sábado, março 10, 2007

MODAS

«O QUE RESTA

Está na moda bater nos professores. Pais histéricos e boçais, avôs, primas e primos, as amantes do pai corno e os amantes da mãe promíscua, tudo serve para arremeter contra os professores das horríveis crias. Já aqui escrevi que estas "crianças" e adolescentes que frequentam as escolas públicas, pagas com os nossos impostos, deviam ser sumariamente corridas - suspensas e expulsas- quando o seu comportamento se confunde com o de secções do jardim zoológico. O primitivismo comportamental não tem perdão, sobretudo quando praticado em lugares supostamente destinados a formar futuros cidadãos responsáveis (consegui escrever isto sem me rir). O ministério da Educação, eventualmente em conjunto com os dos drs. Costa, devia prestar mais atenção a isto em vez de passar a vida a vexar gratuitamente os docentes, metendo tudo e todos no mesmo saco, esvaíndo a sua já parca autoridade. Todavia, não nos devemos admirar de as coisas terem atingido esta proporção com as escolas a serem invadidas por famílias - vou utilizar o jargão assistencialista - "disfuncionais". A esquerda no poder na Europa é a principal responsável por este entorse nas funções nucleares das escolas públicas. O politicamente correcto quis transformar os liceus em prolongamentos de gabinetes de psicologia e de serviço social, como Judi Dench "explica" magnificamente em "off" nos primeiros minutos do filme "Diário de um escândalo". Aliás, a história do filme é uma consequência do optimismo "blairista" aplicado ao sistema de ensino. A professora de arte que "come" o rapaz de 15 anos é o equivalente, num país periférico e analfabeto como o nosso, ao avô que bate no professor. Judi Dench encarna uma personagem magnífica, não tanto por causa da trama - também magnífica - mas pelo que as suas "notas" (a partir do livro homónimo de Zoë Heller) revelam sobre a escola pública da "terceira via" do sr. Blair, esse exemplo de modernidade e de "esperança" para tanto socialista "pragmático" do século XXI. Se estes socialistas "pragmáticos" andassem mais por aí em vez de viverem atafulhados em fantasias inócuas, talvez parte da realidade pudesse entrar nas suas duras cabeças. Enquanto isso não acontecer, o "progresso" continuará tranquilamente a dar cabo do que resta da ideia de escola ou de liceu e, inevitavelmente, de professor no sentido nobre do termo. Quem é que está disposto a trocar uma aula por uma cadeira na cabeça, atirada pelo primeiro "coitadinho" do sistema? Quem?»

João Gonçalves, num blogue de leitura obrigatória, Portugal dos Pequeninos.


Leiam também este comentário avisado ao post de João Gonçalves, por josé gomes andré:


«A degradação da escola está relacionada com a aplicação de uma teoria "psicologista" pós-moderna de consequências terríveis: a ideia de que a escola não é um lugar de aprendizagem, mas sim de "adequação social" ou de "ambientação ao mundo", onde é mais importante "crescer" e "socializar" do que aprender o conteúdos dos programas. Enquanto se continuar a dizer aos miúdos que não saber nada da matéria não é grave, e que isso pode ser compensado com uma boa "participação pedagógica" na dimensão de "integração social" - não vamos lá.»


Pois é, mas nós é que os temos de aturar todos os dias, mais os paizinhos do "juro-lhe que ele em casa não fala assim", os que nunca aparecem, os que não acordam os filhos para ir às aulas e têm o desplante de justificar a falta do educando com um 'adormeceu' ou 'o despertador não tocou', os que deixam os filhos ver as telenovelas e os filmes todos até às tantas da madrugada, os que se queixam de não ter dinheiro para os livros e o material escolar e vociferam por não terem sido contemplados com o subsídio, mas não se esquecem de comprar à filharada o telemóvel de última geração e o ipod, os que se insurgem porque o filhinho pródigo não foi seleccionado para aulas de apoio pedagógico acrescido, mas que nada fazem para obrigar os rebentos a realizar os trabalhos de casa ou a trazer o caderno e o manual escolar todos os dias, ou a estarem virados para a frente nas aulas e calados e atentos e responsáveis, em vez de as interromperem constantemente com comentários despropositados e insultuosos, para os colegas e para os professores, "deixe lá, não ligue, ele em casa também é assim", etc, etc, etc.
A nossa sorte é que ainda conseguimos encontrar um ou outro aluno por quem valha a pena ir trabalhar todos os dias. Mas esses são cada vez mais a excepção.

evva

«O menino menos zeloso

– Professora, eu não consigo perceber por que motivo tenho menos um valor do que o Rui. Afinal, tivemos exactamente os mesmos resultados nos testes, nos trabalhos e na participação…
– Mas não na assiduidade, Jorge. O Rui nunca faltou e o Jorge tem cinco faltas.
– Justificadas, professora, todas justificadas. Faltei dois dias pela morte do meu avô e os outros três porque torci um pé na aula de Educação Física. O médico obrigou­‑me a descansar três dias, até me passou um atestado…
– Não me interessa. Se tivesse ouvido o meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, como eu ouvi, saberia muito bem que o importante é ter faltado, não interessam as razões, não interessa quem morreu, nem se torceu o pé ou partiu a perna ou entortou o pescoço. As palavras do meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, que eu ouvi com toda a atenção, como sempre faço em relação aos meus superiores hierárquicos – e o menino devia fazer o mesmo –, foram absolutamente claras: para todos os efeitos, quem faltou foi menos zeloso do que quem não faltou. Por isso, não quero saber da morte do seu avô nem do pé torcido nem da unha encravada. Vai ter menos um valor do que o Rui e ponto final.»

João Paulo Sousa, no Da Literatura.


Quantas vezes terá faltado o menino Sócrates, desde que iniciou funções? Reuniões partidárias, jornadas do grupo parlamentar, daquela vez que partiu o pé na estância de esqui... Não é também Funcionário Público? Tirem-lhe as férias, se faz favor.

evva


P.S.: E, já agora, ponham-no a dar umas aulinhas numa escola pública, em par pedagógico com a Lurdinhas e os secretários. Ah... a licenciatura não é reconhecida pela Ordem dos Engenheiros, oops...

Faltará muito para o regresso a Camalot?

(BMDijon, ms. 0527, f. 162v)

evva

Enfim(!)-de-semana



evva

quarta-feira, março 07, 2007

'RETRATO DE MÓNICA'

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Contos Exemplares (1962)
Porto, Figueirinhas.

[evva]

terça-feira, março 06, 2007

Ainda as 'Variações em Sousa'

Fernando Assis Pacheco tu-cá, tu-lá com o leitor, encerra exemplarmente e sem rodeios o livro que assina:

F. A. P. Fecit

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saudades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desampatraste

*

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde


[evva]

segunda-feira, março 05, 2007

O dia amanheceu azul . Há um cheiro intenso a relva cortada no ar, o ronronar da cortadora ainda se ouve ao longe, nos canteiros do fundo da rua. As magnólias já floriram e derramam rosa e branco nas calçadas. As mimosas já invadem os caminhos. Mas ainda me ressoa na memória a chuva de ontem e os versos da Rosário Pedreira. Tarda muito, a Primavera?

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois (2005), Gótica, p. 11

domingo, março 04, 2007

Já foi há alguns anos, mas revivo esse domingo como se fosse hoje. Trabalhava e vivia lá perto, choveu intensamente nesse dia e nos precedentes, houve ameaça de inundação lá em casa, água em demasia na varanda dos vizinhos de cima, e preparava-me para deitar e adormecer com a TSF dos velhos tempos quando um anúncio de tragédia interrompeu a emissão. Tentei contactar os primos com família em Castelo de Paiva, não tinham notícias, as linhas móveis e imóveis não funcionavam, por excesso de tráfego ou excesso de chuva, mais tarde o alívio, todos estavam bem. Bem? Nenhum de nós ficou 'bem' depois daquele dia, um pedaço de nós morreu naquela torrente cor de lama rio abaixo e as amendoeiras nunca mais floriram como antes, o anúncio da Primavera que se aproxima e a esperança na renovação.

