Novas da China
Sexta-feira, 2
«Imagination is memory» James Joyce
Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à mingua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira
A casa e os cheiros dos Livros
1ª Ed. Lisboa, Quetzal Editores, 1996
[evva]
Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo até chegar às tuas mãos, leitor, para aí, como um deserto a abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e o negro das palavras (...) pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá-Carneiro, a saudade se trava. Como um desses objectos cujo peso, assim que neles pegamos, instantaneamente se divide entre as nossas mãos e a alma, é mesmo de crer que ele esteja já dentro de ti - e algo de mim com ele. Acolhe-o, pois, com benevolência, que, chegada a altura, havemos de arder juntos.»A TSF está a realizar diáriamente, a seguir às noticias das 20h, um debate sobre este assunto, mas não sei por quanto tempo.
andré
O espaço à minha volta é largo, vasto, talvez até mesmo infinito.
Por isso me pergunto sempre porque procuro as mesmas coisas, os mesmos lugares, as mesmas pessoas.
Gosto daquilo que permanece.
Talvez porque também gosto que haja sempre, à minha volta, espaço livre, sem nada.
andré
Se tem havido aspecto que me tem agradado nesta campanha do referendo do Aborto, é que as pessoas que defendem o Sim parecem ter abandonado a tradicional atitude de superioridade moral, em prol da acção civica e assim tentar fazer aquilo que os partidários do Não sempre souberam fazer bem: convencer as pessoas a votar na opção que defendem.
Daí que me dá especial prazer escrever este post em reposta à intervenção anterior que, para não variar, insiste em abordar a questão do Aborto de forma panfletária e sensacionalista. Enfim… uma autêntica blasfémia…
Para que não haja dúvidas: Somos Todos contra o Aborto!
Não estamos a defender o direito de matar mas sim o direito de escolher a forma como vivemos. Sim, vivemos. A mãe, o pai, os irmãos e irmãs que já cá estão, e o resto da família.
Só argumenta com a desresponsabilização dos futuros/eventuais pais quem não quer pensar que a venda de preservativos e restantes anticoncepcionais é hoje uma realidade avassaladora, e que precisamente por isso, as pessoas não devem ser castigadas quando eles não funcionam.
Então, afinal em que ficamos? Podemos ou não ter relações sexuais só por prazer? E se a maioria concorda que sim, então porque é que obrigamos as pessoas a criar uma criança se essa não era a sua intenção? Afinal a maternidade e a paternidade são ou não actos de amor consentido e almejado?
Para que continue a não haver dúvidas: Somos Todos a favor dos pais e das mães, da familia com ou sem filhos!
Tal como uma familia que quer mas não consegue ter filhos, triste é aquela que os tem mas não os quis.
A responsabilidade das pessoas é a mesma, quer quando decidem ter como quando decidem não ter filhos. O nosso dever é apoiar a sua educação e garantir que, quando elas não a têm, possam passar a tê-la. A autonomia, e não o individualismo, é o que se procura.
O objectivo é que todos possam pensar pela sua cabeça e formular o seu juízo, sabendo à partida em que é que acreditam.
E se ainda houver dúvidas: Somos pelos pequeninos, pelos bebés, pelos fetos, e pelos embriões.
Creio que quase nenhum de nós fica indiferente à felicidade de uma nova vida, de um novo filho, de uma nova sobrinha, ou de uma neta. Só mesmo quem tem muito medo das pessoas é que pode pensar que alguém que decide abortar não sente amor ou respeito pelo próximo. O facto de haver pessoas que o fazem de forma irresponsável não quer dizer que todos o façam.
A todos que defendem a mesma posição que eu, por favor, escrevam, discutam, convençam. Não pensem que as pessoas vão acreditar em nós porque nos acham mais espertos ou inteligentes. Elas só vão acreditar em nós quando conseguirmos fazer com que os nossos argumentos sejam os mais vistos, os mais discutidos, os mais propagados. E aí, vão pensar neles e, se tudo correr bem (como vai correr), vão votar Sim.
Quanto à amiga Romena, eu também tenho amigas. Alemãs, espanholas, belgas, inglesas, gregas e chinesas.
E todas elas pasmam quando eu lhes digo que no meu país o Aborto é um crime. Sim, Crime!
Esse é o problema.
andré
Já há alguns dias se previa o inevitável. Valerá a pena continuar a gastar milhares de euros de areia a tentar lutar contra a força das ondas e a adiar por mais alguns micro-segundos de tempo cósmico o avanço inexorável do mar?Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
[evva]

