quinta-feira, novembro 01, 2007

Rodrigo Leão



Esta é uma das músicas do mais recente álbum de Rodrigo Leão, a banda sonora do documentário televisivo 'Portugal, Retrato Social', que passou este ano na RTP. Foi sem dúvida uma combinação feliz entre realização, investigação e composição musical.

Eu gosto muito da música do Rodrigo Leão. Não porque é de excelente qualidade, não porque a acho inovadora, mas porque me soa bem, porque a acho bonita.
Agrada-me sentir que ele a faz por prazer, porque gosta, não porque quer provar alguma coisa, não porque está preocupado em seguir um estilo ou outro.

Pelo que ouço, parece gostar de música erudita e da música de cabaret (ou música ligeira, chamem-lhe o que quiserem), e, em ambos os casos, parece gostar sobretudo da voz.
Mas em algumas peças instrumentais a melancolia, also similar à que podemos encontrar nos Madredeus, invade tudo o resto. Como o mar. É linda, muito linda mesmo.

Enquanto escrevo, ouço 'Os Poetas - Entre nós e as palavras', obra em que participa com os companheiros do costume, Gabriel Gomes e Fraancisco Ribeiro, e que para mim é talvez a obra mais conseguida. Combinação perfeita entre música e poesia. A entoação forte e sóbria da voz de Herberto Helder em 'Minha cabeça estremece' e a voz frágil e incisiva de Mário Cesariny em 'Queria de ti um país…' transmitem momentos de absoluto delírio, igual ao das palavras que se ouvem.

Agora só me resta esperar até ouvir o novo álbum. Entretanto, vou continuando a rever o documentário, em que tudo é português. É como regressar a casa…


andré







Para todos/as que queiram ver ou rever os 7 episódios do documentário de António Barreto, realizado por Joana Pontes, e com música de Rodrigo Leão, aqui fica o link:

http://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/portugal_retrato/index.shtm


andré

quarta-feira, outubro 24, 2007

Outono em Sheffield







As fotos não são minhas mas são aquilo que eu vejo todos os dias.

andré

terça-feira, outubro 23, 2007

Isto ainda vai demorar algum tempo a entender…

P. A palavra autoridade [nas relações familiares] tem para si uma carga positiva ou negativa?
R. Eu creio que em Portugal e em Espanha, onde vivemos ditaduras, a palavra autoridade está mal interpretada. Entende-se como fascismo ou ditadura. A autoridade é necessária. É necessária sobre nós mesmos: o auto-governo, a disciplina. Mas também faz falta no lar, na rua, na escola. E é fundamental o respeito. A uma mulher grávida, a uma pessoa mais velha, ás plantas, aos objectos dos outros.

Extrato da entrevista Pessoal e Transmissível de Carlos Vaz Marques na TSF, com Javier Urra, um psicólogo espanhol, a propósito do livro deste intitulado "O pequeno ditador".

sexta-feira, outubro 19, 2007

Sem rumo…

António VariaçõesErva Daninha Alastrar
do álbum Dar e Receber
(Para ouvir um extrato da música, clique no icon play E NÃO no nome da música)

Só eu sei,
Só eu sei que sou terra,
Terra agrestre por lavrar,
Silvestre monte maninho,
Amora, fruto sem tratar.

Só eu sei que sou pedra,
Sou pedra dura de talhar,
Sou pedrada em aro,
Calhaus em forma de encastrar.

A cotação é o quiserem dar,
Não tenho jeito pra regatear,
Também não sei se a quero aumentar.

Porque eu não sei se me quero polir,
Também não sei se me quero limar,
Também não sei se quero fugir deste animal
Que ando a procurar.

Só eu sei que sou erva,
Erva daninha alastrar,
Joio trovisco, ameaça
Das ervas doces de enjoar.

Só eu sei que sou barro,
Dificil de se moldar,
Argila com cimento e cérebro,
Nem qualquer sabe trabalhar.

Em moldes feitos não me sei criar,
Em formas feitas podem-se quebrar,
Também não sei se me quero formar

Porque eu não se me quero polir,
Também não sei se me quero limar,
Também não se quero fugir deste animal
Que ando a procurar."


andré

quarta-feira, outubro 17, 2007

Descoberta tardia…



Estas eram as The Organ, um grupo que viveu entre 2001 e 2006. Para a história fica um álbum e alguns EPs. É pena! Tinham um som bem porreiro!

andré

terça-feira, outubro 16, 2007

Mais Radiohead



In the deepest ocean
The bottom of the sea
Your eyes
They turn me
Why should I stay here?
Why should I stay?

I'd be crazy not to follow
Follow where you lead
Your eyes
They turn me

Turn me on to phantoms
I follow to the edge of the earth
And fall off
Everybody leaves
If they get the chance

And this is my chance

I get eaten by the worms
Weird fishes
Picked over by the worms
Weird fishes
Weird fishes
Weird fishes

I'll hit the bottom
Hit the bottom and escape
Escape

I'll hit the bottom
Hit the bottom and escape
Escape

Weird Fishes/Arpeggi (ainda antes do lançamento de In Rainbows)

andré

Sem rumo…



Everything is open
Nothing is set in stone
Rivers turn to ocean
Oceans tide you home
Home is where your heart is
But your heart had to roam
Drifting over bridges
Never to return
Watching bridges burn
Youre driftwood floating underwater
Breaking into pieces pieces pieces
Just driftwood hollow and of no use
Waterfalls will find you bind you grind you
Nobody is an island
Everyone has to go
Pillars turn to butter
Butterflying low
Low is where your heart is
But your heart has to grow
Drifting under bridges
Never with the flow
And you really didnt think it would happen
But it really is the end of the line
So Im sorry that you turned to driftwood
But youve been drifting for a long long time
Everywhere theres trouble
Nowheres safe to go
Pushes turn to shovels
Shovelling the snow
Frozen you have chosen
The path you wish to go
Drifting now forever
And forever more
Until you reach your shore
Youre driftwood floating underwater
Breaking into pieces p ieces pieces
Just driftwood hollow and of no use
Waterfalls will find you bind you grind you
And you really didnt think it would happen
But it really is the end of the line
So Im sorry that you turned to driftwood
But youve been drifting for a long long time
Youve been drifting for a long long time
Youve been drifting for a long long
Drifting for a long long time


andré

segunda-feira, outubro 15, 2007

Pronto…

… não há nada a fazer… começou mais um ano do Gato Fedorento…





andré

Caramba…





… os Radiohead editaram um novo álbum! Agora não consigo fazer mais nada senão ouvi-lo. O pessoal no escritório não compreende porquê…
…insensíveis…


andré

sábado, outubro 13, 2007

Soneto dos 45 anos

por Fernando Pinto do Amaral. Mas que retrata com fidelidade os meus 35:

Que soubeste fazer da tua vida
depois de tantos anos à procura
do que chamavas terra prometida
no meio da floresta mais escura?

