segunda-feira, fevereiro 27, 2006

ANDAR DE AVIÃO


Gosto muito de andar de avião. Mesmo muito.

Pensava que era pelas imagens. Para alguém fascinado pelas nuvens, estar ao lado delas é como estar em casa. E para quem anda com a cabeça no ar, estar no mesmo sítio onde a cabeça costuma estar é sem dúvida confortável.
Ainda não sei se prefiro ver um céu com ou sem nuvens. Ver a terra do ar é como uma imagem de satélite ou uma daquelas plantas de arquitectura paisagística. Mas as nuvens têm formas incríveis e sempre diferentes.
Mas já não passo assim tanto tempo a olhar para fora e o tempo a bordo é cada vez mais utilizado para ler, ouvir música, dormir ou até trabalhar.

Gosto muito de tudo o que tem a ver com andar de avião. Acho os aeroportos fascinantes. Quanto maiores são mais eu gosto deles. O movimento, as pessoas, a complexidade, os aviões, a luz, as mangas. É tudo muito diferente do nosso dia-a-dia.
O problema é que não conheço tantos aeroportos como gostaria e, para quem descola do Porto, Frankfurt torna-se uma passagem tão frequente que começa gradualmente a perder a piada. Ainda não conheço Heathrow nem o JFK, passei pelo Charles de Gaulle a correr e acho que vai demorar até ir aos alucinantes aeroportos asiáticos de Singapura, Tóquio ou Hong Kong.

Desculpem mas acho muita piada ao serviço de comida a bordo por muito fraco que seja. A Lufthansa tem uns copos de plástico muito elegantes, uma comida simpática e vinhos que se conseguem apreciar. Por isso não acho piada à Ryanair. Mas o que é que isso interessa quando se paga 50 euros por uma viagem a Paris?

Gosto da emoção da descolagem e da aterragem e fico com um sorriso completamente infantil quando, já no ar, vejo um avião a passar perto do meu. Esta situação não muito comum permite-nos apreciar melhor a velocidade e dá uma imagem estranha de um corpo imperceptivelmente suspenso no ar.

Mas o que mais me agrada é a sensação de sair e de me encontrar a seguir num sítio diferente. O facto de o fazer através de aviões e aeroportos só reforça ainda mais o meu fascínio de estar quase sempre no ar. A imaginar.

andré

sábado, fevereiro 25, 2006

Poema VIII

A pedido de várias famílias:

VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em rancho pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos
Vira uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
........................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.........................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


Alberto Caeiro

evva

A arca do guardador de rebanhos

Quando me sentei hoje frente ao computador, a minha intenção era escrever algo que acalmasse a fúria provocada pelo visionamento do mais recente Spielberg e a sua retórica moralista. Mas mergulhei a fundo no espólio de Alberto Caeiro, disponibilizado esta semana no site da Biblioteca Nacional, «até me doerem os olhos», e ainda não consegui regressar à superfície...

Qual Munique!? Até deixei passar sem me importar a hora do lançamento do último livro de crónicas do Lobo Antunes na Fundação Eugénio de Andrade. Claro que procurei imediatamente o Poema VIII, demasiado longo, neste formato, para colocá-lo aqui no blog. Escolhi a página onde se encontram os últimos versos, o Poema IX, na íntegra, as duas primeiras estrofes do Poema X, outro dos meus preferidos, e a página seguinte, com as estrofes finais e os Poemas XI e XII. Deliciem-se.

evva

Brokeback Mountain, by Annie Proulx

Antes de ver o filme, leiam o conto, publicado pela primeira vez na New Yorker, em 1997. Vale a pena.

