sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Não resisto...

«O documento que segue é a transcrição de um editorial da edição clandestina portuguesa do Jornal «Avante!» - Órgão do Partido Comunista (4ª Semana de Novembro de 1937)

Editorial

Resposta da Direcção

PORQUE É PROIBIDO O ABORTO NA URRS?

Damos imediata resposta a esta pergunta, formulada por algumas operárias do Barreiro. O aborto é um acto inteiramente anormal e perigoso, que tem roubado não poucas vidas e tem feito murchar não poucas juventudes. O aborto é um mal terrível. Mas, na sociedade capitalista, o aborto é um mal necessário, inevitável, benfazejo até. Na sociedade capitalista um filho significa, para os trabalhadores, mais uma fonte de privações, de tristezas e de ameaças. Quem tem filhos — diz-se — tem cadilhos. Pode-se imaginar algo mais doloroso que uma família de operários obrigados a sustentar, dos seus miseráveis salários, 5 ou 6 filhos? É a fome, o raquitismo, a tuberculose, a tristeza da vida, vivida em promiscuidade. E que futuro espera essas crianças? Serem uns desgraçados… como dizem as nossas mulheres. Por isso a mulher do [?] capitalista é obrigada a sacrificar o doce sentimento da maternidade , é obrigada a recorrer, tantas vezes com o coração sangrando, ao aborto. Por isso, a proibição do aborto, na sociedade capitalista, é uma hipocrisia e uma brutalidade. Na URSS, a situação é tão diferente como é diferente a noite do dia. Na URSS não há desemprego, não há miséria; há abundância de produtos. Tanto a mulher como o homem recebem salários que satisfazem as necessidades. A mulher grávida tem 4 meses de férias durante o período da gravidez, com os salários pagos. Há maternidades, creches, jardins de infância e escolas por toda a parte. O Governo soviético dá prémios que vão até 5 mil rublos para as mães que tenham mais de 5 filhos, etc. Ser mamã é uma das maiores aspirações das jovens soviéticas. ?E onde há uma esposa que não quisesse ser mamã sabendo que o mundo floria para acolher o seu menino? Sabendo que o seu filho não seria um desgraçado mas um cidadão livre da grande República do Socialismo? A criança, na URSS, deixou de ser um motivo de preocupações, para se tornar numa fonte luminosa de alegria e de felicidade. O aborto perdeu portanto a sua única justificação; tornou-se desnecessário. Por isso, o Governo Soviético resolveu propor ao povo trabalhador, a abolição da liberdade de praticar o aborto — liberdade essa concedida a título provisório, nos primeiros tempos da República Soviética quando esta gemia sob o peso da fome e da peste, ocasionadas pela guerra e pela contra revolução capitalista. Depois de discutirem amplamente a lei proposta pelo Governo Soviético, as mulheres e todo o povo trabalhador aprovaram essa lei que correspondia inteiramente às condições de existência livre e feliz que gozam os que trabalham na grande Pátria do Socialismo triunfante

(via nortadas)

[evva
Ooops! Hoje é dia de reflexão... Como é que se altera a data e a hora desta coisa? Ah, é já ali em 'opções de postagem'. O que eles se lembram de inventar. Aqui vai]

Dia 6 de Março, lá vou eu, ai, ai, ai...


evva

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Eu, conservadora libertina, me confesso

«Mil vezes um conservador libertino
do que um liberal com a mania de que tem de conservar-se.»

(Lido e aplaudido aqui)

evva

Entretanto, há 5.000 anos atrás...

(foto de ENRICO PAJELLO/REUTERS)


[Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

Soares de Passos (1826-1860)]


evva

terça-feira, fevereiro 06, 2007

sábado, fevereiro 03, 2007

Novas da China


Sexta-feira, 2
À saída de Shanghai para Macau, e já a bordo do avião, o primeiro-ministro procurou os jornalistas para lhes dar um ralhete paternalista. Depois de dois dias sem comentar a crise desencadeada pelas declarações do seu ministro da Economia, Manuel Pinho, José Sócrates sentiu-se incomodado por ter sido interpelado pelos profissionais da comunicação à saída de um evento e, a seguir, foi manifestar-lhes o seu desagrado. Disse que só fala quando as coisas são previamente combinadas «como em qualquer país civilizado», e falou no mau aspecto que não quer dar num país estrangeiro. Afirmou ainda desconhecer que os jornalistas tentavam, há dois dias, obter declarações suas sobre o caso Pinho. É, no mínimo, estranho que os seus assessores não lho tenham dito.
O enguiço desta viagem à China começou logo na primeira iniciativa, terça-feira, 30, em Pequim, com as declarações de Manuel Pinho, que quis «vender» Portugal como um país de mão-de-obra barata aos investidores chineses. No dia seguinte, reafirmava a sua posição e comentava as reacções suscitadas em Lisboa, afirmando que os sindicatos são «forças de atraso».
O chefe do Governo e os seus acólitos não têm gostado da forma como a comunicação social tem feito a cobertura desta viagem de negócios. Os jornalistas têm sido, umas vezes aberta, outras veladamente, acusados de estarem a estragar esta viagem e de só noticiarem assuntos menores – como a defesa dos salários baixos e os ataques, por parte de um membro de um governo socialista, aos sindicatos, ou a tentar obter declarações sobre Direitos Humanos na China – e de não darem a devida atenção aos muitos contratos e memorandos de entendimento celebrados entre empresas portuguesas e chinesas. A jornalista da rádio pública chegou mesmo a ser acusada, por um assessor, de estar a fazer o jogo do PSD. Houve várias pessoas a ouvi-lo. Terá sido apenas uma brincadeira?
Que se saiba, em qualquer país civilizado, quem define o que tem ou não interesse editorial – o que é notícia – é o jornalista no terreno e a sua direcção editorial, não o gabinete do chefe do Governo. Costuma ser assim em democracia. Se a bem sucedida viagem de negócios ao Oriente se tornou, internamente, um fracasso mediático, a culpa não deve ser atribuída aos jornalistas, mas às declarações do ministro da Economia. Não é por terem aceite boleia num avião fretado pelo Governo que este deve presumir poder usar os jornalistas como instrumentos de propaganda das suas iniciativas. Roubando uma expressão ao socialista João Cravinho, gostaria de concluir dizendo que jornalistas domesticáveis pertencem à classe dos animais domésticos.

Francisco Galope»

evva

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

FEVEREIRO

O meu Fevereiro amanheceu hoje muito diferente deste. Está um lindo dia de sol. Brindemos aos dias azuis e noites estreladas.

Les Très Riches Heures du Duc de Berry
(Iluminuras de Paul, Hermann e Jean Limbourg)

evva

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Não adormeças

Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à mingua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

A casa e os cheiros dos Livros
1ª Ed. Lisboa, Quetzal Editores, 1996

[evva]

segunda-feira, janeiro 29, 2007

domingo, janeiro 28, 2007

Depois de um filme destes

em que a violência crua e dura é quase porno-decorativa (já há muito que não me apetecia sair de um filme ao fim de cinco minutos), só me apetece regressar a Leopoldo María Panero. Ainda não é desta que termino El desencanto, o documentário de Jaime Chávarri sobre a família Panero ('valores mais altos se alevantam'), mas depois de Rambo Di Caprio e de tanta crueldade banalizada...

EL NOI DEL SUCRE

Tengo un idiota dentro de mí, que llora,
que llora y que no sabe, y mira
sólo la luz, la luz que no sabe.
Tengo al niño, al niño bobo, como parado
en Dios, en un dios que no sabe
sino amar y llorar, llorar por las noches
por los niños, por los niños de falo
dulce, y suave de tocar, como la noche.
Tengo a un idiota de pie sobre una plaza
mirando y dejándose mirar, dejándose
violar por el alud de las miradas de otros, y
llorando, llorando frágilmente por la luz.
Tengo a un niño solo entre muchos, as
a beaten dog beneath the hail, bajo la lluvia, bajo
el terror de la lluvia que llora, y llora,
hoy por todos, mientras
el sol se oculta para dejar matar, y viene
a la noche de todos el niño asesino
a llorar de no se sabe por qué, de no saber hacerlo
de no saber sino tan sólo ahora
por qué y cómo matar, bajo la lluvia entera,
con el rostro perdido y el cabello demente
hambrientos, llenos de sed, de ganas
de aire, de soplar globos como antes era, fue
la vida un día antes
de que allí en la alcoba de
los padres perdiéramos la luz.

Last night together (1980)

evva

sábado, janeiro 27, 2007

NÃO

O que se pretende com este referendo não é despenalizar as mulheres que se submetem a uma prática que visa eliminar uma vida que cresce dentro de si, o que, aliás, e correndo o risco de ser atirada à fogueira, deveria ser sempre um crime severamente punido por lei, excepto nos casos previstos pela actual legislação. Dizia eu, e com toda a convicção, o que se espera do resultado da votação de 11 de Fevereiro próximo é liberalizar uma prática que a maioria dos apoiantes do Sim concorda em condenar, como se pode ler num post ali abaixo: «Somos Todos contra o Aborto».

