quarta-feira, março 26, 2008
A propósito de guitarras
Comecei a ouvir os Dire Straits com o Brothers in Arms e o Money for Nothing, e ficava fascinado com a forma estupidamente simples com que o Mark Knopfler tocava tão bem guitarra. Quando os fui ver a Alvalade já na década de 90 as coisas aproximavam-se do fim e a banda acabaria uns anos mais tarde.
Hoje sei que quando os ouvi pela primeira vez já o fim tinha começado pois após o álbum ao vivo Alchemy em 1984 nunca mais os Dire Straits conseguiram criar. Passaram apenas a reproduzir.
É a sina de muitos. Mas dá pra viver bem.
Há uns tempos atrás voltou-me a vontade de os ouvir. Peguei nos cds que ainda valem a pena e regressei a 1978, na altura em que a guitarra era pura e limpa e a música era simples e honesta.
Começava assim:
andré
terça-feira, março 25, 2008
Desafio
Sónia
Do Oriente
evva
E no Ensino Superior, que tal?
«Todo o país viu as imagens e fala no caso da agressão da aluna da Carolina Michaëlis à sua professora de Francês. A atitude é de unânime condenação, embora eu desconfie que alguns estudantes da faixa etária da agressora possam considerá-la uma heroína e, em certos casos, tenha já «molhado o pão» no apetitoso lombo de outro infeliz docente (ou, pelo menos, tenha sentido uma quase-irreprimível vontade de o fazer). Têm sido distribuídas as culpas por toda a gente, colocando-se por vezes a agressora – que não deixa de o ser pelo facto de não ter batido na cara da professora – numa posição protegida de «vítima do sistema» que lamentavelmente perdeu a compostura. Sem querer insistir no que tem sido dito (um largo leque de posições pode ser encontrado na caixa de comentários de um post de Daniel Oliveira), chamo a atenção para algumas coisas que me perturbaram particularmente e que estão para além da agressão em si. São elas a cumplicidade ou a inacção do conjunto da turma, a falta de uma reacção decidida da professora, a não-apresentação imediata de queixa, a incapacidade da direcção da Escola para tomar medidas claras e prontas (e depois para esclarecer devidamente a opinião pública), a revelação de uma sucessão de casos análogos ou piores entretanto silenciados, o facto da esmagadora maioria das vítimas destes casos serem mulheres, o silêncio conivente dos pais dos jovens agressores (que terão a dizer disto as sempre tão buliçosas «comissões de pais»?). E ainda a real responsabilidade dos governos que têm vindo a retirar prestígio e autoridade aos professores.
O caso leva-me a reflectir sobre a minha própria experiência, e a falar aqui de um assunto que permanece tabu, ainda que falado entre dentes, com sinais de vergonha, por professores, agora do ensino superior, que não sabem o que fazer e começam também a temer o pior. Dou aulas numa universidade desde 1981, e, naturalmente, ao longo de todos estes anos tenho-me confrontado, na relação mantida com dezenas de milhar de alunos, com comportamentos muito diferenciados no espaço das aulas. Apesar dessa diversidade, e tendo conservado sempre uma relação nada autoritária com a generalidade deles, jamais tive o menor problema disciplinar. Tanto quanto sei, a mesma coisa se passava com quase todos os meus colegas (as raríssimas excepções ficaram quase sempre a dever-se a atitudes de incompetência ou de arbitrariedade). Quando começaram a suceder-se os problemas disciplinares nas escolas secundárias, estes não se reflectiram logo nas universidades, presumindo-se sempre que os estudantes entretanto «cresceriam» e manteriam já comportamentos responsáveis quando chegassem aos nossos anfiteatros.
