domingo, agosto 20, 2006

Sinais de Esperança…

(produzido a partir de excertos - em itálico - da coluna semanal Ponto de Vista, de Jorge Almeida Fernandes, publicada no passado dia 21 de Agosto no Público, com o título "Israel Analisa-se")

Depois do fiasco no Líbano, Israel debate os erros. Tudo é posto em causa, a doutrina militar, a política palestiniana, as relações regionais. Se o Hezbollah surpreendeu Israel, Israel passou agora a conhecê-lo. É uma questão de sobrevivência.


Para começo não está mau.

Um analista lembrou que Israel não ganha uma guerra desde 1967: teve uma vitória parcial em 1973, atolou-se na Intifada e falha agora no Líbano.


Esta é que eu não sabia.

Os próximos meses assistirão a um provável terramoto político. "É o princípio de uma nova era, se Israel reconhecer a tempo que tem de pagar o preço de uma repetida cegueira", escreve o jornalista Gideon Samet.

Cegueira. Ora aí está. Talvez seja melhor escrever as próximas resoluções da ONU em Braille…

[o historiador Zeev] Sternhell afirma que "o fracasso não foi da elite cultural ou dos valores de sociedade aberta. Não houve falta de devoção, espírito de combate e voluntarismo, qualidades características dum israelita em uniforme. O que faltou foram políticos com estatura e meios adequados de acção."

De facto, primeiros-ministros com estatura, desde Rabin, não tenho conhecimento de ter havido algum.

Os analistas militares, muitos deles oficiais na reserva e veteranos dos serviços secretos, criticam os conceitos estratégicos. Desde a aposta na guerra aérea e tecnológica ("à moda da NATO no Kosovo") ao desprezo pelo adversário, que levou às "surpresas" do Hezbollah, como os seus mísseis antitanque.

E eu a pensar que ninguém era suficientemente ingénuo para imitar os americanos. Para quem tem a reputação de ter um dos melhores exércitos (e serviços secretos) do mundo, esta notícia desilude-me profundamente.

Fala-se no desgaste das tropas de elite em anos de combate de rua na Intifada: "À força de jogar contra más equipas, mesmo as boas equipas vêem o seu nível baixar."


Quanto a isto não há problema. Contrata-se o José Mourinho. Ele até já esteve em Israel e deve ter ficado com a noção exacta do problema.

É posta em causa a doutrina da "alavanca", o uso de alta violência contra os palestinianos para os convencer de que nada obterão pela violência, explica o general Gal Hirsh. Ao fim de cinco anos, os militares fazem o balanço: os palestinianos moderados foram marginalizados e o Hamas ganhou as eleições. No Líbano, foi usado o mesmo princípio e o exército queixa-se agora de perder a "guerra das relações públicas" e de ver os libaneses solidarizarem-se com o Hezbollah.

Pois. Digamos que, tirando os Israelitas e os americanos, já todo o mundo tinha percebido isto.

Há uma gravíssima responsabilidade dos políticos, de Ehud Olmert a Amir Peretz: não fizeram as devidas perguntas. Se a guerra era inevitável, Israel caiu numa armadilha.


Pois caiu e agora o mundo inteiro tem de ajudar Israel a sair dela. Bonito serviço.

O general Uri Saguy, ex-chefe das informações militares, declarou ao Le Monde: "Esta guerra deveria levar os nossos dirigentes a compreender os limites da força e a necessidade de um acordo político regional. Os que têm uma visão binária, que dividem o mundo entre bons e maus, apenas sabem semear a guerra e a desestabilização da região."


Essa dos bons e dos maus era uma indirecta para o Bush, não era?…

O "falcão" Efraim Halevy, antigo chefe da Mossad, propõe uma negociação com o Hamas e critica a sua ostracização. Não interessa que o Hamas reconheça Israel, interessa sair dos territórios, deixar para mais tarde a paz e negociar um statu quo que garanta a segurança e afaste o Hamas sunita do Hezbollah xiita. O "campo da paz", esse quer aproveitar a "oportunidade" para avançar uma solução global.


As aves de rapina têm de facto uma visão muito apurada. Temos de as respeitar e dar-lhes razão quando a têm.

andré

segunda-feira, agosto 14, 2006

Triangulo das virtudes




Nos dois últimos episódios da série "Os homens do presidente" (West Wing), emitida no AXN, discutia-se se na política externa norte americana devia estar contido explicitamente o direito de intervenção em situações de tirania mesmo que não afectassem os interesses do país. Um lado a favor da defesa de povos, o outro a favor da autoingerência e a pensar nas consequências óbvias que tal política traria para a análise de outras situações onde não fosse tão clara a tirania ou a ameaça de povos indefesos.

Ontem à noite, a 2: emitiu um documentário sobre Fidel Castro, onde retratava como foi e tem sido capaz de se manter (quase) independente à influência norte americana, embora muito à custa da limitação dos direitos dos cidadãos do seu país. Mas mesmo assim, eis que aos 80 anos "el Castro" ainda se mantém (vamos a ver até quando) como o pilar, o farol de um povo que parece ter com ele uma relação similar à que tivemos com Salazar durante mais de 40 anos.

No final da passada semana, Kofi Anan, num discurso eloquente e preciso, defendia que a acção militar não fazia parte das soluções para o conflito entre Israel e o Hezbollah, mas representava sim uma falta de imaginação e de capacidade dos líderes para encontrarem outras soluções.
Após diversos encontros, eis que sai a resolução: a guerra acabava hoje pelas 00h50. Entretanto, entre a aprovação da resolução e o “fim” das hostilidades ainda houve tempo para mais umas bombas israelitas e uns katiucha do Hezbollah.

Creio que nunca como antes o mundo esteve tão cheio de referências ambivalentes e de realidades indefinidas. O inundar de informação e o consequente aumento da variedade das suas fontes coloca-nos numa situação difícil em que nos questionamos constantemente sobre quem tem ou não razão.

Acredito que não é fácil ser dono do mundo nem desistir dos sonhos e dos ideais em que acreditamos, contudo, ainda não encontrei desafio mais árduo e estimulante do que manter a paz e tentar fazer com que as pessoas se entendam, respeitando diferenças e pontos de vista. É esse para mim o grande desígnio que os EUA nos trouxeram mas que agora se vêem incapazes de defender. Tal como Fidel, eles perderam toda a sua credibilidade.

Perante isto, continuo a encontrar inspiração e consolo (embora pouco) naquele africano de cabelos grisalhos que insiste (embora não por muito mais tempo) em defender o primado do equilíbrio e da justiça entre nações.
Não, não é nenhum salvador. Mas lá está, não acredito em milagres.


andré

Girassol



Não te surpreendas amigo se nada mais desejo.
Preciso do tempo todo para seguir o sol.

Angelus Silesius (1624-1667)

[evva]

sexta-feira, agosto 11, 2006

No centro comercial

"Vejo que os consumidores se deslocam sós, esporadicamente em pares, tal qual os doentes do hospital Júlio de Matos. Depois de várias voltas tenho a sensação de circular num espaço de internamento.
Cruzo-me sucessivamente com os mesmos embrulhos das mesmas pessoas. Todos girando à volta, como num carrocel. O centro comercial não tem janelas e apenas duas portas convidam à saída. A uniformidade das paredes homogeniza o espaço, tenho a sensação de circular num labirinto que nos faz perder. Provavelmente estamos perante estratégias de arquitectura que levam os consumidores a circular sem terem a consciência da passagem do tempo, até porque não se encontram relógios. (...)
Observo o olhar de desespero de alguns consumidores, carregados de embrulhos como se fossem árvores de Natal. Não me parecem felizes, avaliando os sobrolhos carregados. À semelhança dos manicómios, os "shoppings" são instituições por onde circulam fantasias e delírios. A diferença é que, neste caso, elas giram em torno do consumo. Nos manicómios o delírio é a doença, nos "shoppings" não é.
Pela mesma lógica, a sociedade não é olhada como doente uma vez que - provável razão - ela é norma. Os desvios comprovam a norma, embora raramente se reconheça que aqueles derivam desta. E mais, a norma sobrevive pela recorrência dos desvios.
Passo ao lado de uma livraria, olho de relance para a montra e fico a pensar na fragilidade da nossa sociedade quando observo a quantidade de livros que apontam caminhos para a felicidade. Caminhos discutíveis pois sugerem um aprisionamento dos leitores a uma imperativa necessidade de auto-ajuda, auto-realização, autocontrolo, autoconfiança, autodefesa, autoestima, autodeterminação, eu sei lá que mais."
In "Nos Rastos da Solidão", José Machado Pais.

Excerto publicado na revista de domingo do Público em 26/07/2006, a propósito de uma entrevista com o autor, intitulada "A solidão é normal?"

andré

Onde está o Hizbullah?



Parece que o Hizbullah está aqui. No Uncle Deek, onde se bebe um nescafé fora de horas em Beirut. Espera, espera, que há um bairro xiita escondido atrás do Uncle Deek! Os katiucha devem estar escondidos nas máquinas do café e quanto aos Raad, menos discretos, devem estar na arrecadação ao lado das casas de banho. Só pode...