Sobre a memória de 4 de Março, um excelente texto de uma amiga recente, autora de um blogue a descobrir:

«amendoeiras em flor


És tu, deus talhado na fronteira da bruma, que te revelas na cidade de granito e respiras o rio revolto de quatro de março próximo em amendoeiras desfeitas e anjos pelas margens? Descubro-te no ciclo da memória auditiva que a ponte deixou sobre as asas inertes aparecidas mais tarde, rebocadas por legiões de muito boa vontade, homens cavaleiros de miragens enquanto as velas e as flores se consumiam e as lágrimas enchiam o rio douro dizem sob outras pontes, ali uma garganta sôfrega a sugar vorazmente o quarto pilar, a quatro de março. Todos te perguntaram porquê, todos. E o teu silêncio espalhou-se pelo rio triste e terrivelmente vazio, uma água pesada de tanta ausência. Espreitas de novo, deus, esperas que te rezem e te façam promessas em sacrifício do corpo que chegou ao mar sem ser doce morrer no mar como diz a canção da bahia mar morto de jorge amado lá e cá. O rio também tem lágrimas de portugal, mas não o soubemos fazer nosso. Por isso, deus, acalma a memória neste dia e alerta o dia seguinte, aquele em que qualquer ponte é de mágoa e de contrição.»


evva

sábado, março 03, 2007

Colheita de 2 de Março


Tenho o vício caro de não conseguir resistir a livrarias, alfarrábios, feiras do livro novo, do livro velho, do livro raro, do livro usado... Ontem, aproveitando a hora de almoço para abastecer a despensa numa grande superfície cá do burgo, mal tinha percorrido uns míseros metros de carro ainda vazio quando paralisei diante de uma pilha que apregoava sem qualquer erro ortográfico "LIVROS EM SALDO'. Lá me pus a demandar o Graal por entre resmas de inanidades e eis que, qual limpa-vias no subway perante o arroz do céu, mal pude conter um grito quando vi as Variações em Sousa do velho Pacheco, edição 2004 da Angelus Novus - Cotovia, por cinco euros.


Aqui fica Canção do Ano 86, Fernando Assis Pacheco na sua melhor auto-ironia:


Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos

quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado

se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa

volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernendo Assis Pacheco
cálido aceno do que morreu
conversarmos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a
cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para
empatar cinco a cinco com os varões todos torcidos

consta que desde então
não fazes mais do que perder

[evva]


P.S.: Curiosamente, também lá estava o segundo livro que conheci da Ilse Losa, Na Quinta das Cerejeiras, requisitado na biblioteca do colégio, mas que nunca conseguiu suplantar a devoção pela Flor Azul, para sempre no patamar dos patamares da minha infância.
Abandonei o recinto em plena euforia e sem mercearia.

sexta-feira, março 02, 2007

Uf! Adiada para as férias da Páscoa...


evva

Este mês demandamos o Santo Graal

(clicar na imagem para aumentar)

evva

Grandes confusões…

















…podia ser o título do programa que a RTP está a promover sobre os portugueses que mais se distinguiram na história do país.

Por coincidência, estava eu ontem a desabafar sobre o quanto nós precisamos de debater e de falar sobre a ditadura e sobre o nosso passado, e eis que hoje dou de caras com este fan-tás-ti-co concurso onde as misses e os misters são apresentados em catálogo e escolhidos a 0,60€ + IVA.

Enfim… não era bem isto que eu tinha em mente. E pelos vistos muitos historiadores concordam (ver o P2 de hoje). Agrada-me porém a liberdade a que o pessoal da publicidade se deu na abordagem do assunto.
Fico no entanto com muita pena que uma estação pública, para comemorar 50 anos, não consiga fazer melhor do que algo parecido com o festival da canção, ou discos pedidos.

Assim sendo, espero sinceramente que os abaixos assinados e todos os movimentos de protesto consigam criar espaço na consciência dos autores desta infeliz ideia, para que nas comemorações dos 75 anos alguém se lembre de fazer algo igualmente irreverente mas não tão saloio.


andré

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Portugal um retrato social…

…é o tema de um documentário em 7 episódios, realizado por uma equipa dirigida pelo sociólogo António Barreto, e que vai passar, a partir de 14 de Março, pelas 21h00, na RTP1 (para mais promenores ver entrevista no P2 de hoje).

A entrevista com António Barreto serve para apontar uma vez mais o dilema que os intelectuais parecem viver em relação ao país que habitam. O choque que sentem com as condições de miséria ainda existentes, algumas não muito longe do local onde vivem. A sua revolta perante um povo que não trata bem os sítios onde vive. O desapontamento com a falta educação e cultura. "Eu não perdoo os meus concidadãos."

Pois… parece que estamos destinados a viver com uma elite que insiste em ver os concidadãos como o povo, os autarcas, os médicos…
… o outro, sempre o outro. Tal qual um objecto de pesquisa ao qual nos mantemos distantes.
Eu compreendo que os intelectuais têm o dever de denunciar o estado de subdesenvolvimento que o país atravessa, mas não entendo como é que eles se afastam quase sempre do problema que descrevem. Como se lhes fosse alheio.

É por causa disso que depois se queixam que ninguém os ouve ou lhes presta atenção. Há historicamente em Portugal, uma enorme falta de solidariedade entre aqueles que têm - educação, dinheiro, poder - e os que não têm. Esta conduta tão enraízada serve também para que os ex-subdesenvolvidos, aqueles que conseguiram subir pela escada social, se vinguem do grupo de onde vieram, para mais facilmente se distinguirem dele.
O conhecimento tantas vezes utilizado para oprimir e não para progredir.

Bem bom era que a RTP disponibilizasse em PODCAST a série. Eu gosto de me olhar ao espelho de vez em quando, mesmo quando não gosto de tudo aquilo que vejo.

andré

domingo, fevereiro 25, 2007

Como ficar bem-disposta logo pela manhã




Ouvir o Ruca dobrado com sotaque 'nortenho'.

Uma delícia!

evva




P.S.: E por falar em televisão pública, já repararam como aquele programa sobre língua portuguesa, 'Cuidado com a Língua', assassina a Tlebs a cada passo? Ele é o 'substantivo colectivo', o 'substantivo comum' e outras designações que tais irradicadas da nova terminologia...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O dia em que o Zeca morreu

No dia em que o Zeca morreu o meu pai passou o tempo todo a chorar aos bocadinhos e a ouvir as canções de sempre na sala de estar. Aquilo era mais do que música para ele, era o sentido de um tempo, uma forma e uma atitude perante a vida. Não foi, nem nunca será, o meu tempo, mas era bonito, muito bonito.

Esta foto explica talvez o porquê de tanta gente ainda hoje "não ir à bola com o Zeca" (ver o P2 de hoje). A sua música, como a do Zé Mário Branco, ou a de outros que seguiram caminhos diferentes, estava intimamente ligada (no caso do segundo ainda continua) a uma ideia muito clara sobre o mundo, tal como estava a do Léo Ferré ou a Bossa Nova. A mim ensinaram-me a não apreciar as pessoas apenas por aquilo que pensam. Admiro tanto o Álvaro Cunhal como Adriano Moreira, embora por razões diferentes.

Espero sinceramente que um dia Portugal faça as pazes com o Zeca. Ele merece.


andré

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Espelho meu, espelho meu…



Se bem me lembro, o sentido do vídeo que deu vida a esta personagem era caracterizar um final possível da evolução humana. Da selva e das cavernas até um banco ou uma cadeira a comer um hamburger. A imagem foi um sucesso e o álbum também.