Mas tudo mudou há cerca de dois ou três anos atrás. A verdade é que, após as sucessivas vagas de alunos com deficiente formação científica imposta por programas e métodos no mínimo discutíveis, começaram a chegar às escolas superiores estudantes com uma quase nula formação cívica e frágil capacidade de autoresponsabilização. E, pela primeira vez, eu e muitos colegas - com toda a experiência de anos de trabalho, com todo o prestígio que a maioria acreditava ter conquistado para a vida - começámos a ter problemas: alunos que conversam sistematicamente durante as aulas, que chegam atrasados todos os dias, que entram e saem sem uma palavra, que não desligam o telemóvel, que se dirigem ao professor de forma impertinente, que exigem facilidades confundidas com direitos sem cumprirem deveres, que em muitos casos nem sequer distinguem claramente as competências de quem ensina e as suas próprias obrigações. Falta o último passo que, ao que se vê, no ensino secundário há já muito tempo foi dado: transformar as aulas num campo de batalha. Este passo não é inevitável: quero acreditar que, a ser bem aplicado, o previsto sistema de tutorias possa ajudar a melhorar os processos de responsabilização e a articulação entre a vida e a escola, como quero acreditar que a ampliação dos cursos de 2º e 3º ciclo traga para a vida nas escolas superiores pessoas mais amadurecidas e tolerantes. Como acredito nos alunos interessados, empenhados e até afectuosos. Mas temo que, entretanto, algo de mau possa acontecer.
Claro que a maioria dos estudantes universitários - sei-o por tentar andar de olhos abertos e graças a uma sucessão de óptimas experiências pessoais - não se enquadra neste cenário de catástrofe anunciada. A maioria dos alunos do secundário, acredito, também não se adequará a ele. Só que aos outros, aos elementos de uma minoria a quem é permitido protagonismo, o sistema educativo em vigor e as políticas que estão a ser aplicadas, minando a centralidade do professor na escola como na sociedade, conferem um grau de manobra cada vez mais perigoso. Que o meio social envolvente observa demasiadas vezes com um encolher de ombros.
P.S. - Pouco deve interessar, em casos como aquele que desencadeou o actual debate, o desculpabilizador discurso pedopsi sobre o telemóvel enquanto prótese. A admissibilidade do seu uso imoderado começa quase sempre em casa e apenas é possível porque, daí até à escola, tem sido mantida toda uma rede de permissibilidade que não deixa muitos jovens perceberem (ou não os obriga a perceberem) que existe uma dimensão de sociabilidade moderadora da utilização lúdica ou produtiva da máquina, de qualquer máquina. Que há vida para além dela. »
evva (sublinhados meus)
Um hino à '(des)educação*'
A situação é grave, muito grave. A forma como o novo Estatuto do Aluno tem vindo a ser propagandeado - eficaz arma de combate à indisciplina -, só nos pode deixar inquietos, se conseguirmos evitar não rir.
Já há algum tempo, meses até, exactamente a partir do momento em que se começou a falar deste novo Estatuto, que os alunos perguntam 'Então agora podemos faltar à vontade que não reprovamos?', ao que se responde continuamente 'Claro que não, o novo Estatuto ainda não entrou em vigor'.
Os alunos do Ensino Secundário anseiam diariamente por este Estatuto. Só quem está totalmente alheado da selva em que se tornaram as nossas escolas pode proclamar que esta nova forma de cabulice institucional melhorará o comportamento dos alunos nas aulas.
Mas o mais grave que a divulgação das recentes imagens provocará, quando na próxima segunda-feira recomeçarem as aulas, é a repetição destes comportamentos 'por imitação', se não forem tomadas medidas urgentemente exemplares. Foi esta uma das razões que nos levou à decisão de não divulgarmos aqui as imagens do Carolina Michaelis (uma escola com pergaminhos mas que quase nunca protegeu os professores em situações de indisciplina e agora vê o seu nome ser arrastado na lama do sistema educativo português), para além da preservação da identidade da colega (poderia ser qualquer um de nós). Poderá acontecer a qualquer um.
evva
Foi por estas e por outras...
que me des-sindicalizei (façam o favor de registar o neologismo que não é decerto da minha autoria, tal a quantidade de vezes que já o ouvi):
"Lidar com indisciplina não é uma prioridade."
Mário Nogueira, secretário geral da Fenprof, "Diário de Nóticias", 25-03-2008
(via 'A frase do dia', Público)
evva
"Dá-me o telemóvel, já!". Por Mário Crespo
No Jornal de Notícias de ontem, 24 de Março de 2008:
evva
segunda-feira, março 24, 2008
Encontramo-nos em Nenhures?