Por que deste consolo a essa ferida
que ainda continua a arder sem cura
se do teu coração não há saída
e o tempo te devora em lenta usura?

O que te ensina hoje cada dia
se já pouco te dói como doía
e tudo se transforma em quase nada?

Apenas o amor, que será só
memória de quem és, do pó ao pó
- cinza talvez, mas cinza apaixonada.

A Luz da Madrugada, Dom Quixote.

Tudo isto é fado, nada disto é cinema

Carlos Saura com Caetano Veloso
nas gravações de Fados
(foto EFE)

O cinema não passa por aqui. Nem sequer sob a forma de documentário. Parece mais um longo teledisco onde desfilam as escolhas do autor (ou de Carlos do Carmo, o consultor português?). Se bem que pareça pretender contar a história do fado (apesar de Carlos Saura o negar), não acredito que um espectador menos familiarizado com ela consiga compreender o alcance das muitas referências que o filme exibe, da música africana à brasileira, mas onde a ausência do tango, filiação estudada por Rui Vieira Nery (referido na ficha técnica!), é incompreensível.


Neste video clip pseudo-biográfico, Amália é pouco mais do que uma nota de rodapé, mas Carlos do Carmo, of course, e Marisa omnipresentes. Não me queixo do Camané, por razões óbvias, apesar de Saura filmar o seu lado menos fotogénico e por isso mais autêntico (também gostei das rugas de Caetano Veloso a assassinar Estranha Forma de Vida e de Chico Burque), mas que dizer do esquecimento de Maria Teresa de Noronha, Mísia ou Kátia Guerreiro? Não pretendia este filme(?) encerrar a trilogia de Saura sobre «três formas de expressão musical urbanas do século XX»? E o fado de Coimbra não é urbano?

De qualquer forma, para quem venera o fado como eu, há actuações inesquecíveis: Cuca Roseta com a melhor interpretação de SEMPRE de Rua do Capelão, ou Novo Fado da Severa (quem perceber mais disto do que eu, por favor elucide o título exacto da composição escrita pelo injustiçado Júlio Dantas*) e Lilla Downs a não envergonhar Lucília do Carmo na Travessa da Palha. Mas tudo isto não deixa de ser uma estranha forma de cinema.

evva

* Ainda está por escrever a enorme contribuição deste homem para a cultura portuguesa. Voltarei a ele um dia destes.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Dia do professor

Aos colegas que hoje se manifestaram contra os tempos que correm (para trás).
Muito especialmente aos do ensino superior que, sem protecção no desemprego, estão tão fora deste tempo.


“En efecto, de no ser religiosos o no tener medios profesionales de fortuna, la situación de los profesores de humanidades era sencillamente angustiosa. Los documentos de Alcalá del siglo XVI nos hablan de las peticiones de ayuda económica del maestro Ibarra en 1572; los de Salamanca, de la súplica de ayuda en 1561 del bachiller Martín de Munguía “ora por vía de limosna, ora por vía de aumento de su cátedra”, porque era pobre y había servido a la universidad dando una clase de griego por 6000 maravedíes al año; y del préstamo de 100 reales de plata que le hizo el rector al catedrático de dicha materia, el maestro Gaspar de León, en 1591. La prosa burocrática de los documentos del siglo XVII refleja patéticamente en su estilo formulario las estrecheces económicas del profesorado. En Alcalá piden anticipos Sebastián de Lirio en 1605 y Fernando Caupena en 1614. [...]
Los documentos más desgarradores, sin embargo, son las peticiones de socorro de las viudas de los profesores salmantinos.”

Luis Gil Hernández (1997): Panorama Social del Humanismo Español (1500-1800), Madrid, Tecnos, p. 392.


Sónia

quinta-feira, outubro 04, 2007

Esta semana…





Esta semana, no meio de uma pilha de raiva que vinha acumulando desde a semana anterior, dei-me de frente com dois filmes sobre pais. O primeiro, já antigo, é o Interiors do Woody Allen. O outro, de 2006, é Dinamarquês, realizado por Susanne Bier, e chama-se Before the Wedding.
No primeiro é a figura da mãe, que como disse Herberto Helder “mexe aqui e ali” e é como um “poço de petróleo” na cabeça das filhas perturbadas pela insuportabilidade da sua presença. No segundo, é um pai que planeia em segredo a vida que quer para a sua família após a sua morte prematura. Dois filmes tocantes e de um poder emocional tremendo.
Puxa! Como é que a tristeza pode ser tão bela?!…


andré


…mas se calhar fui só eu e a minha irritação que os viram assim.

terça-feira, setembro 11, 2007

Bloggers de todo o mundo, uni-vos

Para quem não teve a oportunidade de disfrutar da Festa do Avante como teria gostado, porque ficou a trabalhar por cá ou porque foi trabalhar para lá, aqui fica uma hiperligação para saltar ao som da Carvalhesa:

http://www.youtube.com/watch?v=3ILYx0qewm0

Sónia

Hóquei no campo

Eurohockey Nations Challenge II Men
Predanovci, Eslovénia








andré

quinta-feira, setembro 06, 2007

O futuro fica lá à frente?