Norma

domingo, julho 30, 2006

Acabei de ler Orientalismo…



Desde que, por alturas do 11 de Setembro, soube da existência deste livro, através de uma entrevista com o autor no Público, que me ficou a vontade de o ler. Hoje terminei-o.
É sempre um motivo de regozijo quando uma obra me põe a pensar sobre as coisas e sobre a sua origem. Essa é, para mim, a sua grande virtude. Porque não é apenas a complexidade do problema que se torna relevante mas também a metodologia utilizada que vai, ela própria, influenciar a leitura e compreensão da tese que se visa defender.

Não posso deixar de manifestar alguma raiva perante o facto de o autor deste livro se ver na necessidade de produzir uma obra tão extensa e tão profunda para tornar inteligivel uma ideia que fica, para alguns, clara logo nas primeiras páginas. Não porque não seja necessário faze-lo mas porque só assim se consegue ser respeitado num ambiente onde as ideias dominantes são diferentes daquelas que o livro defende.

Resumindo e concluindo, é como se, para contrariar um discurso tão simples como o de George Bush em torno do "Eixo do Mal", um intelectual nos dias de hoje, tivesse que escrever um livro de 400 páginas em torno das assumpções que estão detrás da política externa americana em geral, e desta administração em particular. E porque bombardear a Casa Branca está fora de questão.

andré


PS: Para os que se sentem à vontade no inglês, recomendo esta edição de 2003 da Vintage Books que tem um novo prefácio do autor e mantém o epílogo de 1994. De qualquer forma, o livro foi editado em português pela Cotovia em 2004.

… e deixei de assinar o Economist





Sempre preferi as experiências orientadas, que visam a autonomia e a independência intelectual de cada um. Infelizmente esta não é a vocação desta respeitada revista semanal cuja honestidade e rigor respeito e admiro. Por outro lado, é cada vez mais claro para mim que a Economia não é (nem alguma vez terá sido) o principal orientador da vida dos países e das pessoas. Enfim… tenho de procurar um subsituto. Se alguém quiser dar uma ajuda…

andré

sábado, julho 29, 2006

Eu bem me parecia…

"O cristão e o comunista são muito próximos em muitos aspectos só que o cristão tá pensando nessa vida maravilhosa após a morte e o comunista quer ver essa vida aqui, agora."

Lenine (o músico) , em mais uma entrevista Pessoal e Transmissivel de Carlos Vaz Marques na TSF, disponivel em Podcast em http://www.lusocast.com ou http://www.tsf.pt


andré


PS: O meu pai dizia que Jesus tinha sido primeiro comunista na terra. A partir de determinada altura, eu passei a perguntar-me se não seriam os comunistas os apóstolos da nossa contemporaneidade. Aquela frase do Marx de que a religião era o ópio do povo devia ser um recalcamento qualquer.

quinta-feira, julho 27, 2006

Joana & Michel

(na manifestação contra a guerra israelo-libanesa, ontem, no Porto;
foto publicada no JN de hoje)

Há meses que acompanhamos este amor lindo, que sofremos com eles a angústia da separação e da distância, que seguimos com ansiedade as notícias que se sucederam aos primeiros bombardeamentos, no dia exacto em que Michel concluía o seu Master of Philosophy na Universidade Americana de Beirute, que vivemos o desespero da Joana enquanto o Michel não conseguia fugir de Beirute, que partilhamos as lágrimas de alegria quando o soubemos são e salvo em Amã, que ouvimo-lo horrorizado relatar, quando finalmente aterrou no Porto, como um helicóptero israelita sobrevoou a sua vizinhança, na zona cristã de Beirute, e muito perto de sua casa disparou três mísseis na direcção do porto de Beirute e se retirou lentamente e foi bombardear um aquartelamento do exército libanês, «como se fosse a coisa mais natural do mundo», que escutamos com um nó na garganta o relato extraordinário da sua fuga por estradas secundárias constantemente bombardeadas pela aviação israelita, «o taxista conduzia em semi-círculos sem praticamente olhar para a estrada, com os olhos fixos no céu a observar o movimento dos aviões israelitas e a direcção dos mísseis», e, por muito que discordemos da legenda do cartaz, não conseguimos deixar de sentir um grande orgulho e de torcer para que o Michel possa voltar quanto antes para o país a desmoronar-se que deixou para trás ou que a sua família possa sair pacificamente do Líbano para visitar este país à beira-mar alheado e regressar à Beirute natal sem nada temer. Porque, ao contrário do que por aí se apregoa, há libaneses que odeiam visceralmente o Hezbollah e a Síria, por muito que a imagem permita conjecturar o oposto.

evva e mariaşi

O medo da novidade

"Os povos têm um instinto que tenta impedir que não se desvirtue aquilo que amam. Quando vêem que coincide com a sua alma, então aceitam-no."

Horácio Ferrer a propósito das inovações introduzidas no Tango por Astor Piazzolla, em mais uma entrevista Pessoal e Transmissivel de Carlos Vaz Marques na TSF, disponivel em Podcast em http://www.lusocast.com ou http://www.tsf.pt


andré

segunda-feira, julho 24, 2006

Todos muito zangados, árabes e não só


Tem sido dificil arranjar tempo para escrever alguma coisa sobre o que se está a passar no médio oriente, ou melhor dizendo sobre a agressão bárbara e repugnante que Israel (se não com o apoio declarado dos States, pelo menos com a sua conivência) mantém sobre o Libano.

À falta de palavras minhas ou do Michel, reencaminho-vos para este blog: http://angryarab.blogspot.com/

E fica a promessa de comentar o assunto em breve.

Joana

quarta-feira, julho 19, 2006

A legitimação da violência

Na passada segunda-feira, enquanto antecipava os títulos dos jornais britânicos do dia seguinte, a estação televisiva SKY News destacava a foto do jornal inglês The Guardian que descrevia de forma impressionante a devastação que a força aérea israelita tinha causado em Beirute, a capital do Líbano. Na tarde do dia seguinte, a mesma estação cobria o sofrimento da mãe de um dos soldados israelitas raptados e destacava os mortos no ataque do dia anterior à estação de comboio de Haifa, bem como o ambiente de tensão e de medo que se vivia naquela cidade, que pelas imagens parecia ainda de pé.

Na terça-feira vi o presidente da Comissão Europeia a pedir ao Hezbollah, mas não a Israel, o cessar imediato da sua actividade militar. Vi o jornal Público a fazer manchete com o ataque à estação de comboio de Haifa e a deixar para segundo plano a destruição do Líbano, e vi eurodeputados do PS, do BE, e da CDU a exigir uma posição da UE contra o ataque de Israel, enquanto o deputado do PSD, um respeitado intelectual, defendia a posição vigente.

Hoje, quarta-feira, o primeiro-ministro britânico afirmou no parlamento que enquanto as condições obrigatórias para o cessar fogo (de Israel) não estiverem cumpridas, ou seja enquanto o Hezbollah não parar a sua acção militar, nada de novo vai acontecer, ou seja, Israel não vai ter de parar os bombardeamentos.

Esta situação é aparentemente simples para muitos dos que estão a ler este texto, pois Israel é a vítima óbvia de uma organização terrorista que todos condenamos. Israel representa para muitos um pedaço do Ocidente (seja lá o que isso for) no meio de um conjunto de Estados subdesenvolvidos que representam ou estão associados ao Eixo do Mal (?!…).

A agressão de Israel não é terrível apenas pela enorme desproporcionalidade de recursos militares, ou pelo ataque a bairros cristãos, ou pelo morte de civis, ou pela devastação de um país que já estava a conseguir dar a volta por cima depois de uma guerra longa.
O que choca é que estes ataques fazem parte de um projecto militar de larga escala a partir do qual o Estado Judaico pretende eliminar todas as potenciais ameaças à sua existência. E porquê? Talvez porque o seu principal aliado, os EUA, pense da mesma forma em relação à sua política externa. É pra deitar tudo abaixo! Iraque, Líbano, quem sabe até o Irão e a Coreia do Norte e, se for necessário, a Síria.

Quanto à foto do The Guardian, talvez fique no top do ranking de um qualquer concurso internacional de fotojornalismo onde será abraçada com choque e muita admiração.

