domingo, junho 10, 2007

Portugal, remorso de todos nós

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill. Poesias Completas (1951/1986), INCM.

[evva]





evva

sábado, junho 09, 2007

Song to the moon



Esqueçam o vídeo. Ouçam a voz.

evva

Domingo, 10 de Junho: Há quem lhe chame a 'diva pop'. De facto, o vídeo chiclete-deita-fora-sem-demora faz pensar o pior, mas, excentricidades à parte, esta é a melhor interpretação da ária da Rusalka, de Dvorak, que ouvi desde a Lúcia Popp, que é quem a interpreta na gravação que tenho cá em casa e que também podem ouvir aqui.


Rusalka foi a penúltima das óperas compostas por Dvorak. O enredo tem como protagonista uma ninfa das águas que se apaixona por um príncipe humano e que pede a uma feiticeira uma poção que lhe permita tornar-se humana e poder amá-lo. Em troca, deverá permanecer muda e o príncipe sempre fiel. A quebra de qualquer uma destas condições poderá provocar a morte de ambos.


Após consultar o pai sobre o desejo de se tornar humana e desposar o príncipe, a ninfa dirige-se à lua:

Mesiku na nebi hluboken
Ó, lua, bem alta no profundo céu,
Svetlo tvé daleko vidi,
A tua luz avista regiões distantes,
Po svete bloudis sirokém,
Viajas através do vasto,
Divas se v pribytky lidi.
vasto mundo, perscrutando os lares.
Mesicku, postuj chvili
Ah, lua, queda-te por momentos,
Reckni mi, rekni,
Diz-me, ah, diz-me
kde je muj mily
Onde está o meu amado!
Rekni mu, stribmy mesicku,
Diz-lhe, por favor, lua de prata no céu,
Me ze jej objima rame,
Que eu o abraço fortemente
Aby si alespon chvilicku
E que ele deve, ao menos momentaneamente,
Vzpomenul ve sneni na mne!
Lembrar-se dos seus sonhos!
Zasvet mu do dalekaI
lumina esse local distante,
Rekni mu, rekni
Diz-lhe, ah diz-lhe
kto tu nan ceka!
Quem o espera aqui!
O mne li dushe lidska sni
Se ele estiver a sonhar comigo,
at' se tou spominkou vzbudi!
Que essa memória o desperte!
Mesicku, nezhasni, nezhasni
Ah, lua, não desapareças,
mesicku nezhasni!!
Lua, não desapareças!
zasvet mu
Ilumina-o,
Rekni mu, rekni
Diz-lhe, ah diz-lhe
kto tu nan ceka!
Quem o espera aqui!
O mne li dushe lidska sni
Se ele estiver a sonhar comigo,
at' se tou spominkou vzbudi!
Que essa memória o desperte!
Mesicku, nezhasni, nezhasni
Ah, lua, não desapareças,
mesicku nezhasni!!
Lua, não desapareças!

sexta-feira, junho 08, 2007



Neste excerto do filme Farinelli, voce regina (1994), de Gerard Corbiau, a voz de Lascia ch'io pianga é uma mistura digital de dois registos gravados separadamente e interpretados pelo contratenor Derek Ragin e pela soprano Ewa Godlewskada (os agudos mais altos são dela), para se conseguir atingir uma tessitura de três oitavas, mas continuo a preferi-la no lirismo da voz de um contratenor.

Farinelli (1705-1782), o mais célebre dos castrati, conseguia produzir 250 notas com uma só respiração e sustentar uma nota durante mais de um minuto.

O grande defeito destas gravações: alguém consegue ouvir o som do cravo? Imperdoável.

evva



O Rinaldo de Händel (1711) não sai do leitor de cd há dois meses. O libreto de Giacomo Rossi foi adaptado de um esboço de Aaron Hill do poema épico La Gerusalemme Liberata, de Torquato Tasso, sobre a Primeira Cruzada. Aqui numa interpretação do contratenor Philippe Jaroussky.

Lascia ch'io pianga
Mia cruda sorte
E che sospiri
La liberta!

Il duolo infranga
Queste ritorte
De' miei martiri
Sol per pieta.


evva

quarta-feira, junho 06, 2007

Sofres?
Respira.
Não há outra lira.

José Gomes Ferreira (Porto 1900 - Lisboa 1985)

[evva]

terça-feira, junho 05, 2007

O amigo do público


clique para aumentar






Fonte constante de momentos hilariantes e uma das poucas fontes externas de noticias que faz sentido neste jornal.

andré

domingo, junho 03, 2007

Post com dedicatória



Hope there's someone

Antony and the Johnsons ao vivo em Malmo, Suécia (2005).

Falta muito para as férias?

evva

sábado, junho 02, 2007

You Tube Addicted

E aqui vai mais uma pérola, Jacqueline Du Pré, com 22 anos, a interpretar o primeiro andamento (Adagio - Moderato) do concerto para violoncelo de Elgar (1857-1934), conduzida pelo marido, Daniel Barenboim (só porque não consegui encontrar no you tube o concerto em que Jackie é dirigida por John Barbirolli).

Jacqueline tocará com o stradivarius que lhe foi oferecido por um anónimo, em 1964?



Du Pré nasceu em 1945 mas teve de abandonar a carreira de concertista aos 27 anos, quando lhe foi diagnosticada esclerose múltipla. Faleceu na década de oitenta.

Foi uma intérprete prodígio (ganhou o prémio Guilhermina Suggia com apenas 10 anos) e estudou esporadicamente com Pablo Casals, o recentemente falecido Mstislav Rostropovich e Paul Tortelier. Rostropovich terá dito um dia, quando um jornalista lhe perguntou por que não gravara ainda este concerto de Elgar: «Para quê, se Jackie já o gravou?».

Para ouvir o segundo e terceiro andamentos, clicar aqui.

evva




andré

sexta-feira, junho 01, 2007

Paris



je t'aimerais pour toujours*.


evva

*Do filme Paris, Je t'aime, a curta-metragem 14e Arrondissement, a minha preferida, realizada por Alexander Payne e protagonizada por Margo Martindale.

quinta-feira, maio 31, 2007

Fins de tarde na Foz

No, he's not black...


he's like a summer breeze.