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego,
filho Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
Ricardo Reis
[evva]
Depois de se ter transformado na RFM com notícias, é bom saber que a TSF ainda mantém vivo o desejo original de criar momentos de beleza e requinte onde a palavra, bem tratada, se junta à manta de possibilidades sonoras que a rádio tem desde há muito mas que poucos, infelizmente, exploram.
Não queiras Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?
Ricardo Reis
Odes de Ricardo Reis,
(Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Nova Ática, p.160),
publicada pela primeira vez no número 1 da Atena, em Outubro de 1924.
[evva]
Creio nos anjos que andam pelo mundo
Natália Correia
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
andré
| Your Inner European is Italian! |
![]() You show the world what culture really is. |
evva
P.S.: Daqui.

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo, e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida, há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,
palavras que guardam o seu segredo, e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais, só sombra só soluço
só espasmo só amor, só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny (1923-2006)
andré

Confesso que não me lembro... Talvez no berço... Mas a partir de hoje estarei muitas vezes neste 31. Vejam e revejam aos imprescindíveis 3G dos Darth Vaders da blogosfera portuguesa.
evva
É para já o meu fime do ano. Aqui deixo uma imagem de 'Quais de Seine', uma das 18 deliciosas histórias de 5 minutos de encontros e desencontros na cidade das mil luzes e outras tantas culturas e nacionalidades. O comentário alargado fica para mais tarde.
evva
P.S.: Se não passar por aí, don't worry, pretendo revê-lo uma, duas, três, cinco, dez vezes. A bientôt.

Ainda que o título do post possa causar algum melindre a determinadas pessoas deste blog, pelo uso menos adequado da palavra "gente", esta foi a melhor forma que encontrei para recomendar a visita ao site da BBC Radio 3, onde poderão ouvir uma entrevista com Brian Eno (na foto) a propósito do festival Free Thinking, organizado pela estação/instituição nacional de rádio britânica.
Porque às vezes vale a pena ouvir os outros pensar.
andré

Hoje, 12 de Novembro de 2006, vai ter lugar, em Lisboa,
o concerto do ano… e eu não vou poder lá estar…
andré
'When the new century came there was fantastic goodwill in the world,' Yunus recalls. 'We had a tremendous optimism, we wanted a different kind of world. For the first time in human history, all the nations got together and set a date, via the UN's Millennium Goals, to improve the world. We want to reduce the number of poor people by half by 2015, they said. And then ... and then comes Bush! Who turns the whole thing backwards. He creates distrust among people, he undermines the authority of the government, and he says, I can handle everything myself. And so today we are in mess and we don't know how we are getting out.'
Este excerto da reportagem do semanário inglês The Observer, sobre o nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, é suficiente para dar uma imagem clara sobre o impacto que George W. Bush está a ter na história deste milénio que ainda agora começou.
Na semana passada, o Público dava conta de uma sondagem promovida pelos jornais "The Guardian" (Reino Unido), "Haaretz" (Israel), "La Presse" e "Toronto Star" (Canadá), e "Reforma" (México), que reveleva que o actual presidente dos EUA era visto como uma ameaça mais séria à paz mundial do que o líder norte-coreano, Kim Jong-il, e o Presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad.
Parece demasiado associar uma pessoa a um conjunto tão alargado e profundo de acontecimentos. E verdade seja dita, a administração Bush não teve propriamente muita sorte com alguns dos acontecimentos com que foi confrontada.
Mas o que a torna tão mal vista não são tanto os seus actos mas sim as ideias que estão por trás. Ideias incorporadas em pessoas como Paul Wolfowitz, um dos pais da democratização do mundo, ou o agora (finalmente) demitido Donald Rumsfeld, que acreditava que a guerra do Iraque ia durar uns meses (?!). Esta administração baseia-se, de facto, em ideias que, noutro contexto, poderiam ser consideradas muito perigosas.
A democracia actual tem dilemas sérios, como referiu John Keane no Público de domingo, e esta administração tem sido pródiga na forma como tem demonstrado isso mesmo. Mas como só os americanos podem eleger o seu presidente, vamo-nos contentando com os resultados das eleições intercalares, onde os democratas ganharam a maioria no senado e na câmara dos representantes.
Contudo, o povo diz que "gato escaldado de água fria tem medo". E eu lembro-me bem da intervenção na Somália nos anos 90, em nome da paz. Foi mais curta do que o Iraque, e as tropas americanas tiveram de bater em retirada. O presidente da altura chamava-se Bill Clinton, e era democrata.
Mas parece-me que ninguém se importa muito com quem vem a seguir. O importante é que a administração Bush saia. Depressa.
andré
PS: …ainda faltam mais dois anos. Alguém consegue arranjar um acelerador?