Contudo, o que mais me fascina nesta imagem é a tranquilidade e a liberdade a que uma pessoa se pode dar. O mesmo acontece com aquelas raparigas que, apesar do peso a mais, não hesitam em usar a camisola da moda com o umbigo à mostra. Não me perguntem se fica bem ou mal, pois isso pouco interessa. Perguntem antes se as pessoas se sentem bem a usar aquilo que querem.

Isto tudo vem a propósito da entrevista de hoje à psicóloga Marlene Nunes Silva, na pág. 6 do Público (podem descarregar o jornal todo à borla), e que aborda as implicações psicológicas da obesidade, sobretudo nas mulheres.

A obesidade é um problema que se alimenta a si mesmo, mas é também uma questão complexa com razões de ordem genética, hormonal e social. E o que mais gosto é ver pessoas obesas a tentar fazer o melhor que sabem e podem com a sua situação. É dificil mas é muito bonito!

andré

sábado, fevereiro 17, 2007

LA CANCIÓN DEL CROUPIER DEL MISSISSIPI

Fifteen men on the dead Man's Chest.
Yahoo! and a bottle of run!
Canción pirata

Fumo mucho. Demasiado.
Fumo para frotar el tiempo y a veces oigo la radio,
y oigo pasar la vida como quien pone la radio.
Fumo mucho. En el cenicero hay
ideas y poemas y voces
de amigos que no tengo. Y tengo
la boca llena de sangre,
y sangre que sale de las grietas de mi cráneo
y toda mi alma sabe a sangre,
sangre fresca no sé si de cerdo o de hombre que soy,
en toda mi alma acuchillada por mujeres y niños
que se mueven ingenuos, torpes, e
nesta vida que ya sé.
Me palpo el pecho de pronto, nervioso,
y no siento un corazón. No hay,
no existe en nadie esa cosa que llaman corazón
sino quizá en el alcohol, en esa
sangre que yo bebo y que es la sangre de Cristo,
la única sangre en este mundo que no existe
que es como el mal programado, o
como fábrica de vida o un sastre
que ha olvidado quién es y sigue viviendo, o
quizá el reloj y las horas pasan.
Me palpo, nervioso, los ojos y los pies y el dedo gordo
de la mano lo meto en el ojo, y estoy sucio
y mi vida oliendo.
Y sueño que he vivido y que me llamo de algún modo
y que este cuento es cierto, este
absurdo que delatan mis ojos,
este delirio en Veracruz, y que este
país es cierto este lugar parecido al Infierno,
que llaman España, he oído
a los muertos que el Infierno
es mejor que esto y se parece más.
Me digo que soy Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
me digo que estar borracho es no estarlo
toda la vida, es
estar borracho de vida y no de muerte,
es una sangre distinta de esa otra
espesa que se cuela por los tejados y por las paredes
y los agujeros de la vida.
Y es que no hay otra comunión
ni otro espasmo que este del vin
oy ningún otro sexo ni mujer
que el vaso de alcohol besándo
me los labios
que este vaso de alcohol que llevo en el
cerebro, en los pies, en la sangre,
que este vaso de vino oscuro o blanco,
de ginebra o de ron o lo que sea- ginebra y cerveza, por ejemplo -
que es como la infancia, y no es
huida, ni evasión, ni sueño
sino la única vida real y todo lo posible
y agarro de nuevo la copa como el cuello de la vida y cuento
a algún ser que es probable que esté
ahí la vida de los dioses
y unos días soy Caín, y otros
un jugador de poker que bebe whisky perfectamente y otros
un cazador de dotes que por otra parte he sido
pero lo mío es como en "Dulce pájaro de juventud"
un cazador de dotes hermoso y alcohólico, y otros días,
un asesino tímido y psicótico, y otros
alguien que ha muerto quién sabe hace cuánto,
en qué ciudad, entre marineros ebrios. Algunos me
recuerdan, dicen
con la copa en la mano, hablando mucho,
hablando para poder existir de que
no hay nada mejor que decir
sea sí mismo una proposición de Wittgenstein mientras sube
la marea del vino en la sangre y el alma.
O bien alguien perdido en las galerías del espejo
buscando a su Novia. Y otras veces
soy Abel que tiene un plan perfecto
para rescatar la vida y restaurar a los hombres
y también a veces lloro por no ser un esclavo
negro en el sur, llorando
entre las plantaciones!
Es tan bella la ruina, tan profunda
sé todos sus colores y es
como una sinfonía la música del acabamiento,
como música que tocan en el más allá,
y ya no tengo sangre en las venas, sino alcohol,
tengo sangre en los ojos de borracho
y el alma invadida de sangre como de una vomitona,
y vomito el alma por las mañanas,
después de pasar toda la noche jurando
frente a una muñeca de goma que existe Dios.
Escribir en España no es llorar, es beber,
es beber la rabia del que no se resigna
a morir en las esquinas, es beber y maldecir, blasfemar contra España
contra este país sin dioses pero con
estatuas de dioses, es
beber en la iglesia con música de órgano
es caerse borracho en los recitales y manchas de vino
tinto y sangre "Le livre des masques" de Rémy de Gourmont
caerse húmedo babeante y tonto y
derrumbarse como un árbol ante los farolillos
de esta verbena cultural.
Escribir en España es tener
hasta el borde en la sangre este alcohol de locura que ya
no justifica nada ni nadie, ninguna sombra
de las que allí había al principio.
Y decir al morir, cuando tenga
ya en la boca y cabeza la baba del suicidio
gritarle a las sombras, a las tantas que hay y fantasmas
en este paraíso para espectros
y también a los ciervos que he visto en el bosque,
y a los pájaros y a los lobos en la calle y
acechando en las esquinas
'Fiften men on the Dead Man's Chest
Fifteen men on the Dead man's Chest
Yahoo! And a bottle of rum!'

Leopoldo María Panero
Last River Together (1980)

[evva]

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Campeonato do Mundo de Hoquei de Sala















Para quem nao sabe, esta e uma variante do Hoquei em Campo jogada em pavilhao num campo com dimensoes similares as do Andebol.
A galeria de fotos do site oficial do evento tem bastantes imagens do jogo.

andre

PS: Agradece-se a compreensao do/a leitor/a para o facto de o teclado austriaco nao ter acentos. Confiamos que a gerencia em Portugal possa corrigir a situacao.

Fin'amors


evva

Ah, a censura, essa gloriosa instituição! II

E já me ia esquecendo desta pérola de 'democracia'. Salazar não faria melhor.

evva

Ah, a censura, essa gloriosa instituição!

Para quem não conhece (ainda?) a personagem, aqui fica um pequeno desabafo de um dos paladinos da esquerda portuguesa.

evva

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Genevra


evva

Begging...


Eu não me esqueci, não senhor... Foi ontem ou anteontem? É que nunca sei... E o 'Tapado' também não ajudou, como é hábito. Por que não celebra em Dezembro, como o Menino Jesus e o resto do mundo? Seria mais fácil...

Até contactei por diversas vezes ontem a Velha Albion, mas sem sucesso. Só então me lembrei do torneio na Áustria...
De qualquer forma, vai sempre a tempo, não?...
Gros bisous!


evva

P.S.: Não esquecer de reportar novas da Sissi.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Hoje apetecia-me



espreitar o que se vislumbra da janela de Vermeer...



evva

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

NÃO!

Hoje é um dos dias mais tristes da minha vida. O que a votação de ontem decidiu (apesar de não vinculativa, há um consenso partidário para que venha a sê-lo e a disciplina de voto imposta pelo secretário-geral do PS não deixa lugar a dúvidas) representa um retrocesso civilizacional grave que fere de morte as minhas convicções profundas. Provavelmente sem retorno. Mas há que continuar a acreditar e a lutar pelas nossas convicções, pelo direito à vida e pela responsabilização dos nossos actos.

evva

P.S.: E que dizer daquela frase que inicia todos os discursos 'parabéns ao povo português pela maturidade democrática que demonstrou com esta votação'? Desde quando uma percentagem de abstenção como esta revela civismo ou maturidade?