E é para já, enquanto não enjoar, a minha música de Verão. Para ouvir com os pés a chapinhar na água e a acompanhar um gin fizz.


evva

Arte

The artist is the creator of beautiful things.
To reveal art and conceal the artist is art's aim.
The critic is he who can translate into another manner or a new material his impression of beautiful things.
The highest, as the lowest, form of criticism is a mode of autobiography.
Those who find ugly meanings in beautiful things are corrupt without being charming. This is a fault.
Those who find beautiful meanings in beautiful things are the cultivated. For these there is hope.
They are the elect to whom beautiful things mean only Beauty.
There is no such thing as a moral or an immoral book. Books are well written, or badly written. That is all.
The nineteenth century dislike of Realism is the rage of Caliban seeing his own face in a glass.
The nineteenth century dislike of Romanticism is the rage of Caliban not seeing his own face in a glass.
The moral life of man forms part of the subject-matter of the artist, but the morality of art consists in the perfect use of an imperfect medium.
No artist desires to prove anything. Even things that are true can be proved.
No artist has ethical sympathies. An ethical sympathy in an artist is an unpardonable mannerism of style.
No artist is ever morbid. The artist can express everything.
Thought and language are to the artist instruments of an art.
Vice and virtue are to the artist materials for an art.
From the point of view of form, the type of all the arts is the art of the musician. From the point of view of feeling, the actor's craft is the type.
All art is at once surface and symbol.
Those who go beneath the surface do so at their peril.
Those who read the symbol do so at their peril.
It is the spectator, and not life, that art really mirrors.
Diversity of opinion about a work of art shows that the work is new, complex, and vital.
When critics disagree, the artist is in accord with himself.
We can forgive a man for making a useful thing as long as he does not admire it. The only excuse for making a useless thing is that one admires it intensely.

All art is quite useless.


Oscar Wilde, prefácio de O retrato de Dorian Gray

andré

quarta-feira, maio 30, 2007

Inglaterra

O verde permanente da paisagem

As mulheres a fazerem o mesmo que os homens

Um travesti crítico de arte num programa da BBC

A BBC radio: world service, radio 3 & 4, o late junction

A telenovela "Coronation Street" que é emitida desde 1960, e a sua concorrente "Eastenders", que começou em 1985

Os comboios que cobrem quase todos os cantos do país

O tempo, que muda constantemente, e que serve como tema constante de conversa

As pessoas a permanecer ordenadamente e em silêncio na fila mesmo quando um estrangeiro passa à frente

A ordem e a contenção como forma de vida

As bebedeiras de sexta e sábado à noite

Os pubs e as cervejas artesanais

As raparigas na rua de mini saia e blusa de alças com 10ºC ou com chuva

A gastronomia do mundo em cada canto, e a inglesa, distante e quase ausente

O sentido crítico apurado, e não o lamento ou o queixume

A pressão para ser sempre objectivo

A angústia do tempo perdido

O sentimento de ilha: a defesa da tradição e da liberdade só é conseguida se nos mantivermos sós

andré

a mais recente paixão



Boards of Canada
Dayvan Cowboy do álbum Campfire Headphase

andré

quarta-feira, maio 23, 2007

This charming man

festejou ontem 48 primaveras. Mas ainda está aí para as curvas.




Punctured bicycle
On a hillside desolate
Will nature make a man of me yet ?

When in this charming car
This charming man

Why pamper life's complexity
When the leather runs smooth
On the passenger seat?

I would go out tonight

But I haven't got a stitch to wear
This man said ">
That someone so handsome should care"

Ah ! A jumped-up pantry boy
Who never knew his place
He said "return the ring"
He knows so much about these things
He knows so much about these things

I would go out tonight
But I haven't got a stitch to wear
This man said "it's gruesome
That someone so handsome should care"
La, la-la, la-la, la-la, this charming man ...
Oh, la-la, la-la, la-la, this charming man ...

Ah! A jumped-up pantry boy
Who never knew his place
He said "return the ring"
He knows so much about these things
He knows so much about these things
He knows so much about these things

Música: Johnny Marr
Letras. Morrissey

evva

terça-feira, maio 22, 2007

Receita para um final de dia

Depois de uma manhã passada num seminário interessante
(se só tiver um seminário chato ou assim assim, use na mesma)

Depois de uma tarde passada a limpar o quarto e a passar a ferro
(se quiser usar outra coisa, que seja algo difícil mas que tenha sido foi realizado)

Vá ao supermercado mais próximo e compre o necessário para fazer chili com carne
(também resulta com esparguete à bolonhesa ou arroz no forno)

Traga também cerveja q.b. ou uma boa garrafa de vinho
(não. água não serve. e muito menos coca cola)

Cozinhe ao som dos Divine Comedy
(ou dos Smiths, Beatles, Zero Seven, ou algo britânico mas com alento)

Comer a dançar ao som do Chango Spasiuk
(ou do Astor Piazzola, ou de algo intenso e quente)

Digerir com um passeio com destino ao pôr do sol e, se possível, devidamente bem acompanhado
(creio que em Portugal é mais fácil arranjar companhia sem combinar com antecedência. aqui é um pouco dificil)

Deixe o tempo passar e fique a pasmar até ficar com frio ou sem luz.

Quando regressar a casa, abra a sua boa garrafa de whisky, aguardente ou vinho do Porto.

Misture tudo com muito cuidado e intensidade.

Bom apetite.


andré

segunda-feira, maio 21, 2007



I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree

I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see...
And be what I want to be

When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more that I ought to drink
Because it brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, I feel unsteady, like my love
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she coming to me nearly here?

Lilac wine is sweet and heady where's my love?
Lilac wine, I feel unsteady, where's my love?

Listen to me, why is everything so hazy?
Isn't that she, or am I just going crazy, dear?

Lilac Wine, I feel unready for my love...

andré

Antológico




via Pequeno-Irmão, que por sua vez o foi buscar àquele blogue que acaba se o Liverpool ganhar a Champions.

evva

sábado, maio 19, 2007

Melómano que é melómano

Mais uma pérola do 31 da armada. Eu continuo a sonhar com a 'repartição nórdica'*, mas enfim...

evva

*ou com uma ajudinha da metódica organização british, quem sabe, um dia destes...




Alentejo e ninguém
no horizonte claro...

Apressa-te com lentidão,
que tudo é raro.


evva

sexta-feira, maio 18, 2007

IAN CURTIS

Foi há 27 anos...




e acreditem ou não por aqui passou praticamente toda a boa música que se fez nas últimas três décadas.

evva

quarta-feira, maio 16, 2007

Em Londres

E pronto, mais um seminário. Há que apanhar o comboio para casa.
(nos headphones a Björk canta All is full of love)
Do último andar do prédio onde toda a gente se despediu vê-se parte da zona sul de Londres mas o horizonte aponta para norte. É uma cidade feia vista dali. Caótica, cinzenta. Nem o London Eye alivia o cenário.

