quinta-feira, março 13, 2008

A bandeira mais premiada



Outras bandeiras haveria seguramente na sala, mas cada um usa a que menos o envergonha.

Sónia

Panero, sempre Panero

MUTIS

Era más romántico quizá cuando
arañaba la piedra
y decía por ejemplo, cantando
desde la sombra a las sombras,
asombrado de mi proprio silencio,
por ejemplo: "hay
que arar el invierno
y hay surcos, y hombres en la nieve"

Hoy las arañas me hacen cálidas señas desde
las esquinas de mi cuarto, y la luz titubea,
y empiezo a dudar que sea cierta
la inmensa
tragedia
de la literatura.

El que no ve (1980)

[evva]

O jornalismo israelita

Aqui.


Joana

terça-feira, março 11, 2008

In memoriam




Rogério Ribeiro
(1930-2008)

Sónia

O Bolhão é nosso



Assinem a petição em:

http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?ptratt&1

Com o meu agradecimento ao Vasco pelo vídeo.

Sónia

Cadeiras


" Em tempos idos, chamavam-se "cadeiras" - agora chamam-se disciplinas. Vejam como até uma cadeira pode ser um recurso didático inovador. Alguns usam o quadro interactivo como se fosse uma tela de projecção; Outros usam o "excel" para escrever texto; Outros usam embalagens de iogurte como se fossem godés, e azulejos e vidros como se fossem paletas. Outros usam os professores como se fossem arquitectos, designers, transportadores de material didático para a sala de aula... Outros usam arrecadações como se fossem salas de aula. Outros decoram as rotundas com pneus a fingir que são velas... Então, por que razão não haveria este professor de usar uma cadeira para esquadrinhar o desenho? Lá inovador é - TIC é que não se vê em nenhum lado da sala de aula. Oferecem computadores aos alunos (e as salas continuam a vê-los passar). Exigem que as aulas recorram às TIC e esquecem-se de um simples esquadro (para o quadro)! Mas nós é que vamos ser avaliados pelos recursos inovadores que usamos (incluindo as TIC)... Será este um excelente professor ou será que apenas está a transmitir aos seus alunos uma imagem de pouca exigência e de excessiva tolerância para com as condições de trabalho? Continuemos assim e estaremos a ensinar às moscas como se fossem alunos. Não acham que antes de se falar em "metas" e "objectivos", ainda há muita "meta" e muito "objectivo" por alcançar?
Se aquela cadeira estivesse na minha mão... E se alguém, que só eu sei, passasse à frente... Dava-lhe o lugar."  

(Paulo Duarte)
Sónia

The mysteries of love



Sometimes
A wind blows
And you and I
Float
In love
And kiss forever
In a darkness
And the mysteries of love
Come clear
And dance
In light
In you
In me
And show
That we
Are Love


… a propósito de Blue Velvet, onde este tema é interpretado por Julie Cruise. Eu prefiro esta versão do Antony and the Johnsons, retirada do EP I fell in love with a dead boy.
Música: Angelo Badalamenti. Letra: David Lynch.


andré

segunda-feira, março 10, 2008

MEEEEEEEE



Mais vale ser um cão raivoso 
do que um carneiro 
a dizer que sim ao pastor 
o dia inteiro 
e a dar-lhe de lã e da carne e da vida 
e do traseiro 
mais vale ser diferente do carneiro 
um cão raivoso que sabe onde ferra 
olhos atentos e patas na terra. 

Viva o cão raivoso 
tem o pelo eriçado 
seu dente é guloso 
e o seu faro ajustado 
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado. 

Mais vale ser um cão raivoso 
que um caranguejo 
que avança e recua e depois 
solta um bocejo 
e que quando fala só se houve a garganta 
no gargarejo 
mais vale não ser como o caranguejo 
um cão raivoso que sabe onde ferra 
olhos atentos e patas na terra. 

Viva o cão raivoso 
tem o pelo eriçado 
seu dente é guloso 
e o seu faro ajustado 
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado. 

Mais vale ser um cão raivoso 
que uma sardinha 
metida, entalada na lata 
educadinha 
pronta a ser comida, engolida, digerida 
e cagadinha 
Mais vale ser diferente da sardinha 
um cão raivoso que sabe onde ferra 
ferra fascistas e chama-lhe um figo 
olhos atentos e patas na terra. 

Viva o cão raivoso 
tem o pelo eriçado 
seu dente é guloso 
e o seu faro ajustado 
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado. 