Nesta altura em que o ano lectivo reabre em muitas escolas, noutras é época de fecho. Queria sublinhá-lo recordando as notícias que, há algum tempo atrás, saíram a público sobre o fecho da EB2,3 Padre Agostinho Caldas Afonso, em Pias (Monção).
O encerramento da Escola em si não singulariza a notícia entre - infelizmente – muitas outras notícias do fecho de – infelizmente – muitas outras escolas pelo país fora. O que me faz trazer aqui esta situação em particular é o que a respeito da escola de Pias li em devido tempo no editorial da revista do meu sindicato (SPN informação, n.º17, Julho de 2007). O que torna esta situação especial é que esta mesma escola que o Ministério da Educação se propôs encerrar recebeu um prémio internacional de qualidade educativa atribuído pelo Conselho Ibero-americano em Honra da Qualidade Educativa. Passo a transcrever uma passagem do que li: “a única dúvida que persiste é saber se haverá representantes da EB2,3 de Pias na cerimónia de entrega do galardão atribuído, que vai ter lugar no Panamá, nos dias 13 e 14 de Setembro. Se essa presença se confirmar, será curioso saber a reacção das instituições oficiais promotoras do prémio, como Ministérios da Educação de países sul-americanos e a UNESCO, que vão entregar um prémio – anunciado como 'o mais importante reconhecimento outorgado a distintos e prestigiados profissionais e instituições líderes da educação ibero-americana, que promovem os valores éticos nas respectivas especialidades' - a uma escola que já não é, em nome da racionalidade.”
Mas não só em nome da racionalidade se diz fechar a escola: fala-se também em modernidade; fala-se em transferir docentes e discentes para instituições mais modernas e mais eficazes. Acontece que, em alguns desses casos, não se está a mudar para melhores escolas, mas sim para escolas tão boas, tão más ou piores que as de origem. Em alguns desses casos, os alunos têm que que percorrer maiores distâncias e por caminhos menos seguros que anteriormente. É verdade que, noutros tempos, as crianças – e bem pequenas – percorriam descampados e matos para ir à escola ou mesmo para trabalhar. Mas não são estes “tempos modernos”? Provalmente sim, mas à semelhança dos que Chaplin retrata no seu fabuloso filme.
Preferia ter-me “estreado” no blog com um tom menos amargo. Preferia ter falado de música ou de outras coisas de que gosto, mas, enfim, sou professora e não perdi a capacidade de indignação – algo para que sim se deveriam definir serviços mínimos...

Sónia

quinta-feira, agosto 30, 2007

The Notwist II

http://www.youtube.com/watch?v=MpWRLnpmLgk
(Para ver o videoclip, clique no link. A função embeded do Youtube não está disponível)

One step inside doesn't mean you'll understand
Álbum Neon Golden, 2002
---------------------------------

Prepare your shoes not to come back soon
Prepare your heart not to stop too soon
You cannot walk with us

One step inside doesn't mean you'll understand
One step inside doesn't mean I'm yours

In your world my feet are out of step
And my arms won't move, my hands won't grab
I will never read your stupid map
So don't call me incomplete
You're the freak


andré

The Notwist



Pilot
Álbum Neon Golden, 2002
----------------------------------

He's living next to rails.
He can tell you things of different cars and trains.
Now he's trying the whole day to switch off time
by causing train-delay.

Could be enough if only he's the pilot once a day.

Not a word to compensate.
Not a sentence to describe this desperate state.
Not a Picture to compare.
We step into a room of opaque air.

Could be enough if only we are pilots once a day.



andré

quarta-feira, agosto 29, 2007

segunda-feira, agosto 27, 2007

Airport fan


Pormenor do aeroporto de Manchester

andré

sexta-feira, agosto 17, 2007

SER PORTUGUÊS II


evva

P. S.: Regresso na próxima semana. Até lá, bons mergulhos!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Liberdades formais, justiça social, Hugo Chávez e Putin

Alguns comentários, que reputo de algum interesse para o esclarecimento dos leitores, sobre um Editorial do PÚBLICO
Dedicou-me o director do PÚBLICO o seu editorial intitulado "Os deveres que a história impõe a Mário Soares". Permita-me que faça alguns comentários, que reputo de algum interesse, para esclarecimento dos leitores.
Em primeiro lugar, o título. Não me considero com nenhuns deveres para com a História, sobretudo com H grande. A história deixemo-la aos historiadores. Tenho deveres para com a minha consciência, isso sim, sempre tive, desde que comecei a fazer política, como diz, "há mais de 65 anos". Deveres para com a minha consciência e para com a minha Pátria, que para mim nunca foi uma flor de retórica, mas antes um imperativo moral que me conduziu à política. Sempre considerei a política como uma actividade nobre, talvez a mais nobre de todas, desde que exercida desinteressadamente, ao serviço da comunidade e das ideias que julgo melhores para Portugal.
Para além de sempre ter lutado pela liberdade, como reconhece - 32 anos antes e 33 depois do 25 de Abril, naturalmente em condições muito diferentes -, lutei contra a ditadura fascizante que nos oprimiu, contra o colonialismo, que nos custou, sobretudo após 1961, tantas humilhações e tantas vidas, tão inúteis, lutei e luto pela paz, pelo bom entendimento entre os Estados e as pessoas, sem discriminações, pela Europa, como uma entidade supranacional, e, no plano cultural, contra o obscurantismo, o dogmatismo, o espírito inquisitorial e contra todas as formas de intolerância.
Além de lutar pela liberdade, também sempre lutei em favor da justiça social e contra as profundas desigualdades que afligem, cada vez mais, as nossas sociedades ocidentais, para não falar das outras. Por isso sou socialista, não totalitário, partidário de um sindicalismo livre e do mercado, mas também de um Estado interventivo e justo que impeça e corrija, tanto quanto possível, as grandes desigualdades que o mercado, entregue a si próprio, sempre gera. Foi a isso que chamei, no Verão quente de 1975, socialismo em liberdade, para o diferenciar doutros modelos então em moda. Deve lembrar-se.

Sou liberal, no sentido político do termo, mas não no sentido económico. Nesse plano, sou profundamente crítico do chamado neoliberalismo e da globalização neoliberal que estão a arrastar o Ocidente e o mundo para um desastre fatal, que tenho esperança possa ser invertido, in extremis, a curto prazo. Sou crítico também da chamada democracia liberal, expressão nada inocente, que se tornou muito vulgar após o colapso do comunismo, para a impor como modelo urbi et orbi e a contrapor à democracia social, que deu os "trinta gloriosos anos" de progresso à Europa escandinava e ocidental (CEE).
É esta a minha posição, coerente comigo próprio, que, julgo, tanto lhe desagrada, e o leva, creio, a não querer compreender algumas minhas respostas ao Diário Económico, aliás no seguimento de outras que dei antes e dos artigos que regularmente escrevo, na imprensa portuguesa e estrangeira.
Quanto aos "tiques autoritários" do actual Governo. Lamento decepcioná-lo, mas não são mais do que isso, pequenos tiques. Querer empolá-los, comparando-os às arbitrariedades dos anos sem luz do fascismo, não só representa um inaceitável exagero como um dislate que compromete, por desafiar o senso comum.