Uma gravidez não é um castigo pelo mau funcionamento de uma metodologia anticoncepcional e, se duma relação sexual, por prazer ou outras vontades, resultar esse milagre que é a vida, que se assuma, então, a responsabilidade de zelar pela gravidez até ao parto. Se conduzo o meu bólide a alta velocidade, pelo puro prazer que ela me dá, e provocar um acidente com a morte de terceiros, devo ou não ser condenada por isso? Ou teremos chegado a um momento civilizacional de puro egoísmo e desresponsabilização?

Como tal, também não me parece que uma gravidez indesejada obrigue forçosamente um pai, uma mãe, ambos, ou cada um por si, a cuidar uma criança. Por que não entregar o bebé para adopção, se tantos casais o desejam e aguardam? O sistema de adopção funciona mal? Então que se invista na sua melhoria, se crie condições às mulheres, adolescentes ou não, para poderem desenvolver sem prejuízo a sua gravidez indesejada e, após o parto, que o recém-nascido seja entregue a quem o deseja, tem vocação e condições para lhe dar uma educação condigna e o afecto que merece. Repito, se este sistema não funciona, é uma total irresponsabilidade e um crime liberalizar a interrupção voluntária da gravidez, inclusive à custa do erário público e do meu trabalho mensalmente tributado. Se pensarmos bem, e ninguém o pode negar, até poderia ser um bom investimento em termos futuros, num país de tão baixa e tão cara taxa de natalidade.

Acredito que a despenalização da IVG, ou liberalização, redundará no aumento da prática abortiva e na bandeira “Não se preocupem em investir em métodos anticoncepcionais, se um momento de prazer resultar numa gravidez indesejada, sempre podem ir ali ao hospital mais próximo e resolver o assunto». Por isso, convictamente e tal como há oito anos atrás, votarei NÃO.

evva

sexta-feira, janeiro 26, 2007

«FINAL

Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo até chegar às tuas mãos, leitor, para aí, como um deserto a abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e o negro das palavras (...) pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá-Carneiro, a saudade se trava. Como um desses objectos cujo peso, assim que neles pegamos, instantaneamente se divide entre as nossas mãos e a alma, é mesmo de crer que ele esteja já dentro de ti - e algo de mim com ele. Acolhe-o, pois, com benevolência, que, chegada a altura, havemos de arder juntos.»

Luís Miguel Nava
Vulcão (2ª edição, 1995)



evva

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O tempo faz e desfaz III

(1933 - 2007)


A morte deste homem, co-autor de um dos livros mais lidos, relidos e anotados cá em casa,



deveria ser motivo de três dias de luto nacional.

evva

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ah… o Aborto outra vez

A TSF está a realizar diáriamente, a seguir às noticias das 20h, um debate sobre este assunto, mas não sei por quanto tempo.

andré

terça-feira, janeiro 23, 2007

Aos amigos que ficam

O espaço à minha volta é largo, vasto, talvez até mesmo infinito.
Por isso me pergunto sempre porque procuro as mesmas coisas, os mesmos lugares, as mesmas pessoas.
Gosto daquilo que permanece.
Talvez porque também gosto que haja sempre, à minha volta, espaço livre, sem nada.

andré

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Ah… o Aborto

Se tem havido aspecto que me tem agradado nesta campanha do referendo do Aborto, é que as pessoas que defendem o Sim parecem ter abandonado a tradicional atitude de superioridade moral, em prol da acção civica e assim tentar fazer aquilo que os partidários do Não sempre souberam fazer bem: convencer as pessoas a votar na opção que defendem.

Daí que me dá especial prazer escrever este post em reposta à intervenção anterior que, para não variar, insiste em abordar a questão do Aborto de forma panfletária e sensacionalista. Enfim… uma autêntica blasfémia…

Para que não haja dúvidas: Somos Todos contra o Aborto!
Não estamos a defender o direito de matar mas sim o direito de escolher a forma como vivemos. Sim, vivemos. A mãe, o pai, os irmãos e irmãs que já cá estão, e o resto da família.
Só argumenta com a desresponsabilização dos futuros/eventuais pais quem não quer pensar que a venda de preservativos e restantes anticoncepcionais é hoje uma realidade avassaladora, e que precisamente por isso, as pessoas não devem ser castigadas quando eles não funcionam.
Então, afinal em que ficamos? Podemos ou não ter relações sexuais só por prazer? E se a maioria concorda que sim, então porque é que obrigamos as pessoas a criar uma criança se essa não era a sua intenção? Afinal a maternidade e a paternidade são ou não actos de amor consentido e almejado?

Para que continue a não haver dúvidas: Somos Todos a favor dos pais e das mães, da familia com ou sem filhos!
Tal como uma familia que quer mas não consegue ter filhos, triste é aquela que os tem mas não os quis.
A responsabilidade das pessoas é a mesma, quer quando decidem ter como quando decidem não ter filhos. O nosso dever é apoiar a sua educação e garantir que, quando elas não a têm, possam passar a tê-la. A autonomia, e não o individualismo, é o que se procura.
O objectivo é que todos possam pensar pela sua cabeça e formular o seu juízo, sabendo à partida em que é que acreditam.

E se ainda houver dúvidas: Somos pelos pequeninos, pelos bebés, pelos fetos, e pelos embriões.
Creio que quase nenhum de nós fica indiferente à felicidade de uma nova vida, de um novo filho, de uma nova sobrinha, ou de uma neta. Só mesmo quem tem muito medo das pessoas é que pode pensar que alguém que decide abortar não sente amor ou respeito pelo próximo. O facto de haver pessoas que o fazem de forma irresponsável não quer dizer que todos o façam.

A todos que defendem a mesma posição que eu, por favor, escrevam, discutam, convençam. Não pensem que as pessoas vão acreditar em nós porque nos acham mais espertos ou inteligentes. Elas só vão acreditar em nós quando conseguirmos fazer com que os nossos argumentos sejam os mais vistos, os mais discutidos, os mais propagados. E aí, vão pensar neles e, se tudo correr bem (como vai correr), vão votar Sim.


Quanto à amiga Romena, eu também tenho amigas. Alemãs, espanholas, belgas, inglesas, gregas e chinesas.
E todas elas pasmam quando eu lhes digo que no meu país o Aborto é um crime. Sim, Crime!
Esse é o problema.


andré

O tempo faz e desfaz II

Já há alguns dias se previa o inevitável. Valerá a pena continuar a gastar milhares de euros de areia a tentar lutar contra a força das ondas e a adiar por mais alguns micro-segundos de tempo cósmico o avanço inexorável do mar?
Li algures, e corrijam-me se me equivoco, que a autarquia da Nazaré, em colaboração com a Universidade de Aveiro, pensa plantar nas dunas uma série de espécies há muito desaparecidas, a fim de evitar a sua erosão. É uma solução que se aplaude, mas que já não iria a tempo de salvar a praia da Caparica, creio, caso se ali aplicasse a mesma medida. Por que não, então, deixar avançar as ondas e, uns bons metros atrás, investir na fixação do terreno dunar através de uma cuidada e bem planeada medida de reflorestação? Nem que fosse preciso 'deslocalizar' o parque de campismo e todas as construções vizinhas da praia. A destruição dos bares da praia foi apenas um primeiro aviso. Depois não se venham queixar...

evva

domingo, janeiro 21, 2007

O tempo faz e desfaz

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

[evva]

EIS A GRANDE QUESTÃO

Pelo Blasfemo JoãoMiranda:

A desresponsabilização da mãe/pai por uma gravidez decorrente de relações sexuais voluntárias é frequentemente justificada pela falibilidade dos métodos anticocepcionais. O que mostra duas coisas. Por um lado mostra o estado em que se encontra a responsabilidade individual. As pessoas não são responsáveis pelos seus actos nem têm que assumir os riscos das opções que tomam. A responsabilidade pelos riscos recai no anticoncepcional que falhou. Por outro lado, mostra que o aborto é visto por muitos dos defensores da despenalização como um sistema anticoncepcional complementar que visa colmatar as falhas dos sistemas anticoncepcionais comuns.

JoaoMiranda»


Uma amiga romena, com quem tenho tido o prazer de trabalhar nos últimos anos, ao ter conhecimento deste referendo extravagante, exclamou: «É um grande erro. Na Roménia, desde que foi aprovada a despenalização, há mulheres que chegam a fazer três abortos por ano».


evva

sábado, janeiro 20, 2007

ARS MAGNA








Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.


Leopoldo Maria Panero

Poesía 1970 - 1985

[evva]

domingo, janeiro 14, 2007

Um Domingo a caminho da perfeição


seria dedicá-lo por inteiro a perscrutar o labor destes senhores no silêncio dos tempos. A ver vamos. Já tinha saudades de um Domingo assim.


evva

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Que farei, velidas?