Já agora, e para que se saiba, há cerca de 300 mortos libaneses. Israelitas cerca de 25. Israel ainda está de pé. O Líbano já não.

andré

terça-feira, julho 18, 2006

Boa sorte Israel…

Caro/a leitor/a,

Peço-lhe o favor de me acompanhar neste raciocínio:

1. O Estado de Israel existe e assim vai continuar, por muitas e variadas razões, e não estou em crer que nenhuma força seja capaz de o destruir. Actualmente, o seu primeiro ministro está preso a uma politica que nada trará de bom para o seu país, oriunda de um homem que já nem sequer existe politicamente.
2. Os movimentos terroristas que surgiram contra Israel vão continuar a existir, por muitas e variadas razões, enquanto o mote da sua existência se mantiver e, sobretudo, enquanto a revolta das populações contra os actos de Israel lhes continuar a garantir novos militantes e recursos para combater. A vitória do Hamas e do Hezbollah em eleições democráticas aparece porque, por muito que nos choque, quando estamos entre a parede e o abismo escolhemos a segunda alternativa.
3. Os EUA vão continuar a apoiar Israel, por muitas e variadas razões, mas vão tentar acalmar o Médio Oriente por forma a não aumentar ainda mais a desgraça que criaram no Iraque onde o resultado foi o aumento do poder e influência de toda a corrente radical anti-americana (eu arrisco dizer anti-ocidental). Creio que depois de duas torres, os rapazes não aguentariam ver um avião ou um qualquer engenho explosivo deitar abaixo mais um símbolo do seu país e da sua cultura.
3. A Rússia e a China não têm muito que dizer a não ser que ninguém pode fazer mal ao Irão, pois afinal ele fornece petróleo e sabe-se lá mais o quê, recebe o dinheiro e não faz perguntas.
4. O primeiro ministro Iraniano continua a berrar mais alto do que a elite religiosa do seu país contra os Americanos e contra Israel, o que lhe dá popularidade e força política, uma vez que, para o manterem sossegado, os clérigos Iranianos alguma coisa lhe terão de dar em troca. Convenhamos, ninguém no Irão quer uma guerra contra os Americanos ou contra Israel.
5. A Europa está entalada entre o dever de solidariedade aos Americanos e Israelitas e o dever de cordialidade aos Chineses e aos Russos.
6. A ONU nada mais pode fazer, pois o Conselho de Segurança está preso perante este exercício global de Real Politik.

Num ambiente de cortar a respiração, uma solução da paz negociada podia ser aquilo que todos queriam, mas a memória recente do destino de Yitzhak Rabin elimina toda a esperança de que a paz possa surgir, quanto mais sobreviver, a partir de Israel.

A pergunta que fica é: quantos mais Líbanos terão de ser destruídos até que a paz possa regressar, nem que seja só por um bocadinho?

andré


PS: na passada sexta-feira, dia 14, no Expresso da Meia-Noite da SIC Notícias, a prof.ª Manuela Franco dizia que talvez o problema esteja na assumpção ocidental de que o conflito Israelo-Árabe se tem de resolver…
Tal como a droga, a prostituição, e outros males endémicos do nosso mundo, este parece ser um problema com o qual se tem de ir lidando. É triste não é?

segunda-feira, julho 17, 2006

Ah, Zizou!




(via Tomar Partido)

evva

Autre éventail

(El Abanico Rojo, Soledad Fernandez)

[Eis um poema da mulher de Mallarmé dedicado ao mais precioso dos objectos. É o próprio 'éventail' que aqui assume a voz, desejando que a sua interlocutora não cesse de agitá-lo e com ele 'frissonner l'espace', que se anima graças ao seu movimento contínuo. É o que mais precisamos neste momento, que uma frescura de crepúsculo nos beije. Incessantemente. ]

O rêveuse, pour que je plonge
Au pur délice sans chemin,
Sache, par un subtil mensonge,
Garder mon aile dans ta main.

Une fraîcheur de crépuscule
Te vient à chaque battement
Dont le coup prisonnier recule
L'horizon délicatement.

Vertige! voici que frissonne
L'espace comme un grand baiser
Qui, fou de naître pour personne,
Ne peut jaillir ni s'apaiser.

Sens-tu le paradis farouche
Ainsi qu'un rire enseveli
Se couler du coin de ta bouche
Au fond de l'unanime pli!

Le sceptre des rivages roses
Stagnants sur les soirs d'or, ce l'est,
Ce blanc vol fermé que tu poses
Contre le feu d'un bracelet.


Madame Mallarmé


[evva]

domingo, julho 16, 2006

MES DAMES ET MESSIEURS, THE 2006 SUMMER HIT:

Qual Floribela, qual carapuça! Qual GNR, qual inferno reciclado! A música de Verão c'est La Danse du Coup de Boule. As rádios portuguesas, habitualmente vendidas às editoras, ainda não o descobriram, mas na blogosfera não pára de tocar. Para ouvir e dançar sem descanso. À sombra.

LA DANSE DU COUP DE BOULE
(clicar para ficar viciado)


Coup de boule, coup de boule
Coup de boule à droite
Coup de boule, coup de boule
Coup de boule à gauche
Allez les bleus!
Allez!

Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule

Le rital il a eu mal
Zidane il a frappé
L'italien ne va pas bien
Zidane il a tapé
L'arbitre l'a vu à la télé
Zidane il a frappé
Mais la coupe on l'a ratée
On a quand même bien rigolé

Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé

Trézéguet n'a pas joué
Quand il a joué il a raté
Il a tout fait capoter
La coupe on l'a ratée
Barthez n'a rien arrêté
C'est pourtant pas compliqué
Les sponsors sont tous fâchés
Mais Chirac a bien parlé

Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Coup de boule
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé

Attention, c'est la danse du COUP DE BOULE!

Coup de boule, coup de boule
Coup de boule à droite
Coup de boule, coup de boule
Coup de boule à gauche
Coup de boule, coup de boule
Coup de boule avant
Coup de boule, coup de boule
Coup de boule arrière
Coup de boule, coup de boule
Et maintenant penalty
Attention il va tirer1, 2, 3,
c'est raté!

Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé
Zidane il a frappé, Zidane il a tapé

On a quand même bien rigolé
Zidane et Trézéguet
La coupe on l'a ratée
Zidane et Trézéguet
On a quand même bien rigolé
Zidane et Trézéguet
La coupe on l'a ratée
Zidane et Trézéguet
Et Trézéguet
Et Trézéguet
Et Trézéguet, guet, guet
Et Trézéguet
Coup de boule, coup de boule
Et Trézéguet
Coup de boule, coup de boule
Et Trézéguet
Coup de boule, coup de boule
Et Trézéguet
Coup de boule, coup de boule
Guet, guet
Et Trézéguet

(via ::::autopsicografia:... Merci, Mariana!)

evva

quinta-feira, julho 13, 2006

Which Horrible Affliction are you?

[Um dia ainda vou conseguir perceber como é que estes inquéritos acertam sempre...]

Congratulations, you're rabies!
Transmitted by rabid animals, you're most commonly found infecting creatures such as raccoons, skunks, bats and foxes. But don't worry, you affect humans too, causing either paralysis or hyperactivity in your advanced stages, and ultimately death.
Your most famous symptom is hypersalviation - that delightful foaming at the mouth that we have come to know and indeed love. However, you can also cause hallucination; think of the fun you could have at parties!
If you wish, you can proudly tell the world that you kill dogs with the following fine graphic:

I am Rabies. Grrrrrrrr!
Which Horrible Affliction are you?

evva

quarta-feira, julho 12, 2006

Saudades

O Tour chegou hoje a Pau, a mais bonita cidade em que vivi:


E eu sem um canalzinho cabo que fosse para matar saudades destes recantos. A fonte Vigny no Boulevard des Pyrénees era um dos meus preferidos:


Morei os primeiros meses, de Outubro a Fevereiro, na rue du Parlement, em pleno Quartier du Château onde nasceu Henri IV, o tal que conclui que 'O meu reino vale bem uma missa' e se converteu para poder subir ao trono de França:

Em pleno Quartier du Château. O restaurante da esquerda é o 'Reine Margot', que também enlouqueceu por aqui. Viram o filme de Patrice Chéreau?


O Parc Beaumont. Ainda me lembro de andar por aqui a cantarolar a Carmen, numa altura em que estudava a novela de Prosper Mérimée em que Bizet se inspirou.


Até sempre.

evva

Sem perdão

Até eu era incapaz de me ficar se ouvisse uma coisa destas. Estás desculpado, Zizou. On t'aimera pour toujours.

evva

(via nortadas)

Da Finlândia

Ontem à noite, a jantar com um casal de finlandeses, ela professora de História, ele a terminar o Doutoramento, dissertávamos sobre a 'a miragem finlandesa' de José Sócrates e os vícios e virtudes e de tal comparação quando Mikko sentenciou a conversa:
- Podemos ser o país com maior nível educacional, mas nada disso nos faz felizes. Temos uma das mais elevadas taxas de suicídio do mundo.
Ok, pensei. Burros mas felizes. Venha o diabo e escolha.

evva

segunda-feira, julho 10, 2006

Everyone's waiting



for Six Fett Under's last episode tonight. Às 22,30, na 2:.

evva

sábado, julho 08, 2006

Sosseguem as hostes


Afinal O Desejado regressou há muito. Há quase 500 anos que este país suspira pela sua vinda redentora e afinal o esqueleto repousa nos Jerónimos, num túmulo de mármore sobre dois elefantes. Parece que foi um tal Filipe II de Espanha, no ano da graça de 1581, quando andava por aqui a fingir que se interessava, que mandou transladar para Lisboa um corpo que alegava ser do ansiado messias, a ver se punha termo à paranóia sebastianista. Sem sucesso.

Parece-me ser prioritário analisar este monte de ossos em vez dos que descansam em Santa Cruz de Coimbra, a não ser que se queira comprovar d'avantage a ascendência lusa de George W. Embuste. Afinal desde ontem que não como nem durmo desde que ouvi que na sepultura de Damião de Góis foram descobertos os restos mortais de oito imberbes e alguém comentou ser do conhecimento geral que o homem adorava criancinhas...