Sim

Agradeço a todos os que votaram.
Vamos ver então como é que as coisas correm…


andré

Inverno















andré

sábado, fevereiro 10, 2007

Como é que este sobreviveu à fogueira?

Mulher ensinando Geometria

(Iluminura de uma tradução medieval
dos Elementos de Geometria de Euclides, c. 1300)

evva

(Mais) uma 'renascentista' na Idade Média


Hildegard von Bingen
(16 de Setembro 1098 - 17 de Setembro 1179)

evva

Ah, esses renascentistas 'avant la lettre'

(link só para assinantes)

Assim intitulou ontem o Público um pequeno artigo dedicado à última tradução publicada entre nós de uma obra de... Ramon Lull.

evva

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Não resisto...

«O documento que segue é a transcrição de um editorial da edição clandestina portuguesa do Jornal «Avante!» - Órgão do Partido Comunista (4ª Semana de Novembro de 1937)

Editorial

Resposta da Direcção

PORQUE É PROIBIDO O ABORTO NA URRS?

Damos imediata resposta a esta pergunta, formulada por algumas operárias do Barreiro. O aborto é um acto inteiramente anormal e perigoso, que tem roubado não poucas vidas e tem feito murchar não poucas juventudes. O aborto é um mal terrível. Mas, na sociedade capitalista, o aborto é um mal necessário, inevitável, benfazejo até. Na sociedade capitalista um filho significa, para os trabalhadores, mais uma fonte de privações, de tristezas e de ameaças. Quem tem filhos — diz-se — tem cadilhos. Pode-se imaginar algo mais doloroso que uma família de operários obrigados a sustentar, dos seus miseráveis salários, 5 ou 6 filhos? É a fome, o raquitismo, a tuberculose, a tristeza da vida, vivida em promiscuidade. E que futuro espera essas crianças? Serem uns desgraçados… como dizem as nossas mulheres. Por isso a mulher do [?] capitalista é obrigada a sacrificar o doce sentimento da maternidade , é obrigada a recorrer, tantas vezes com o coração sangrando, ao aborto. Por isso, a proibição do aborto, na sociedade capitalista, é uma hipocrisia e uma brutalidade. Na URSS, a situação é tão diferente como é diferente a noite do dia. Na URSS não há desemprego, não há miséria; há abundância de produtos. Tanto a mulher como o homem recebem salários que satisfazem as necessidades. A mulher grávida tem 4 meses de férias durante o período da gravidez, com os salários pagos. Há maternidades, creches, jardins de infância e escolas por toda a parte. O Governo soviético dá prémios que vão até 5 mil rublos para as mães que tenham mais de 5 filhos, etc. Ser mamã é uma das maiores aspirações das jovens soviéticas. ?E onde há uma esposa que não quisesse ser mamã sabendo que o mundo floria para acolher o seu menino? Sabendo que o seu filho não seria um desgraçado mas um cidadão livre da grande República do Socialismo? A criança, na URSS, deixou de ser um motivo de preocupações, para se tornar numa fonte luminosa de alegria e de felicidade. O aborto perdeu portanto a sua única justificação; tornou-se desnecessário. Por isso, o Governo Soviético resolveu propor ao povo trabalhador, a abolição da liberdade de praticar o aborto — liberdade essa concedida a título provisório, nos primeiros tempos da República Soviética quando esta gemia sob o peso da fome e da peste, ocasionadas pela guerra e pela contra revolução capitalista. Depois de discutirem amplamente a lei proposta pelo Governo Soviético, as mulheres e todo o povo trabalhador aprovaram essa lei que correspondia inteiramente às condições de existência livre e feliz que gozam os que trabalham na grande Pátria do Socialismo triunfante

(via nortadas)

[evva
Ooops! Hoje é dia de reflexão... Como é que se altera a data e a hora desta coisa? Ah, é já ali em 'opções de postagem'. O que eles se lembram de inventar. Aqui vai]

Dia 6 de Março, lá vou eu, ai, ai, ai...


evva

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Eu, conservadora libertina, me confesso

«Mil vezes um conservador libertino
do que um liberal com a mania de que tem de conservar-se.»

(Lido e aplaudido aqui)

evva

Entretanto, há 5.000 anos atrás...

(foto de ENRICO PAJELLO/REUTERS)


[Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

Soares de Passos (1826-1860)]


evva

terça-feira, fevereiro 06, 2007

sábado, fevereiro 03, 2007

Novas da China


Sexta-feira, 2
À saída de Shanghai para Macau, e já a bordo do avião, o primeiro-ministro procurou os jornalistas para lhes dar um ralhete paternalista. Depois de dois dias sem comentar a crise desencadeada pelas declarações do seu ministro da Economia, Manuel Pinho, José Sócrates sentiu-se incomodado por ter sido interpelado pelos profissionais da comunicação à saída de um evento e, a seguir, foi manifestar-lhes o seu desagrado. Disse que só fala quando as coisas são previamente combinadas «como em qualquer país civilizado», e falou no mau aspecto que não quer dar num país estrangeiro. Afirmou ainda desconhecer que os jornalistas tentavam, há dois dias, obter declarações suas sobre o caso Pinho. É, no mínimo, estranho que os seus assessores não lho tenham dito.
O enguiço desta viagem à China começou logo na primeira iniciativa, terça-feira, 30, em Pequim, com as declarações de Manuel Pinho, que quis «vender» Portugal como um país de mão-de-obra barata aos investidores chineses. No dia seguinte, reafirmava a sua posição e comentava as reacções suscitadas em Lisboa, afirmando que os sindicatos são «forças de atraso».
O chefe do Governo e os seus acólitos não têm gostado da forma como a comunicação social tem feito a cobertura desta viagem de negócios. Os jornalistas têm sido, umas vezes aberta, outras veladamente, acusados de estarem a estragar esta viagem e de só noticiarem assuntos menores – como a defesa dos salários baixos e os ataques, por parte de um membro de um governo socialista, aos sindicatos, ou a tentar obter declarações sobre Direitos Humanos na China – e de não darem a devida atenção aos muitos contratos e memorandos de entendimento celebrados entre empresas portuguesas e chinesas. A jornalista da rádio pública chegou mesmo a ser acusada, por um assessor, de estar a fazer o jogo do PSD. Houve várias pessoas a ouvi-lo. Terá sido apenas uma brincadeira?
Que se saiba, em qualquer país civilizado, quem define o que tem ou não interesse editorial – o que é notícia – é o jornalista no terreno e a sua direcção editorial, não o gabinete do chefe do Governo. Costuma ser assim em democracia. Se a bem sucedida viagem de negócios ao Oriente se tornou, internamente, um fracasso mediático, a culpa não deve ser atribuída aos jornalistas, mas às declarações do ministro da Economia. Não é por terem aceite boleia num avião fretado pelo Governo que este deve presumir poder usar os jornalistas como instrumentos de propaganda das suas iniciativas. Roubando uma expressão ao socialista João Cravinho, gostaria de concluir dizendo que jornalistas domesticáveis pertencem à classe dos animais domésticos.

Francisco Galope»

evva

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

FEVEREIRO

O meu Fevereiro amanheceu hoje muito diferente deste. Está um lindo dia de sol. Brindemos aos dias azuis e noites estreladas.