Ai cervas do monte, vin vos preguntar:
foi-s' o meu amig' e, se alá tardar,
que farei, velidas?

Ai cervas do monte, vin vo-lo dizer:
foi-s' o meu amig' e querria saber
que farei, velidas.

Pero Meogo

[evva]

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Aos amigos que partem


Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego,
filho Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

Ricardo Reis

[evva]

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Semana Passada

Depois de se ter transformado na RFM com notícias, é bom saber que a TSF ainda mantém vivo o desejo original de criar momentos de beleza e requinte onde a palavra, bem tratada, se junta à manta de possibilidades sonoras que a rádio tem desde há muito mas que poucos, infelizmente, exploram.
É assim a Semana Passada, de Fernando Alves e Alexandrina Guerreiro, que passa aos sábados pelas 12h30, ou num dia qualquer, através do PODCAST.
Das tradições mais remotas do nosso país aos grandes problemas do nosso planeta, tudo cabe em cerca de 45 minutos de rádio, bem falada e ouvida.

É bom saber que ainda há coisas assim.

andré

domingo, dezembro 31, 2006

Ode


Não queiras Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?

Ricardo Reis

Odes de Ricardo Reis,
(Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Nova Ática, p.160),
publicada pela primeira vez no número 1 da Atena, em Outubro de 1924.

[evva]

sábado, dezembro 30, 2006

domingo, dezembro 24, 2006

Natividade

Iluminura de Jean Bourdichon (1457?-1521),
de Les Grandes Heures, d'Anne de Bretagne
Paris BnF Lat. 9474, f. 51v.
evva

sábado, dezembro 23, 2006

Hoje deram-me esta prenda de Natal

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


andré

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Amar os livros

La Cité des dames
Christine de Pisan
(detalhe do f. 3v,
Genève BPU Fr. 180)
evva

quarta-feira, dezembro 13, 2006



















Mais violência
Menos acção
A mesma sedução

É quase um bom filme.
Mas é o melhor Bond que eu já vi.

andré

terça-feira, dezembro 12, 2006

Cinco lições

Eu sei que os posts dos blogs devem ser curtos, mas eu peço a todos os futuros leitores para abrirem uma excepção a este caso e gastarem um pouco de tempo a ler este texto até ao fim. Obrigado.

Há quase 50 anos, quando cheguei ao Minnesotta, como um estudante recém-desembarcado de África, tinha muito que aprender, a começar pelo facto de não haver nada de esquisito em usar protectores de orelhas, quando a temperatura descia para 15 graus negativos. Desde então, toda a minha vida foi consagrada a aprender. Agora, gostaria de transmitir as cinco lições que aprendi durante dez anos, como secretário-geral da ONU - lições que, na minha opinião, a comunidade das nações também precisa de aprender, no momento em que tem de enfrentar os desafios do século XXI.
A primeira lição é que, no mundo de hoje, todos somos responsáveis pela nossa segurança recíproca. Perante ameaças como a proliferação nuclear, as alterações climáticas, as pandemias mundiais ou os grupos terroristas que operam a partir de refúgios seguros em Estados falhados, nenhuma nação pode garantir a sua própria segurança afirmando a sua supremacia sobre todas as outras. Só trabalhando em prol da segurança de todos podemos esperar garantir uma segurança duradoura para nós próprios.
Essa responsabilidade inclui a responsabilidade partilhada de proteger as pessoas do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade. Uma responsabilidade que foi aceite por todas as nações, na cimeira da ONU do ano passado. Mas, quando vemos os assassínios, as violações e a fome que são infligidos ao povo do Darfur, compreendemos que essas doutrinas não passam de mera retórica, enquanto aqueles que têm poder para intervir eficazmente - exercendo pressão política, económica ou, em último recurso, militar - não estiverem dispostos a dar o exemplo. Também têm uma responsabilidade para com as gerações futuras - a de conservar recursos que lhes pertencem tanto como a nós. Cada dia em que nada fazemos ou não fazemos o suficiente para prevenir as alterações climáticas tem custos elevados para os nossos filhos.
A segunda lição é que somos responsáveis pelo bem-estar de todos. Sem solidariedade, nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente estável. Não é realista pensar que uns quantos podem continuar a retirar grandes benefícios da globalização, enquanto milhares de milhões de outros permanecem ou são atirados para uma pobreza abjecta. Devemos dar a todos os nossos semelhantes pelo menos a possibilidade de partilharem a nossa prosperidade.
A terceira lição é que a segurança e a prosperidade dependem do respeito pelos direitos humanos e o Estado de direito.
Ao longo da história, a diversidade enriqueceu a vida humana e as diferentes comunidades aprenderam umas com as outras. Mas, se quisermos que as nossas comunidades vivam em paz, devemos salientar também o que nos une: a nossa humanidade comum e a necessidade de a nossa dignidade humana e direitos serem protegidos pela lei.
Isso também é vital para o desenvolvimento. Tanto os estrangeiros como os cidadãos de um país tendem a investir mais, quando os seus direitos fundamentais são protegidos e quando sabem que serão tratados equitativamente pela lei. E as políticas que favorecem verdadeiramente o desenvolvimento têm mais hipóteses de ser adoptadas, se as pessoas que mais necessitam do desenvolvimento puderem fazer ouvir as suas vozes.
Os Estados precisam também de cumprir as regras que regem as relações entre eles. Nenhuma comunidade, em parte alguma do mundo, sofre de excesso de Estado de direito, mas muitas sofrem de falta dele - e isto aplica-se também à comunidade internacional. É uma situação que devemos mudar.
A minha quarta lição é, pois, que os governos devem ser responsabilizados pelos seus actos, tanto na cena internacional como na nacional. Todos os Estados devem prestar contas àqueles que são afectados, de uma maneira decisiva, pelas suas acções. Na situação actual, é fácil obrigar os Estados pobres e fracos a prestar contas, pois precisam de ajuda externa. Mas só o povo dos Estados grandes e poderosos, cuja acção tem maior impacto sobre os outros, pode obrigá-los a fazê-lo. Isto confere ao povo e instituições dos Estados poderosos uma responsabilidade especial por ter em conta as opiniões e interesses mundiais. E hoje têm de tomar em consideração os actores não estatais. Os Estados já não podem - se é que alguma vez puderam - enfrentar sozinhos os desafios mundiais. Cada vez mais, precisam da ajuda de uma miríade de associações em que as pessoas se juntam voluntariamente, para benefício próprio ou para reflectir em conjunto sobre a situação do mundo e para o mudar.
Como é que os Estados se podem responsabilizar uns perante os outros? Só por intermédio de instituições multilaterais. Assim, a minha quinta e última lição é que estas instituições devem ser organizadas de uma maneira justa e democrática, permitindo que os pobres e os fracos tenham alguma influência sobre a acção dos ricos e dos fortes.
Os países em desenvolvimento deveriam ter mais influência nas instituições financeiras internacionais, cujas decisões podem significar a vida ou a morte para os seus cidadãos. E haveria que incluir novos membros permanentes ou a longo prazo no Conselho de Segurança, cuja composição reflecte a realidade de 1945 e não a do mundo actual. E, o que não é menos importante, os membros do Conselho de Segurança devem aceitar a responsabilidade que acompanha o privilégio de o integrarem. O Conselho não é um palco para expressar interesses nacionais. É o comité de gestão do nosso frágil sistema de segurança mundial.
Mais do que nunca, a humanidade precisa de um sistema mundial que funcione. E a experiência tem demonstrado, repetidamente, que o sistema é pouco eficaz, quando os Estados-membros estão divididos e carecem de liderança, mas funciona muito melhor, quando há unidade, uma liderança clarividente e a participação de todos os actores. Sobre os dirigentes do mundo, os de hoje e os de amanhã, recai uma grande responsabilidade. Compete aos povos do planeta assegurar que se mostrem à altura dessa responsabilidade.

Kofi A. Annan
Secretário-geral das Nações Unidas
in Publico, 12 DEZ 2006


andré

terça-feira, dezembro 05, 2006

Grande gente assuada em Camaalot

Lancelot e Galaaz
(Iluminura do Manuscrito BN fr 116 f. 667)


Nas últimas semanas, têm aqui chegado através de motores de busca portugueses e espanhóis (sobretudo da Catalunha), várias pesquisas intituladas Vespera de Pinticoste foi grande gente assuada em Camaalot..., assim mesmo, ipsis verbis, tal como se encontra no manuscrito 2954 da Biblioteca Nacional de Viena.
Caros visitantes, sejam bem-vindos. Neste blog reunem-se verdadeiros entusiastas dos textos arturianos em prosa. Se quiserem conversar sobre os cavaleiros da Távola Redonda, dissertar sobre os amores de Lancelot e a rainha Genevra, ou de Tristão e Iseu, o lugar de Boorz de Gaunes na linhagem do rei Ban, a sabedoria do rei Bandemaguz, os percursos de Galaaz, Galvão, Perceval e demais cavaleiros, partilhar leituras, convicções, loci critici... chegaram definitivamente a Corberic e têm à disposição a caixa de comentários ou o endereço electrónico indicado no perfil. Podem ter a certeza que, deste lado, haverá sempre alguém interessado em responder.

evva

domingo, dezembro 03, 2006

Inesperadamente...