Estará Portugal preparado para reconhecer que no túmulo do Fundador se guardam os ossos de um qualquer plebeu estropiado? E que no Mosteiro dos Jerónimos se armazena o esqueleto de um equídio?

Porque no fim de contas, meus amigos, toda a gente sabe que o tempo dos redentores da pátria já lá vai e o verdadeiro D. Sebastião jaz actualmente no Palácio de Belém.

evva

sexta-feira, julho 07, 2006



Não te vou cobrar nada.
Apenas quero de ti
alento na caminhada
que escolhi.

O que te dei - não dei.
Apenas te devolvi
parte daquilo que eu sei
que me vem de ti.

Torquato da Luz, no Ofício Diário

evva

quarta-feira, julho 05, 2006

É a vida…



Hoje sinto-me feliz por usar esta frase que tão má impressão nos deu sobre aquilo que somos.
Perdemos como podíamos ter ganho. Mas jogámos até ao fim. Sem baixar os braços. Porque perder também faz parte. Porque é também na derrota que se vêem os campeões.

Para os que estão mais afastados do Desporto eu lembro que nos últimos 10 anos o nosso país já conseguiu ficar entre os 10 melhores (a nível europeu e mundial) no Andebol, no Judo, no Triatlo, no Atletismo (pois com certeza), no Futebol, na Canoagem, no Ciclismo, na Vela, e provavelmente noutras modalidades de que não me recordo agora.

Quando começa a ser frequente chegar ao topo a probabilidade da derrota começa igualmente a ser maior. Mas o importante é não esquecer o que já se conseguiu, pois isso ninguém consegue tirar. Se calhar é por isso que quase nenhum dos jogadores se pronunciou a "quente" sobre a arbitragem (que foi boa). Eles, mais do que ninguém, sabem o que fizeram e o que os Franceses fizeram mais do que eles.
Parabéns a todos.

andré


PS: Será que com as declarações que fez no fim do jogo, a culpar o árbitro, Scolari está a preparar a sua saída?
Eu por mim dava-lhe um grande abraço, pedia ao Prof. Cavaco que o tornasse Comendador, e estendia-lhe uma passadeira vermelha até ao avião a caminho do Brasil.
Vai, vai e não voltes. Foi bom enquanto cá estiveste mas estou farto do teu futebol conservador e da tua avidez ao risco. Junto como o teu colega Parreira, fazes do Futebol uma guerra, retiras-lhe a beleza, e eliminas o jogo. Vai ser dificil suceder-te. Afinal, em 66, foi também com um treinador brasileiro que conseguimos o 3º lugar.

Zizou! Zizou! Zizou!

evva

segunda-feira, julho 03, 2006

Como avaliar os professores malucos?

Um excelente post n'O Mundo Perfeito, que subscrevo na íntegra. Ora leiam:

«Nunca conheci um professor que gostasse de avaliar; é ingrato; quase sempre injusto. Mesmo em ciências exactas é difícil avaliar justamente as aprendizagens. Um bom aluno pode mostrar-se incapaz de realizar um exercício específico, e ter aprendido muito mais do que qualquer outro, globalmente; ser excelente. Por isso, classificações obtidas numa situação de avaliação nem sempre reflectem a aprendizagem realizada. Os professores sabem-no; o ministério sabe-o e, anualmente, emana despachos normativos e circulares inúmeras aconselhando moderação, ponderação, discussão das classificações, que são apenas sugeridas pelos professores das disciplinas, e aprovadas, ou não, pelos conselhos de turma.

É difícil garantir que o aluno da carteira da frente vale exactamente 3 quilos duzentos e cinquenta, e não mais nem menos. A aprendizagem tem portas do cavalo que a avaliação não consegue quantificar. Numa aula, acontece não se aprender o tema da lição, mas outro assunto que não se tinha compreendido antes, no qual não se tinha pensado, ou no qual se vinha pensando sem solução. Faz-se luz de repente. Foi uma aula inútil?
Um bom professor produz este tipo de conhecimento. Flexível. Activo. Crítico. Multidisciplinar. Autosuficiente.

Os alunos de 20 não são necessariamente os mais capazes, mas não é possível negar que sejam quase sempre exemplarmente organizados e disciplinados; cumprem as regras; apresentam soluções convencionalmente certas, mas nem sempre resplandecem, voam. Frequentemente estão presos ao chão com uma cola toda feita de ordem, medo e obediência. Sabem definições de cor. Datas. Fórmulas. Memorizam a gramática de uma ponta a outra, os compêndios chatos, e sabem distinguir conjunção de locução conjuncional. Quase sempre se portam muito bem. Não têm grande sentido de humor. Nem sempre são criativos, mas produzem moeda-classificação. Ouvem-na cair.

Os professores do sistema, sentadinhos na secretária, com seus fatinhos de saia e casaco de fazenda azulinha ou de calça e casaco, cinzentinhos, as mãozinhas brancas de dedo curto com aliança, muito graves e científicos, gostosamente entalados na forma canónica, e incapazes de sair dela, sempre me causaram... borbulhagem.

Gostava dos professores faltistas. Dos que passeavam entre as filas de carteiras enquanto diziam lérias, e a quem chamávamos malucos, mas a cujas aulas íamos com gosto. Daqueles que a gente nem sabia em que parte do programa é que iam.“O que é que o gajo tá a dar?” “Sei lá, deve ser o barroco!” “O barroco não pode ser, que já demos o neo-realismo!”.
Gostava dos que diziam “merda, molhei os sapatos lá fora” ou “hoje estou cheio de gases”, e nos mandavam ler textos sérios pejados de asneiras, divertindo-se com o escândalo entre as meninas: “Tes... ai, tes...tí... bem... posso ler isto?, ai, testí... ti... culo, ai, este texto...".
Gostava dos que se sentavam em cima da mesa a falar sozinhos, despenteados, com mau feitio, e nos ensinavam coisas que a linguagem não contém. E que aprendiam coisas para si enquanto falavam. Estabeleciam uma relação em que não haviam pensado antes, “pois é, pois é”.

Mandavam-nos ver filmes que não eram para a nossa idade e ler livros terríveis. Não creio que seguissem programa, que tivessem planificação, que fossem a reuniões. Não tinham. Chegavam, mandavam umas bocas, dissertavam, divertiam-se que nem uns malucos e quem lhes tirava aquilo, tirava-lhes a vida.
Nos testes ditavam-nos as perguntas, inventadas na hora, e não dava para copiar, embora até pudéssemos... aquilo não estava escrito em lado nenhum.
O que eu aprendi com esses malucos sem método algum, que nunca na vida foram avaliados! Que não poderiam ser avaliados. Porque um bom professor não se avalia. Não é possível quantificar o que ensina. O que eu aprendi a não apodrecer de medo, a pensar mal, mas a pensar, para depois pensar melhor.
A esses professores, esses que eu tive, os faltistas sem método, haviam de lhes aplicar o próximo sistema estatutário de avaliação do desempenho, o tal que o governo vai aprovar com a benção da opinião pública que manipulou com total consentimento das redacções. Chumbavam todos! Era vê-los a cair que nem tordos! Hoje, seriam maus. Nem passavam na entrevista.

A avaliação tornou-se uma obsessão. Como avaliar tudo? Como avaliar um professor? Quanto vale? Quanto pesa? Quanto mede? Como posso ter mais sucesso igual a ter mais dinheiro? Quanto?
Ridículo. Ridículo. Daqui a 10 anos a educação estará na mesma. Pior. A crise na educação não assenta no funcionamento das escolas, mas no da sociedade. A maior parte das crianças chega hoje à escola sem saber o que são valores, ou quais são. É um discurso perdido, que não falam em casa, onde tudo é permitido. Não sabem que não podem sair de uma sala quando querem, porque desconhecem o conceito de regra. Não sabem o que é "isso do respeito". Os professores não conseguem dar aulas porque não conseguem ser ouvidos. Não têm poder para agir, para pedir silêncio.
Daqui a 10 anos a educação estará pior. Os melhores hão-de ser tão robotizados que preferiremos os piores.
É que o problema da educação não está na escola nem nos professores que, como noutras profissões, e em todos os tempos, foram bons e maus.
A crise da escola é o espelho de uma crise social profunda: nada vale nada - apenas o dinheiro e o sexo

evva

(sublinhados meus)

sábado, julho 01, 2006

cavalarias

Num fim de tarde em que os sorrisos abundam, aproveito a alegria que também sinto (grande, grande, grande Ricardo!!!!!!!) para começar a fazer o balanço anual. Como sou professora, costumo começar a colocar as venturas e desventuras do ano nesta altura em que o calendário lectivo também chega frenéticamente ao fim.