Mais vale ser um cão raivoso 
dentes à mostra 
estar sempre pronto a morder 
e a dar resposta 
a toda e qualquer podridão escondida 
dentro da crosta 
dentro da crosta das belas ideias 
gato escondido de rabo de fora 
dentro da crosta das belas ideias 
gato escondido de rabo de fora.

"Cão Raivoso" de Sérgio Godinho, do album "À queima-roupa ", 1974 - interpretado por Tim ao vivo no Music Box (Preto no Branco) a 5 de Julho,2007

Sónia

ABC

O Ministério da Educação(ME) vem ensinar as "primeiras letras" aos professores... 
Na antevéspera da "Marcha pela Indignação" do passado dia 8 de Março, foi publicado pelo ME um documento intitulado "Avaliação do desempenho de professores - perguntas e respostas". Assim pretendem explicar um processo configurado legalmente num documento que, segundo o ME, os professores não entenderam. 
Não sei o que pesa mais naquilo que sinto perante isto: se a revolta por questionarem publica e impudicamente a nossa capacidade de compreensão, se a tentativa primária e insistente de desacreditação prévia de uma justíssima iniciativa de contestação, se a preocupação com o regresso aos tempos da propaganda oficial.
O documento pode ser lido aqui:


Eu continuo a "não entender"...

Sónia

Adão e Eva



Como recebeu ela Adão?
Despojou-o,
e o desflorou, ajudando?


Adão, brutal ou terno?
Acometeu, cervo
ou foi penetrante andorinha?


Arrancou de si
sementes, o coração
latindo, cão grato?


Felizes, torturantes,
aprendizes, falsos,
sortílegos, infames?


Inteiraram-se um no outro?
Desejaram a morte
de quantos séculos?


António Osório


[evva]

A Solucao:

A Rua

Até há uns dias atrás "a Rua" era coisa que pertencia ao passado. Ou como diz, o Pacheco Pereira, a um número restrito de habituées, de nostálgicos. Ou entao aos outros, um bocado primitivos, que, nao entendendo bem o parlamentarismo, ou nao tendo acesso ao dito, vinham para A Rua gritar por tudo e por nada, geralmente em nome de Allah. Pois parece que, e ainda segundo o Pacheco Pereira, a Rua voltou à rua. E o que tenho para dizer nao é tanto sobre a estrondosa manifestacao dos professores, sobre a qual os colegas bloguistas estarao infinitamente mais informados do que eu, mas da rua berlinense e do que nela vai. Também aqui a Rua pertencia à gente do costume: antifá, anti-alemanha, neo-nazis, comunidade gay, minorias, etc. Pois na última semana, a Rua voltou a receber os trabalhadores. Na semana passada, o sindicato dos transportes colectivos de Berlin decretou greve por tempo indeterminado (já dura há 6 dias) , isto é, até que sejam satisfeitas as condicoes reclamadas pelo sindicato. Em solidariedade com os trabalhadores do BVG, os trabalhadores dos comboios que circulam por Berlin (e que pertencem a Cp cá do sítio) resolveram decretar pré-aviso de greve a comecar hoje e também por tempo indeterminado. Perante o cenário de caos (coisa a que esta gente tem um horror patológico) que se avizinhava, a companhia dos comboios resolveu aceder às reivindicacoes dos trabalhadores do S-bahn e por isso os comboios ainda funcionam. Mas o metro continua assim:











Há tres dias atrás...

Há tres dias, andava metade de Portugal a fazer praia. Já nós por cá....






domingo, março 09, 2008

A Avaliação, por VPV

(clique na imagem para aumentar)

Público, 8 de Março de 2008.

[evva]

Porquê a rua? De como o PCP se tornou nos últimos tempos o principal partido da oposição

Mais um texto fundamental de Pacheco Pereira, no Público de ontem:

«O REGRESSO DA RUA

Há um ano, se alguém dissesse que a "rua" iria ser importante na política portuguesa, seria ridicularizado. Ou era comunista ou era um antiquado nostálgico do PREC ou, ainda pior, do Maio de 1968. Estava na moda a mania um pouco yuppie e reaccionária de pensar que isso das manifestações não interessava para nada, eram coisas de sindicatos e do PCP, que eram inócuas e que nenhum "decisor" sério, dos que enxameiam as páginas dos jornais de economia, as tinha em conta para alguma coisa. Deixá-los lá estar no seu nicho de arcaísmo, que é nos gabinetes que as coisas se resolvem.