"A quase impossibilidade do reconhecimento disto quando da sua primeira audição."
Caetano Veloso em entrevista Pessoal e Transmissivel, com Carlos Vaz Marques, na TSF.
Ontem a administração Bush assinou uma lei que aprova o uso de métodos ditos "agressivos" nos interrogatórios relacionados com a guerra contra o terrorismo. Não sei que tipo desculpas podem dar os defensores da "democracia" americana para defenderem a aplicação desta lei. Para mim, é mais uma prova que, este presidente e a sua comandita têm muito pouco de democrático. E se esse é o peixe que querem continuar a vender para que nós aceitemos cegamente tudo o que fazem, deveriam dar o exemplo, ao menos para manter iludidos os pobres coitados. .. uma coisa é certa. A minha ideia de democracia não tem nada a ver com isto. E gostaria, embora saiba que o pai natal não dá este tipo de presentes, que a Europa seguisse de vez um outro caminho.
Norma

O que é que se vê nesta fotografia?
(a) Um estádio do EURO 2004 em final de construção.
(b) O estádio Olímpico de Atenas a ser terminado.
(c) O estádio de Wembley no final do seu processo de remodelação.
Se escolheu a opção b (a primeira é demasiado óbvia), enganou-se.
Não são só os Portugueses e os Gregos a meter água na construção de estádios. De acordo com o semanário The Observer, vão ser gastos 827 milhões de libras (± 1240 milhões de euros) na remodelação do ícone futebolístico britânico. O custo inicial era de 458 milhões de libras (± 687 milhões de euros)…
Qual é a moral da história?
(a) Afinal os nossos estádios não demoraram assim tanto a ser construídos.
(b) Os ingleses gastam mais nos estádios mas também na educação e na cultura.
(c) Isto só serve para apagar as mágoas das asneiras que fazemos.
Eu resigno-me à escolha da terceira opção. Mas cada qual pode escolher o final que quiser.
Quanto aos gregos, eu só os pus aqui para vos enganar.
andré

Lula vai à segunda volta.
Será desta que se digna a aparecer nos debates? O Brasil merece melhor.
evva
P.S.: Sobre o suposto 'milagre' da diminuição da pobreza, ler Dar Engano, no Lóbi do Chá.

It's a little device
It's a little device
Keeps you warm
Keeps you warm
It's a little surprise
Just a little surprise
To keep you calm
To keep you calm
Shadows and light
Shadows and light
I see your face on every single street
Got to get out of this place tonight
Got to get out of this way of life
Got to get out of this place tonight
It's a little device
It's a little device
Keeps you warm
Keeps you warm
Got to get out of this place tonight
Got to get out of this way of life
This life, Perry Blake, álbum California
andré