O metro é um dos sítios mais solitários que eu conheço. Cheio de gente entalada mas que quase nunca se olha. O iPod é mais do que um sucesso comercial, faz parte do estilo de vida. O livro de bolso também. Ou o jornal gratuito que estiver à mão. Hoje a notícia do dia tem a ver com o Mourinho e o seu cão. Interessante…
(entretanto o David Fonseca canta How come you mean so much to me e depois os Hot Chip acrescentam All the people I love are here).
Há pessoas de vários credos, idade e país. Todos a tentar entrar à bruta na carruagem. Desisto de pensar como será viver aquilo todos os dias.
A estação está inundada de cartazes. O Lord of the Rings transformado em musical, o novo “superb album” da Amerie, com os êxitos “1 thing” e “Be strong” ou “Strong man”, enfim…
E muita, muita publicidade.
(passei à frente os Dead can Dance e os Red House Painters. Agora não me apetece. Mas Badly Drawn Boy parece-me bem)

Sabem que faltam 182 dias para o final das obras em St. Pancras? Eu não. Mas se no placard electrónico estivessem a passar os dias desde que a reconstrução começou, era capaz de não haver espaço para números…
E pronto. Estou no sítio onde comecei, à espera do regresso a Sheffield, onde a calma, os amigos e o conforto da casa ajudam a aliviar o sentimento de despedida. É sempre assim quando parto. É por causa da distância que se percorre. E da sensação de não saber quando se volta.
É claro que se isto se tivesse passado no Porto, eu teria ficado um pouco mais contente…
(entretanto cantaram o Tom Waits com a Crystal Gayle, as Dubstar, os Snow Patrol, o Anthony and the Johnsons, as Três Tristes Tigres e agora que termino, canta a Cat Power. É assim, cada um tenta despistar a solidão à sua maneira).
andré

Ele há dias em que apetece votar na Helena Roseta



evva

terça-feira, maio 15, 2007

O lugar onde fomos felizes


Deanie Loomis, uma vez mais. Horas de sono trocadas devido a uma pequena gripe. Um filme na madrugada da Rtp 1 e hoje, entre tudo e todos, Deanie Loomis avança e avança e regressa.

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que Deanie Loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste


A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de Deanie quem desiste


na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquele que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais


lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em Deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais


Ruy Belo, O Bosque Sagrado
(colectânea de poemas sobre cinema)


evva

segunda-feira, maio 14, 2007

Das leben der anderen














Até ver… este é o meu filme do ano.
A beleza está em todo o lado.

andré

Gatos…

Ainda não me habituei totalmente a eles.
Por vezes fico embaraçado com aquilo que mostram. A última rúbrica Tesouros Deprimentes é tão fantástica como constrangedora.
Desde os tempos em que o Herman José ainda fazia humor que não me ria tanto da figura triste dos outros. E da minha, ao rir-me disso.
Aquilo que mais admiro no quarteto fantástico é a desfaçatez e o desafio permanente que colocam áquilo que fazem.
O país parece para já rendido a eles. Não sei por quanto tempo mais. Mas enquanto durar vamo-nos rindo à gargalhada. Uns dos outros.
Faz muito bem.



andré

Imperdoável, George

não teres cantado o Kissing a Fool



You are far,
When I could have been your star,
You listened to people,
Who scared you to death, and from my heart,
Strange that you were strong enough,
To even make a start,
But youll never find
Peace of mind,
Til you listen to your heart,

People,
You can never change the way they feel,
Better let them do just what they will,
For they will,
If you let them,
Steal your heart from you,

People,
Will always make a lover feel a fool,
But you knew I loved you,
We could have shown them all,
We should have seen love through,

Fooled me with the tears in your eyes,
Covered me with kisses and lies,
So goodbye,
But please dont take my heart,

You are far,
I'm never gonna be your star,
I'll pick up the pieces
And mend my heart,
Maybe I'll be strong enough,
I dont know where to start,
But I'll never find
Peace of mind,
While I listen to my heart,

People,
You can never change the way they feel,
Better let them do just what they will,
For they will,
If you let them,
Steal your heart,

And people,
Will always make a lover feel a fool,
But you knew I loved you,
We could have shown them all,

But remember this,
Every other kiss,
That you ever give
Long as we both live
When you need the hand of another man,
One you really can surrender with,
I will wait for you,
Like I always do,
Theres something there,
That can't compare with any other,

You are far,
When I could have been your star,
You listened to people,
Who scared you to death,
and from my heart,
Strange that I was wrong enough,
To think youd love me too.
I guess you were kissing a fool,
You must have been kissing a fool.

... para não falar de Wake me up e de A Different Corner (no top ten da banda sonora da minha adolescência), ou as versões únicas de Roxanne ou Desafinado. Não se faz, George!


evva

sexta-feira, maio 11, 2007

PARABÉNS MARTINHA!

evva, a Tia Babada

segunda-feira, maio 07, 2007

domingo, maio 06, 2007

Memórias de um emigrante




















A minha tia disse-me um dia que a diferença entre os ingleses e os portugueses era que os primeiros iam e ficavam, e os segundos iam mas pensavam sempre no dia do regresso. Eu ainda me sinto muito preso a casa, ou pelo menos insisto em alguns hábitos para me sentir perto. Felizmente, ou talvez não, hoje podemos trazer conosco muito daquilo com que vivemos no sítio onde estávamos.

Continuo a ler o único jornal que creio valer a pena ler. É o Público. É português. E vem em versão PDF, a condizer com o nosso tempo. Não tenho paciência para o excesso de opinião dos jornais ingleses, nem dessa mania que já chegou a Espanha, da "orientação editorial", como se o dever de um jornalista não fosse o de tentar ser isento (ainda que por vezes não o consiga).

Mantenho-me ouvinte fiel do "Pessoal e Transmissível" e da "Semana Passada", embora tenha deixado, bem antes de partir, de ouvir a TSF, que passou a ser a RFM das notícias, uma verdadeira amálgama que nem mesmo os seus donos devem saber bem o que é. Ouço também o "Expresso da Meia Noite", da SIC Notícias, em formato áudio. Faz sempre bem ouvir a voz do poder, de vez em quando.

Um dos momentos gloriosos da semana foi saber que podia ver, como é possível constatar pela fotografia, o documentário "Portugal, um retrato social". Tenho gostado muito, mesmo muito de ver. Depois da estupidez do concurso Salazar vs Cunhal, sabe bem ainda haver espaço para fazer televisão a sério, com causas e com qualidade.

O dia-a-dia, esse é estrangeiro por completo. O trabalho é profundamente inglês, o convívio pode ser brasileiro, chinês, malaio, alemão, ou o que mais vier no caminho.
É um novo mundo, uma vida muito, muito diferente.
Mas foi a que eu escolhi.

andré

sexta-feira, maio 04, 2007

Portuguese fragments for intimacy

1) Porto in the first moments of the sunrise. The first rays of light are graciously caressing the way of the soothsayer to Sao Bento: Palacio do Cristal, Cordoaria, Praca de Republica and Batalha. I knew these streets since eternity; I came here to visit in every previous life. I live in Porto and Porto lives in me. We are both familiar to each other like restless seagulls. The Douro takes the Light to the Atlantic under the careful gaze of Raul Brandao. And there the river meets the ocean. Indifferently and since ever.