Pouco conformável a textos dramáticos preexistentes, e aprofundando um trabalho que tem passado sobretudo por autores de língua portuguesa (destaque para as recentes colaborações com o angolano Ondjaki), o Teatro Bruto convidou Daniel Jonas (n. 1973) – poeta e autor de uma surpreendente tradução do Paraíso Perdido de Milton – a informar as inquietações artísticas que atravessam o trabalho da companhia. Cultor de um imaginário luxuriante, Daniel Jonas estreia-se na escrita dramática tecendo uma desregrada comédia de enganos, autêntica máquina de emaranhar paisagens ou caixa de ressonância de múltiplas inspirações. Encenado por Ana Luena, Nenhures explora a deriva de Tristão, o amante destroçado que empreende uma viagem de Inverno por um mundo exterior que não é senão a equívoca projecção do seu mundo psíquico. Mas essa pátria simultaneamente melancólica e demencial chamada Nenhures é também o espaço de uma euforia psicodramática, em que as personagens se desdobram em alter-egos vários, e o tempo de uma excêntrica reflexão sobre a acção teatral.
[evva]
domingo, março 23, 2008
Um bom Domingo de Ressurreição
E PARA QUANDO A AVALIAÇÃO DOS PAPÁS?
Por Ferreira Fernandes, no DN de 21/03/2008:
«O Carolina Michaëlis, que já teve o belo nome de liceu, não serve os miúdos do bairro do Aleixo, no Porto. Não, aquele vídeo (...) não mostra gente com desculpas fáceis, vindas do piorio. Pela localização daquela escola, quem para lá vai vive às voltas da Boavista e os pais têm jantes de liga leve sem precisar de as gamar. Os pais da miúda histérica que agride a professora de francês estarão nessa média. Os pais do miúdo besta que filma a cena, também. Tudo isso nos remete para a questão tão badalada das avaliações. Claro que não me permito avaliar a citada professora. A essa senhora só posso agradecer a coragem. E pedir-lhe perdão por a mandar para os cornos desses pequenos cobardolas sem lhe dar as condições de preencher a sua nobre profissão. Já avaliar os referidos pais, posso: pelo visto, e apesar das jantes de liga leve, valem pouco. O vídeo mostrou-o. É que se ele foi filmado numa sala de aula, o que mostrou foi a sala de jantar daqueles miúdos.»
evva
sábado, março 22, 2008
sexta-feira, março 21, 2008
A propósito de mais um jornalista morto na Rússia…
A história tem destas coisas, repete-se com outros rostos e outros personagens.
Depois de alguns anos de raiva contida, a Rússia está de volta ao seu lugar de destaque que só dificilmente voltará perder. É assim a corrupção do poder. Torna refém todos aqueles
que o possuem. E a Rússia, tal como os EUA, a Inglaterra, a França, ou a emergente Europa, já não conseguem viver sem ele.
Mas o poder é irónico e cínico. O renascer da Rússia faz-se com as mesmas armas que os seus adversários usaram contra ela. E tal como eles, ela usa-as à sua maneira.
Talvez agora o cidadão Europeu consiga ver a imagem que há muito aparece do lado de fora da janela de sua casa. Aquela que vê o cidadão dos países africanos, sul americanos, ou asiáticos. Aquela que mostra que o capitalismo foi, e ainda é, um projecto Europeu e Norte Americano que serviu para solidificar interesses de ambos.
Mas agora que outros se servem dele, a imagem começa, de repente, a não parecer tão bela.
Pois é, afinal o desenvolvimento da democracia não depende apenas do desenvolvimento do capital. Que chatice.
Não chegaram décadas de Estado social para se entender isto, e agora, que o Estado social é posto em causa pela cultura empresarial, tudo o que somos capazes de pensar é em ser ainda mais competitivos. E claro, lamentar a nossa sorte: como é que os outros não percebem que é melhor para todos jogar o jogo com as nossas regras?
Se a história for muito longa para que se entenda a lição, então uma simples referência ao desporto deve chegar para fazer compreender que qualquer equipa gosta mais de ganhar do que perder, mesmo quando joga a brincar, o que não é o caso presente.
Como bom português, eu continuo a alimentar a esperança (ou ilusão se achar mais adequado) de que Vladimir Puttin pertence à equipa dos pragmáticos e sensatos e, como tal, sabe que para se ganhar um jogo, tem de haver adversários.
Agora resta saber quais as novas regras que a sua equipa quer impor. Ora, pelas amostras que temos visto…
andré