A ventura às vezes conduz-nos para encruzilhadas que nos apresentam aventuras difíceis, sobretudo se o nosso percurso cavaleiresco se parece afastar cada vez mais da Távola Redonda.
Como Perceval, sentimo-nos a deambular pela floresta, frustradas por não termos acedido ao enigma, sem ânimo para regressar para junto dos que sentimos nossos.
Vemo-nos rodeados por Florestas da Serpe, no meio da Terra Gasta, e às tantas perdemos o rumo que queriamos dar ao nosso morzelo... Não sabemos, como Boorz soube, responder aos nossos dilemas. Porque são dificeis, mas sobretudo porque mexem connosco. Com o brilho que temos nos olhos. Por amor de um ideal, em serviço de uma causa e de um, ainda, nobre cavaleiro, percorremos lagos ferventes. fontes enganadoras, enfrentámos falsas Genevras e donzelas diabólicas. E hoje, numa encruzilhada, sentimos falta do nosso leal companheiro. Como o nobre Galeote, caímos do nosso cavalo porque os nossos pensamentos nos doem demais para vermos a carreira em que seguimos.
Suplicamos a Lancelot, embora tentando disfarçar a nossa coita, que continue a partilhar venturas na nossa corte. Não raptamos genevras, nem oferecemos reinos grandiosos. mas estamos dispostos a prescindir de sono, a percorrer viagens desgastantes, até a convencer o resto da nossa mesnada com palavras eloquentes. Mas a Távola Redonda não admite cavaleiros estrangeiros. Faltar-nos-á o baptismo de Palamedes? Não sei.
Sei que me sinto muito só e cada vez mais longe do graal. Cada vez com mais provas da espada ao meu alcance. cada vez com menos partilha.
cada vez com menos tempo.
Só uma das pessoas deste blogue entenderá, suponho, esta prosa enredada. E estou certa de que a sentirá como sua. Ainda que, tendo partido hoje em mais uma demanda em que eu, por estar longe da corte dos eleitos, não estive, se tenha esquecido de um relato, com o fizera Boors, seu antigo cavaleiro. Ainda que a Távola Redonda se fique pelo elogio dos meus feitos, mas não faça sequer um esforço que dê a entender que o meu lugar na Távola não se transformou na seda perigosa.
E estou em muitas encruzilhadas. E hoje vou resolver uma delas. Deixo este blog, para sempre, com esta longa prosa, porque não faz sentido. Porque o tempo já é tão pouco. Porque sentimos longe os sorrisos. Os brindes que não fizemos. Só a voz cndescendente que nos diz. Nós compreendemos. Mas que eu esperava ouvir, como dantes, vem. Sem ti é diferente.
Com este egoísmo volto a embrenhar-me nas outras escolhas, estas mais dificeis. E requerem noites de descanso, ponderação e algum consilium. Ou então esperar um sinal de um cavaleiro Branco que nos desvende a narrativa nestas carreiras enredadiças.
Isabel Sofia

E mai' nada!!!



















Inglaterra 1 - Portugal 3

andré

terça-feira, junho 27, 2006

Jogar Bonito



Apesar deste ter sido o lema que a NIKE escolheu para a promoção da sua imagem neste Mundial, nem os jogadores que a representam nem os outros o têm seguido muito. E se retirar os 6-0 que essa máquina de jogar futebol que está a ser a Argentina deu à Servia e Montenegro, não me recordo, de entre os jogos que vi, de um que me tenha enchido as medidas. Até há uns momentos atrás quando assisti ao França-Espanha.

Uau! Que coisa tão bonita. Passes consecutivos entre jogadores, alternância constante da posse de bola entre as equipas, trocas de bola ao primeiro toque, desmarcações premanentes dos jogadores, alternância regular do sentido do jogo (direita-esquerda, cima-baixo), pressão sobre a bola à saída da grande área do adversário, ocupação de todo o espaço de jogo, remates, cruzamentos, fintas, golos (4). Ai ai (suspiro)…
E tudo isto com equipas que, apesar de tudo, privilegiam (sobretudo a França) a segurança da defesa ao risco do ataque, e que nem sequer jogam muito rápido. Era como se fosse um grupo de 22 amigos a disputar a partida e a disfrutar do prazer (e o espectador da beleza) do jogo.

No final, a equipa que eu apoiava perdeu por 3-1 com a França. É assim, ganha-se ou perde-se. E quando se tem Patrick Vieira e Zinedine Zidane na equipa e um lateral direito como Ribery a fazer o "jogaço" que fez hoje, pronto. Dá nisto.

Um apontamento para o árbitro italiano Roberto Rosetti (da mesma nacionalidade do deus-árbitro Colina) que fez uma actuação excelente. 1º Teve a ajuda das equipas. 2º Apitou quase sempre em cima das jogadas e quando não o fez foi assistido (na maioria das vezes bem) pelos juizes de linha. 3º Todas os lances em que os jogadores se envolviam fisicamente (intencionalmente ou não) foram assinalados (mais vezes bem do que mal, mas isso não é relevante), evitando assim qualquer margem para conflitos ou querelas individuais entre os jogadores. 4º Sempre que necessário, estava perto do jogador faltoso e garantia, com gestos, expressões faciais ou palavras, a passagem da mensagem ("não repitas isso muitas vezes…"). Resultado: antecipação das situaçõees, controlo do jogo e apenas três cartões amarelos (quase todos no final), mostrados com tanta calma e tranquilidade que até parecia brincadeira de meninos. Erros houve com certeza, mas isso não é o mais importante. O essencial é que os jogadores confiaram nele. E mai' nada!
Como dizia o House no episódio desta semana, "é simples mas é dificil". A razão pela qual os restantes árbitros não fazem o mesmo que este fez ainda me escapa.

Para os apreciadores do jogo bonito, fica aqui o aviso: o Alemanha-Argentina é na sexta-feira às 16h00. Nham, nham…

andré


PS: Portugal ainda não fez um jogo que mereça um comentário assim, mas no sábado pelas 16h00 ninguém me tira da frente do televisor. Coitado do Erikson… está destinado a ter-nos como uma espinha na garganta.

Play fair



Não entendo como é que se pode celebrar uma selecção que será recordada, se mais não fizer, por ter participado, e com uma boa dose de responsabilidade, no jogo mais violento de que há memória num Mundial de futebol. E não me venham dizer que a culpa foi do árbitro por não ter expulsado o carniceiro do Cristiano Ronaldo e mais não sei o quê. Como é que conseguem não aceitar as críticas e acusar quem coloca objecções àquele comportamento lamentável de anti-scolarianismo primário?
Figo queria terminar a carreira em glória? Veremos se conseguirá ser lembrado pelas fitinhas e pelo engenhoso golpe de cabeça ou algo mais. Deitou por terra a exibição que fez nos jogos anteriores, sobretudo a jogada fabulosa para o primeiro golo de Pauleta.
O Mundial de futebol traz projecção internacional? Mas afinal o que queremos projectar? A chico-espertice troglodita?

Eu não desejo que a selecção perca, como apregoam por aí os incapazes de aceitar as críticas de absoluta falta de fair play. Por muito que não goste do seleccionador e continue a duvidar da sua real capacidade - lembram-se de 2004 e dos dois jogos que perdemos com a Grécia? E a teimosa convocatória? -, quero que a selecção vença este torneio, mas a jogar bonito, a deslumbrar-nos em cada passe, a conquistar pela magia da técnica os detractores incondicionais.
Ou então que perca de uma vez, para que a sanidade mental regresse a este país. Se é que alguma vez a teve.


evva

segunda-feira, junho 26, 2006

URGENTE!!!


Procura-se local com televisão nas imediações do Mosteiro de Pombeiro para o próximo sábado à tarde. Galhardia e boa disposição garantidas. Só não me peçam para levar a bandeirinha. Os interessados na oferta queiram por favor contactar quanto antes os responsáveis deste blog ou deixar indicações nas caixas de comentários. Obrigada.

evva

A DIFÍCIL TAREFA DE ARBITRAR




Desde de há uns anos para cá, quando me fartei da clubite insuportável das opiniões sobre futebol e do comportamento inaceitável de alguns adeptos, que torço pelos árbitros e pelos treinadores. Em relação aos segundos creio que é por mero corporativismo, pelo menos em relação àqueles que têm o mesmo curso que eu. Pelos outros, não morro muito de amores.
Quando aos primeiros é por um sentimento de injustiça permanente que sinto haver para com eles e para com a função que desempenham dentro do campo.

De todos os desportos que conheço o futebol é quase de certeza o mais difícil de apitar pelo simples facto de que, para o variado leque de situações e circunstâncias, um árbitro tem apenas três penas possíveis: marcar falta, mostrar um cartão amarelo ou um cartão vermelho. A isto acresce que a avaliação da situação e a penalização têm de ser feitas num mesmo curto instante.

Para os que possam dizer que as circunstâncias são fáceis de analisar e que estamos apenas perante um jogo, eu peço o seguinte favor: tentem imaginar-se numa eliminatória de um campeonato da Europa ou do Mundo num estádio com 60 mil pessoas, milhões a ver na televisão, e isto tudo integrado num fenómeno planetário que envolve paixões, identidades, interesses e dinheiro, muito dinheiro. Tentem imaginar o peso de uma decisão neste contexto. Se ainda acharem fácil, convidos-o, sinceramente, a ir para um estádio ao domingo e insultar quem lhes apetecer, tal qual o adepto comum que provavelmente tanto criticam e lamentam.