Quanto ao problema das liberdades formais a que - diz - não atribuo importância, também está enganado. Salvo erro, fui dos primeiros a levantar essa questão, entre nós, nos anos
de brasa de 1974-75. Disse e escrevi então que as liberdades ditas formais, como a gíria marxista as classificava para lhes tirar importância, são essenciais. Porque sem respeitar as liberdades formais, as substanciais, que têm a ver com o bem-estar das pessoas, perdem muita eficácia e valor, como se viu.
Encerrar uma televisão para calar uma voz incómoda é intolerável. Estou de acordo consigo. Mas não foi esse o caso. Chávez limitou-se a não renovar uma concessão estatal, quando terminou a respectiva concessão, por fazer incitações à violência. O que é muito diferente. Sobretudo quando o Estado em questão foi já vítima de uma tentativa (frustrada) de golpe de Estado violento e o respectivo Presidente eleito, democraticamente, foi sujeito a uma tentativa (também frustrada) de assassinato.
Creia que para mim todos os ditadores são maus. Não gosto de ditadores. Mas não há uns bons e outros maus, consoante estão a nosso favor ou contra, no plano geoestratégico.
Quando tive responsabilidades políticas falei, obviamente, com muitos ditadores, que remédio. Numa escala de zero a vinte, acho que os encontrei de todas as naturezas. Dos chefes de Estado do Brasil, no tempo dos generais, a Mobutu ou a Kadhafi (hoje completamente branqueado), de Ceausescu a Tito ou Gromiko. Um homem político não pode ser nem vestal nem moralista. E falar - como é óbvio - não é mal que se pegue... Nem sequer com terroristas, se necessário. Veja como o seu admirado Bush tem falado, por interposta Condoleezza Rice, com todos quantos lhe parecem necessários, pertençam ou não ao "eixo do mal". No Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, na Coreia do Norte, no Irão...

Ocaso de Putin - e da Rússia - é mais sério e grave, porque, muito provavelmente, a Rússia vai alinhar - e oxalá o faça - numa parceria estratégica com a União Europeia. A Rússia foi humilhada e menosprezada, após o colapso do comunismo. Não deveria ter sido. Com Putin, quer se goste ou não, voltou a ser uma grande potência mundial, com a qual não se deve brincar aos mísseis. A menos que sejamos tão insensatos que queiramos atirar a Rússia, contra os nossos interesses, para o triângulo estratégico que pode vir a desenhar-se na Ásia: China, Índia, Rússia. Já pensou nessa eventualidade?
Finalmente não será inútil concluir com Bush, o flagelo maior deste nosso conturbado início de século. Acusa-me de ser antiamericano com a mesma sem razão com que outros (talvez mesmo o Senhor Director, não me lembro bem), no Verão quente de 1975, me acusavam - crime nefando! - de ser pró-americano.
Não. Não sou antiamericano. Não sou, de resto, contra nenhum povo. Sou contra as políticas de certos dirigentes, quando as considero nefastas e perigosas. Foi o caso de George W. Bush, cuja política denunciei - lembra-se disso - antes de ter invadido o Iraque. Medite agora nas consequências desse crime fatal. Pois bem, hoje cerca de 80 por cento dos americanos são críticos severíssimos de Bush e lutam desesperadamente por encontrar uma saída para o terrível imbróglio criado por ele. Não só para os EUA mas para todo o Ocidente, com destaque para o impasse em que tem permanecido a União Europeia, devido à subserviência e falta de coragem de bastantes dos seus dirigentes.

Permita-me que termine revelando-lhe o meu actual estado de alma. Estou muito pessimista quanto ao futuro próximo do mundo. Tudo vai mal. No plano político, desde logo, como hoje é evidente. Mas também no plano financeiro, onde os sinais de uma crise séria generalizada começam a multiplicar-se e a tornar-se muito preocupantes. Para não falar nas questões ambientais e na crise de valores que afecta, como nunca, o Ocidente.
Sabe donde julgo pode vir alguma razão de esperança? Vou surpreendê-lo. Precisamente da América do Norte, terminada a era Bush. Tudo vai ter de mudar, radicalmente, na substância e na forma. Seja qual for o novo presidente. E, com um pouco de sorte, poderá vir alguém capaz de redescobrir o velho pioneirismo e idealismo americano, na linha de um Wilson, de um Roosevelt, mesmo de um Eisenhower (quando teve a coragem de negociar a ameaça do complexo político-militar) ou de um Kennedy, da "nova fronteira". Alguém capaz de redescobrir, pela força das circunstâncias, o way of life americano, os velhos valores da solidariedade, da paz e da utopia, para represtigiar a América no mundo, ajudar a União Europeia a sair do impasse, dar força e sentido às Nações Unidas, lutar a sério, e sem retórica vã, contra a miséria e as pandemias que alastram no mundo, em favor de um ambiente são, dos direitos humanos, da liberdade e da justiça social.
Aceite, senhor director, os cumprimentos deste "ancião", que tende a ser visto como "a voz avisada, cheia de energia e experiência", para usar as suas próprias palavras.

Mário Soares, Ex-Presidente da República
in Público, 15 de Agosto de 2007


andré

terça-feira, agosto 14, 2007

Ser português… I

A propósito de uma interessante discussão a decorrer num blog aqui da vizinhança, apeteceu-me começar a escrever sobre algumas das características que nos distinguem, que nos tornam únicos, que fazem de nós Portugueses.
Porquê? Porque sim.

Se há característica que quase todos nós (portugueses) partilhamos é a dificuldade em sermos críticos. Confundimos com muita frequência crítica com opinião ou com avaliação negativa.
Adoramos dar opiniões, ou melhor, nós adoramos fazer com que os outros nos ouçam. Por isso interrompemos muitas vezes o discurso de quem fala, ou elevamos a nossa vós em relação à dos outros. Devido à ausência histórica de espaços públicos de discussão, a emissão de opiniões é uma urgência diária para cada português. Aliás, a minha ansiedade em escrever este post é reveladora disso mesmo.

A crítica é um acto de grande responsabilidade que exige estudo e reflexão sobre aquilo que se quer ou se acha relevante dizer. Ora o nosso discurso é muito mais marcado pela inspiração do que pela reflexão. E a maioria de nós não lê ou reflecte com profundidade de modo a formar uma opinião ou elaborar uma crítica. Fala com alguém cuja opinião respeita, e a partir daí, replica-a, quase sempre de forma indiscriminada.