Your Inner European is Italian!
Passionate and colorful.
You show the world what culture really is.


Será que foi por ter escolhido o Ferrari? Quem adora conduzir... Ou preferir vinho e ópera a cafés submersos em fumo que nos arranham a garganta e estragam a cútis? But, anyway, I'll always have Paris.


evva

P.S.: Daqui.

Para ler, reler e meditar

Francisco José Viegas, no Origem das Espécies:

«Assim é fácil.

O mail do leitor Luís Varela coloca um problema sobre a língua, a correcção gramatical e a incorporação de novas expressões e léxico. Seria bom que se reflectisse sobre o assunto. Estará certo incorporar expressões como «tu dissestes» ou «tu fizestes» apenas porque elas são escutadas e popularizadas? Nos anos oitenta as faculdades retomaram a «linguística da oralidade» contra a «escrita», o que desvalorizou a ideia de «norma» e a abriu ao «linguajar registado»; ou seja, se se registam expressões como essas, o que nos permite dizer que estão erradas? É uma democracia da barbaridade, mas é necessário discutir o assunto. Outro caso é a expressão «bué», por exemplo, incluída no Dicionário da Academia. Trata-se de um modismo que, aliás, caiu em desuso actualmente; mas a vontade de ser «moderninho» e «actualizado» levou à sua inclusão no Dicionário da Academia. O problema é que um dia destes haverá, nos dicionários, entradas que apenas foram popularizadas pelo Gato Fedorento, que as ridiculariza, ou pela Ana Malhoa, que as utiliza com grande alegria. Assim é fácil.»

É um assunto que há muito me preocupa. Concordo que certos vocábulos do registo calão ou gíria integrem os dicionários (como seria mais fácil ler e entender o passado se os dicionários antigos os integrassem... Relembro a este propósito a polémica em torno do verdadeiro significado da expressão 'une saison en enfer', de Rimbaud). Mas aceitar como norma línguística certas expressões só porque os falantes as utilizam quotidianamente encerra o perigo de demoronamento da língua, pela relativização das regras que a estruturam. Numa escola onde leccionei, uma colega com responsabilidades na biblioteca dizia sempre 'parteleira' por 'prateleira'. À luz dos pressupostas da nova 'Gramática da Língua Portuguesa' este registo até poderia ser aceite.

evva

Estados de espírito

Il pleure dans mon coeur



Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi! nulle trahison?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!

Paul Verlaine (1844-1896)

[evva]

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A quem surpreendeu esta notícia?


Terão os clubes de futebol profissional coragem para acabar de vez com as claques organizadas e por si subsidiadas? Alguém duvida da marginalidade que grassa nestes grupos? Quando ouço a linguagem insultuosa com que enfeitam os jogos a que assistem pergunto-me por que é que ainda me dou ao trabalho de gostar de futebol.

evva

segunda-feira, novembro 27, 2006

You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo, e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida, há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,
palavras que guardam o seu segredo, e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais, só sombra só soluço
só espasmo só amor, só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny (1923-2006)


andré

domingo, novembro 26, 2006

ATÉ QUE ENFIM



Confesso que não me lembro... Talvez no berço... Mas a partir de hoje estarei muitas vezes neste 31. Vejam e revejam aos imprescindíveis 3G dos Darth Vaders da blogosfera portuguesa.

evva

sábado, novembro 25, 2006

Já tem quase uma semana, mas não quero deixar passar. Se não fosse verdade, poderíamos até rir. Vasco Graça Moura, no DN de 22/11:

Num site do Ministério da Educação (http/www.dgidc.minedu.pt/ TLEBS/CDMateriaisDidacticos/ trabalhos/90_Lusiadas _3C.ppt), pode encontrar-se a TLEBS [Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário] aplicada à análise de uma estrofe de Os Lusíadas (II, 12), destinada aos alunos do 9.º ano e qualificada como "corpo linguístico ambíguo". O facto de o ministério ter acolhido o trabalho feito numa escola básica na sua página da rede fala por si.

A estrofe é esta: Aqui os dous companheiros conduzidos / Onde com este engano Baco estava, / Põem em terra os giolhos, e os sentidos / Naquele Deus que o mundo governava. / Os cheiros excelentes, produzidos / Na Pancaia odorífera, queimava / O Tioneu, e assim por derradeiro / O falso Deus adora o verdadeiro. Depara-se-nos logo o fac-símile de duas páginas do Canto II da edição de 1572, com o terrível azar de não figurar aí a estrofe em questão... São reproduzidas as n.ºs 63 a 68, não se percebe porquê.

A análise tem coisas extraordinárias. Alguns exemplos:
1. Afirma-se que "o nome próprio Deus nos surge em três posições ambíguas. A primeira é naquele Deus que..., "pressupondo a existência de outros, o que o torna comum e lhe retira o carácter de entidade única". Acontece que o nome Deus surge apenas em duas posições. E se, na terceira, está implícito, não está como nome. Em vez dele está o pronome "o" [verdadeiro]. A expressão "naquele Deus" não o dessingulariza. Não pressupõe, antes exclui a existência de outros. Basta ler. É um mero expediente enfático e métrico. Não há qualquer ambiguidade. Deus não é contraposto a outros deuses em termos equívocos. Quando muito, ambíguo seria o verbo no imperfeito do indicativo ("governava", em vez de "governa"), por razões de rima, e isto é que devia ser explicado...

Diz-se também que a segunda e terceira posições da dita ambiguidade do nome próprio Deus estariam em "falso Deus" e "verdadeiro [Deus]". Volta a não haver ambiguidade: um é falso e o outro é verdadeiro... Aliás, se ambiguidade houvesse, haveria que explicar, em termos empsonianos, que a incerteza ou sobreposição de sentidos funcionaria como recurso de intensificação do efeito poético e da ironia.

2. Pancaia é o nome de uma ilha utópica no Oceano Índico, imaginada por Evémero de Messina (séc. III a. C.). Havia nela árvores de incenso e outras essências vegetais próprias para rituais religiosos. Daí, "os cheiros excelentes, produzidos na Pancaia odorífera" e queimados por Baco. Mas lemos: "o nome próprio Pancaia assume também valor de nome comum devido à presença do determinante demonstrativo '...aquela', constituindo assim uma perífrase de 'Ilha'". Isto continua a ser puro dislate. Mas o mais bizarro é que o tal determinante demonstrativo "aquela" com tão mágicas e sofisticadas propriedades, NÃO SE ENCONTRA na estrofe analisada!!! É forjado para fins da análise e isto é verdadeiramente grave... E mais grave ainda é o ministério avalizar esta enormidade!

3. Mas há outras coisas pungentes. Noções reaccionárias como sujeito, predicado, complemento directo, complementos circunstanciais, dão lugar a embrulhadas rebarbativas que, do ponto de vista da aprendizagem dos jovens, não adiantam absolutamente nada. Basta ver como os complementos "...em terra" e "... os giolhos" são descritos. Para o primeiro, temos: "núcleo de um complemento preposicional em posição pós-verbal, constituindo uma unidade sintáctica que serve de locativo à forma verbal põem" e, para o segundo: "núcleo de um grupo nominal que constitui o complemento directo da expressão predicativa anterior". Por sua vez, "... e os sentidos naquele Deus que..." é explicado como "núcleo de um grupo nominal equivalente ao anterior, regido pela conjunção copulativa e que o transforma em complemento directo da expressão predicativa formada pela forma verbal põem".

4. "... produzidos na Pancaia odorífera..." é apresentado como "núcleo de um complemento preposicional seleccionado pela forma verbal 'produzidos' como argumento indispensável". O que é que um aluno vai compreender quanto ao argumento indispensável? De resto, pôr os joelhos em terra e produzir na Pancaia é assim tão diferente? Na Pancaia já não serve de locativo à forma verbal produzidos?

5. "... os cheiros excelentes" acarretam o odor evanescente de um "núcleo de um grupo nominal com função de complemento directo e um Modificador adjectival, em posição de atributo"...

6. "... com este engano Baco estava..." explica-se como "verbo copulativo aqui a assumir um valor absoluto ao dispensar o nome predicativo do sujeito - predicado de uma unidade de hierarquização também secundária". Como é que os alunos vão entender que, muito simplesmente, aquele "Baco estava" quer dizer "Baco encontrava-se ali"?