Tudo isto é um pouco irónico porque hoje o país está suspenso de uma manifestação em que toda a gente está na rua, do PS de Alegre ao PSD. Até a parte PP do CDS-PP está na rua, a que mais nefelibata é sobre as manifestações, essas "coisas de comunistas", e vai lá sob a forma de uma minúscula associação de professores ligada ao partido. Para colocar a cereja no cima do bolo da "rua", até o Governo está a preparar uma contramanifestação daqui a uma semana, tentando arranjar uma sala suficientemente pequena para ter uma enchente e tecto e paredes grossas para não se ouvirem os assobios.

Se se estivesse atento aos sinais, percebia-se que a "rua" estava a encher-se de forma anormal, consistente, muito para além da força do PCP e da CGTP, há muito tempo. Ao mesmo tempo, também a força da central sindical pró-comunista e do último partido comunista a sério da Europa Ocidental estavam a aumentar porque não há uma coisa sem a outra. Era pelo menos óbvio que existia mobilização e essa mobilização estava a trazer para a "rua" primeiro gente da área que se tinha desmobilizado já há bastante tempo e, depois, gente nova, não em idade, mas na ida a manifestações.

Sempre maltratados pela comunicação social, que acha muito mais graça aos efeitos pirotécnicos do BE, sindicatos, grevistas e PCP continuavam a funcionar mais como um pólo de mobilização do que de atracção, mas, mesmo assim, com resultados num país que tem o "retrato social" de Portugal. Desde a táctica de desgaste de Sócrates, que ia dos assobios de meia dúzia de activistas à entrada deste para as suas sessões de propaganda e casting, estragando-lhe os cenários e o marketing, até à sucessão de greves para culminar em greves gerais, estava em curso um treino do clima de agitação. Com o agravar da crise social, com muita gente a empobrecer, a começar pela classe média, com conflitos corporativos suscitados pela linguagem das reformas apresentadas a cada grupo profissional como sendo "contra os privilégios injustos" do grupo profissional do lado, reformas com mérito feitas muitas vezes de forma incompetente e atabalhoada, com casos de abuso do poder, como o da DREN, com um ambiente de precariedade na função pública, as pessoas começaram a perder o medo, ou a ultrapassá-lo, e a perguntar a si próprias: "Por que razão é que não vou à manifestação, por que razão não faço greve, tão atingida, humilhada, desesperada que estou?" E faz greve e vai à manifestação.


Analisemos três momentos deste crescendo. Primeiro, a CGTP fez uma manifestação com cerca de 100.000 pessoas e continuou a indiferença. No tratamento noticioso valeu menos do que um anúncio da máquina de propaganda de Sócrates, menos do que um incidente parlamentar ou um caso de doença rara com que se metem as lágrimas nos telejornais. Nos blogues era o mesmo ambiente em pior, porque os blogues estão cheios de gente cuja classe social se acha acima destas coisas e conhecem pouco mais do que o Portugal das livrarias e das páginas de opinião. Mas as pessoas estavam lá, na "rua", elas pelo menos sabiam que eram muitas.

Segundo, atrás do núcleo duro do PCP e da CGTP, começaram a aparecer outras forças políticas, regionais e locais, a minar o PS por dentro, como aconteceu na contestação à política de saúde do Governo. As manifestações já tinham à sua frente autarcas do PSD e do PS e, facto decisivo, obtiveram uma enorme vitória: derrubaram na rua o ministro da Saúde. A contestação na educação não teria sido o que foi e é sem as pessoas terem a consciência intuitiva que podem de facto empurrar o primeiro-ministro para derrubar a ministra ou obrigá-la a ceder. Será difícil, mais pela ministra do que por Sócrates, mas este já mostrou que pode ser empurrado para um canto e no canto pede tréguas.

Terceiro, há a manifestação do PCP, também maltratada pela comunicação social, a primeira que o partido faz em seu próprio nome, debaixo das bandeiras vermelhas da foice e do martelo, com os manifestantes a mostrarem o cartão do partido em frente das janelas do Tribunal Constitucional. Foi como se fazia antigamente, antes da batalha, quando o comandante concentra as tropas de mais confiança, a elite, as falanges mais treinadas, a cavalaria pesada, queimados pelo sol de mil refregas, retirando-as ordenadamente do conjunto das tropas coligadas e juntando-as ao seu lado, para lhes falar ao espírito de corpo, gritarem uns gritos de guerra próprios e depois voltarem às fileiras comuns.