Les Très Riches Heures du Duc de Berry
(Iluminuras de Paul, Hermann e Jean Limbourg)

evva

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Não adormeças

Não adormeças: o vento ainda no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à mingua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

A casa e os cheiros dos Livros
1ª Ed. Lisboa, Quetzal Editores, 1996

[evva]

segunda-feira, janeiro 29, 2007

domingo, janeiro 28, 2007

Depois de um filme destes

em que a violência crua e dura é quase porno-decorativa (já há muito que não me apetecia sair de um filme ao fim de cinco minutos), só me apetece regressar a Leopoldo María Panero. Ainda não é desta que termino El desencanto, o documentário de Jaime Chávarri sobre a família Panero ('valores mais altos se alevantam'), mas depois de Rambo Di Caprio e de tanta crueldade banalizada...

EL NOI DEL SUCRE

Tengo un idiota dentro de mí, que llora,
que llora y que no sabe, y mira
sólo la luz, la luz que no sabe.
Tengo al niño, al niño bobo, como parado
en Dios, en un dios que no sabe
sino amar y llorar, llorar por las noches
por los niños, por los niños de falo
dulce, y suave de tocar, como la noche.
Tengo a un idiota de pie sobre una plaza
mirando y dejándose mirar, dejándose
violar por el alud de las miradas de otros, y
llorando, llorando frágilmente por la luz.
Tengo a un niño solo entre muchos, as
a beaten dog beneath the hail, bajo la lluvia, bajo
el terror de la lluvia que llora, y llora,
hoy por todos, mientras
el sol se oculta para dejar matar, y viene
a la noche de todos el niño asesino
a llorar de no se sabe por qué, de no saber hacerlo
de no saber sino tan sólo ahora
por qué y cómo matar, bajo la lluvia entera,
con el rostro perdido y el cabello demente
hambrientos, llenos de sed, de ganas
de aire, de soplar globos como antes era, fue
la vida un día antes
de que allí en la alcoba de
los padres perdiéramos la luz.

Last night together (1980)

evva

sábado, janeiro 27, 2007

NÃO

O que se pretende com este referendo não é despenalizar as mulheres que se submetem a uma prática que visa eliminar uma vida que cresce dentro de si, o que, aliás, e correndo o risco de ser atirada à fogueira, deveria ser sempre um crime severamente punido por lei, excepto nos casos previstos pela actual legislação. Dizia eu, e com toda a convicção, o que se espera do resultado da votação de 11 de Fevereiro próximo é liberalizar uma prática que a maioria dos apoiantes do Sim concorda em condenar, como se pode ler num post ali abaixo: «Somos Todos contra o Aborto».

Uma gravidez não é um castigo pelo mau funcionamento de uma metodologia anticoncepcional e, se duma relação sexual, por prazer ou outras vontades, resultar esse milagre que é a vida, que se assuma, então, a responsabilidade de zelar pela gravidez até ao parto. Se conduzo o meu bólide a alta velocidade, pelo puro prazer que ela me dá, e provocar um acidente com a morte de terceiros, devo ou não ser condenada por isso? Ou teremos chegado a um momento civilizacional de puro egoísmo e desresponsabilização?

Como tal, também não me parece que uma gravidez indesejada obrigue forçosamente um pai, uma mãe, ambos, ou cada um por si, a cuidar uma criança. Por que não entregar o bebé para adopção, se tantos casais o desejam e aguardam? O sistema de adopção funciona mal? Então que se invista na sua melhoria, se crie condições às mulheres, adolescentes ou não, para poderem desenvolver sem prejuízo a sua gravidez indesejada e, após o parto, que o recém-nascido seja entregue a quem o deseja, tem vocação e condições para lhe dar uma educação condigna e o afecto que merece. Repito, se este sistema não funciona, é uma total irresponsabilidade e um crime liberalizar a interrupção voluntária da gravidez, inclusive à custa do erário público e do meu trabalho mensalmente tributado. Se pensarmos bem, e ninguém o pode negar, até poderia ser um bom investimento em termos futuros, num país de tão baixa e tão cara taxa de natalidade.

Acredito que a despenalização da IVG, ou liberalização, redundará no aumento da prática abortiva e na bandeira “Não se preocupem em investir em métodos anticoncepcionais, se um momento de prazer resultar numa gravidez indesejada, sempre podem ir ali ao hospital mais próximo e resolver o assunto». Por isso, convictamente e tal como há oito anos atrás, votarei NÃO.

evva

sexta-feira, janeiro 26, 2007

«FINAL

Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo até chegar às tuas mãos, leitor, para aí, como um deserto a abrir noutro deserto, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e o negro das palavras (...) pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá-Carneiro, a saudade se trava. Como um desses objectos cujo peso, assim que neles pegamos, instantaneamente se divide entre as nossas mãos e a alma, é mesmo de crer que ele esteja já dentro de ti - e algo de mim com ele. Acolhe-o, pois, com benevolência, que, chegada a altura, havemos de arder juntos.»

Luís Miguel Nava
Vulcão (2ª edição, 1995)



evva

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O tempo faz e desfaz III

(1933 - 2007)


A morte deste homem, co-autor de um dos livros mais lidos, relidos e anotados cá em casa,



deveria ser motivo de três dias de luto nacional.

evva

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ah… o Aborto outra vez

A TSF está a realizar diáriamente, a seguir às noticias das 20h, um debate sobre este assunto, mas não sei por quanto tempo.

andré

terça-feira, janeiro 23, 2007

Aos amigos que ficam

O espaço à minha volta é largo, vasto, talvez até mesmo infinito.
Por isso me pergunto sempre porque procuro as mesmas coisas, os mesmos lugares, as mesmas pessoas.
Gosto daquilo que permanece.
Talvez porque também gosto que haja sempre, à minha volta, espaço livre, sem nada.

andré

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Ah… o Aborto

Se tem havido aspecto que me tem agradado nesta campanha do referendo do Aborto, é que as pessoas que defendem o Sim parecem ter abandonado a tradicional atitude de superioridade moral, em prol da acção civica e assim tentar fazer aquilo que os partidários do Não sempre souberam fazer bem: convencer as pessoas a votar na opção que defendem.

Daí que me dá especial prazer escrever este post em reposta à intervenção anterior que, para não variar, insiste em abordar a questão do Aborto de forma panfletária e sensacionalista. Enfim… uma autêntica blasfémia…

Para que não haja dúvidas: Somos Todos contra o Aborto!
Não estamos a defender o direito de matar mas sim o direito de escolher a forma como vivemos. Sim, vivemos. A mãe, o pai, os irmãos e irmãs que já cá estão, e o resto da família.
Só argumenta com a desresponsabilização dos futuros/eventuais pais quem não quer pensar que a venda de preservativos e restantes anticoncepcionais é hoje uma realidade avassaladora, e que precisamente por isso, as pessoas não devem ser castigadas quando eles não funcionam.
Então, afinal em que ficamos? Podemos ou não ter relações sexuais só por prazer? E se a maioria concorda que sim, então porque é que obrigamos as pessoas a criar uma criança se essa não era a sua intenção? Afinal a maternidade e a paternidade são ou não actos de amor consentido e almejado?

Para que continue a não haver dúvidas: Somos Todos a favor dos pais e das mães, da familia com ou sem filhos!
Tal como uma familia que quer mas não consegue ter filhos, triste é aquela que os tem mas não os quis.
A responsabilidade das pessoas é a mesma, quer quando decidem ter como quando decidem não ter filhos. O nosso dever é apoiar a sua educação e garantir que, quando elas não a têm, possam passar a tê-la. A autonomia, e não o individualismo, é o que se procura.
O objectivo é que todos possam pensar pela sua cabeça e formular o seu juízo, sabendo à partida em que é que acreditam.

E se ainda houver dúvidas: Somos pelos pequeninos, pelos bebés, pelos fetos, e pelos embriões.
Creio que quase nenhum de nós fica indiferente à felicidade de uma nova vida, de um novo filho, de uma nova sobrinha, ou de uma neta. Só mesmo quem tem muito medo das pessoas é que pode pensar que alguém que decide abortar não sente amor ou respeito pelo próximo. O facto de haver pessoas que o fazem de forma irresponsável não quer dizer que todos o façam.