O árbitro Valentin Ivanov fez de facto uma lamentável actuação no jogo Portugal-Holanda, e Joseph Blatter, presidente da FIFA, tem razão ao criticá-lo (embora não creia que devesse ser ele a fazê-lo). O mesmo aconteceu ao árbitro Graham Poll (ver secção de desporto do Público de Domingo) e a outros neste Mundial. Não sei se é pelo facto de trabalhar com árbitros noutra modalidade mas agora reparo mais nestas coisas.

O que para mim é interessante é que embora a crítica do sr. Blatter seja feita no momento certo, ela é de facto incorrecta. O árbitro foi consistente, as suas decisões foram coerentes. O problema foi, na minha opinião, que ao penalizar a entrada ao Cristiano Ronaldo com cartão amarelo ele abriu um precedente que não mais conseguiu contornar. Entradas daquelas iriam ser permitidas. A partir daí foi só juntar lume à fogueira e os portugueses quiseram garantir várias vezes que não se iam ficar, reagindo com igual violência.

Com tão poucos instrumentos de penalização, ao árbitro de futebol não interessa ser consistente na penalização mas sim no julgamento e para isso tem de entender que cada situação pode e deve ter uma penalização diferente. É só olhar para o sr. Pier-Luigi Colina (na foto) para perceber isto.

Como que é que num jogo dos oitavos de final de um Campeonato do Mundo pode haver um árbitro que não entende isto é algo que tenho dificuldade em perceber.


andré

domingo, junho 25, 2006

Valeu Maniche...

(foto publicada em O Jumento)

numa partida em que imperou o anti-jogo e a violência, para não falar nas fitinhas do costume. Ganhar assim não devia contar e não adianta lembrar que os outros foram piores e que lesionaram o Ronaldo e não passaram a bola quando o árbitro interrompeu o jogo e blá, blá, blá... Deviam ter vergonha!

A ver se a ausência de Quaresma não se faz notar, agora que metade da equipa está castigada.

evva

P.S.: E se se cancelasse a ida a Pombeiro no sábado à tarde... ?

sexta-feira, junho 23, 2006

A noite do Baptista

(foto via A Cidade Surpreendente)

O pobre coitado perdeu a cabeça por uma dança de sete véus,
mas não há Santo mais bem festejado do que este.

Viva o S. João!

evva

Que cheirinho

evva

BOM S. JOÃO!



E o prémio da melhor quadra vai para:

Quem te viu e quem te vê
Ó meu rico S. João
Pareces a FCT
Pões-nos a olhar pró balão...



evva

E como já há algum tempo que não volto ao assunto...

«Professores

"Aspectos que toda a gente parece ignorar sobre a profissão de professor e que será bom esclarecer:

1º. Esta é uma profissão em que a imensa maioria dos seus agentes trabalha (em casa e de graça, entenda-se) aos sábados, domingos, feriados, madrugada adentro e muitas vezes, até nas férias! Férias, sim, e sem eufemismos, que bem precisamos de pausas ao longo do ano para irmos repondo forças e coragens. De resto, é o que acontece nos outros países por essa Europa fora, às vezes com muito mais dias de folga do que nós: 2 semanas para as vindimas em Setembro/ Outubro, mais duas para a neve em Novembro, 3 no Natal e mais 3 na Páscoa , 1 ou 2 meses no verão.

2º. É a única profissão em que se tem falta por chegar 5 minutos atrasado (também neste caso, exigirá a senhora Ministra um pré-aviso com 5 dias de antecedência?).

3º. É uma profissão que exclui devaneios do tipo “hoje preciso de sair meia hora mais cedo”, ou o corriqueiro “volto já” justificando a porta fechada em horas de expediente.

4º. É uma profissão que não admite faltas de vontade e motivação ou quaisquer das 'ronhas' que grassarão, por exemplo, no ME (quem duvida?) ou na transparente AR.

5º. É uma profissão de enorme desgaste. Ainda há bem pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava na 2ª posição, a seguir aos mineiros, mas isto, está bom de ver, não convém a ninguém lembrar… E olhe que não, senhor secretário de estado, a escola da reportagem da RTP1 não é, nem de longe, caso “único, circunscrito e controlado”!

6º. É uma profissão que há muito deixou de ser acarinhada ou considerada, humana e socialmente. Pelo contrário, todos os dias somos agredidos – na nossa dignidade ou fisicamente (e as cordas vocais não são um apêndice despiciendo…), enxovalhados na praça pública, atacados e desvalorizados, na nossa pessoa e no nosso trabalho, em todas as frentes, nomeadamente pelo “patrão” que, passe a metáfora económica tão ao gosto dos tempos que correm…, ao espezinhar sistematicamente os seus “empregados” perante o “cliente”, mais não faz do que inviabilizar a “venda do produto”.

7º. É uma profissão em que se tem de estar permanentemente a 100%, que não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias (físicas e psíquicas) ou problemas pessoais…

8º. É uma profissão em que, de 45 em 45, ou de 90 em 90 minutos, se tem de repetir o processo, exigente e desgastante, quer de chegar a horas, quer de "conquistar", várias vezes ao longo de um mesmo dia de trabalho, um novo grupo de 20 a 30 alunos (e todos ao mesmo tempo, não se confunda uma aula com uma consulta individual ou a gestão familiar de 1, 2, até 6 filhos...).

9º. É uma profissão em que é preciso ter sempre a energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir programas, zelar para que haja material de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção. (Batemos aos pontos as competências exigidas a qualquer dos nossos milionários bancários, dos inefáveis empresários, dos intocáveis ministros! Ao contrário deles, e como se não bastasse tudo o que nos é exigido (da discrepância salarial e demais benesses não preciso nem falar)…

10º. Ainda somos avaliados, não pelo nosso próprio desempenho, mas pelos sucessos e insucessos, os apetites e os caprichos dos nossos alunos e respectivas famílias, mais a conjuntura política, económica e social do nosso país!"».

evva

quinta-feira, junho 22, 2006

Colheita de luxo II



Deixas

Deixar num verso
ao menos
o perfume labiado da sálvia
e sua flor,
azul da montanha.

Casas térreas
ou templos
para o sol que se levanta.

António Osório, Décima Aurora (1982), Na Regra do Jogo, p. 72.



[Quando há um ano fiz em Serralves o Curso de Flores Comestíveis as sálvias foram das flores aconselháveis. Provem-nas.

evva]

quarta-feira, junho 21, 2006

Colheita de luxo

Anos de medicação pesada fizeram-me engordar uns quilitos nos últimos tempos e trouxeram complicações várias. Eis-me agora condenada a uma dieta cerrada, nem sempre seguida com a regularidade devida (as más companhias...), mas vigiada de perto e a obrigar-me a consultas de quinze em quinze dias.

Como o consultório fica nas imediações da melhor concentração de livrarias do Porto, sempre que os resultados do policiamento são positivos ofereço-me um livro. Invariavelmente os passos conduzem-me à Poetria, que tem sempre à porta duas mesas de usados que adoro vasculhar.
Se há duas semanas encontrei uma óptima edição do Amada de Toni Morrison, a colheita de hoje, apesar dos míseros 400 grs a menos na balança (pouquinho, pouquinho, mas devagar se vai bem longe), foi um exemplar do Décima Aurora, de António Osório (1977-1981) com dedicatória redigida pela mão do poeta, quatro desenhos de Mário Botas e um interessante prefácio de Joaquim Manuel Magalhães.

Mal abri o livro e encontrei os versos que se seguem, ficou selado o destino dos últimos trocos que trazia. Vou andar a pão e água uns dias, mas terei com que alimentar a alma.

Provérbio de Espanha

Cada dia tem a sua pena.
Semeia no teu ânimo.
A rubínia morreu, planta
outra e não descures ambas.


[evva]

Perguntar não ofende. Responder também não.


- O que preferes? Uma vitória da selecção portuguesa no Mundial da Alemanha ou mais uma Liga dos Campeões para o Futebol Clube do Porto?

- Mas isso nem se pergunta! Amigos, amigos, coração à parte. Chovam vitórias do Dragão e levantem bem alto a taça da Champions. Tudo o resto, entusiasma-me medianamente.

evva

terça-feira, junho 20, 2006

Dias


Há dias assim, que se arrastam dolorosamente até ao seu ocaso. Em que não podemos partilhar o que nos vai na alma, por demasiado triste e demasiado ignóbil.

Dias que nos oprimem e sobrecarregam a cabeça do peso da raiva. Queremos continuar a acreditar ingenuamente que a inteireza de carácter perdura e a tudo resiste e ainda é possível conservarmo-nos íntegros e inalienáveis, mas...

Dias que nos sufocam.

Todavia... consola-nos pensar que o que nos magoa já não nos derruba. Venha outro dia assim. Mas não tão cedo.

evva

Eugénio


Há um ano atrás, uma azáfama de mails, sms e conversas apaixonadas discutia a perenidade dos que nos deixaram na madrugada de 13 de Junho de 2005. Toda essa agitação daria origem a um blog, hoje extinto, e muitas outras discussões, que confirmaram uma amizade inabalável e minaram uma afeição que se esfumou.