"And I'm very dubious about trying to produce students who are going out and change the world. I'm very anti-authoritarian about it. I'm not interested in disciples; I don't want people to be like me. I'm interested in people who are different."
"Power, Politics and Culture - interviews with Edward W. Said". Vintage Books. New York. Pag. 63.
andré
"A pedido do PCP"
Carlos de Sousa confirma saída da presidência da Câmara de Setúbal
Afinal equivoquei-me.
evva
P.S.: E querem vocês que eu vá dar dinheiro a estes mânfios!? Nem morta.
(produzido a partir de excertos - em itálico - da coluna semanal Ponto de Vista, de Jorge Almeida Fernandes, publicada no passado dia 21 de Agosto no Público, com o título "Israel Analisa-se")
Depois do fiasco no Líbano, Israel debate os erros. Tudo é posto em causa, a doutrina militar, a política palestiniana, as relações regionais. Se o Hezbollah surpreendeu Israel, Israel passou agora a conhecê-lo. É uma questão de sobrevivência.
Para começo não está mau.
Um analista lembrou que Israel não ganha uma guerra desde 1967: teve uma vitória parcial em 1973, atolou-se na Intifada e falha agora no Líbano.
Esta é que eu não sabia.
Os próximos meses assistirão a um provável terramoto político. "É o princípio de uma nova era, se Israel reconhecer a tempo que tem de pagar o preço de uma repetida cegueira", escreve o jornalista Gideon Samet.
Cegueira. Ora aí está. Talvez seja melhor escrever as próximas resoluções da ONU em Braille…
[o historiador Zeev] Sternhell afirma que "o fracasso não foi da elite cultural ou dos valores de sociedade aberta. Não houve falta de devoção, espírito de combate e voluntarismo, qualidades características dum israelita em uniforme. O que faltou foram políticos com estatura e meios adequados de acção."
De facto, primeiros-ministros com estatura, desde Rabin, não tenho conhecimento de ter havido algum.
Os analistas militares, muitos deles oficiais na reserva e veteranos dos serviços secretos, criticam os conceitos estratégicos. Desde a aposta na guerra aérea e tecnológica ("à moda da NATO no Kosovo") ao desprezo pelo adversário, que levou às "surpresas" do Hezbollah, como os seus mísseis antitanque.
E eu a pensar que ninguém era suficientemente ingénuo para imitar os americanos. Para quem tem a reputação de ter um dos melhores exércitos (e serviços secretos) do mundo, esta notícia desilude-me profundamente.
Fala-se no desgaste das tropas de elite em anos de combate de rua na Intifada: "À força de jogar contra más equipas, mesmo as boas equipas vêem o seu nível baixar."
Quanto a isto não há problema. Contrata-se o José Mourinho. Ele até já esteve em Israel e deve ter ficado com a noção exacta do problema.
É posta em causa a doutrina da "alavanca", o uso de alta violência contra os palestinianos para os convencer de que nada obterão pela violência, explica o general Gal Hirsh. Ao fim de cinco anos, os militares fazem o balanço: os palestinianos moderados foram marginalizados e o Hamas ganhou as eleições. No Líbano, foi usado o mesmo princípio e o exército queixa-se agora de perder a "guerra das relações públicas" e de ver os libaneses solidarizarem-se com o Hezbollah.
Pois. Digamos que, tirando os Israelitas e os americanos, já todo o mundo tinha percebido isto.
Há uma gravíssima responsabilidade dos políticos, de Ehud Olmert a Amir Peretz: não fizeram as devidas perguntas. Se a guerra era inevitável, Israel caiu numa armadilha.
Pois caiu e agora o mundo inteiro tem de ajudar Israel a sair dela. Bonito serviço.
O general Uri Saguy, ex-chefe das informações militares, declarou ao Le Monde: "Esta guerra deveria levar os nossos dirigentes a compreender os limites da força e a necessidade de um acordo político regional. Os que têm uma visão binária, que dividem o mundo entre bons e maus, apenas sabem semear a guerra e a desestabilização da região."
Essa dos bons e dos maus era uma indirecta para o Bush, não era?…
O "falcão" Efraim Halevy, antigo chefe da Mossad, propõe uma negociação com o Hamas e critica a sua ostracização. Não interessa que o Hamas reconheça Israel, interessa sair dos territórios, deixar para mais tarde a paz e negociar um statu quo que garanta a segurança e afaste o Hamas sunita do Hezbollah xiita. O "campo da paz", esse quer aproveitar a "oportunidade" para avançar uma solução global.
As aves de rapina têm de facto uma visão muito apurada. Temos de as respeitar e dar-lhes razão quando a têm.
andré