2) The smell of the Portuguese coffee is plainly strong. The smell of that unique and forgotten café on the way to Foz was way too strong. The air carrying the salty droplets of sea water kept spraying my face and that of Raul Brandao. He stood there staunchly guarding the Lighthouse. And I was compelled to return to the land of the pale sun.
Porto ’s trilogy often visits me in the land of the cold. A mighty Light spelled with the breaking of dawn, a crushing smell of burning stones and a helplessly intense coffee- all these look as real as a guided tour in the Serralves orchestrated by Elsa on a Saturday afternoon.

3) My heart is still flying above Lisbon : Blessed be this stranger, plowing right now the streets of Lisbon and deliciously steeling a first look into a small book of verse by Alvaro do Campos .

Michel Kabalan, Leipzig (April 2007)

terça-feira, maio 01, 2007

300



E lá fui finalmente ver o filme, mais pela companhia do que outra coisa, sem grandes expectativas. Às tantas, já nem sabia se estava dentro da Playstation 3, a assistir ao Starwars ou a um concerto dos Blasted Mechanism. God!


evva

segunda-feira, abril 30, 2007

Ooops...


Esqueci-me das maias! E agora, como sobreviver ao carrapato?



evva

quinta-feira, abril 26, 2007

As cartas de Iwo Jima

Alguém tem de dizer ao Clint Eastwood para deixar de fazer bons filmes.
Já começo a ficar farto!
É que para além de tudo, este é particularmente bonito…
… não pode ser.















andré

quarta-feira, abril 25, 2007

Mas que granda filme!



















Eu sei, eu sei. Já passou há muito.
Mas eu só o vi hoje…
E como mais vale tarde do que nunca…

andré

domingo, abril 22, 2007

Frase do mês!

"Só quando uma mulher absolutamente incompetente chegar ao topo é que haverá verdadeira igualdade."

in P2 de domingo, no artigo "Madame la…" de Teresa de Sousa


andré

segunda-feira, abril 16, 2007

quinta-feira, abril 12, 2007

E fez-se luz...

bjs ST

terça-feira, abril 03, 2007

All'alba vincerò?



[Il principe ignoto]

Nessun dorma! Nessun dorma! Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle
che tremano d'amore e di speranza...
Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!
Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
che ti fa mia.

[Voci di donne]

Il nome suo nessun saprà...
E noi dovrem, ahimè, morir, morir!

[Il principe ignoto]

Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! All'alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!

[evva]

segunda-feira, abril 02, 2007

E lucevan le stelle



E lucevan le stelle,
e olezzava la terra
stridea l'uscio dell'orto,
e un passo sfiorava l'arena.
Entrava ella, fragrante,
mi cadea fra le braccia.
Oh! dolci baci,
o languide carezze,
mentr'io fremente le belle forme discogliea dai veli!
Svani per sempre il sogno mio d'amore...
L'ora e fuggita e muoio disperato!
E non ho amato mai tanto la vita!

evva

segunda-feira, março 26, 2007

Reviver o passado…

… não. Não é em Brightshead, embora as imagens e a música de entrada da série sejam uma das mais antigas memórias recorrentes que tenho.

A votação do programa da RTP parece ter dado início a uma discussão em relação ao nosso passado dictatorial mais recente. É um tema muito delicado, mas cujo luto é importante fazer.

Eu gostava que o programa da televisão do Estado, junto com movimentos como o Não Apaguem a Memória conseguissem criar a vontade política para a produção de um museu que pudesse mostrar aquilo que fomos durante quase 50 anos. É verdade que ninguém gosta de ver no espelho imagens que envergonhem, mas se as continuarmos a negar ou a esconder, corremos o risco de darmos com elas quando menos esperamos, como parece estar a acontecer em Espanha nas recentes manifestações promovidas pelo Partido Popular.

Cada vez que surge um debate em torno do antigo presidente do Conselho, parece que o país entra em pânico, com o receio que algo profundo e medonho acorde e renasça.
Se calhar é por isso que nos ensinam na escola a glorificar os descobrimentos, para ver se nos põem a olhar, ainda que de forma esquizofrénica, para aquilo que de bom fizemos.

Ai, ai… o Eduardo Lourenço tinha mesmo razão. A nossa saudade é mesmo um labirinto.
E eu não consigo descobrir porquê.


andré

Senhoras e senhores, apresento-vos...



... o MAIOR PORTUGUÊS DE TODOS OS TEMPOS.






(ainda me dói a barriga de tanto rir)

evva

domingo, março 25, 2007

sábado, março 24, 2007

Primavera...





Uma semana de tanto trabalho que mal a senti chegar (a propósito, que lindo poema, laerce), mas quando sinto aproximar o tempo 'prin' recordo-me sempre dos primeiros versos de La Nuit de Mai, de Alfred de Musset (1810–1857), em que uma musa chama pelo seu poeta e lhe pede um beijo, na noite em que a Primavera se inicia. Por que razão o intitulou Musset La Nuit de Mai, nunca o soube, mas na adolescência, idade de todos os romantismos, era um dos meus poemas preferidos.


LA MUSE



Poète, prends ton luth et me donne un baiser;
La fleur de l’églantier sent ses bourgeons éclore.
Le printemps naît ce soir; les vents vont s’embraser;
Et la bergeronnette, en attendant l’aurore,
Aux premiers buissons verts commence à se poser;
Poète, prends ton luth et me donne un baiser.






evva





P.S.: O poema é muito longo, com as respostas sucessivas do poeta, perdido na seu egocentrismo, a não reconhecer o 'fantasma' que o chama e a musa a insistir no seu pedido. Para o lerem na íntegra, podem clicar aqui.

quarta-feira, março 21, 2007

domingo, março 18, 2007

Tem toda a razão.