A todos que defendem a mesma posição que eu, por favor, escrevam, discutam, convençam. Não pensem que as pessoas vão acreditar em nós porque nos acham mais espertos ou inteligentes. Elas só vão acreditar em nós quando conseguirmos fazer com que os nossos argumentos sejam os mais vistos, os mais discutidos, os mais propagados. E aí, vão pensar neles e, se tudo correr bem (como vai correr), vão votar Sim.


Quanto à amiga Romena, eu também tenho amigas. Alemãs, espanholas, belgas, inglesas, gregas e chinesas.
E todas elas pasmam quando eu lhes digo que no meu país o Aborto é um crime. Sim, Crime!
Esse é o problema.


andré

O tempo faz e desfaz II

Já há alguns dias se previa o inevitável. Valerá a pena continuar a gastar milhares de euros de areia a tentar lutar contra a força das ondas e a adiar por mais alguns micro-segundos de tempo cósmico o avanço inexorável do mar?
Li algures, e corrijam-me se me equivoco, que a autarquia da Nazaré, em colaboração com a Universidade de Aveiro, pensa plantar nas dunas uma série de espécies há muito desaparecidas, a fim de evitar a sua erosão. É uma solução que se aplaude, mas que já não iria a tempo de salvar a praia da Caparica, creio, caso se ali aplicasse a mesma medida. Por que não, então, deixar avançar as ondas e, uns bons metros atrás, investir na fixação do terreno dunar através de uma cuidada e bem planeada medida de reflorestação? Nem que fosse preciso 'deslocalizar' o parque de campismo e todas as construções vizinhas da praia. A destruição dos bares da praia foi apenas um primeiro aviso. Depois não se venham queixar...

evva

domingo, janeiro 21, 2007

O tempo faz e desfaz

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

[evva]

EIS A GRANDE QUESTÃO

Pelo Blasfemo JoãoMiranda:

A desresponsabilização da mãe/pai por uma gravidez decorrente de relações sexuais voluntárias é frequentemente justificada pela falibilidade dos métodos anticocepcionais. O que mostra duas coisas. Por um lado mostra o estado em que se encontra a responsabilidade individual. As pessoas não são responsáveis pelos seus actos nem têm que assumir os riscos das opções que tomam. A responsabilidade pelos riscos recai no anticoncepcional que falhou. Por outro lado, mostra que o aborto é visto por muitos dos defensores da despenalização como um sistema anticoncepcional complementar que visa colmatar as falhas dos sistemas anticoncepcionais comuns.

JoaoMiranda»


Uma amiga romena, com quem tenho tido o prazer de trabalhar nos últimos anos, ao ter conhecimento deste referendo extravagante, exclamou: «É um grande erro. Na Roménia, desde que foi aprovada a despenalização, há mulheres que chegam a fazer três abortos por ano».


evva

sábado, janeiro 20, 2007

ARS MAGNA








Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.


Leopoldo Maria Panero

Poesía 1970 - 1985

[evva]

domingo, janeiro 14, 2007

Um Domingo a caminho da perfeição


seria dedicá-lo por inteiro a perscrutar o labor destes senhores no silêncio dos tempos. A ver vamos. Já tinha saudades de um Domingo assim.


evva

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Que farei, velidas?


Ai cervas do monte, vin vos preguntar:
foi-s' o meu amig' e, se alá tardar,
que farei, velidas?

Ai cervas do monte, vin vo-lo dizer:
foi-s' o meu amig' e querria saber
que farei, velidas.

Pero Meogo

[evva]

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Aos amigos que partem


Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego,
filho Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

Ricardo Reis

[evva]

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Semana Passada

Depois de se ter transformado na RFM com notícias, é bom saber que a TSF ainda mantém vivo o desejo original de criar momentos de beleza e requinte onde a palavra, bem tratada, se junta à manta de possibilidades sonoras que a rádio tem desde há muito mas que poucos, infelizmente, exploram.
É assim a Semana Passada, de Fernando Alves e Alexandrina Guerreiro, que passa aos sábados pelas 12h30, ou num dia qualquer, através do PODCAST.
Das tradições mais remotas do nosso país aos grandes problemas do nosso planeta, tudo cabe em cerca de 45 minutos de rádio, bem falada e ouvida.

É bom saber que ainda há coisas assim.

andré

domingo, dezembro 31, 2006

Ode


Não queiras Lídia, edificar no spaço
Que figuras futuro, ou prometer-te
Amanhã. Cumpre-te hoje, não sperando.
Tu mesma és tua vida.
Não te destines, que não és futura.
Quem sabe se, entre a taça que esvazias,
E ela de novo enchida, não te a sorte
Interpõe o abismo?

Ricardo Reis

Odes de Ricardo Reis,
(Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa, Editorial Nova Ática, p.160),
publicada pela primeira vez no número 1 da Atena, em Outubro de 1924.

[evva]

sábado, dezembro 30, 2006

domingo, dezembro 24, 2006

Natividade

Iluminura de Jean Bourdichon (1457?-1521),
de Les Grandes Heures, d'Anne de Bretagne
Paris BnF Lat. 9474, f. 51v.
evva

sábado, dezembro 23, 2006

Hoje deram-me esta prenda de Natal

Creio nos anjos que andam pelo mundo
Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


andré

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Amar os livros

La Cité des dames
Christine de Pisan
(detalhe do f. 3v,
Genève BPU Fr. 180)
evva

quarta-feira, dezembro 13, 2006



















Mais violência
Menos acção
A mesma sedução

É quase um bom filme.
Mas é o melhor Bond que eu já vi.

andré

terça-feira, dezembro 12, 2006

Cinco lições

Eu sei que os posts dos blogs devem ser curtos, mas eu peço a todos os futuros leitores para abrirem uma excepção a este caso e gastarem um pouco de tempo a ler este texto até ao fim. Obrigado.