Nos dois últimos episódios da série "Os homens do presidente" (West Wing), emitida no AXN, discutia-se se na política externa norte americana devia estar contido explicitamente o direito de intervenção em situações de tirania mesmo que não afectassem os interesses do país. Um lado a favor da defesa de povos, o outro a favor da autoingerência e a pensar nas consequências óbvias que tal política traria para a análise de outras situações onde não fosse tão clara a tirania ou a ameaça de povos indefesos.
Ontem à noite, a 2: emitiu um documentário sobre Fidel Castro, onde retratava como foi e tem sido capaz de se manter (quase) independente à influência norte americana, embora muito à custa da limitação dos direitos dos cidadãos do seu país. Mas mesmo assim, eis que aos 80 anos "el Castro" ainda se mantém (vamos a ver até quando) como o pilar, o farol de um povo que parece ter com ele uma relação similar à que tivemos com Salazar durante mais de 40 anos.
No final da passada semana, Kofi Anan, num discurso eloquente e preciso, defendia que a acção militar não fazia parte das soluções para o conflito entre Israel e o Hezbollah, mas representava sim uma falta de imaginação e de capacidade dos líderes para encontrarem outras soluções.
Após diversos encontros, eis que sai a resolução: a guerra acabava hoje pelas 00h50. Entretanto, entre a aprovação da resolução e o “fim” das hostilidades ainda houve tempo para mais umas bombas israelitas e uns katiucha do Hezbollah.
Creio que nunca como antes o mundo esteve tão cheio de referências ambivalentes e de realidades indefinidas. O inundar de informação e o consequente aumento da variedade das suas fontes coloca-nos numa situação difícil em que nos questionamos constantemente sobre quem tem ou não razão.
Acredito que não é fácil ser dono do mundo nem desistir dos sonhos e dos ideais em que acreditamos, contudo, ainda não encontrei desafio mais árduo e estimulante do que manter a paz e tentar fazer com que as pessoas se entendam, respeitando diferenças e pontos de vista. É esse para mim o grande desígnio que os EUA nos trouxeram mas que agora se vêem incapazes de defender. Tal como Fidel, eles perderam toda a sua credibilidade.
Perante isto, continuo a encontrar inspiração e consolo (embora pouco) naquele africano de cabelos grisalhos que insiste (embora não por muito mais tempo) em defender o primado do equilíbrio e da justiça entre nações.
Não, não é nenhum salvador. Mas lá está, não acredito em milagres.
andré
"Vejo que os consumidores se deslocam sós, esporadicamente em pares, tal qual os doentes do hospital Júlio de Matos. Depois de várias voltas tenho a sensação de circular num espaço de internamento.
Cruzo-me sucessivamente com os mesmos embrulhos das mesmas pessoas. Todos girando à volta, como num carrocel. O centro comercial não tem janelas e apenas duas portas convidam à saída. A uniformidade das paredes homogeniza o espaço, tenho a sensação de circular num labirinto que nos faz perder. Provavelmente estamos perante estratégias de arquitectura que levam os consumidores a circular sem terem a consciência da passagem do tempo, até porque não se encontram relógios. (...)
Observo o olhar de desespero de alguns consumidores, carregados de embrulhos como se fossem árvores de Natal. Não me parecem felizes, avaliando os sobrolhos carregados. À semelhança dos manicómios, os "shoppings" são instituições por onde circulam fantasias e delírios. A diferença é que, neste caso, elas giram em torno do consumo. Nos manicómios o delírio é a doença, nos "shoppings" não é.
Pela mesma lógica, a sociedade não é olhada como doente uma vez que - provável razão - ela é norma. Os desvios comprovam a norma, embora raramente se reconheça que aqueles derivam desta. E mais, a norma sobrevive pela recorrência dos desvios.
Passo ao lado de uma livraria, olho de relance para a montra e fico a pensar na fragilidade da nossa sociedade quando observo a quantidade de livros que apontam caminhos para a felicidade. Caminhos discutíveis pois sugerem um aprisionamento dos leitores a uma imperativa necessidade de auto-ajuda, auto-realização, autocontrolo, autoconfiança, autodefesa, autoestima, autodeterminação, eu sei lá que mais."
In "Nos Rastos da Solidão", José Machado Pais.
Excerto publicado na revista de domingo do Público em 26/07/2006, a propósito de uma entrevista com o autor, intitulada "A solidão é normal?"
andré