Num ambiente extremado, sabe bem ouvir uma opinião equilibrada. Extracto da coluna de Daniel Sampaio, este domingo, na Pública:

"Segundo equívoco: os relatos confundem sempre indisciplina com violência. Temos em Portugal um gravíssimo problema de indisciplina em meio escolar, que não pode ser confundido com a ideia de que a escola portuguesa é sede sistemática de violência (na esmagadora maioria das nossas escolas não há violência). A indisciplina é frequente e deriva, em geral, de causas bem diferentes. Apontemos algumas: 1) insegurança familiar na transmissão de regras e incapacidade de muitos pais para utilizarem uma dose adequada de frustração como ingrediente essencial na educação dos filhos, delegando na escola essa tarefa; 2) falta de autoridade de professores, por desvalorização social do seu papel e exagero conferido aos “direitos” dos mais novos; 3) programas escolares sem articulação entre si, extensos, dispersos por um número excessivo de disciplinas; 4) salas de aula com poucos materiais, sem utilização de novas tecnologias, com professores a insistirem em métodos expositivos, em prejuízo de uma prática pedagógica que transforme a turma num grupo de trabalho cooperativo; 5) ausência de uma liderança forte em muitas escolas, diluída num Conselho Executivo (que nome...) em que as funções de cada um não são claras; muitas escolas são raras as reuniões dos Conselhos de Turma para a definição de estratégias comuns para lidar com a indisciplina; 6) fracasso das intenções de autonomia verbalizadas por professores e tutela: predomina o discurso paradoxal em que o Ministério não confere verdadeira autonomia e as escolas, nos poucos sectores onde ela existe, não se sente capaz de a pôr em prática; 7) pouca participação de alunos e pais em questões onde seria importante ouvir a sua opinião, como é o caso da indisciplina."
(…)
"Concordo que a agressão a um professor seja crime público: o efeito dissuasor dessa medida pode ser significativo. Importa, no entanto, perceber que só se obtêm respostas a questões complexas através da análise sistémica de todas as variáveis em jogo, na busca permanente de respostas integradas."

Srs/as professores/as, Sr.ª Ministra, vamos lá pensar um bocadinho.

andré

Primavera em Azevedo

Ameixoeira em flor. Ontem, ao entardecer.


evva

quinta-feira, março 15, 2007

Já apetece...


evva

Hoje continuamos a demandar o Graal

(clicar na imgam para aumentar)


Quando, no fim do século XII, Chrétien de Troyes escreve o seu último romance, o enigmático «Conto do Graal», inaugura uma das mais férteis tradições literárias e estéticas do Ocidente. Emblema de soberania, relíquia cristã ou símbolo espiritual, este objecto inspirará inúmeras recriações ao longo da Idade Média, ressurgindo com o Romantismo. Já nos séculos XX-XXI, o tema da demanda espiritual e as raízes pré-cristãs do Graal estimulam o imaginário New Age; a sua ligação à Idade das Trevas e a rituais de iniciação dá origem a uma abundante produção para-literária: prova de que o mito continua bem vivo no início do terceiro milénio.

Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

17h30

EXCALIBUR, de Jonh Boorman

Apresentação de José Carlos Miranda (FLUP)
e
Beatriz Pacheco Pereira (Cinema Novo)

ENTRADA LIVRE



evva

quarta-feira, março 14, 2007

Heroína do dia, com direito a prémio do Ministério da Educação

Manhã solarenga. Sala de professores de uma escola secundária nos arredores do Porto.
Uma colega entra exaltada depois de telefonar a uma encarregada de (des)educação, a comunicar-lhe o elevado número de faltas injustificadas do (des)educando. Resposta vociferada da interlocutora:
«- É a primeira vez que uma Directora de Turma tem a distinta lata de me telefonar para casa a chatear-me com uma coisa dessas!».
«- E continuou a gritar e a insultar-me, imaginem. Nem me deixou falar. Com receio de ficar surda, desliguei-lhe o telefone.».

evva

terça-feira, março 13, 2007

domingo, março 11, 2007

Broken Social Scene II

Perante o entusiasmo da plateia aqui vão links para alguns videos da banda:

Anthems for a 17 year old girl
Lovers' spit
7/4 shorline
Stars and sons
Looks just like the sun
Almost crimes
Fire eyed boy

E para terminar, dois bónus, a minha versão preferida do Mushaboom da Feist e o And I was a boy from School dos meus queridos electrónicos Hot Chip:

Espero que gostem

andré

MIL E UMA RAZÕES PARA NÃO VER A RTP

TAKE 1:

Uma semana inteira à espera e... NADA! Seus #*§+%€!


evva

sábado, março 10, 2007

Broken Social Scene



Há bandas assim, onde a música mais parece o resultado de uma diversão, de uma experiência ou projecto casual de um grupo de amigos.
Não sei se este é o caso dos Broken Social Scene, mas é assim que eles me soam. E ainda bem.
No mundo da Pop, sabe cada vez melhor ouvir coisas autênticas… e sobretudo diferentes.

Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me
Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me
Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me

Refrão de Anthems For a Seventeen Year-old Girl, do álbum You forgot it People


PS: Por falar em coisas novas, estou a ouvir uma banda austríaca chamada TNT Jacksons. O álbum: Lovers. Fan-tás-ti-co!

PS2: A rapariga da foto é a Leslie Feist, que colaborou com o grupo e que se tornou conhecida com o álbum a solo, sobretudo com o single Mushaboom.

andré

MODAS

«O QUE RESTA

Está na moda bater nos professores. Pais histéricos e boçais, avôs, primas e primos, as amantes do pai corno e os amantes da mãe promíscua, tudo serve para arremeter contra os professores das horríveis crias. Já aqui escrevi que estas "crianças" e adolescentes que frequentam as escolas públicas, pagas com os nossos impostos, deviam ser sumariamente corridas - suspensas e expulsas- quando o seu comportamento se confunde com o de secções do jardim zoológico. O primitivismo comportamental não tem perdão, sobretudo quando praticado em lugares supostamente destinados a formar futuros cidadãos responsáveis (consegui escrever isto sem me rir). O ministério da Educação, eventualmente em conjunto com os dos drs. Costa, devia prestar mais atenção a isto em vez de passar a vida a vexar gratuitamente os docentes, metendo tudo e todos no mesmo saco, esvaíndo a sua já parca autoridade. Todavia, não nos devemos admirar de as coisas terem atingido esta proporção com as escolas a serem invadidas por famílias - vou utilizar o jargão assistencialista - "disfuncionais". A esquerda no poder na Europa é a principal responsável por este entorse nas funções nucleares das escolas públicas. O politicamente correcto quis transformar os liceus em prolongamentos de gabinetes de psicologia e de serviço social, como Judi Dench "explica" magnificamente em "off" nos primeiros minutos do filme "Diário de um escândalo". Aliás, a história do filme é uma consequência do optimismo "blairista" aplicado ao sistema de ensino. A professora de arte que "come" o rapaz de 15 anos é o equivalente, num país periférico e analfabeto como o nosso, ao avô que bate no professor. Judi Dench encarna uma personagem magnífica, não tanto por causa da trama - também magnífica - mas pelo que as suas "notas" (a partir do livro homónimo de Zoë Heller) revelam sobre a escola pública da "terceira via" do sr. Blair, esse exemplo de modernidade e de "esperança" para tanto socialista "pragmático" do século XXI. Se estes socialistas "pragmáticos" andassem mais por aí em vez de viverem atafulhados em fantasias inócuas, talvez parte da realidade pudesse entrar nas suas duras cabeças. Enquanto isso não acontecer, o "progresso" continuará tranquilamente a dar cabo do que resta da ideia de escola ou de liceu e, inevitavelmente, de professor no sentido nobre do termo. Quem é que está disposto a trocar uma aula por uma cadeira na cabeça, atirada pelo primeiro "coitadinho" do sistema? Quem?»