Mas hoje apetece-me voltar em tom de solilóquio àquele velho assunto e reafirmar o que disse quando nem sequer sonhava escrevinhar na blogosfera. É que, apesar do esforço dos media com documentários de inegável valor histórico e inúmeros textos mais ou menos laudatórios e evocativos, Álvaro Cunhal acabará por se tornar apenas numa nota de pé de página dos livros de história, ou nem isso, e a poesia de Eugénio de Andrade continuará a ser infinitamente lida e amada.


E há também a figura maior do homem que foi Eugénio e que a crónica de António Lobo Antunes recordada no Kontratempos tão bem evoca:

«O poeta Eugénio de Andrade está muito doente. É meu amigo e não tenho coragem de o visitar. Quando ia à sua casa, no Passeio Alegre, um espaço de cuidadosa brancura diante das palmeiras e do mar, recebia-me com vinho fino, biscoitos, livros, pequenas atenções que me tocavam, conforme me tocava a sua delicadeza, a sua fidalguia. A mesa de mármore para escrever. Nunca me disse mal de ninguém e a vaidade que o habitava, tão ingénua, comovia-me. (...) A sua solicitude e a sua ternura em relação a mim eram infinitas. Já doente e estando eu em Roma para um prémio, o padre e poeta José Tolentino Mendonça, que ele apreciava grandemente e é um dos poucos que admiro e respeito, contava-me que o Eugénio o chamava, preocupado que eu estivesse bem. Punha, na camaradagem, um desvelo fraterno (...) Dele recebi, durante anos e anos, inúmeras provas de estima. Censuro-me não o visitar agora; é que não suporto vê-lo acabar assim, reduzido a um pobre fantasma titubeante. A ele, que tanto prezada a beleza e a sua própria beleza (o Eduardo Lourenço, amigo de ambos - E então chegou-nos a Coimbra aquele Rimbaud) a doença resolveu destruí-lo, horrivelmente, no que mais lhe importava, tornando-o um Rimbaud desfigurado, dependente, trágico (...). Ao Eugénio prefiro lembrá-lo como o conheci: orgulhoso, altivo, falando-me de jacarandás e frésias, amando (e era verdade) o 'repouso no coração do lume'. E, depois, havia pequenos actos que o definiam inteiro: uma das ocasiões em que fui ao Porto encontrei um livro de Jorge de Sena, um livro póstumo, horrível, em que Sena atacava companheiros de viagem (Cesariny e Vitorino Nemésio, por exemplo, muito melhores artistas do que ele) de um modo tão vil que me indignou. Referi o livro ao Eugénio. Ele ficou longamente em silêncio e, depois, tirou o seu exemplar de baixo de um móvel e poisou-o no sofá. Segredou - Tinha-o aqui escondido, sabe, porque não queria que pensasse mal do Jorge. (...) Reparo, agora, que estou a relatar tudo isto no passado, como se o Eugénio tivesse morrido. Talvez porque o homem que continua vivo não é ele. Talvez por pudor meu. Talvez porque o fim de um amigo me seja difícil. (...)».


E curiosamente, dias depois de ter relido este texto, eis que entre os ravioli e o gelado de nozes com molho de chocolate de uma noite recheada de poesia (desculpem referir constantemente os pormenores gastronómicos da minha parda existência...), encontro o poema que Eugénio escreveu após a notícia da morte de Sena:



A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?


Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em tio rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?


Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.


No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.


Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.


Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.


Agosto, 1978


[evva]

Ah, Camilo!


E de repente, entre sardinhas e pimentos assados numa tasca de Matosinhos, depois de magnífica caminhada pela Foz, L. abre o pequeno volume que trazia e lê a frase sublinhada:

«Não era muito que Tadeu de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas variantes são tantas e tão caprichosas que eu não sei se alguma máxima pode ser-nos guia a não ser esta: "Em cada mulher, quatro mulheres incompreensíveis, pensando alternadamente como se hão-de desmentir umas às outras". Isto é o mais seguro; mas não é infalível.»

Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição.

evva

segunda-feira, junho 19, 2006

Para ler, reler e guardar


Lembro-me agora de todos os teus gestos, o olhar sobre os muitos netos espalhados pela casa, comendo pão com doce de tomate, explorando os mosaicos da varanda, debruçados da janela para a rua com poucos carros. Éramos todos tão pequenos e tu tão lúcida, a avó em cujo colo cabíamos todos à vez, a avó fustigada pela vida mas sempre generosa, de braços abertos, infinitamente terna. Havia um cheiro naquela casa que não encontrei em mais lado nenhum: um cheiro de quartos na penumbra e mobiliário escuro, de décadas atravessadas com esforço e entrega absoluta aos outros. Lembro-me agora das coisas mais insignificantes: um sofá cor-de-laranja que refulgia sob o sol da tarde, o quadro que representava um barco perdido na tormenta em alto mar, um banco de madeira na cozinha, conversas de adultos que eu não percebia. E a bondade da minha avó confundido-se com a casa, emanando das paredes como matéria luminosa, beijos e abraços e afagos, enquanto o Alentejo entrava pelas janelas, já tão perto de Lisboa.Agora essa casa há muito desabitada ficou ainda mais distante, ilha que só a memória resgata. Morreu a última avó, a avó que a doença foi tornando ausente, numa espécie de morte antes da morte, num afastamento progressivo, lento e cruel. Algures um fio partiu-se, fechando a história de uma geração, enquanto se abrem os diques da tristeza adiada. Lembro-me agora de todos os teus gestos, avó. Vejo-te atravessando a escuridão da infância, belíssima. E apaziguas-me, novamente, nestas horas de despedida e melancolia.

José Mário Silva, no A Invenção de Morel»

evva

domingo, junho 18, 2006

Os arquitectos e a paisagem


O Público traz hoje dois artigos sobre as intervenções urbanas do arquitecto Siza Vieira em três cidades portuguesas e onde são confrontadas as visões de dois geógrafos da Universidade do Porto, Álvaro Domingues da Faculdade de Arquitectura e Rio Fernandes da Faculdade de Letras.
Desde há muito tempo queria discutir, com alguém da área, o conceito de cidade inerente à intervenção de Siza Vieira (e Souto Moura) na Av. dos Aliados, que vinha na linha dos trabalhos realizados no jardim da Cordoaria, na Pr. dos Leões e em quase toda a baixa do Porto. Porquê a opção generalizada pela pedra, porquê o corte significativo da vegetação que lá existia, porquê a criação de espaços áridos que rapidamente se tornam desertos?
Álvaro Domingues defende a ideia de “unidade” presente na Av. dos Aliados, pois o espaço “estava pejado de vários estilos, era uma mistura de influências”, tendo ganho uma “nova espacialidade com menos acasos pelo meio”.
A Rio Fernandes não agrada a redução da diversidade da avenida, que considera “minimalista”, embora admita não gostar da anterior “profusão de vasos e flores, de bancos e quiosques”.
Tudo isto me lembra um documentário que vi na TV acerca de como a beleza estava ligada ao padrão e de como este era procurado sistematicamente pelo Homem.
É curioso como algumas das mais belas zonas do Porto são resultantes de um padrão acidental (as casas da Ribeira, as casas dos bairros da Marechal Gomes da Costa,) e muitos dos mais belos edifícios correspondem a uma ruptura mais ou menos visível com a paisagem circundante (a casa da Música, o Museu de Serralves). Um dos meus exemplos preferidos de ruptura e continuidade é o edifício que está a ser terminado na Av. da Boavista, junto ao Mcdonalds, um monólito que se enquadra perfeitamente numa paisagem de edifícios com alturas semelhantes mas com formas e histórias distintas. O importante não parece ser a unidade explicita mas sim a forma como a comunicação de elementos diferentes consegue criar essa unidade ou esse padrão. A unidade como resultado e não como objectivo.
Não entendo porque é que se retira de um espaço grande parte da sua vegetação apenas para garantir continuidade ou unidade. A intervenção de Souto Moura na rotunda da Boavista é um bom exemplo do compromisso entre os objectivos de um espaço urbano, amplo e com visibilidade, e o respeito pela sua identidade anterior de espaço verde.
O “empedramento” do espaço contíguo à antiga Cadeia da Relação, da Pr. dos Leões, da zona em frente ao Piolho e da Av. dos Aliados põe-me logo a pensar se não há um lobby da pedra a influenciar a gestão autárquica.
Mas antes de mais coloca-me perante uma cidade triste, deserta, sem espaços para as pessoas, onde a unidade estética se sobrepõe à vida do próprio espaço.
É muito triste quando a autoridade politica e técnica, responsável pelo desenvolvimento urbano, se afasta das pessoas que vivem nos espaços que ela própria cria. Desculpem mas então prefiro o nosso caos à unidade ou ao padrão asséptico que nos estão a impor.

andré

sábado, junho 17, 2006

Agora sim

PORTUGAAAAAAAL!


evva

Vítor Serpa, a remar contra a maré

«FAZ hoje oito dias publiquei um artigo sobre os professores. Era um texto que não pretendia ser de um especialista na matéria. Um texto feito com o que julgo ser um pouco de bom senso e apresentado numa perspectiva de observador atento e nunca resignado à natureza das coisas injustas.