7. "... e assim por derradeiro, o falso Deus adora o verdadeiro" dá lugar a esta trapalhada: "Predicado da frase que constitui uma oração coordenada copulativa/conclusiva (ligada à anterior pela locução conjuncional e o conector de valor conclusivo assim)". Parece que toda a frase é o "predicado da frase"

E o que será pegar em todos os dicionários e onde, na entrada "assim", vem indicado advérbio, alterá-los para se incluir "conector de valor conclusivo"?

8. "Por derradeiro" implica a seguinte explicação deveras transparente: "complemento preposicional aparentemente modificador do sujeito 'falso Deus' no que constituiria uma oração subordinada causal. Na verdade, no contexto, a expressão indica 'Por fim; finalmente' e reforça o valor conclusivo dos elementos anteriores". Quer dizer: formula-se uma hipótese desnecessária, antes de se dar a informação correcta...

Disto se vê como até os professores se enredam nas suas próprias confusões. Escapa à minha obtusidade como é que miúdos de 14 ou 15 anos, ainda por cima mal preparados, vão perceber tudo isto e muito mais nos 45 minutos que são expressamente indicados para a análise em questão. Não lhes chegará todo um ano lectivo à roda desta oitava camoniana! Com a TLEBS, descobriu-se a maneira de reduzir o estudo de Os Lusíadas no 9.º ano a uma só estrofe das 1102 do poema. Coitado do Tioneu!

O ódio à Literatura atinge o seu paroxismo nestes modelos de autópsia. Acuso deste crime o Ministério de Educação.»

evva

PARIS JE T'AIME


F-A-B-U-L-O-S-O


É para já o meu fime do ano. Aqui deixo uma imagem de 'Quais de Seine', uma das 18 deliciosas histórias de 5 minutos de encontros e desencontros na cidade das mil luzes e outras tantas culturas e nacionalidades. O comentário alargado fica para mais tarde.



evva

P.S.: Se não passar por aí, don't worry, pretendo revê-lo uma, duas, três, cinco, dez vezes. A bientôt.

quarta-feira, novembro 22, 2006

A GREVE

Os alunos do Secundário das escolas do concelho decidiram reservar o dia de hoje para protestar contra as aulas de substituição. Quando cheguei, uma enorme e ruidosa concentração fazia-me adivinhar o pior. Entrei, juntamente com alguns alunos, pela porta do estacionamento para evitar grandes atrasos. Na aula das 8h20 tinha duas alunas à minha espera, um terceiro, amedrontado, chegou pouco depois. As duas alunas tinham decidido assistir à aula, um direito que lhes assiste e para o qual o Estado contribui com largos milhões de euros em cada Orçamento, de livre e espontânea vontade. O aluno veio com medo de represálias do Encarregado de Educação, um pavor ainda maior do que a chacota dos restantes grevistas da turma.

«A professora vai marcar faltas?! NÃO PODE!!». «Claro que vou. Quem decide usufruir do direito à greve, tem de assumir as responsabilidades de tal escolha. Os professores e todos os outros trabalhadores quando aderem a uma greve têm sempre falta e não recebem remuneração nesse dia». «Mas disserem-nos que não podia marcar falta a ninguém, nem era preciso justificar». Desisti. Com alunos do 7º ano de escolaridade tão politizados é inútil argumentar. Diga-se de passagem que a aula decorreu agradavelmente com a revisão da matéria leccionada nas últimas aulas.

Entretanto, a hoste reunida no portão principal da escola começara a dispersar. Os arames que haviam introduzido nas fechaduras dos portões tinham sido retirados, mas só depois de se desmontarem as fechaduras, que ficaram inutilizadas (quem paga os estragos?). No segundo bloco da manhã já as aulas funcionavam normalmente, com a presença de todos os alunos.

Acrescente-se que na escola secundária onde actualmente lecciono as aulas de substituição funcionam de forma muito organizada. Quem procurar um libelo de uma docente do ensino secundário com doze anos de serviço contra as aulas de substituição veio bater em porta alheia. Sou totalmente a favor das aulas de substituição. Tranquiliza-me saber que, se tiver uma consulta médica ou adoecer e não puder trabalhar, os meus alunos estarão na sala de aula com actividades por mim seleccionadas ou escolhidas pelo professor designado para substituir-me, se adoecer de repente. A escola estabeleceu também um sistema de permutas, a que recorri quando tive que deslocar-me a um hospital público para consultas e exames ou participei num colóquio.

Por outro lado, já substitui, neste ano lectivo, mais de uma dezena de colegas: dei aulas de matemática, inglês, geometria descritiva, desporto, biologia, saúde e socorrismo, geografia e ciências naturais. Só uma vez fiz uma substituição de francês, uma das minhas áreas de formação. As aulas de substituição decorreram muito bem, sobretudo quando os colegas deixaram o plano de aula, o que aconteceu em 50% das vezes. Quando tal não aconteceu, dirigi-me à estante com exercícios e fichas de trabalho de todas as disciplinas e, muitas vezes com a ajuda dos colegas da disciplina, seleccionei uma série de actividades a desenvolver na aula de sunstituição. Só uma vez, numa aula das 8h20, não tendo a colega podido deixar o plano de aula, optei por actividas lúdicas. Os alunos de um 9º ano escolheram um filme, que a delegada de turma foi requisitar à biblioteca. Jurei que nunca mais me metia noutra. Ao fim de 20 minitos, já ninguém ligava ao filme e vi-me grega para manter os alunos sentados e calados.

Tudo isto para dizer que os alunos da minha escola não podem ter razões de queixa das aulas de substituição. Podem discordar ter que vir, numa manhã ou tarde, de propósito à escola para ter uma aula substituição, ou da possibilidade de sairem mais cedo no final de cada turno para evitar a hora de ponta. Estas greves contra as aulas de substituição que pululam em quase todos os distritos e animam os noticiários não têm a mínima razão de ser e esta medida é talvez a única decisão relacionada com a educação tomada por este governo digna de louvor. Quanto às restantes medidas, nomeadamente o ECD, esperem pelos próximos capítulos, que o intervalo acabou e tenho de ir substituir uma colega de inglês. Já tenho as fichas de trabalho preparadas desde ontem à tarde.

evva

segunda-feira, novembro 13, 2006

A pensar é que a gente se entende









Ainda que o título do post possa causar algum melindre a determinadas pessoas deste blog, pelo uso menos adequado da palavra "gente", esta foi a melhor forma que encontrei para recomendar a visita ao site da BBC Radio 3, onde poderão ouvir uma entrevista com Brian Eno (na foto) a propósito do festival Free Thinking, organizado pela estação/instituição nacional de rádio britânica.
Porque às vezes vale a pena ouvir os outros pensar.

andré

domingo, novembro 12, 2006

Keith Jarret Trio em Portugal













Hoje, 12 de Novembro de 2006, vai ter lugar, em Lisboa,
o concerto do ano… e eu não vou poder lá estar…

andré

quinta-feira, novembro 09, 2006

Venha o próximo!

'When the new century came there was fantastic goodwill in the world,' Yunus recalls. 'We had a tremendous optimism, we wanted a different kind of world. For the first time in human history, all the nations got together and set a date, via the UN's Millennium Goals, to improve the world. We want to reduce the number of poor people by half by 2015, they said. And then ... and then comes Bush! Who turns the whole thing backwards. He creates distrust among people, he undermines the authority of the government, and he says, I can handle everything myself. And so today we are in mess and we don't know how we are getting out.'

Este excerto da reportagem do semanário inglês The Observer, sobre o nobel da Paz de 2006, Muhammad Yunus, é suficiente para dar uma imagem clara sobre o impacto que George W. Bush está a ter na história deste milénio que ainda agora começou.
Na semana passada, o Público dava conta de uma sondagem promovida pelos jornais "The Guardian" (Reino Unido), "Haaretz" (Israel), "La Presse" e "Toronto Star" (Canadá), e "Reforma" (México), que reveleva que o actual presidente dos EUA era visto como uma ameaça mais séria à paz mundial do que o líder norte-coreano, Kim Jong-il, e o Presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad.
Parece demasiado associar uma pessoa a um conjunto tão alargado e profundo de acontecimentos. E verdade seja dita, a administração Bush não teve propriamente muita sorte com alguns dos acontecimentos com que foi confrontada.
Mas o que a torna tão mal vista não são tanto os seus actos mas sim as ideias que estão por trás. Ideias incorporadas em pessoas como Paul Wolfowitz, um dos pais da democratização do mundo, ou o agora (finalmente) demitido Donald Rumsfeld, que acreditava que a guerra do Iraque ia durar uns meses (?!). Esta administração baseia-se, de facto, em ideias que, noutro contexto, poderiam ser consideradas muito perigosas.
A democracia actual tem dilemas sérios, como referiu John Keane no Público de domingo, e esta administração tem sido pródiga na forma como tem demonstrado isso mesmo. Mas como só os americanos podem eleger o seu presidente, vamo-nos contentando com os resultados das eleições intercalares, onde os democratas ganharam a maioria no senado e na câmara dos representantes.
Contudo, o povo diz que "gato escaldado de água fria tem medo". E eu lembro-me bem da intervenção na Somália nos anos 90, em nome da paz. Foi mais curta do que o Iraque, e as tropas americanas tiveram de bater em retirada. O presidente da altura chamava-se Bill Clinton, e era democrata.
Mas parece-me que ninguém se importa muito com quem vem a seguir. O importante é que a administração Bush saia. Depressa.