João Gonçalves, num blogue de leitura obrigatória, Portugal dos Pequeninos.


Leiam também este comentário avisado ao post de João Gonçalves, por josé gomes andré:


«A degradação da escola está relacionada com a aplicação de uma teoria "psicologista" pós-moderna de consequências terríveis: a ideia de que a escola não é um lugar de aprendizagem, mas sim de "adequação social" ou de "ambientação ao mundo", onde é mais importante "crescer" e "socializar" do que aprender o conteúdos dos programas. Enquanto se continuar a dizer aos miúdos que não saber nada da matéria não é grave, e que isso pode ser compensado com uma boa "participação pedagógica" na dimensão de "integração social" - não vamos lá.»


Pois é, mas nós é que os temos de aturar todos os dias, mais os paizinhos do "juro-lhe que ele em casa não fala assim", os que nunca aparecem, os que não acordam os filhos para ir às aulas e têm o desplante de justificar a falta do educando com um 'adormeceu' ou 'o despertador não tocou', os que deixam os filhos ver as telenovelas e os filmes todos até às tantas da madrugada, os que se queixam de não ter dinheiro para os livros e o material escolar e vociferam por não terem sido contemplados com o subsídio, mas não se esquecem de comprar à filharada o telemóvel de última geração e o ipod, os que se insurgem porque o filhinho pródigo não foi seleccionado para aulas de apoio pedagógico acrescido, mas que nada fazem para obrigar os rebentos a realizar os trabalhos de casa ou a trazer o caderno e o manual escolar todos os dias, ou a estarem virados para a frente nas aulas e calados e atentos e responsáveis, em vez de as interromperem constantemente com comentários despropositados e insultuosos, para os colegas e para os professores, "deixe lá, não ligue, ele em casa também é assim", etc, etc, etc.
A nossa sorte é que ainda conseguimos encontrar um ou outro aluno por quem valha a pena ir trabalhar todos os dias. Mas esses são cada vez mais a excepção.

evva

«O menino menos zeloso

– Professora, eu não consigo perceber por que motivo tenho menos um valor do que o Rui. Afinal, tivemos exactamente os mesmos resultados nos testes, nos trabalhos e na participação…
– Mas não na assiduidade, Jorge. O Rui nunca faltou e o Jorge tem cinco faltas.
– Justificadas, professora, todas justificadas. Faltei dois dias pela morte do meu avô e os outros três porque torci um pé na aula de Educação Física. O médico obrigou­‑me a descansar três dias, até me passou um atestado…
– Não me interessa. Se tivesse ouvido o meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, como eu ouvi, saberia muito bem que o importante é ter faltado, não interessam as razões, não interessa quem morreu, nem se torceu o pé ou partiu a perna ou entortou o pescoço. As palavras do meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, que eu ouvi com toda a atenção, como sempre faço em relação aos meus superiores hierárquicos – e o menino devia fazer o mesmo –, foram absolutamente claras: para todos os efeitos, quem faltou foi menos zeloso do que quem não faltou. Por isso, não quero saber da morte do seu avô nem do pé torcido nem da unha encravada. Vai ter menos um valor do que o Rui e ponto final.»

João Paulo Sousa, no Da Literatura.


Quantas vezes terá faltado o menino Sócrates, desde que iniciou funções? Reuniões partidárias, jornadas do grupo parlamentar, daquela vez que partiu o pé na estância de esqui... Não é também Funcionário Público? Tirem-lhe as férias, se faz favor.

evva


P.S.: E, já agora, ponham-no a dar umas aulinhas numa escola pública, em par pedagógico com a Lurdinhas e os secretários. Ah... a licenciatura não é reconhecida pela Ordem dos Engenheiros, oops...

Faltará muito para o regresso a Camalot?

(BMDijon, ms. 0527, f. 162v)

evva

Enfim(!)-de-semana



evva

quarta-feira, março 07, 2007

'RETRATO DE MÓNICA'

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Contos Exemplares (1962)
Porto, Figueirinhas.

[evva]

terça-feira, março 06, 2007

Ainda as 'Variações em Sousa'

Fernando Assis Pacheco tu-cá, tu-lá com o leitor, encerra exemplarmente e sem rodeios o livro que assina:

F. A. P. Fecit

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saudades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desampatraste

*

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde


[evva]

segunda-feira, março 05, 2007

O dia amanheceu azul . Há um cheiro intenso a relva cortada no ar, o ronronar da cortadora ainda se ouve ao longe, nos canteiros do fundo da rua. As magnólias já floriram e derramam rosa e branco nas calçadas. As mimosas já invadem os caminhos. Mas ainda me ressoa na memória a chuva de ontem e os versos da Rosário Pedreira. Tarda muito, a Primavera?

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois (2005), Gótica, p. 11

domingo, março 04, 2007

Já foi há alguns anos, mas revivo esse domingo como se fosse hoje. Trabalhava e vivia lá perto, choveu intensamente nesse dia e nos precedentes, houve ameaça de inundação lá em casa, água em demasia na varanda dos vizinhos de cima, e preparava-me para deitar e adormecer com a TSF dos velhos tempos quando um anúncio de tragédia interrompeu a emissão. Tentei contactar os primos com família em Castelo de Paiva, não tinham notícias, as linhas móveis e imóveis não funcionavam, por excesso de tráfego ou excesso de chuva, mais tarde o alívio, todos estavam bem. Bem? Nenhum de nós ficou 'bem' depois daquele dia, um pedaço de nós morreu naquela torrente cor de lama rio abaixo e as amendoeiras nunca mais floriram como antes, o anúncio da Primavera que se aproxima e a esperança na renovação.