Há quase 50 anos, quando cheguei ao Minnesotta, como um estudante recém-desembarcado de África, tinha muito que aprender, a começar pelo facto de não haver nada de esquisito em usar protectores de orelhas, quando a temperatura descia para 15 graus negativos. Desde então, toda a minha vida foi consagrada a aprender. Agora, gostaria de transmitir as cinco lições que aprendi durante dez anos, como secretário-geral da ONU - lições que, na minha opinião, a comunidade das nações também precisa de aprender, no momento em que tem de enfrentar os desafios do século XXI.
A primeira lição é que, no mundo de hoje, todos somos responsáveis pela nossa segurança recíproca. Perante ameaças como a proliferação nuclear, as alterações climáticas, as pandemias mundiais ou os grupos terroristas que operam a partir de refúgios seguros em Estados falhados, nenhuma nação pode garantir a sua própria segurança afirmando a sua supremacia sobre todas as outras. Só trabalhando em prol da segurança de todos podemos esperar garantir uma segurança duradoura para nós próprios.
Essa responsabilidade inclui a responsabilidade partilhada de proteger as pessoas do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade. Uma responsabilidade que foi aceite por todas as nações, na cimeira da ONU do ano passado. Mas, quando vemos os assassínios, as violações e a fome que são infligidos ao povo do Darfur, compreendemos que essas doutrinas não passam de mera retórica, enquanto aqueles que têm poder para intervir eficazmente - exercendo pressão política, económica ou, em último recurso, militar - não estiverem dispostos a dar o exemplo. Também têm uma responsabilidade para com as gerações futuras - a de conservar recursos que lhes pertencem tanto como a nós. Cada dia em que nada fazemos ou não fazemos o suficiente para prevenir as alterações climáticas tem custos elevados para os nossos filhos.
A segunda lição é que somos responsáveis pelo bem-estar de todos. Sem solidariedade, nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente estável. Não é realista pensar que uns quantos podem continuar a retirar grandes benefícios da globalização, enquanto milhares de milhões de outros permanecem ou são atirados para uma pobreza abjecta. Devemos dar a todos os nossos semelhantes pelo menos a possibilidade de partilharem a nossa prosperidade.
A terceira lição é que a segurança e a prosperidade dependem do respeito pelos direitos humanos e o Estado de direito.
Ao longo da história, a diversidade enriqueceu a vida humana e as diferentes comunidades aprenderam umas com as outras. Mas, se quisermos que as nossas comunidades vivam em paz, devemos salientar também o que nos une: a nossa humanidade comum e a necessidade de a nossa dignidade humana e direitos serem protegidos pela lei.
Isso também é vital para o desenvolvimento. Tanto os estrangeiros como os cidadãos de um país tendem a investir mais, quando os seus direitos fundamentais são protegidos e quando sabem que serão tratados equitativamente pela lei. E as políticas que favorecem verdadeiramente o desenvolvimento têm mais hipóteses de ser adoptadas, se as pessoas que mais necessitam do desenvolvimento puderem fazer ouvir as suas vozes.
Os Estados precisam também de cumprir as regras que regem as relações entre eles. Nenhuma comunidade, em parte alguma do mundo, sofre de excesso de Estado de direito, mas muitas sofrem de falta dele - e isto aplica-se também à comunidade internacional. É uma situação que devemos mudar.
A minha quarta lição é, pois, que os governos devem ser responsabilizados pelos seus actos, tanto na cena internacional como na nacional. Todos os Estados devem prestar contas àqueles que são afectados, de uma maneira decisiva, pelas suas acções. Na situação actual, é fácil obrigar os Estados pobres e fracos a prestar contas, pois precisam de ajuda externa. Mas só o povo dos Estados grandes e poderosos, cuja acção tem maior impacto sobre os outros, pode obrigá-los a fazê-lo. Isto confere ao povo e instituições dos Estados poderosos uma responsabilidade especial por ter em conta as opiniões e interesses mundiais. E hoje têm de tomar em consideração os actores não estatais. Os Estados já não podem - se é que alguma vez puderam - enfrentar sozinhos os desafios mundiais. Cada vez mais, precisam da ajuda de uma miríade de associações em que as pessoas se juntam voluntariamente, para benefício próprio ou para reflectir em conjunto sobre a situação do mundo e para o mudar.
Como é que os Estados se podem responsabilizar uns perante os outros? Só por intermédio de instituições multilaterais. Assim, a minha quinta e última lição é que estas instituições devem ser organizadas de uma maneira justa e democrática, permitindo que os pobres e os fracos tenham alguma influência sobre a acção dos ricos e dos fortes.
Os países em desenvolvimento deveriam ter mais influência nas instituições financeiras internacionais, cujas decisões podem significar a vida ou a morte para os seus cidadãos. E haveria que incluir novos membros permanentes ou a longo prazo no Conselho de Segurança, cuja composição reflecte a realidade de 1945 e não a do mundo actual. E, o que não é menos importante, os membros do Conselho de Segurança devem aceitar a responsabilidade que acompanha o privilégio de o integrarem. O Conselho não é um palco para expressar interesses nacionais. É o comité de gestão do nosso frágil sistema de segurança mundial.
Mais do que nunca, a humanidade precisa de um sistema mundial que funcione. E a experiência tem demonstrado, repetidamente, que o sistema é pouco eficaz, quando os Estados-membros estão divididos e carecem de liderança, mas funciona muito melhor, quando há unidade, uma liderança clarividente e a participação de todos os actores. Sobre os dirigentes do mundo, os de hoje e os de amanhã, recai uma grande responsabilidade. Compete aos povos do planeta assegurar que se mostrem à altura dessa responsabilidade.

Kofi A. Annan
Secretário-geral das Nações Unidas
in Publico, 12 DEZ 2006


andré

terça-feira, dezembro 05, 2006

Grande gente assuada em Camaalot

Lancelot e Galaaz
(Iluminura do Manuscrito BN fr 116 f. 667)


Nas últimas semanas, têm aqui chegado através de motores de busca portugueses e espanhóis (sobretudo da Catalunha), várias pesquisas intituladas Vespera de Pinticoste foi grande gente assuada em Camaalot..., assim mesmo, ipsis verbis, tal como se encontra no manuscrito 2954 da Biblioteca Nacional de Viena.
Caros visitantes, sejam bem-vindos. Neste blog reunem-se verdadeiros entusiastas dos textos arturianos em prosa. Se quiserem conversar sobre os cavaleiros da Távola Redonda, dissertar sobre os amores de Lancelot e a rainha Genevra, ou de Tristão e Iseu, o lugar de Boorz de Gaunes na linhagem do rei Ban, a sabedoria do rei Bandemaguz, os percursos de Galaaz, Galvão, Perceval e demais cavaleiros, partilhar leituras, convicções, loci critici... chegaram definitivamente a Corberic e têm à disposição a caixa de comentários ou o endereço electrónico indicado no perfil. Podem ter a certeza que, deste lado, haverá sempre alguém interessado em responder.

evva

domingo, dezembro 03, 2006

Inesperadamente...

Your Inner European is Italian!
Passionate and colorful.
You show the world what culture really is.


Será que foi por ter escolhido o Ferrari? Quem adora conduzir... Ou preferir vinho e ópera a cafés submersos em fumo que nos arranham a garganta e estragam a cútis? But, anyway, I'll always have Paris.


evva

P.S.: Daqui.

Para ler, reler e meditar

Francisco José Viegas, no Origem das Espécies:

«Assim é fácil.

O mail do leitor Luís Varela coloca um problema sobre a língua, a correcção gramatical e a incorporação de novas expressões e léxico. Seria bom que se reflectisse sobre o assunto. Estará certo incorporar expressões como «tu dissestes» ou «tu fizestes» apenas porque elas são escutadas e popularizadas? Nos anos oitenta as faculdades retomaram a «linguística da oralidade» contra a «escrita», o que desvalorizou a ideia de «norma» e a abriu ao «linguajar registado»; ou seja, se se registam expressões como essas, o que nos permite dizer que estão erradas? É uma democracia da barbaridade, mas é necessário discutir o assunto. Outro caso é a expressão «bué», por exemplo, incluída no Dicionário da Academia. Trata-se de um modismo que, aliás, caiu em desuso actualmente; mas a vontade de ser «moderninho» e «actualizado» levou à sua inclusão no Dicionário da Academia. O problema é que um dia destes haverá, nos dicionários, entradas que apenas foram popularizadas pelo Gato Fedorento, que as ridiculariza, ou pela Ana Malhoa, que as utiliza com grande alegria. Assim é fácil.»

É um assunto que há muito me preocupa. Concordo que certos vocábulos do registo calão ou gíria integrem os dicionários (como seria mais fácil ler e entender o passado se os dicionários antigos os integrassem... Relembro a este propósito a polémica em torno do verdadeiro significado da expressão 'une saison en enfer', de Rimbaud). Mas aceitar como norma línguística certas expressões só porque os falantes as utilizam quotidianamente encerra o perigo de demoronamento da língua, pela relativização das regras que a estruturam. Numa escola onde leccionei, uma colega com responsabilidades na biblioteca dizia sempre 'parteleira' por 'prateleira'. À luz dos pressupostas da nova 'Gramática da Língua Portuguesa' este registo até poderia ser aceite.

evva

Estados de espírito

Il pleure dans mon coeur



Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi! nulle trahison?...
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!

Paul Verlaine (1844-1896)

[evva]

sexta-feira, dezembro 01, 2006

A quem surpreendeu esta notícia?


