz. E quando el vio Lancelot ir e a donzela, logo soube que ia pera fazer Galaaz cavaleiro, e leixou sua irmida por ir ao mosteiro das donas, ca nom queria que se fosse Galaaz ante que o el visse, ca bem sabia que, pois se el partia dali, que nom tornaria i, ca lhe convenria e, tanto que fosse cavaleiro, entrar aas venturas do reino de Logres. E por esto lhe semelhava que o avia perdudo e que o nom veeria a meude, e temia, ca avia em ele mui grande sabor, porque era santa cousa e santa creatura.
Quando eles cheguarom aa abadia, levarom Lancelot pera ua camara, e desarmarom-no. E veo a ele a abadessa com quatro donas, e adusse consigo Galaaz: tam fremosa cousa era, que maravilha era; e andava tam bem vestido, que nom podia milhor. E a abadessa chorava muito com prazer. Tanto que vio Lancelot, disse-lhe:
– Senhor, por Deos, fazede vós nosso novel cavaleiro, ca nom queriamos que seja cavaleiro por mão doutro; ca milhor cavaleiro ca vós nom no pode fazer cavaleiro; ca bem creemos que ainda seja tam bõo que vos acharedes ende bem, e que será vossa honra de o fazerdes; e se vos el ende nom rogasse, vo-lo deviades de fazer, ca bem sabedes que é vosso filho.
– Galaaz – disse Lancelot – queredes vós seer cavaleiro?
El respondeo baldosamente:
– Senhor, se prouvesse a vós, bem no queria seer, ca nom ha cousa no mundo que tanto deseje como honra de cavalaria, e seer da vossa mão, ca doutra nom no queria seer, que tanto vos ouço louvar e preçar de cavalaria, que nenhuu, a meu cuidar, nom podia seer covardo nem mao que vós fezessedes cavaleiro. E esto é ua das cousas do mundo que me dá maior esperança de seer homem bõo e bõo cavaleiro.
– Filho de Galaaz – disse Lançalot – stranhamente vos fez Deos fremosa creatura. Par Deos, se vós nom cuidades seer bõo homem ou bõo cavaleiro, assi Deos me conselhe, sobejo seria gram dapno e gram malaventura de nom seerdes bõo cavaleiro, ca sobejo sedes fremoso.
E ele disse:
– Se me Deos fez assi fremoso, dar-mi-á bondade, se lhe prouver; ca, em outra guisa, valeria pouco. E ele querrá que serei bõo e cousa que semelhe minha linhagem e aaqueles onde eu venho; e metuda ei minha sperança em Nosso Senhor. E por esto vos rogo que me façades cavaleiro.
E Lançalot respondeo:
– Filho, pois vos praz, eu vos farei cavaleiro. E Nosso Senhor, assi como a el aprouver e o poderá fazer, vos faça tam bõo cavaleiro como sodes fremoso.
E o irmitam respondeo a esto:
– Dom Lancelot, nom ajades dulda de Galaaz, ca eu vos digo que de bondade de cavalaria os milhores cavaleiros do mundo passará.
E Lançalot respondeo:
– Deos o faça assi como eu queria.
Entam começarom todos a chorar com prazer quantos no lugar stavam.

A Demanda do Santo Graal, fl. I.

evva

P.S.: Aos especialistas: o texto acima transcrito não foi revisto. Tenho de acordar daqui a poucas horas para um casamento que só terminará muito para além da meia-noite de Domingo. Vou dormir, então. Depois revejo.

D. Pedro (1392 - Alfarrobeira, 20 de Maio de 1449)


D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir,
é claro no querer;
indiferente ao que há em conseguir
que seja só obter;
dúplice dono, sem me dividir,
de dever e de ser-

não me podia a Sorte dar guarida
por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
calmo sob mudos céus,
fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus!

Fernando Pessoa, Mensagem
evva

O DESÍGNIO NACIONAL DO MOMENTO



É curioso ouvir no Expresso da Meia Noite da SIC Notícias (agora disponível em Podcast), e em muitos outros lugares, subvalorizar o peso do Futebol no recente fenómeno da adesão aos símbolos nacionais do hino e da bandeira. Como se o Desporto, neste caso o Futebol, fosse pouco relevante na explicação do fenómeno.
Desafio qualquer pessoa a tentar encontrar um acontecimento social capaz de mobilizar pessoas com tal profundidade como o Desporto. É certo que o Futebol consegue ser, mais do que qualquer outra modalidade, uma actividade de massas, mas a identificação com uma causa ou com os valores de uma instituição (o clube é a mais popular neste sector) é algo que encontramos, diria eu, em quase todas as modalidades desportivas.
O Desporto é hoje a forma mais intensa de ligação à nossa antiguidade, à caça, ao combate, à guerra, à violência. O Desporto é, em muitos aspectos, a sublimação da nossa animalidade.
E para além do mais, é hoje provavelmente o mais poderoso álibi para realização de actividade física. Depois de sairmos dos campos e do mar, depois de nos termos tornado eminentemente sedentários, o Desporto é, em muitos sentidos, a melhor forma de lidarmos com o nosso corpo, com o nosso físico, com uma parte importante da nossa essência.
Voltando ao Expresso da Meia Noite, eu estou como o jornalista da revista Sábado, em transe à espera do Campeonato do Mundo. Campeonato do Mundo. Futebol. Alemanha. Selecção Nacional. Cristiano Ronaldo. Ronaldinho Gaúcho. Beckham. Livre directo. Fora de jogo. Golo…

andré

sexta-feira, maio 19, 2006

Metonímia

- Olá, primo! Como tem passado?
- Ainda a tentar recuperar dos incêndios do Verão passado. Não atingiram a casa da Quinta por pouco. Se não fossem os vizinhos a ajudar... Mesmo assim, foi uma desgraça. Foram-se laranjeiras, figueiras, cerejeiras e três pipas de vinho. Uma tragédia.
evva

quinta-feira, maio 18, 2006

SHIJIE (O Mundo). Recomendado.

Em exibição no Cine-estúdio do Teatro do Campo Alegre

Só lhe retirava aquele pseudo-diálogo final. De resto, é um murro no estômago de normalização numa sociedade globalizada. E de como sobreviver-lhe (?) desenraízada, procurando manter a inocência.




evva

quarta-feira, maio 17, 2006

Momento ER

Top 20 Things You Don't Want To Hear During Surgery

1. Better save that. We'll need it for the autopsy.
2. "Accept this sacrifice, O Great Lord of Darkness"
3. Hand me that...uh...that uh...thingie.
4. Oh no! I just lost my Rolex.
5. Oops! Hey, has anyone ever survived 500ml of this stuff before?
6. There go the lights again...
7. "Ya know, there's big money in kidneys...and this guy's got two of 'em."
8. Everybody stand back! I lost my contact lens!
9. Could you stop that thing from beating, it's throwing my concentration off.
10. Sterile, schmerile. The floor's clean, right?
11. What do you mean he wasn't in for a sex change?
12. This patient has already had some kids, am I correct?
13. Nurse, did this patient sign the organ donation card?
14. What do you mean "You want a divorce!"
15. Fire! Fire! Everyone get out.
16. Damn! Page 47 of the manual is missing.
17. Oh, look everyone. It's lunch time.
18. The foot bone's connected to the... leg bone...
19. That's cool! Now can you make his leg twitch?!
20. Hey, if you pull on this it makes a funny noise.

evva