O texto tinha, ainda, uma perspectiva de comparação entre o professor e o treinador desportivo. No fundo, o treinador é um professor de desportistas e o professor um treinador dos conhecimentos e dos saberes. Um bom professor, tal como um bom treinador, não deve ter a pretensão de ensinar tudo, mas deve ter a competência de ensinar a aprender tudo. Não apenas durante o tempo do clube ou da escola, mas durante toda a vida.

O que me faz regressar hoje ao tema são, de novo, os professores.
Ao longo da semana recebi dezenas de mails e muitos telefonemas. Não escondo que fiquei emocionado com a forma como tantos professores se reviram no meu texto e fizeram questão de enaltecer méritos que, provavelmente, nunca tive. Mas o mais importante de tudo foi constatar que os professores de Portugal, os homens e as mulheres que preparam os nossos filhos para saberem aprender toda a vida, estão no limite das suas forças, das suas resistências, sentem-se profundamente desconsiderados e estão indignados com a afronta que lhes faz quase diariamente um ministério vesgo e surdo, que ainda os responsabiliza por serem, eles próprios, violentados, sabendo, melhor do que ninguém, que foi o próprio estado que passou anos e anos a desacreditar, a fragilizar e desautorizar os professores perante os alunos, tornando-os no elo mais fraco do nosso desgraçado sistema de ensino.

E se volto ao tema neste jornal que nunca aceitou, nos 61 anos da sua história, fronteiras sociais, económicas, políticas ou desportivas, é porque não posso nem devo ficar indiferente a esses dezenas e dezenas de textos, alguns excelentemente escritos, que não escondem a mais profunda das desilusões, mas todos de uma dignidade e de um sentido ético da profissão de professor que deve ser revelado e enaltecido. Apesar de tudo o que têm sofrido, no silêncio próprio de quem não tem os microfones ministeriais sempre a jeito dos seus argumentos nunca questionados, não tenho a menor dúvida de que os professores deste país são heróis desconhecidos, que não se deixam abater, que resistem, que choram de raiva, mas que ficam de pé.

E tenho muita vergonha de viver num país onde ainda são raros os media generalistas, sejam televisões, rádios, ou jornais, que tenham o mesmo sentido crítico, a mesma frontalidade, a mesma liberdade e, até, a mesma coragem que, apesar de tudo, ainda vamos encontrando em alguns jornais desportivos.»

Para quem ainda não leu, aqui fica a crónica de Vítor Serpa "Jogo pelos professores":

«Os professores andam em pé de guerra. Como os professores são normalmente distantes uns dos outros, os seus pés de guerra andam por aí semeados como pés de salsa, espalhados pelo País. De norte a sul.

Os professores estão descontentes. Com a vida que lhes corre mal, porque ninguém os valoriza; com os colegas, que só se interessam por resolver a >sua vidinha; com os alunos, que os desconsideram e maltratam; e, acima de tudo, com o Governo da nação, que os desvaloriza, os desautoriza e os desmoraliza.

Nunca fui um estudante fácil e sabia, que um professor desautorizado era um homem (ou uma mulher) morto na escola. Não quero dizer fisicamente mas profissionalmente. Como sempre fui bom observador, conhecia de ginjeira os professores fortes e os professores fracos. Os fortes resolviam, por si próprios, a questão. Alguns pela autoridade natural do seu saber e da sua atitude, outros de forma menos académica. Os fracos eram defendidos pelos reitores. Ir à sala de um reitor era, já por si, um terrível castigo. Mas bem me lembro que professores fracos e fortes, bons e nem por isso, se protegiam, se defendiam e se reforçavam na sua autoridade comum. Já nesse tempo se percebia que tinha de ser assim, porque, se não fosse, os pais comiam-nos vivos e davam-nos, já mastigados, aos filhos relapsos. E isso a escola não consentia.

Os pais, dito assim de forma perigosamente genérica, sempre foram entidades pouco fiáveis em matéria de juízo sobre os seus filhos e, por isso, sobre quem deles cuida, ensina e faz crescer. Os pais sempre foram o pavor dos professores de natação, dos técnicos do futebol jovem, dos animadores das corridas de rua. Os pais, em casa, acham os filhos umas pestes; mas na escola, no campo desportivo, no patamar da casa do vizinho, acham os filhos virtuosos e sábios.
Os pais são, individualmente, insuportáveis e, colectivamente, uma maldição. Claro que há pais... e pais. E vocês sabem que não me refiro aos pais a sério, que são capazes de manter a distância e o bom senso. Falo dos outros, dos pais e das mães que acham sempre que os seus filhos deviam ser os capitães da equipa e deviam jogar sempre no lugar dos outros filhos. O trágico disto tudo é que são precisamente esses pais os que, na escola, se acham verdadeiramente capazes de fazer a avaliação, o julgamento sumário dos professores dos seus filhos, achando que eles só servem para fazer atrasar os seus Einsteinzinhos.

Por isso eu aqui me declaro a favor dos professores. Quero jogar na equipa deles contra a equipa dos pais e ganhar o desafio da vida real e do futuro deste país contra o desafio virtual dos pedagogos de alcatifa.

A Bola, 3 de Junho de 2006»

evva

sexta-feira, junho 16, 2006

Numa esplanada de Viana do Castelo, antes da borrasca

«- Já se sabe que ele come de tudo. Basta ver o namorado que tem.
- ?...»

Velhos tempos em que as mãezinhas nos obrigavam a comer tudo o que nos punham no prato e só nos deixavam não gostar de favas... Depois deu no que deu.

evva

terça-feira, junho 13, 2006

Fernando Pessoa (13 de Junho de 1888 - 30 de Novembro de 1935)


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

[evva]

A melhor cobertura do Mundial

RCP ONLINE.

evva

Leitura fundamental

«A ESCOLA

Quando entrei para o liceu, em 1973-1974, havia um reitor, livros de ponto para os professores e faltas para os alunos. Mau comportamento, por exemplo, era uma falta - grave - e dava direito a ser expulso da aula, e, em casos mais sérios, do liceu. O liceu, o D. Pedro V de Lisboa, era tido por "progressista". Apesar disso e das balbúrdias do PREC, manteve-se sempre, tanto quanto me lembro, um módico de disciplina. As novas "pedagogias" que entretanto foram sendo introduzidas nos infantários e nas escolas primárias, assentes sobretudo na consideração da criança como um bibelot a quem só se pode falar, ensinar jogos idiotas e a dormir umas sestas, mud[aram] radicalmente a noção de aluno. Sem ela, a disciplina caiu na rua. O aluno passou a ser visto quase como um utente de um serviço público - a escola -, só com direitos, e não alguém sujeito a um código disciplinar de direitos e de deveres. Por consequência, a função do professor foi sendo desvalorizada e, agora, chegámos ao rídiculo de termos pais e alunos a sovarem metodicamente os docentes. É preciso também atentar na geração paternal, a maior parte dela constituída pelos "filhos de Abril" a quem notoriamente faltou um berço e, em tantos casos, "educação" e sentido cívico. Sem autoridade, as escolas públicas - os liceus - soçobram mais tarde ou mais cedo na pura anarquia. Excitar a ignorância contra os professores, metendo tudo no mesmo saco, revelar-se-á a curto prazo desastroso. A ministra da Educação (...) deve igualmente prestar atenção aos alunos e não permitir o verdadeiro assalto que alguma boçalidade familiar se permite fazer às escolas em nome dos sagrados direitos dos broncos dos filhinhos. Não há que ter medo das faltas por mau comportamento e da expulsão de delinquentes das escolas pagas pelo dinheiro dos contribuintes. Caso contrário, a autoridade - da instituição e dos professores sobre os alunos - jamais conseguirá impôr-se num lugar - a escola - onde verdadeiramente tudo começa ou tudo pode acabar.»

João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos, um blog de leitura diária. Os sublinhados são meus e do texto retirei uma frase de que discordo. Ler também este excelente post que João Gonçalves publicou no terceiro aniversário do blog.

evva

segunda-feira, junho 12, 2006

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
--- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder

(há uma versão lindíssima deste poema, dita pelo autor, e com arranjos musicais dos Poetas, um projecto poetico-musical de Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro, Margarida Araújo, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro)


andré

Angola-Portugal

Pronto, confesso: lá me sentei durante duas horas em frente à televisão a ver o jogo. E até trauteei o hino, naquela parte dos 'egrégios avós'. Claro que vibrei com a jogada do Figo e o golo do Pauleta, mas a meio da primeira parte já estava a torcer por Angola, para irritação de muitos presentes. Afinal, Angola é nossa ou não?
Mas do que mais gostei foi do equipamento da selecção angolana, lindo de morrer (ainda bem que não se inspiraram naquela bandeira horrorosa), e da franjinha do Loco. A minha mãe achou o Figueiredo 'muito jeitoso' (???), apesar das madeixas, e desconfio que vai ser a sua desculpa para assistir aos próximos jogos, agora que este senhor deixou de apitar.


evva

Para a Isabel

No seguimento da conversa do almoço de sexta-feira:

«É muito mais importante ler poucos livros muitas vezes, do que ler muitos livros uma única vez»

Abel Barros Baptista, idem.

[evva]