A falta de preocupação com a consistência é particularmente evidente no Desporto, onde todos/as somos especialistas. Mas também o é na arte, na política, ou em qualquer outra área onde a subjectividade é maior.
Para os portugueses quase tudo é relativo, e como tal, é muito difícil de se provar ou demonstrar seja o que for. O Iluminismo não chegou ás nossas cabeças. Chegou sim às prateleiras, onde foi devorado e repetido, tal qual a retórica religiosa, que se ouvia e não se podia questionar.
Aqui reside a causa de uma das nossas instituições mais acarinhadas, o estatuto, que no nosso caso está relacionado com a posição social de quem opina ou critica, e não com o seu saber ou com a relevância da sua contribuição para o bem comum (o conceito de bem comum é quase desconhecido e como tal muito pouco respeitado).

Como quase ninguém sabe profundamente do que fala, para ser ter discípulos em Portugal não interessa ser consistente ou coerente. Tem é que se ser convincente e carismático. Não interessa tanto se aquilo que diz é correcto ou incorrecto, interessa é que soe bem, que seduza a audiência. Não é por acaso que na nossa história não há muitos filósofos ou cientistas. Temos sim muitos líderes, quase todos popularizados mais pela sua autoridade e menos pelas suas ideias.
E temos muitos poetas. Muitos. E ainda bem.

Não se pense que os nossos intelectuais são imunes a este fenómeno. Bem pelo contrário, são o seu espelho mais perverso. Como emitir opiniões sustentadas ou fazer críticas justas é pouco valorizado, alguns elementos desta classe de cidadãos dedicam-se geralmente ao exercício de opressão através da inteligência, isto é, em vez de tentarem partilhar o seu conhecimento, usam-no para evidenciar a ignorância dos outros, e para exibir a sua pretensa superioridade intelectual.
Uma vez que o conteúdo da crítica ou da opinião é quase sempre menos importante do que o estatuto a emite, a muitos dos intelectuais cristaliza ao fim de pouco tempo, o que só pode acontecer devido à falta de pessoas que os confrontem, ou seja, porque as coisas mudam pouco ou mudam muito devagar.

Eu acredito que as circunstâncias da nossa história favoreceram este estado de coisas. O nosso isolamento geográfico e a reduzida interacção (seja por invasões ou disputa do território) da maioria da população com outros povos e outras culturas (os árabes são anteriores à formação do pais, e os espanhóis são muito parecidos connosco), favoreceu todos aqueles que quiseram manter tudo na mesma e todos aqueles que não quiseram mudar.
Os descobrimentos, que podiam ter servido para abrir muitas cabeças, evidenciaram-se mais por aquilo que fizemos aos outros e não tanto pela influência que outros tiveram em nós. O país ficou igual apesar de África, da Índia, ou do Brasil.

Não creio haver mal algum em se ser displicente, incoerente, ou impulsivo nas opiniões que se emite ou nas críticas que se faz. Mas, como é óbvio, há que reconhecer que isso não torna ninguém mais inteligente ou conhecedor, bem pelo contrário.
Apesar de tudo, fascina-me a nossa liberdade face à razão. A forma consistente e constante como exercitamos a nossa incoerência. É assim, ponto final. E não há mais discussão.
É útil na poesia, ou no fado, onde os sentimentos e as emoções não necessitam justificação nem explicação. São só e tudo aquilo que interessa.
É um tema interminável para o humor, como o Herman José o demonstrou ao longo dos anos 80, e tal como o Gato Fedorento não se cansa de evidenciar na actualidade.
E é também um óptimo exercício, sobretudo para fugir a tentativas de normalizar e industrializar a forma como pensamos.
Mas nós estamo-nos a marimbar para a utilidade de tudo isto. Só queremos é fazer aquilo que nos dá na cabeça.


andré

sexta-feira, agosto 10, 2007

Saudades




if i told you things i did before
told you how i used to be
would you go along with someone like me
if you knew my story word for word
handled all of my history
would you go along with someone like me

i did before and had my share
it didn't lead nowhere
i would go along with someone like you
it doesn't matter what you did
who you were hanging with
we could stick around and see this night through

and we don't care about the young folks
talkin' bout the young style
and we don't care about the old folks
talkin' 'bout the old style too
and we don't care about our own folks
talkin' 'bout our own stuff
all we care about is talking
talking only me and you

usually when things has gone this far
people tend to disappear
no one would surprise me unless you do

i can tell there's something goin' on
hours seem to disappear
everyone is leaving i'm still with you

it doesn't matter what we do
where we are going to
we can stick around and see this night through

and we don't care about the young folks
talkin' bout the young style
and we don't care about the old folks
talkin' 'bout the old style too
and we don't care about our own folks
talkin' 'bout our own stuff
all we care about is talking
talking only me and you

and we don't care about the young folks
talkin' bout the young style
and we don't care about the old folks
talkin' 'bout the old style too
and we don't care about our own folks
talkin' 'bout our own stuff
all we care about is talking
talking only me and you
(repeat)
talking only me and you

talking only me and you
talking only me and you


Young folks
Peter, Bjorn and John
Álbum Writer's Block


andré

sábado, agosto 04, 2007

terça-feira, julho 31, 2007

Tributo




É assim que me lembro do Blow up.
A imagem pouco nítida a que ficamos reduzidos
no final. Nada é o que parece, mesmo (ou talvez
sobretudo) através das lentes de um bom fotógrafo.
E a beleza dos planos. E o charme da Vanessa Redgrave.
Não é dos meus filmes preferidos. Mas não me
consigo esquecer dele.

Foi o primeiro dos dois filmes que vi do Antonioni.
O Para além das nuvens não me entusiasmou tanto.
Mas a procura da beleza em tudo o que se mostra…
…essa estava lá também.

Se tudo correr bem, na próxima semana vou
preencher uma grande lacuna. Vou ver o Sétimo
Selo
, que será o meu primeiro Ingmar Bergman.