andré

PS: …ainda faltam mais dois anos. Alguém consegue arranjar um acelerador?

segunda-feira, novembro 06, 2006

VERGONHA


Uma condenação à morte evitável. Até quando estaremos dispostos a aturar a exportação do pior que a América tem? Seria uma boa oportunidade para a Europa sublinhar a sua oposição à sentença de morte, com uma veemente condenação à decisão de um tribunal que se suspeita instrumentalizado e esforços diplomáticos para transformar a pena em prisão perpétua.

evva

quinta-feira, novembro 02, 2006

Os pontos nos ii

Vasco Graça Moura, no DN de ontem, a alertar mais uma vez para a gravidade da 'linguisticização' do ensino da Língua Portuguesa e citando dois excelentes artigos de Maria Alzira Seixo e Maria do Carmo Vieira. Sublinhados meus:

«A sublimação

Há perto de um ano, abordei nesta coluna a questão da nova terminologia linguística para os ensinos básico e secundário (TLEBS). Agora, com a serenidade olímpica e a autoridade incontestável que lhe vem do muito saber académico, de uma longa experiência cultural e pedagógica e de um bom senso elementar, Maria Alzira Seixo, numa síntese fundamental, "A TLEBS e a educação" (Visão, 26.10.2006), põe em evidência como certos sectores da Linguística em Portugal (talvez, digo eu, por qualquer descompensação da ordem do freudiano...) se estão solenemente nas tintas para a Literatura e para o papel essencial que esta deveria ter no ensino e na aprendizagem da língua portuguesa.
Demonstra que nunca é inocente a substituição de uma terminologia gramatical por outra e anota não ser cientificamente consensual, nem isenta de muitas incoerências, a orientação universitária que foi imposta através da TLEBS e que não deveria, portanto, ter sido considerada "representativa para uma orientação ministerial".
Sublinha que nem a Gramática nem a Língua são feudo exclusivo da Linguística e estão também indissoluvelmente ligadas à Literatura e à Filosofia.
Exprime o receio, mais do que fundamentado, de que o pensamento subjacente à TLEBS não favoreça a qualificação educativa.
Denuncia o autismo teórico das concepções subjacentes à TLEBS e os "raciocínios tecnicistas e funcionais, com uma óptica exclusivista e auto-suficiente que, não dialogando com áreas centrais do pensamento humanístico, estreita a compreensão gramatical".
Aponta o lado abstruso, aberrante e incompreensível de muitos aspectos da terminologia em questão, bem como os equívocos a que isso dará lugar, tanto no plano da docência como no da discência.
E observa: "Não é por serem diferentes que as designações são inovadoras ou adequadas; Rodrigues Lapa mostrou há décadas, relacionando linguística e literatura, que a estilística da língua matiza as categorias gramaticais e a actualiza em alterações da norma praticadas por escritores que criam valores que a categoria não contém e é a literatura que vai fixando".
A rematar, uma evidência clamorosa: "Ninguém pode obrigar um professor a ensinar mal".

Também Maria do Carmo Vieira publicou um excelente artigo, "O regresso da polémica", no JL de 25.10.2006, em que, depois de uma breve resenha da tragicomédia do ensino da Gramática, dá uma série de exemplos de pôr os cabelos em pé.
Entre outros, há pronomes indefinidos que dão agora pelos nomes sorumbáticos de "quantificadores indefinidos", "quantificadores universais" e "quantificadores relativos". Nos advérbios, encontramos coisas alucinantes como "advérbios disjuntos avaliativos", "advérbios disjuntos modais", "advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção" e "advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção". O sujeito indefinido passa a ser o luminoso "sujeito nulo expletivo". O "aposto ou continuado" chama-se bombasticamente "modificador do nome apositivo", podendo ser do tipo "nominal", "adjectival", "proposicional" ou "frásico"...

Isto posto, o que é que leva a ministra da Educação a aceitar um conjunto de enormidades deste tipo e a desatender as muitas objecções que, sem dúvida, lhe chegaram da parte de inúmeros professores?
Quem são os responsáveis que, no seu ministério, se vêm enfeudando a estas aberrações, conseguindo fazê-las consagrar na lei, com os resultados desastrosos que todos conhecem? Não lhes acontece nada? Ninguém pensa em pô-los na rua?
Não se vê que a avaliação dos professores, face ao novo estatuto, se vai tornar absolutamente impraticável nesta matéria? Nem que o ensino se vai degradar ainda mais?
Será isto uma política da Educação? Será assim que a cooperação com os outros países de língua portuguesa vai ser mais eficaz, no tocante ao ensino e promoção da língua comum?
Não há um deputado à Assembleia da República para interpelar o Governo, uma associação de pais para protestar com energia, uma associação de professores para se recusar terminantemente a pôr em prática esta pepineira?
Assim como a sublimação implica a passagem do estado sólido ao estado gasoso, sem passar pelo intermédio, temos agora este trânsito da ignorância geral à embrulhada específica, sem se passar pelo estado intermédio e necessário de um ensino razoável e sensato.
Por alguma razão a palavra "gás" deriva de kaos. Esse será o resultado deprimente do ensino gasoso que a TLEBS nos prepara.»

evva

Para além da curva da estrada


A minha avó materna partiu na sexta-feira passada, no primeiro dia de um Verão luminoso e anacrónico que sucedeu a dias e dias de chuva diluviana. Apesar da manhã ter surgido hoje submersa em neblina, a recordar o mês em que estamos, continuo à procura da curva da estrada que traga o Outono de volta e finalmente me reconcilie com a realidade.

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir com eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

FERNANDO PESSOA (22.5.1932), Cancioneiro

Elsa

sexta-feira, outubro 20, 2006

O que distingue a música boa da música má?

"A quase impossibilidade do reconhecimento disto quando da sua primeira audição."

Caetano Veloso em entrevista Pessoal e Transmissivel, com Carlos Vaz Marques, na TSF.

quarta-feira, outubro 18, 2006

I feel disgusted

Ontem a administração Bush assinou uma lei que aprova o uso de métodos ditos "agressivos" nos interrogatórios relacionados com a guerra contra o terrorismo. Não sei que tipo desculpas podem dar os defensores da "democracia" americana para defenderem a aplicação desta lei. Para mim, é mais uma prova que, este presidente e a sua comandita têm muito pouco de democrático. E se esse é o peixe que querem continuar a vender para que nós aceitemos cegamente tudo o que fazem, deveriam dar o exemplo, ao menos para manter iludidos os pobres coitados. .. uma coisa é certa. A minha ideia de democracia não tem nada a ver com isto. E gostaria, embora saiba que o pai natal não dá este tipo de presentes, que a Europa seguisse de vez um outro caminho.

Norma

domingo, outubro 15, 2006

AFINAL NÃO ESTAMOS SÓS



O que é que se vê nesta fotografia?

(a) Um estádio do EURO 2004 em final de construção.
(b) O estádio Olímpico de Atenas a ser terminado.
(c) O estádio de Wembley no final do seu processo de remodelação.

Se escolheu a opção b (a primeira é demasiado óbvia), enganou-se.
Não são só os Portugueses e os Gregos a meter água na construção de estádios. De acordo com o semanário The Observer, vão ser gastos 827 milhões de libras (± 1240 milhões de euros) na remodelação do ícone futebolístico britânico. O custo inicial era de 458 milhões de libras (± 687 milhões de euros)…

Qual é a moral da história?

(a) Afinal os nossos estádios não demoraram assim tanto a ser construídos.
(b) Os ingleses gastam mais nos estádios mas também na educação e na cultura.
(c) Isto só serve para apagar as mágoas das asneiras que fazemos.