Era uma manifestação puramente política, algo que nenhum partido em Portugal seria capaz de fazer, com cinquenta mil pessoas a marcharem pelo PCP e pelo comunismo, uma coisa tão rara nos dias de hoje em todo o mundo que deveria suscitar toda a atenção e todas as análises, mas passou quase despercebida. Este facto não encaixa no quadro mental e comunicacional dominante dos dias de hoje, por isso é como se não existisse. E, no entanto, sem o ver, também não se vê o Portugal realmente existente e não aquele que nós pensamos em abstracto para o século XXI.

Para finalizar, o PS e o Governo resolveram mostrar quão grande era a contestação na "rua" mostrando quão pequena é a sua capacidade de mobilização: anunciaram uma contramanifestação pequenina, que todos os dias muda de sítio para encolher as paredes e parecer que é grande na televisão. Era para ser numa praça do Porto, é certo que uma praça muito pequena e bem fechada de limites, para passar depois para uma sala do tamanho de menos de metade da praça. Eu a pensar que um partido que está à frente nas sondagens e cujo primeiro-ministro ganha com facilidade o confronto eleitoral com a oposição não teria dificuldade em encher a Avenida dos Aliados de gente desde a câmara à Estação de S. Bento. Pelos vistos, teme não o conseguir e a sua fraqueza já concedeu a vitória aos adversários.

Seja como for, também o PS está na "rua", verdade seja dita que dos dois lados. O PS governamental vai para a rua, embora mais fraco do que o PS que vai estar na manifestação dos professores, ou que esteve nas manifestações contra Correia de Campos. Ora isto muda o caso de figura e representa a vitória da "rua" um ano depois do seu vilipêndio. Não é que o PS não tenha todo o direito de lá estar, mas é o facto, esse sim preocupante, de todos sentirem necessidade de lá estar. Isso é que parece o PREC, medidas as distâncias.

Estando Governo e oposição na "rua", frente a frente, estamos numa situação em que se vai para a "rua" por falência (ou inexistência) de mecanismos institucionais que impliquem mediações no processo político. Falência do Parlamento, em primeiro lugar, dos partidos, em particular do PSD, na oposição, e do PS como apoiante do Governo, falência de muitos instrumentos de mediação. Por isso é que, estando toda a gente na "rua", nem sempre se sabe como de lá sair.»

evva

sábado, março 08, 2008

Para reflectir

«O ZÉNITE E O NADIR


Hoje para os professores será o dia do Zénite. Hoje olhando-se uns aos outros, vendo as filas e filas de gente vindas de Vila Real de Santo António a Monção e Bragança, os professores sentirão aquela sensação de alegria que percorre os participantes duma manifestação bem sucedida. Sentirão força, alegria, trocarão entre si sinais de reconhecimento e identidade, beijos, abraços, palmadas nas costas, polegares no ar, colocarão uns aos outros autocolantes. As pessoas ficam "físicas" nas manifestações, de braço dado. Os mais treinados nestas coisas, que conhecem bem as "manifs", estarão mais calmos do que os novatos. Os novatos vão falar muito, gritar mais alto, sentir a "psicologia das multidões", uma novidade para eles. Será um dia em cheio para os professores, reconfortante e, quando nas suas camionetas regressarem a casa, cansados e com pena de não haver mais, pensarão na lição que deram à ministra e ao governo. Mas, com eles, viajará o Nadir.


Segunda feira voltarão às escolas, às aulas. Se a ministra não for demitida, ou se demitir, começa a ressaca do sucesso, vai parecer pouco o que com tanto esforço foi conseguido. Se os professores estivessem dispostos a entrar em greve, a "rua" poderia ter tido um papel de uma etapa de luta para outra. Mas duvido que os professores tenham a unidade, a força, a disposição, a resistência psicológica e financeira que são necessárias para uma greve que só seria eficaz se fosse prolongada, sem fim à vista, dura e intransigente. Mas todos sabem que uma coisa é ir a uma manifestação neste momento, outra fazer greve. E por isso a sensação de vitória vai-se azedar pouco a pouco, dar origem a mais do mesmo que hoje assalta muitos portugueses: uma sensação de impotência, de que não vale a pena fazer nada, de derrotismo e ou apatia ou agressividade.Escrevo hoje no Público sobre a "rua" e termino dizendo que quando se vai para a "rua" tem que se saber como se sai dela. Em democracia, quando se vai para a "rua", local nobre e legítimo do protesto, tem que se saber que não se pode continuar nela sob pena de então as coisas estarem muito mal para a democracia. Duvido que nesta luta dos professores exista um plano B. O plano A resultou, está à vista hoje. Podia haver um plano B para 2009, no voto, mas duvido que quando lá se chegar exista uma alternativa no domínio político para o materializar. Por isso temo que disto tudo resulte pouco mais do que desespero apático, ou asneira agressiva. Vamos ver.