Sobre a memória de 4 de Março, um excelente texto de uma amiga recente, autora de um blogue a descobrir:

«amendoeiras em flor


És tu, deus talhado na fronteira da bruma, que te revelas na cidade de granito e respiras o rio revolto de quatro de março próximo em amendoeiras desfeitas e anjos pelas margens? Descubro-te no ciclo da memória auditiva que a ponte deixou sobre as asas inertes aparecidas mais tarde, rebocadas por legiões de muito boa vontade, homens cavaleiros de miragens enquanto as velas e as flores se consumiam e as lágrimas enchiam o rio douro dizem sob outras pontes, ali uma garganta sôfrega a sugar vorazmente o quarto pilar, a quatro de março. Todos te perguntaram porquê, todos. E o teu silêncio espalhou-se pelo rio triste e terrivelmente vazio, uma água pesada de tanta ausência. Espreitas de novo, deus, esperas que te rezem e te façam promessas em sacrifício do corpo que chegou ao mar sem ser doce morrer no mar como diz a canção da bahia mar morto de jorge amado lá e cá. O rio também tem lágrimas de portugal, mas não o soubemos fazer nosso. Por isso, deus, acalma a memória neste dia e alerta o dia seguinte, aquele em que qualquer ponte é de mágoa e de contrição.»


evva

sábado, março 03, 2007

Colheita de 2 de Março


Tenho o vício caro de não conseguir resistir a livrarias, alfarrábios, feiras do livro novo, do livro velho, do livro raro, do livro usado... Ontem, aproveitando a hora de almoço para abastecer a despensa numa grande superfície cá do burgo, mal tinha percorrido uns míseros metros de carro ainda vazio quando paralisei diante de uma pilha que apregoava sem qualquer erro ortográfico "LIVROS EM SALDO'. Lá me pus a demandar o Graal por entre resmas de inanidades e eis que, qual limpa-vias no subway perante o arroz do céu, mal pude conter um grito quando vi as Variações em Sousa do velho Pacheco, edição 2004 da Angelus Novus - Cotovia, por cinco euros.


Aqui fica Canção do Ano 86, Fernando Assis Pacheco na sua melhor auto-ironia:


Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos

quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado

se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa

volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernendo Assis Pacheco
cálido aceno do que morreu
conversarmos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a
cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para
empatar cinco a cinco com os varões todos torcidos

consta que desde então
não fazes mais do que perder

[evva]


P.S.: Curiosamente, também lá estava o segundo livro que conheci da Ilse Losa, Na Quinta das Cerejeiras, requisitado na biblioteca do colégio, mas que nunca conseguiu suplantar a devoção pela Flor Azul, para sempre no patamar dos patamares da minha infância.
Abandonei o recinto em plena euforia e sem mercearia.

sexta-feira, março 02, 2007

Uf! Adiada para as férias da Páscoa...


evva

Este mês demandamos o Santo Graal

(clicar na imagem para aumentar)

evva

Grandes confusões…

















…podia ser o título do programa que a RTP está a promover sobre os portugueses que mais se distinguiram na história do país.

Por coincidência, estava eu ontem a desabafar sobre o quanto nós precisamos de debater e de falar sobre a ditadura e sobre o nosso passado, e eis que hoje dou de caras com este fan-tás-ti-co concurso onde as misses e os misters são apresentados em catálogo e escolhidos a 0,60€ + IVA.

Enfim… não era bem isto que eu tinha em mente. E pelos vistos muitos historiadores concordam (ver o P2 de hoje). Agrada-me porém a liberdade a que o pessoal da publicidade se deu na abordagem do assunto.
Fico no entanto com muita pena que uma estação pública, para comemorar 50 anos, não consiga fazer melhor do que algo parecido com o festival da canção, ou discos pedidos.

Assim sendo, espero sinceramente que os abaixos assinados e todos os movimentos de protesto consigam criar espaço na consciência dos autores desta infeliz ideia, para que nas comemorações dos 75 anos alguém se lembre de fazer algo igualmente irreverente mas não tão saloio.


andré

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Portugal um retrato social…

…é o tema de um documentário em 7 episódios, realizado por uma equipa dirigida pelo sociólogo António Barreto, e que vai passar, a partir de 14 de Março, pelas 21h00, na RTP1 (para mais promenores ver entrevista no P2 de hoje).

A entrevista com António Barreto serve para apontar uma vez mais o dilema que os intelectuais parecem viver em relação ao país que habitam. O choque que sentem com as condições de miséria ainda existentes, algumas não muito longe do local onde vivem. A sua revolta perante um povo que não trata bem os sítios onde vive. O desapontamento com a falta educação e cultura. "Eu não perdoo os meus concidadãos."

Pois… parece que estamos destinados a viver com uma elite que insiste em ver os concidadãos como o povo, os autarcas, os médicos…
… o outro, sempre o outro. Tal qual um objecto de pesquisa ao qual nos mantemos distantes.
Eu compreendo que os intelectuais têm o dever de denunciar o estado de subdesenvolvimento que o país atravessa, mas não entendo como é que eles se afastam quase sempre do problema que descrevem. Como se lhes fosse alheio.

É por causa disso que depois se queixam que ninguém os ouve ou lhes presta atenção. Há historicamente em Portugal, uma enorme falta de solidariedade entre aqueles que têm - educação, dinheiro, poder - e os que não têm. Esta conduta tão enraízada serve também para que os ex-subdesenvolvidos, aqueles que conseguiram subir pela escada social, se vinguem do grupo de onde vieram, para mais facilmente se distinguirem dele.
O conhecimento tantas vezes utilizado para oprimir e não para progredir.

Bem bom era que a RTP disponibilizasse em PODCAST a série. Eu gosto de me olhar ao espelho de vez em quando, mesmo quando não gosto de tudo aquilo que vejo.

andré

domingo, fevereiro 25, 2007

Como ficar bem-disposta logo pela manhã




Ouvir o Ruca dobrado com sotaque 'nortenho'.

Uma delícia!

evva




P.S.: E por falar em televisão pública, já repararam como aquele programa sobre língua portuguesa, 'Cuidado com a Língua', assassina a Tlebs a cada passo? Ele é o 'substantivo colectivo', o 'substantivo comum' e outras designações que tais irradicadas da nova terminologia...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O dia em que o Zeca morreu

No dia em que o Zeca morreu o meu pai passou o tempo todo a chorar aos bocadinhos e a ouvir as canções de sempre na sala de estar. Aquilo era mais do que música para ele, era o sentido de um tempo, uma forma e uma atitude perante a vida. Não foi, nem nunca será, o meu tempo, mas era bonito, muito bonito.

Esta foto explica talvez o porquê de tanta gente ainda hoje "não ir à bola com o Zeca" (ver o P2 de hoje). A sua música, como a do Zé Mário Branco, ou a de outros que seguiram caminhos diferentes, estava intimamente ligada (no caso do segundo ainda continua) a uma ideia muito clara sobre o mundo, tal como estava a do Léo Ferré ou a Bossa Nova. A mim ensinaram-me a não apreciar as pessoas apenas por aquilo que pensam. Admiro tanto o Álvaro Cunhal como Adriano Moreira, embora por razões diferentes.