Eu resigno-me à escolha da terceira opção. Mas cada qual pode escolher o final que quiser.
Quanto aos gregos, eu só os pus aqui para vos enganar.


andré

quinta-feira, outubro 05, 2006

Há dias assim... II


Este dia devia ser celebrado para recordar a independência de Portugal, ocorrida há 863 anos (1143) e consagrada pela assinatura do Tratado de Zamora, em que Afonso VII de Leão reconhecia a legitimidade de Afonso Henriques, e não para festejar na Praça do Munícipio de Lisboa o início da governação desastrosa que foi a Iª República.

evva

terça-feira, outubro 03, 2006

Há dias assim…

Ora então vejamos:
Acordei às seis e meia para poder chegar duas horas antes do voo, sabendo já que não me iria livrar do pagamento do excesso de bagagem. Esta mala saiu mais pesada do que a da semana passada…
Já no aeroporto, e durante a verificação da bagagem, o discman sai disparado da mochila e estatela-se no chão ficando, daí em diante, com uma esclerose que o faz parar a meio da cada música que toca. Durou mais de 10 anos com muitas quedas e nenhum problema. Tadinho…
Chegado ao destino, e depois de uma bela soneca, ficamos todos cerca de 20 minutos à espera que nos verificassem os BI ou passaportes. Sigo para o primeiro comboio do dia. Faltavam ainda cinco minutos prá partida…
Chegado ao fim da viagem, e após comer um queque com pintinhas púrpura e beber um earl grey – que era mais grey do que outra coisa – começo a corrida para o segundo comboio. Com as moedas para a máquina de bilhetes do metro já no bolso, dali até à estação foram menos de dez minutos.
Entretanto, como a pressa e com o peso, a pega retráctil da mala parte e, após testados vários tipos de pega, sujeito-me à única que funciona: pernas ligeiramente flectidas e corpo inclinado prá direita para poder agarrar a mala. Saco cama e edredão na mão esquerda e a mochila com o computador no ombro do mesmo lado.
A menos de um minuto antes da partida entro no comboio. Arrasto a mala até à minha carruagem, troco a camisa ensopada de suor, e após ir ao bar buscar comida, vou para um lugar que não é o meu para não ter de ouvir o ressonar da senhora que estava sentada ao meu lado.
Agora com tempo para pensar, escrevo esta crónica com uma certeza: quando chegar vou de táxi até casa.


andré

PS: Deixei a raquete de squash no primeiro comboio…

segunda-feira, outubro 02, 2006

Olé II



Lula vai à segunda volta.

Será desta que se digna a aparecer nos debates? O Brasil merece melhor.

evva

P.S.: Sobre o suposto 'milagre' da diminuição da pobreza, ler Dar Engano, no Lóbi do Chá.

Olé


evva

sábado, setembro 23, 2006

Adeus Margarida













Ontem o dia amanheceu com o sol e com ele ficou até ao fim.
O frio já faz sentir a manga curta ao final da tarde.
Depois de uma entrada violenta, o Outono mostra porque dá o vermelho às plantas e a nostalgia aos sentidos.
Ontem a Margarida morreu. Era nossa amiga e nós gostávamos muito dela.

andré

sexta-feira, setembro 22, 2006

Isto de passar o dia inteiro a ouvir falar com sotaque de Gondomar... Não vos digo nem vos conto. Vá lá que é tudo gente simpática.

Eu até gosto muito do colorido dos sotaques, apesar do meu português indistinto, com raríssimas marcas de regionalismo, que faz com que os que me conhecem pela primeira vez duvidem, desconfiados, que eu seja do Porto, mas, enfim, há fonéticas e fonéticas...

evva

quinta-feira, setembro 21, 2006


Há um ano, nascia em Coimbra o cavaleiro desejado. Tem sido um privilégio vê-lo crescer e descobrir o mundo com aquele sorriso que tudo ilumina à sua volta.
Parabéns!

evva

terça-feira, setembro 19, 2006

Aleluia!

E hoje chegou finalmente o resultado da minha reclamação do concurso de colocação de professores. Pelos vistos, houve um erro técnico e vou ser recambiada para a escola do último colocado do QZP, já que aquela escola era a minha 18ª opção (fui parar à escola 92ª) e o colega da 18ª está 100 e tal lugares depois de mim na lista de graduação.
Já tive conhecimento de dezenas de reclamações (afinal, nem tudo correu bem, sr.ª ministra...), só espero que os outros colegas prejudicados pela tal 'falha técnica' vejam a sua situação regularizada quanto antes, sobretudo os contratados. Pois se eu pude constatar dezenas de atropelos no concurso para os QZPs, no concurso dos contratados é melhor nem falar. Boa sorte a todos.

evva

MEC e Israel


"A minha posição é muito simples: apoio Israel, aja mal ou aja bem e haja lá o que houver. Suponho que isto faça de mim, segundo a óptica da época, um fundamentalista, tão mau como os terroristas: não me importo. Cada um é livre de pensar o que quer. E é aqui que começa (e não acaba) o problema.
Se eu quiser interrogar a minha simplicidade, basta-me ler a imprensa israelita. Aí são expostas e ardentemente defendidas todas as posições possíveis. Se quiser ultrapassar à esquerda ou à fanática os mais ferozes anti-sionistas europeus e americanos (os portugueses, felizmente, são sempre desinteressantes) lá estão todos os extremismosque eu possa pretender.
Os israelitas têm, em comparação com aqueles com que guerreiam, algumas grandes vantagens. Não querem a destruição completa do povo a que pertence o exército adversário. Gostam da liberdade de expressão; da democracia liberal; dos direitos humanos. Pensam no que fazem; têm problemas de consciência; dúvidas que exprimem publicamente e debatem sem pudor. Votam e deixam votar. Enfim, Israel é como Portugal, como a Europa, como os Estados Unidos, como o Japão, como a Austrália e todos os países onde o indivíduo é livre de discordar, rebelar-se e ser do contra. Ou, no meu caso, de não se rebelar - nem sequer contra os que se rebelam.
Para mim, os adversários de Israel são os nossos. Por definição. São os que querem destruir um Estado e um povo democráticos. Mais: Israel somos nós. Não nos faz lembrar nada aquele país diminuto rodeado por inimigos, com um único aliado poderoso? Faz lembrar Portugal há muitos séculos atrás, quando a ideia de Portugal ainda não era aceite. Os israelitas têm os americanos como nós tínhamos os ingleses. E os restantes europeus, como sempre, vacilam em volta, confundindo a própria confusão.
Não é em Israel nem aqui que existe unanimidade ou se procura alcançá-la. Essa é a razão do meu apoio: poder concordar. Também é uma liberdade. É onde há unanimidade - e onde se procura impô-la - que está o que se deve temer e contrariar.
"

Miguel Esteves Cardoso, Nós também somos Israel, na Única do "Expresso" (no Blog da Atlântico).

Escusado será dizer que assino por baixo.

evva

segunda-feira, setembro 18, 2006

domingo, setembro 17, 2006

Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, / Senão o que somente mal deseja.


Comecei a ler Pode um desejo imenso, de Frederico Lourenço, e juro que amanhã vou ler na íntegra, de um só fôlego, as Rimas e Os Lusíadas com olhos inquiridores. Mas só depois de oito horas de NEE e Apoios Pedagógicos Acrescidos*. Entretanto...

Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto,
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto,
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais,
Que faz que leia mais do que vê escrito.

Luís Vaz de Camões, Ode VI
[os versos lá em cima são d'Os Lusíadas, IX, 29, 1-2]

evva

*É impressão minha ou no Ensino Básico actual quase todos os alunos têm 'dificuldades de aprendizagem', 'currículos adaptados' e outros quejandos? No meu tempo chamávamos-lhe outra coisa, repetiam o ano e ninguém ficava traumatizado. Depois queixem-se. O ensino não pode descer totalmente ao nível dos alunos, tem de estar sempre um degrau ou dois acima para ajudá-los a subir a escada de cabeça erguida.

domingo, setembro 10, 2006

A recusa do esquecimento



















É provavelmente uma das imagens mais chocantes e perturbadoras do 11 de Setembro de 2001. Não há heróis, bandeiras, grupos de pessoas a sofrer, pó, aviões, ou bombeiros. Nem as torres a arder. Apenas uma visão, quase graciosa, de alguém que sabemos que vai morrer.
A censura a esta imagem esteve na origem de um documentário do Channel 4 emitido na 2: na noite de Sábado, 9/09, que procurou entender porque é que o fenómeno dos (denominados) Jumpers foi aparentemente silenciado e progressivamente esquecido pelos media dos EUA.
No dia seguinte, a SIC Notícias emitiu um outro documentário sobre o atentado, desta vez com imagens do que se passou nos andares de baixo das torres, e onde os bombeiros tiveram de mudar o local de evacuação devido à queda destroços… e de pessoas. Jumpers não foram dez… nem onze…

Voltemos então um pouco atrás.
Pouco tempo depois do 11/09, o director do Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, falava numa conferência no Porto do paradoxo resultante da ausência de imagens das vítimas do atentado, devido a um acordo entre televisões e jornais que visava impedir a sua exploração mediática. O contraste com a exposição constante do sofrimento das vítimas dos bombardeamentos dos EUA no Afeganistão tornava possível que este último trágico e polémico acontecimento – com centenas de vítimas – fosse visto pela opinião pública de forma mais dramática do que o anterior – onde morreram vários milhares.
Parece ter havido aqui uma tentativa de conter a difusão de imagens que pudessem porventura alimentar entre a população a ideia de derrota, impotência ou invulnerabilidade. O país não podia parar, o seu desígnio não podia ser posto em causa. Fez-me lembrar o filme Dune: the spice must flow.
Mas isto não foi apenas uma orquestração. Na peça do Channel 4, alguns/as entrevistados/as indignam-se ou revoltam-se perante o suicídio e a sua difusão. Era desonra, uma morte amaldiçoada. O inferno que muitos viveram, com o fumo e o calor inimaginável, não seria razão suficiente para justificar tal decisão.