© José Pacheco Pereira»


[evva]

sexta-feira, março 07, 2008

Crosswords

You Are a Crossword Puzzle
You are well read, and you have a good head for remembering facts.
You are a wordsmith. You have a way with words, and you're very literate.
You are a mysterious person who enjoys dropping little clues every now and then.
What'>http://www.blogthings.com/whatkindofpuzzleareyouquiz/">What Kind of Puzzle Are You?


evva

Francisco José Viegas


Ontem visitei uma escola no concelho de Sintra. Era a “semana da leitura” numa escola cuja biblioteca está permanentemente aberta das 08h00 às 22h00 por devoção dos seus professores. Os de várias disciplinas, de Português a Educação Física e Geometria – cada um faz uma escala para garantir um dos objectivos internos da própria escola: mantê-la aberta nesse período. Havia alunos a ajudar no bar e no refeitório, porque não há pessoal suficiente. Alunos, funcionários administrativos e professores promoveram uma maratona de leitura. A ministra da educação pede a estes professores para “trabalharem mais um pouco”, coisa que eles já fazem há bastante tempo; ouvi alunos portugueses, africanos, indianos, do Leste europeu, a falar com orgulho da sua escola. Falando com eles, um a um, percebe-se entusiasmo em várias coisas. Acho natural, são professores. Percebo pela blogosfera uma grande vontade de fazer “justiça pelas próprias mãos” aos professores, mas vejo poucas pessoas com disponibilidade para ouvi-los nas escolas – não nas ruas, onde as parvoíces são sempre amplificadas, mas nas escolas, nos corredores da escolas, quando fazem turnos de limpeza, quando atendem alunos em dificuldade ou fazem escalas para Português como língua estrangeira para rapazes ucranianos ou indianos que não entendem sequer o alfabeto ocidental, ou quando tratam dos problemas pessoais de alguns deles (ou porque não tomam o pequeno-almoço em casa, ou têm dificuldade em aceitar um namoro desfeito, ou andam na droga). Os professores, estes professores, são um dos últimos elos (percebe-se isso tão bem) entre os miúdos e miúdas desorientados e um mundo que é geralmente ingrato. São avaliados todos os dias pelo ambiente escolar, pelo ruído da rua, pelas horas de atendimento, pelas reuniões que o ME não suspeita. Muitas vezes, as famílias não sabem o ano que os miúdos frequentam; não sabem quantas faltas eles deram; não sabem se os filhos estão de ressaca. Os professores sabem.
Essa vontade de disciplinar os professores, eu percebo-a. Durante trinta anos, uma série de funcionários que abundou “pelos corredores do ME” (gosto da expressão, eu sei), decretou e planeou coisas inenarráveis para as escolas – sem as visitar, sem as conhecer, ignorando que essa geringonça de “planeamento”, “objectivos”, princípios pedagógicos modernos, funcionava muito bem nas suas cabecinhas mas que era necessário testar tudo nas escolas, que não podem ser laboratórios para experiências engenhosas. Muitos professores foram desmotivados ao longo destes anos. Ou porque os processos disciplinares eram longos depois de uma agressão (o ME ignora que esses processos devem ser rápidos e decisivos), ou porque ninguém sabe como a TLEBS é aplicada. Ninguém, que eu tivesse ouvido nas escolas onde vou, discordou da necessidade avaliação. Mas eu agradecia que se avaliasse também o trabalho do ME durante estes últimos anos; que se avaliasse o quanto o ME trabalhou para dificultar a vida nas escolas, com medidas insensatas, inadequadas e incompreensíveis; que se avalie a qualidade dos programas de ensino e a sua linguagem imprópria e incompreensível. Sou e sempre fui dos primeiros a pedir avaliação aos professores, porque é uma exigência democrática e que pode ajudar a melhorar a qualidade do ensino. Mas é fácil escolher os professores como bodes expiatórios de toda a desgraça “do sistema”, como se tivessem sido eles a deixar apodrecer as escolas ou a introduzir reformas sobre reformas, a maior parte delas abandonadas uns anos depois. Por isso, quando pedirem “justiça”, e “disciplina” e “rigor” (coisas elementares), não se esqueçam de visitar as escolas, de ver como é a vida dos professores, porque creio que se confunde em demasia aquilo que é “o mundo dos professores” com a imagem pública de um sistema desorganizado, oportunista e feito para produzir estatísticas boas para a propaganda.
»

[evva]