Entretanto, espero que não morra mais ninguém.


andré

segunda-feira, julho 30, 2007

domingo, julho 29, 2007

O meu Domingo



"San Gerolamo nello studio"
Antonello da Messina (1430-1479)


National Gallery, Londres


evva

sábado, julho 28, 2007

Obituário


Estou de luto*. O meu picador de gelo morreu ontem. Exaustão. Horas e horas a contribuir para a felicidade da cultura ocidental em intermináveis brindes. "À nossa", "ao Alberto João", "aos alemães que nunca mais chegam e se perderam no metro", "ao arroz de marisco", "e os gémeos polacos?", "aos jornalistas belgas", "à Clara, que atura festas de adultos sem se queixar", "aos alemães que finalmente chegaram (por acaso a rapariga é Croata)", "à Zita Seabra", "aos controleiros", "à União Ibérica", "Independência ou morte!", "ao Camané", "à bola de bacalhau", "aos galegos", "pim-pam-pum, cada bola mata um, lá em cima no Huambo...", "aos filófosofos libaneses", "ao bolo de mousse de chocolate", "às caipirinhas do Wouter", "aos Buraka Som Sistema", "e o gelado de lima?", "aos melhores amigos do mundo!". R.I.P..

evva

*Felizmente, a partir de terça-feira já posso adquirir o herdeiro. Temos de marcar a próxima festa para celebrar.

quinta-feira, julho 26, 2007

Banda sonora de um Verão inesquecível II



Pensar em você
(Chico César)

É só pensar em você
Que muda o dia
Minha alegria dá prá ver
Não dá prá esconder
Nem quero pensar
Se é certo querer
O que vou lhe dizer
Um beijo seu e eu vou só
Pensar em você

Se a chuva cai
E o sol não sai
Penso em você
Vontade de viver mais
E em paz com o mundo
E comigo

[Se a anterior 'Banda sonora de um Verão inesquecível' homenageava as viagens empoeiradas a caminho da Samouqueira, tão empoeiradas que ninguém conseguia adivinhar a cor do bólide, este tema de Chico César animou intermináveis discussões filosóficas sobre as potencialidades de janelas descidas e cabelos ao vento relativamente ao ar condicionado, por entre lagoas e vulcões adormecidos, sempre com a recomendação avisada de 'se uma vaca aterrar em cima do carro, arranquem-lhe o selo da orelha, ou não me pagam os estragos!', o que nos obrigou a conduzir constantemente de nariz no ar, com receio de ameaças bovinas caídas do céu. Manias...]


evva

Bang Bang...

A preparar visita ao novo Tarantino ao som do anterior:



I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down.

Seasons came and changed the time
When I grew up, I called him mine
He would always laugh and say
"Remember when we used to play?"

Bang bang, I shot you down
Bang bang, you hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, I used to shoot you down.

Music played, and people sang
Just for me, the church bells rang.

Now he's gone, I don't know why
And till this day, sometimes I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie.

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down...


evva

P.S.: I always shoot people down, I know. Não consigo evitar, está-me no sangue taurino.

quarta-feira, julho 25, 2007

Banda sonora de todas as estações



evva

O admirável "Plano Tecnológico da Educação"

«Jornalista: Sabes o que é que estás aqui a fazer?
'Aluno': Chamaram-me para uma publicidade - uma agência - e estou aqui, agora.

No mínimo, brilhante. Assisti, num misto de estarrecimento pré-comatoso e incredulidade delirante (a caminho da baba), à reportagem do lançamento do Plano Tecnológico da Educação (juro que é ipsis verbis). Um momento de ouro da SIC-Notícias. Graças à inspirada verve da repórter e à rara circunstância de observarmos José Sócrates sem rede e em postura coloquial, assisti, pela primeira vez na televisão, à queda de um mito. Entregue a si mesmo e ao seu sorriso de laca, o nosso Primeiro caiu do pedestal de enfatuamento saloio a que se habituou a dirigir-se aos «portugueses e às portuguesas». E caiu estrondosamente. Um estrondo mudo proveniente de uma performance penosa, quase aviltante. Foi patética a forma como José Sócrates reagiu atrapalhadamente às perguntas do jornalista, revelando uma plastificante falta de à-vontade e um sub-reptício enfado por certo tipo de perguntas lhe estarem a ser dirigidas - ao invés das perguntinhas da praxe que mais não passam do que deixas para um discurso pré-fabricado e pré-formatado.

Desassombradamente e de forma profissional, a jornalista soube ardilosamente desmontar a farsa – não só os alunos eram fictícios, contratados por uma agência, como tudo aquilo tresandava a show-off propagandista – e contar a história. Mas o facto da história ser mais do mesmo – propaganda barata sobre temas sérios elevados a utopias à lá Aldous Huxley – não me preocupa. O que me preocupa é eles – primeiro-ministro, ministros e responsável pelo emblemático Plano Tecnológico – acreditarem naquilo. O que me preocupa é eles acreditarem piamente que são aqueles meios – que supostamente corrigirão a mão azelha do professor que ao tentar desenhar um equilátero no quadro de ardósia lhe sai um T0 na Musgueira – que irão melhorar o ensino em Portugal. Pensar que são aqueles écrans espalhados pela sala de aula - mais o quadro mágico que desenha as figuras geométricas na perfeição, mais o programinha que indica logo quantos erraram - que irão resolver os problemas do ensino e substituir a «escola do passado» pela «escola do futuro». Pensar que a «escola do futuro» é aquilo. Um dos mais brilhantes professores que encontrei no antigo Preparatório, e em toda a minha vida, dava aulas de matemática num quadro de ardósia. Ali, na André de Resende (em Évora). Tinha uma caligrafia horrenda e um jeito para o desenho equivalente ao do Dr. House para a diplomacia. Era desajeitado e desorganizado. Odiava calculadoras. E, contudo, ensinou-me matemática como mais ninguém. E ensinou-me a gostar de matemática – mania que eu ainda hoje cultivo e aprecio. É inútil e escusado explicar isto ao Sr. Primeiro-Ministro e à Sra. Ministra da Educação. Pelo que se viu na reportagem, estúpido, até.


Carlos do Carmo Carapinha»

(via 31 da armada; sublinhados meus)

evva

terça-feira, julho 24, 2007

Banda sonora de um Verão inesquecível



[é o que dá estar submersa em trabalho com um sol maravilhoso e ameno a convidar-nos a outras paragens...]

evva

Deixa-me cá ver se eu compreendi

"Mulheres que querem fazer um aborto têm que ser atendidas em cinco dias, quando uma consulta de ginecologia pode demorar meses"

in Público, 23.07.2007, pag. 12.