Curiosamente ou não, a falta de informação sobre o que de facto ocorreu naquele malfadado dia tem alimentado toda a espécie de teorias, a mais famosa das quais, disponível em video.google.com, coloca a administração Bush por detrás do que aconteceu. Parece haver algumas pontas soltas, a mais óbvia das quais será o ataque ao Pentágono por um avião… ou por um míssil. Mas passemos à frente.

A busca da identidade deste Jumper traz também relatos de pessoas que compreendem e aceitam que, naquela circunstância, o salto é não só o caminho para uma morte mais tranquila como também um derradeiro acto de coragem.
Parece emergir de algumas reportagens que agora aparecem uma necessidade de relembrar e repensar o que se passou. Cinco anos passados, depois do desastre no Iraque, dos ataques em Londres e em Madrid, talvez haja uma recusa do esquecimento, que confronta os EUA e os seus habitantes com a sua impotência. Mas mais ainda, que os torna iguais a todos os que aceitam a sua fraqueza e vivem com os seus fantasmas.
Talvez seja uma parte do caminho para a maturidade. Era bom que fosse.


andré

Não consigo deixar de ouvir!










It's a little device
It's a little device
Keeps you warm
Keeps you warm

It's a little surprise
Just a little surprise
To keep you calm
To keep you calm

Shadows and light
Shadows and light
I see your face on every single street

Got to get out of this place tonight
Got to get out of this way of life
Got to get out of this place tonight

It's a little device
It's a little device
Keeps you warm
Keeps you warm

Got to get out of this place tonight
Got to get out of this way of life

This life, Perry Blake, álbum California


andré

quarta-feira, setembro 06, 2006

CORAGEM!


evva

Pérolas FCT

«A descrição da metodologia podia estar descrita de forma mais explicita».

Assim mesmo, sem acento em 'explicita' e com a descrição da metodologia descrita ou por descrever, classificou o Júri FCT um projecto de Doutoramento numa área de investigação recente e cuja metodologia tem de ser criada de raiz, logo, não poderia a sua descrição ser descrita ou deixar de o ser, explícita ou explicitamente, até porque o próprio projecto inclui a construção dessa mesma metodologia.

Assim vai o Ensino Superior em Portugal.

evva

domingo, setembro 03, 2006

Imperdoável

Há já algum tempo que mo haviam recomendado. Apreciadora da escrita do autor, contava os dias que faltavam para uma amiga terminar a leitura e emprestar-mo. Ontem, finalmente, chegou-me às mãos. Li o texto da contracapa, a dedicatória, as epígrafes a recordarem-me inesquecíveis leituras. O narrador arranca com uma série de digressões aforísticas. Interessante a frase de abertura. Na segunda proposição, o sujeito 'a gente' sobressalta-me. De imediato o resto da frase cai pela escada definitivamente abaixo da minha consideração.
Se há expressão que não suporto é 'a gente' como sinónimo de 'nós'. 'A gente podia ir adorar o sol, em vez de estares aqui fechada a escrever baboseiras no computador', etc, etc. Estraga todo e qualquer discurso, qual Dão Tinto Reserva que se oferece com desvelo e que alguém coloca inopinadamente no frigorífico antes de servir.
Quando há anos trabalhei a sul, apercebi-me do uso abusivo da expressão, sobretudo aliada à forma plural do verbo. De facto, não é um sujeito que os falantes do norte utilizem com frequência. Ou utilizassem. Como em quase tudo na língua, os estranhos hábitos do sul contaminam a ancestral puridade minhota e duriense.

Fecho o livro. No Campo Alegre passa o Vera Drake. Bom filme. Terei sido a única a concordar com a sentença? Há actos que a ingenuidade ou o altruísmo desajustado não podem desculpar.

evva

quarta-feira, agosto 30, 2006

sexta-feira, agosto 25, 2006

Quando for grande quero ser assim




"And I'm very dubious about trying to produce students who are going out and change the world. I'm very anti-authoritarian about it. I'm not interested in disciples; I don't want people to be like me. I'm interested in people who are different."

"Power, Politics and Culture - interviews with Edward W. Said". Vintage Books. New York. Pag. 63.


andré

domingo, agosto 20, 2006

Sinais de Esperança…

(produzido a partir de excertos - em itálico - da coluna semanal Ponto de Vista, de Jorge Almeida Fernandes, publicada no passado dia 21 de Agosto no Público, com o título "Israel Analisa-se")

Depois do fiasco no Líbano, Israel debate os erros. Tudo é posto em causa, a doutrina militar, a política palestiniana, as relações regionais. Se o Hezbollah surpreendeu Israel, Israel passou agora a conhecê-lo. É uma questão de sobrevivência.


Para começo não está mau.

Um analista lembrou que Israel não ganha uma guerra desde 1967: teve uma vitória parcial em 1973, atolou-se na Intifada e falha agora no Líbano.


Esta é que eu não sabia.

Os próximos meses assistirão a um provável terramoto político. "É o princípio de uma nova era, se Israel reconhecer a tempo que tem de pagar o preço de uma repetida cegueira", escreve o jornalista Gideon Samet.

Cegueira. Ora aí está. Talvez seja melhor escrever as próximas resoluções da ONU em Braille…

[o historiador Zeev] Sternhell afirma que "o fracasso não foi da elite cultural ou dos valores de sociedade aberta. Não houve falta de devoção, espírito de combate e voluntarismo, qualidades características dum israelita em uniforme. O que faltou foram políticos com estatura e meios adequados de acção."

De facto, primeiros-ministros com estatura, desde Rabin, não tenho conhecimento de ter havido algum.

Os analistas militares, muitos deles oficiais na reserva e veteranos dos serviços secretos, criticam os conceitos estratégicos. Desde a aposta na guerra aérea e tecnológica ("à moda da NATO no Kosovo") ao desprezo pelo adversário, que levou às "surpresas" do Hezbollah, como os seus mísseis antitanque.

E eu a pensar que ninguém era suficientemente ingénuo para imitar os americanos. Para quem tem a reputação de ter um dos melhores exércitos (e serviços secretos) do mundo, esta notícia desilude-me profundamente.

Fala-se no desgaste das tropas de elite em anos de combate de rua na Intifada: "À força de jogar contra más equipas, mesmo as boas equipas vêem o seu nível baixar."


Quanto a isto não há problema. Contrata-se o José Mourinho. Ele até já esteve em Israel e deve ter ficado com a noção exacta do problema.

É posta em causa a doutrina da "alavanca", o uso de alta violência contra os palestinianos para os convencer de que nada obterão pela violência, explica o general Gal Hirsh. Ao fim de cinco anos, os militares fazem o balanço: os palestinianos moderados foram marginalizados e o Hamas ganhou as eleições. No Líbano, foi usado o mesmo princípio e o exército queixa-se agora de perder a "guerra das relações públicas" e de ver os libaneses solidarizarem-se com o Hezbollah.

Pois. Digamos que, tirando os Israelitas e os americanos, já todo o mundo tinha percebido isto.

Há uma gravíssima responsabilidade dos políticos, de Ehud Olmert a Amir Peretz: não fizeram as devidas perguntas. Se a guerra era inevitável, Israel caiu numa armadilha.


Pois caiu e agora o mundo inteiro tem de ajudar Israel a sair dela. Bonito serviço.

O general Uri Saguy, ex-chefe das informações militares, declarou ao Le Monde: "Esta guerra deveria levar os nossos dirigentes a compreender os limites da força e a necessidade de um acordo político regional. Os que têm uma visão binária, que dividem o mundo entre bons e maus, apenas sabem semear a guerra e a desestabilização da região."


Essa dos bons e dos maus era uma indirecta para o Bush, não era?…

O "falcão" Efraim Halevy, antigo chefe da Mossad, propõe uma negociação com o Hamas e critica a sua ostracização. Não interessa que o Hamas reconheça Israel, interessa sair dos territórios, deixar para mais tarde a paz e negociar um statu quo que garanta a segurança e afaste o Hamas sunita do Hezbollah xiita. O "campo da paz", esse quer aproveitar a "oportunidade" para avançar uma solução global.


As aves de rapina têm de facto uma visão muito apurada. Temos de as respeitar e dar-lhes razão quando a têm.

andré