Terão os clubes de futebol profissional coragem para acabar de vez com as claques organizadas e por si subsidiadas? Alguém duvida da marginalidade que grassa nestes grupos? Quando ouço a linguagem insultuosa com que enfeitam os jogos a que assistem pergunto-me por que é que ainda me dou ao trabalho de gostar de futebol.

evva

segunda-feira, novembro 27, 2006

You Are Welcome To Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos
tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo, e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida, há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens,
palavras que guardam o seu segredo, e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais, só sombra só soluço
só espasmo só amor, só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny (1923-2006)


andré

domingo, novembro 26, 2006

ATÉ QUE ENFIM



Confesso que não me lembro... Talvez no berço... Mas a partir de hoje estarei muitas vezes neste 31. Vejam e revejam aos imprescindíveis 3G dos Darth Vaders da blogosfera portuguesa.

evva

sábado, novembro 25, 2006

Já tem quase uma semana, mas não quero deixar passar. Se não fosse verdade, poderíamos até rir. Vasco Graça Moura, no DN de 22/11:

Num site do Ministério da Educação (http/www.dgidc.minedu.pt/ TLEBS/CDMateriaisDidacticos/ trabalhos/90_Lusiadas _3C.ppt), pode encontrar-se a TLEBS [Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário] aplicada à análise de uma estrofe de Os Lusíadas (II, 12), destinada aos alunos do 9.º ano e qualificada como "corpo linguístico ambíguo". O facto de o ministério ter acolhido o trabalho feito numa escola básica na sua página da rede fala por si.

A estrofe é esta: Aqui os dous companheiros conduzidos / Onde com este engano Baco estava, / Põem em terra os giolhos, e os sentidos / Naquele Deus que o mundo governava. / Os cheiros excelentes, produzidos / Na Pancaia odorífera, queimava / O Tioneu, e assim por derradeiro / O falso Deus adora o verdadeiro. Depara-se-nos logo o fac-símile de duas páginas do Canto II da edição de 1572, com o terrível azar de não figurar aí a estrofe em questão... São reproduzidas as n.ºs 63 a 68, não se percebe porquê.

A análise tem coisas extraordinárias. Alguns exemplos:
1. Afirma-se que "o nome próprio Deus nos surge em três posições ambíguas. A primeira é naquele Deus que..., "pressupondo a existência de outros, o que o torna comum e lhe retira o carácter de entidade única". Acontece que o nome Deus surge apenas em duas posições. E se, na terceira, está implícito, não está como nome. Em vez dele está o pronome "o" [verdadeiro]. A expressão "naquele Deus" não o dessingulariza. Não pressupõe, antes exclui a existência de outros. Basta ler. É um mero expediente enfático e métrico. Não há qualquer ambiguidade. Deus não é contraposto a outros deuses em termos equívocos. Quando muito, ambíguo seria o verbo no imperfeito do indicativo ("governava", em vez de "governa"), por razões de rima, e isto é que devia ser explicado...

Diz-se também que a segunda e terceira posições da dita ambiguidade do nome próprio Deus estariam em "falso Deus" e "verdadeiro [Deus]". Volta a não haver ambiguidade: um é falso e o outro é verdadeiro... Aliás, se ambiguidade houvesse, haveria que explicar, em termos empsonianos, que a incerteza ou sobreposição de sentidos funcionaria como recurso de intensificação do efeito poético e da ironia.

2. Pancaia é o nome de uma ilha utópica no Oceano Índico, imaginada por Evémero de Messina (séc. III a. C.). Havia nela árvores de incenso e outras essências vegetais próprias para rituais religiosos. Daí, "os cheiros excelentes, produzidos na Pancaia odorífera" e queimados por Baco. Mas lemos: "o nome próprio Pancaia assume também valor de nome comum devido à presença do determinante demonstrativo '...aquela', constituindo assim uma perífrase de 'Ilha'". Isto continua a ser puro dislate. Mas o mais bizarro é que o tal determinante demonstrativo "aquela" com tão mágicas e sofisticadas propriedades, NÃO SE ENCONTRA na estrofe analisada!!! É forjado para fins da análise e isto é verdadeiramente grave... E mais grave ainda é o ministério avalizar esta enormidade!

3. Mas há outras coisas pungentes. Noções reaccionárias como sujeito, predicado, complemento directo, complementos circunstanciais, dão lugar a embrulhadas rebarbativas que, do ponto de vista da aprendizagem dos jovens, não adiantam absolutamente nada. Basta ver como os complementos "...em terra" e "... os giolhos" são descritos. Para o primeiro, temos: "núcleo de um complemento preposicional em posição pós-verbal, constituindo uma unidade sintáctica que serve de locativo à forma verbal põem" e, para o segundo: "núcleo de um grupo nominal que constitui o complemento directo da expressão predicativa anterior". Por sua vez, "... e os sentidos naquele Deus que..." é explicado como "núcleo de um grupo nominal equivalente ao anterior, regido pela conjunção copulativa e que o transforma em complemento directo da expressão predicativa formada pela forma verbal põem".

4. "... produzidos na Pancaia odorífera..." é apresentado como "núcleo de um complemento preposicional seleccionado pela forma verbal 'produzidos' como argumento indispensável". O que é que um aluno vai compreender quanto ao argumento indispensável? De resto, pôr os joelhos em terra e produzir na Pancaia é assim tão diferente? Na Pancaia já não serve de locativo à forma verbal produzidos?

5. "... os cheiros excelentes" acarretam o odor evanescente de um "núcleo de um grupo nominal com função de complemento directo e um Modificador adjectival, em posição de atributo"...

6. "... com este engano Baco estava..." explica-se como "verbo copulativo aqui a assumir um valor absoluto ao dispensar o nome predicativo do sujeito - predicado de uma unidade de hierarquização também secundária". Como é que os alunos vão entender que, muito simplesmente, aquele "Baco estava" quer dizer "Baco encontrava-se ali"?

7. "... e assim por derradeiro, o falso Deus adora o verdadeiro" dá lugar a esta trapalhada: "Predicado da frase que constitui uma oração coordenada copulativa/conclusiva (ligada à anterior pela locução conjuncional e o conector de valor conclusivo assim)". Parece que toda a frase é o "predicado da frase"

E o que será pegar em todos os dicionários e onde, na entrada "assim", vem indicado advérbio, alterá-los para se incluir "conector de valor conclusivo"?

8. "Por derradeiro" implica a seguinte explicação deveras transparente: "complemento preposicional aparentemente modificador do sujeito 'falso Deus' no que constituiria uma oração subordinada causal. Na verdade, no contexto, a expressão indica 'Por fim; finalmente' e reforça o valor conclusivo dos elementos anteriores". Quer dizer: formula-se uma hipótese desnecessária, antes de se dar a informação correcta...

Disto se vê como até os professores se enredam nas suas próprias confusões. Escapa à minha obtusidade como é que miúdos de 14 ou 15 anos, ainda por cima mal preparados, vão perceber tudo isto e muito mais nos 45 minutos que são expressamente indicados para a análise em questão. Não lhes chegará todo um ano lectivo à roda desta oitava camoniana! Com a TLEBS, descobriu-se a maneira de reduzir o estudo de Os Lusíadas no 9.º ano a uma só estrofe das 1102 do poema. Coitado do Tioneu!

O ódio à Literatura atinge o seu paroxismo nestes modelos de autópsia. Acuso deste crime o Ministério de Educação.»

evva

PARIS JE T'AIME


F-A-B-U-L-O-S-O


É para já o meu fime do ano. Aqui deixo uma imagem de 'Quais de Seine', uma das 18 deliciosas histórias de 5 minutos de encontros e desencontros na cidade das mil luzes e outras tantas culturas e nacionalidades. O comentário alargado fica para mais tarde.



evva

P.S.: Se não passar por aí, don't worry, pretendo revê-lo uma, duas, três, cinco, dez vezes. A bientôt.