Pois… Eu juro que entendo o problema, e a posição aparentemente radical do governo.
…mas ao fim de 9 meses já não vale a pena ter consulta, pois não?


andré

segunda-feira, julho 23, 2007

A não perder




Anna (Nina Kervel-Bey), protagonista de La Faute à Fidel, a minha heroína* do momento.

evva

*Reparem no pormenor da laranja descascada de faca e garfo. Adorável.

quinta-feira, julho 19, 2007

En Barcelona


Músico na catedral



Bairro gótico


Sagrada familia


Companhia de Gás


Casa Milà / La Pedrera


Fontes do Palau Montjuic


Parque Guell


Ensaio das Women Sing na igreja de Santa Maria de Pi


Panorâmica a partir do parque Guell


andré

terça-feira, julho 17, 2007

sexta-feira, julho 13, 2007

segunda-feira, julho 09, 2007

20 anos depois



Já passaram 20 anos desde que As montanhas ou esta Cidade nos encantaram. Eram Os Dias da Madredeus, uma experiência de 5 músicos, uns conhecidos outros nem por isso, que depois evoluiu para o mais popular fenómeno musical da música portuguesa contemporânea.
Acusados pelos mais conservadores de serem um meio termo (um rosé), os Madredeus foram para além do Fado com um som nostálgico e melancólico mas nem tão triste nem tão trágico. O ensemble que daí nasceu, e que entretanto se perdeu, trouxe-nos o Pastor, o Mar, as Ilhas dos Açores, o Pomar das Laranjeiras, a Cantiga do Campo, a Vaca do Fogo, e muitas outras coisas que deliciaram muita gente e deram origem uma enorme legião de fãs.
Depois do Espírito da Paz, não sei se foi o sucesso, a fixação na voz (que nunca foi o essencial) ou se foi outra coisa qualquer, que condenou o grupo à redundância e indulgência. Tornaram-se o clube dos adoradores da menina, agora senhora, e que entretanto mudou de voz, mais afinada, mais aguda, mais límpida, mais esterilizada.
Foi-se o acordeão e o violoncelo, perdeu-se a emoção e a intensidade.
Não era fado, e ainda bem. Mas o destino foi trágico. E triste.

andré

sexta-feira, julho 06, 2007

terça-feira, julho 03, 2007

segunda-feira, julho 02, 2007

sábado, junho 30, 2007

Cocorosie

Uma voz lá do sul falou-me que tinha escutado um canto novo.
Eu fiquei curioso e fui à procura…
E fiquei encantado.



Há mais no Youtube. Eu gosto bastante da versão ao vivo do By your side.

andré

sexta-feira, junho 29, 2007

A propósito de Herói, filme de Zhang Yimou



Há uns tempos atrás ficou escrito neste blog que toda a arte é inútil. E ainda bem.
Herói faz parte de uma moda recente que pretende dar aos filmes de artes marciais uma profundidade que eles nunca tiveram, nem (creio eu) ambicionaram.
O Tigre e o Dragão é talvez o único exemplo de uma revisão feliz do estilo, pois manteve-se fiel à estrutura simples deste tipo de histórias mas melhorando de sobremaneira a sua qualidade visual, acabando com o típica aspecto artesanal.
Sim. As cores e o cenário em Herói são muitas vezes belos e quase irreais. Mas são excessivos e muita das vezes supérfluos. Quem viu Segredo dos punhais voadores deve entender muito bem onde quero chegar.
Concordo. Quer a história que a narrativa são interessantes. Mas então para quê toda a parafernália à sua volta?
Depois há toda a entourage que me deixa sempre com a pulga atrás da orelha. Realizador, actor (Tony Leung) e actriz (Maggie Cheung) galardoados em Cannes, a actriz revelação (Ziyi Zhang), o compositor premiado em Hollywood (Tan Dun), Itzhak Perlman nos solos de violino, etc etc etc.
E depois há sempre o eterno problema da justificação da violência. Nos filmes de Bruce Lee a violência e o combate são o próprio contexto do filme, depois cada um faz o seu juízo sobre se gosta ou não. Mas desde que Matrix glorificou a câmara lenta e os planos imóveis, toda gente se esqueceu que o Jean Claude Van Damme já utiliza há muito a câmara lenta nos seus filmes de qualidade muito duvidosa.
E aqui reside o problema. Herói, Tigre e o dragão, Segredo dos punhais voadores e seus derivados não são mais do que versões mais requintadas e pretensiosas da mesma receita que Bruce Lee tornou famosa no ocidente. Pelo menos nessa altura não eram mais do que filmes de pancada…


Quem quiser ver um filme como deve ser, por favor não perca o Paris je t’aime, uma das mais belas homenagens ao cinema. E a Paris.

andré

domingo, junho 24, 2007

Libertango



Vou às Areias deleitar-me com um carneirinho assado e já volto para escrevinhar qualquer coisa.

evva

E agora para mais um momento musical



Glorioso!

andré

sábado, junho 23, 2007

Bom S. João!


Aqui fica a minha versão pessoal da canção mais ouvida na mais longa noite do ano, com uma correcçãozinha naquela gralha que todos conhecem:



Ai, ai, ai, não empurrem, ainda caímos todos ao rio

(foto Cidade Surpreendente)


São João, santo bonito,
bem bonito que Ele é, (bis)
com os seus caracóis d'ouro
e o cordeirinho ao pé. (bis)

Não há nenhum assim!
Pelo menos para mim...
Nem mesmo São José!

Santo António já se acabou
O São Pedro há-de acabar
São João, São João, S. João
Dá cá um balão para eu brincar.

Tam tam taram taram tam...


[repetir vezes sem conta, até a voz doer]


evva

Mais achas para a fogueira

Ora leiam o artigo do Robert Fisk no The Independent.
Escusado sera dizer que concordo 100 % com o que ele diz...

Joana

sexta-feira, junho 22, 2007

Bem me queria parecer…

"Instead of going to England or to another non Jewish country, many Jews decided to go to British mandate Palestine, where his majesty's government had promised them a homeland.
There was one problem however: there was already another people in Palestine who had been living there for centuries, namely, Palestinian arabs."

In World Stories: A house in Jerusalem, um podcast integrado no Documentary Archive da BBC World Service

andré

Silly season



evva

P.S.: O meu sabor preferido é chocolate, já se sabe, mas adoro um bom Gin Fizz.

terça-feira, junho 19, 2007

ORATIO IN L. CATILINAM PRIMA


Cícero acusa Catilina
(1882/1888)
Sala Maccari, Palazzo Madama (Senado Italiano)


IN SENATV HABITA

I. Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? quam diu etiam furor iste tuus nos eludet? quem ad finem sese effrenata iactabit audacia? Nihilne te nocturnum praesidium Palati, nihil urbis vigiliae, nihil timor populi, nihil concursus bonorum omnium, nihil hic munitissimus habendi senatus locus, nihil horum ora voltusque moverunt? Patere tua consilia non sentis, constrictam iam horum omnium scientia teneri coniurationem tuam non vides? Quid proxima, quid superiore nocte egeris, ubi fueris, quos convocaveris, quid consilii ceperis, quem nostrum ignorare arbitraris? O tempora, o mores!



I. Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes!


(tradução do padre António Joaquim)

Oh tempos, oh costumes! Uma das mais famosas frases de todos os tempos, foi pronunciada há mais de 2000 anos por Cícero, ao discursar perante o Senado de Roma e começando a destruir um tentativa de golpe de estado contra a República. Cícero confirmara os seus dotes oratórios quando sete anos antes, em 70 a.C., tinha conseguido que o corrupto governador da Sicília Caio Verres fosse impugnado mas agora, enquanto cônsul de Roma, o caso era mais grave.

A conspiração contra o Senado dirigida por Lúcio Sérgio Catilina, candidato vencido ao cargo de cônsul nas eleições de Julho de 64 a.C. assim como nas de 63, lugar-tenente de Sila durante a ditadura deste, antigo governador da província de África, amigo de Júlio César e de Crasso, os dois dirigentes do Partido Popular em Roma, tinha começado em Setembro de 63 a.C., após a realização das eleições e já tinha provocado reacções de Cícero e do Senado, mas o chefe da conspiração tinha conseguido até aí não ser incriminado.

Na noite de 6 para 7 de Novembro Catilina reuniu novamente os dirigentes da conspiração para acertar os últimos detalhes antes da nova tentativa de golpe, mas Cícero foi informado da reunião e das decisões aí tomadas e decidiu convocar o Senado para o Templo de Júpiter Estátor, no dia seguinte. Quando o chefe da conjura apareceu na reunião, Cícero ficou tão indignado que se dirigiu directamente a Catilina, acusando-o violenta e directamente, no primeiro de quatro célebres discursos - as Catilinárias -, que acabaram por convencer o incrédulo Senado da existência da conspiração e das culpas de Catilina. Mas neste primeiro discurso Cícero sabia que por lei não poderia condenar, nem mesmo mandar desterrar Catilina e por isso tentou que este saísse voluntariamente da cidade, o que de facto conseguiu. Em meados de Novembro Catilina entrou em revolta aberta e acabou por ser condenado à morte pelo Senado em princípios de Dezembro, após um discurso de Cícero - a quarta Catilinária - mas tendo recusado entregar-se foi morto em Janeiro de 62 a.C. no campo de batalha de Pistóia, o que lhe valeu um elogio de Floro: «Bela morte, assim tivesse tombado pela Pátria.»

evva

Cícero foi ontem assassinado. Estou de luto.



«Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos»



evva

Hurt



I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

[Chorus:]
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

[Chorus:]
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way


Composto por Trent Reznor, este tema foi incluído no album Downward Spiral (1994) dos Nini Inch Nails. Quando Johny Cash o gravou pouco antes da sua morte, em 2002, Reznor considerou-a «a song that isn't mine anymore»:


«I pop the video in, and wow… Tears welling, silence, goose-bumps… Wow. I just lost my girlfriend, because that song isn't mine anymore. … It really made me think about how powerful music is as a medium and art form. I wrote some words and music in my bedroom as a way of staying sane, about a bleak and desperate place I was in, totally isolated and alone. [Somehow] that winds up reinterpreted by a music legend from a radically different era/genre and still retains sincerity and meaning—different, but every bit as pure»

evva

domingo, junho 17, 2007

Ritual de domingo

não esquecer de ver o cartoon da maitema
(clique para aumentar)

























andré



Membros do Hamas no gabinete do presidente palestiniano Mahmoud Abbas






Palestinianos em fuga para... Israel


(fotos AP)


evva

Quelqu' un m'a dit...




On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose,
Elles passent en un instant comme fannent les roses,
On me dit que le temps qui glisse est un salaud,
Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux.

Pourtant quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore,
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore,
Serait-ce possible alors ? (refrain)

On me dit que le destin se moque bien de nous,
Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout,
Paraît que le bonheur est à portée de main,
Alors on tend la main et on se retrouve fou.

Pourtant quelqu'un m'a dit...

Mais qui est-ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?
Je ne me souviens plus, c'était tard dans la nuit,
J'entends encore la voix, mais je ne vois plus les traits,
"Il vous aime, c'est secret, ne lui dites pas que je vous l'ai dit."

Tu vois, quelqu'un m'a dit que tu m'aimais encore,
Me l'a t'on vraiment dit que tu m'aimais encore,
Serait-ce possible alors?

On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses,
On me dit que le temps qui glisse est un salaud,
Et que de nos tristesses il s'en fait des manteaux.

Pourtant quelqu'un m'a dit...

Quando vi pela primeira vez Carla Bruni cantar não pude deixar de me recordar da Françoise Hardy dos anos sessenta e setenta, a voz quase sussurrada acompanhada apenas por uns acordes de viola, o mesmo talento de songwriter, o corte de cabelo... Comparações à parte, é a melhor banda sonora para uma manhã chuvosa de domingo.

evva

sexta-feira, junho 15, 2007

L'amitié





Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leur coeur est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras

Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un un autre voudra te cacher sa tristesse

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon coeur à ton bois

Françoise Hardy (1965)

Letra: Jean-Max Rivière
Música: Gérard Bourgeois


evva

terça-feira, junho 12, 2007

Era mesmo isto














Foto: Arko Datta/Reuters hoje no site do Público

andré

segunda-feira, junho 11, 2007


O nosso representante em Leipzig aterra amanhã no Porto. Aceitam-se sugestões para o menu do banquete de boas-vindas. Vou já avisando que está excluído arroz de marisco, bacalhau com natas ou à brás, bolo de chocolate ou mousse de manga, já não há pachorra para estar sempre a fazer a mesma coisa, ok? E, para evitar protestos, a bola de bacalhau recheada vai ser servida como entrada.


evva

domingo, junho 10, 2007

Trilogia musical para um fim de tarde

Por volta das sete-e-meia, ainda pouco habituado ao sol a brilhar por estas bandas, saiu-me isto dos headphones











Há dias com sorte


andré

A Mon Seul Désir


Detalhe da tapeçaria La Dame à la Licorne
(Musée du Moyen Age, Paris)



evva

Comme une image



La beauté est comme un diamant qu'on ne veut jamais poli
Et qui reste toujours à l'intérieur.


andré




andré

Portugal, remorso de todos nós

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill. Poesias Completas (1951/1986), INCM.

[evva]





evva