Espero sinceramente que um dia Portugal faça as pazes com o Zeca. Ele merece.


andré

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Espelho meu, espelho meu…



Se bem me lembro, o sentido do vídeo que deu vida a esta personagem era caracterizar um final possível da evolução humana. Da selva e das cavernas até um banco ou uma cadeira a comer um hamburger. A imagem foi um sucesso e o álbum também.

Contudo, o que mais me fascina nesta imagem é a tranquilidade e a liberdade a que uma pessoa se pode dar. O mesmo acontece com aquelas raparigas que, apesar do peso a mais, não hesitam em usar a camisola da moda com o umbigo à mostra. Não me perguntem se fica bem ou mal, pois isso pouco interessa. Perguntem antes se as pessoas se sentem bem a usar aquilo que querem.

Isto tudo vem a propósito da entrevista de hoje à psicóloga Marlene Nunes Silva, na pág. 6 do Público (podem descarregar o jornal todo à borla), e que aborda as implicações psicológicas da obesidade, sobretudo nas mulheres.

A obesidade é um problema que se alimenta a si mesmo, mas é também uma questão complexa com razões de ordem genética, hormonal e social. E o que mais gosto é ver pessoas obesas a tentar fazer o melhor que sabem e podem com a sua situação. É dificil mas é muito bonito!

andré

sábado, fevereiro 17, 2007

LA CANCIÓN DEL CROUPIER DEL MISSISSIPI

Fifteen men on the dead Man's Chest.
Yahoo! and a bottle of run!
Canción pirata

Fumo mucho. Demasiado.
Fumo para frotar el tiempo y a veces oigo la radio,
y oigo pasar la vida como quien pone la radio.
Fumo mucho. En el cenicero hay
ideas y poemas y voces
de amigos que no tengo. Y tengo
la boca llena de sangre,
y sangre que sale de las grietas de mi cráneo
y toda mi alma sabe a sangre,
sangre fresca no sé si de cerdo o de hombre que soy,
en toda mi alma acuchillada por mujeres y niños
que se mueven ingenuos, torpes, e
nesta vida que ya sé.
Me palpo el pecho de pronto, nervioso,
y no siento un corazón. No hay,
no existe en nadie esa cosa que llaman corazón
sino quizá en el alcohol, en esa
sangre que yo bebo y que es la sangre de Cristo,
la única sangre en este mundo que no existe
que es como el mal programado, o
como fábrica de vida o un sastre
que ha olvidado quién es y sigue viviendo, o
quizá el reloj y las horas pasan.
Me palpo, nervioso, los ojos y los pies y el dedo gordo
de la mano lo meto en el ojo, y estoy sucio
y mi vida oliendo.
Y sueño que he vivido y que me llamo de algún modo
y que este cuento es cierto, este
absurdo que delatan mis ojos,
este delirio en Veracruz, y que este
país es cierto este lugar parecido al Infierno,
que llaman España, he oído
a los muertos que el Infierno
es mejor que esto y se parece más.
Me digo que soy Pessoa, como Pessoa era Álvaro de Campos,
me digo que estar borracho es no estarlo
toda la vida, es
estar borracho de vida y no de muerte,
es una sangre distinta de esa otra
espesa que se cuela por los tejados y por las paredes
y los agujeros de la vida.
Y es que no hay otra comunión
ni otro espasmo que este del vin
oy ningún otro sexo ni mujer
que el vaso de alcohol besándo
me los labios
que este vaso de alcohol que llevo en el
cerebro, en los pies, en la sangre,
que este vaso de vino oscuro o blanco,
de ginebra o de ron o lo que sea- ginebra y cerveza, por ejemplo -
que es como la infancia, y no es
huida, ni evasión, ni sueño
sino la única vida real y todo lo posible
y agarro de nuevo la copa como el cuello de la vida y cuento
a algún ser que es probable que esté
ahí la vida de los dioses
y unos días soy Caín, y otros
un jugador de poker que bebe whisky perfectamente y otros
un cazador de dotes que por otra parte he sido
pero lo mío es como en "Dulce pájaro de juventud"
un cazador de dotes hermoso y alcohólico, y otros días,
un asesino tímido y psicótico, y otros
alguien que ha muerto quién sabe hace cuánto,
en qué ciudad, entre marineros ebrios. Algunos me
recuerdan, dicen
con la copa en la mano, hablando mucho,
hablando para poder existir de que
no hay nada mejor que decir
sea sí mismo una proposición de Wittgenstein mientras sube
la marea del vino en la sangre y el alma.
O bien alguien perdido en las galerías del espejo
buscando a su Novia. Y otras veces
soy Abel que tiene un plan perfecto
para rescatar la vida y restaurar a los hombres
y también a veces lloro por no ser un esclavo
negro en el sur, llorando
entre las plantaciones!
Es tan bella la ruina, tan profunda
sé todos sus colores y es
como una sinfonía la música del acabamiento,
como música que tocan en el más allá,
y ya no tengo sangre en las venas, sino alcohol,
tengo sangre en los ojos de borracho
y el alma invadida de sangre como de una vomitona,
y vomito el alma por las mañanas,
después de pasar toda la noche jurando
frente a una muñeca de goma que existe Dios.
Escribir en España no es llorar, es beber,
es beber la rabia del que no se resigna
a morir en las esquinas, es beber y maldecir, blasfemar contra España
contra este país sin dioses pero con
estatuas de dioses, es
beber en la iglesia con música de órgano
es caerse borracho en los recitales y manchas de vino
tinto y sangre "Le livre des masques" de Rémy de Gourmont
caerse húmedo babeante y tonto y
derrumbarse como un árbol ante los farolillos
de esta verbena cultural.
Escribir en España es tener
hasta el borde en la sangre este alcohol de locura que ya
no justifica nada ni nadie, ninguna sombra
de las que allí había al principio.
Y decir al morir, cuando tenga
ya en la boca y cabeza la baba del suicidio
gritarle a las sombras, a las tantas que hay y fantasmas
en este paraíso para espectros
y también a los ciervos que he visto en el bosque,
y a los pájaros y a los lobos en la calle y
acechando en las esquinas
'Fiften men on the Dead Man's Chest
Fifteen men on the Dead man's Chest
Yahoo! And a bottle of rum!'

Leopoldo María Panero
Last River Together (1980)

[evva]

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Campeonato do Mundo de Hoquei de Sala















Para quem nao sabe, esta e uma variante do Hoquei em Campo jogada em pavilhao num campo com dimensoes similares as do Andebol.
A galeria de fotos do site oficial do evento tem bastantes imagens do jogo.

andre

PS: Agradece-se a compreensao do/a leitor/a para o facto de o teclado austriaco nao ter acentos. Confiamos que a gerencia em Portugal possa corrigir a situacao.

Fin'amors


evva