Para verem o que se perdeu na adaptação cinematográfica. destaco apenas um pormenor, a fazer toda a diferença. Depois de um afastamento de 4 anos, Jack e Ennis reencontram-se, acabando a noite num motel. It´s the intimate talk after sex: «Ennis pulled Jack's hand to his mouth, took a hit from the cigarette, exhaled.». Um andamento em três tempos, perfeito. A terminar num verbo que prolonga a frase numa respiração. Mas não me lembro de ver no filme de Ang Lee a acuidade em filmar estes pequenos detalhes que faz os grandes realizadores e que encontro sempre em Manoel de Oliveira, por exemplo, nomeadamente numa cena do Vale Abraão em que uma personagem acende um cigarro no de outra e que é um dos melhores momentos do seu cinema. Talvez Ang Lee não tenha tido tempo de se demorar nestes detalhes na sua ânsia de querer contar os 20 anos da relação de Ennis e Jack, e optou por passar rapidamente sobre pormenores que valeriam todo um filme. Mas eu gosto do cinema que se demora.

[link via Cinema2000]


evva

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

It takes two for tango el sur


Tango for two

óleo de Olga Sinclair (2001)

Este tango de Astor Piazzola, com letra do realizador Fernando Solanas, foi em tempos a banda sonora dos meus dias. É o meu tango preferido. Se bem que atravesso um momento lunar, como está um magnífico dia de sol no Porto dedico-o aos amigos a viver na cinzenta Europa central, a contar os dias para o regresso ao Sul:

El Sur

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Llevo el Sur,
como un destino del corazon,
soy del Sur,
como los aires del bandoneon.

Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al reves,
busco el Sur,
el tiempo abierto, y su despues.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.

Te quiero Sur,
Sur, te quiero.

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor,
vuelvo a vos,
con mi deseo, con mi temor.

Quiero al Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llevo el Sur,
te quiero Sur,
te quiero Sur...

Rua de Cima do Muro

José Paulo Andrade

Ruas do Porto

evva

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Os melhores diálogos do cinema II

Das muitas passagens que poderia destacar de Magnolia, obra-prima de Paul Thomas Anderson, esta conserva-se sempre na memória, mesmo involuntariamente, muito depois do filme ter terminado:

[singing along to Aimée Mann's "Wise Up"]

«Claudia Wilson Gator: It's not / What you thought / When you first began it / You got / What you want / Now you can hardly stand it though / By now you know / It's not going to stop

Jim Kurring: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up

Jimmy Gator: You're sure / There's a cure / And you have finally found it

Quiz Kid Donnie Smith: You think / One drink / Will shrink you 'til you're
underground / And living down / But it's not going to stop


Phil Parma: It's not going to stop

Earl Partridge: It's not going to stop / 'Til you wise up


Linda Partridge: Prepare a list for what you need / Before you sign away the deed / 'Cause it's not going to stop



Frank T. J. Mackey: It's not going to stop / It's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop / 'Til you wise up / No, it's not going to stop

Stanley Spector: So just... give up»

evva

P.S.: Há ainda aquela frase de Claudia, depois de ter saído com Jim, na que é para mim a melhor cena do filme. Uma actriz em estado de graça: «Now that I've met you, would you object to never seeing me again?». Foi inspirada na canção "Deathly" ("Now that I've met you / Would you object to / Never seeing / Each other again"), de Aimée Mann.

De tarde

Giorgio de Chirico

L'énigme de l'arrivée et de l'après-midi

(1911-1912)


evva

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Sem comentários

Eis o registo on-line do Ms. 2594 da Biblioteca Nacional de Viena, convenientemente intitulado "A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal". Atentem, por favor, no pormenor 'sprache...':


[1 Cod. 2594, Wien, Österreichische Nationalbibliothek

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1.1
Registereintrag & Text, A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal


Registereintrag & Text

Sprache: spanisch

Beziehung zum lit. Werk: Abschrift

GI-Sachtitel: A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do santo Graal

Literaturgattung: Poetae et oratores hispani et lusitani]


evva

domingo, fevereiro 19, 2006

Contagem decrescente



O meu destaque vai para a retrospectiva do expressionismo alemão de Fritz Lang e Murnau. Espero conseguir sobreviver à legendagem em castelhano...

evva

P.S.: Amigos da mouraria, já sabem que podem pernoitar cá em casa.

sábado, fevereiro 18, 2006

As Portas do Paraíso II

Chema Madoz

[evva]

As Portas do Paraíso

Chema Madoz (s/t, 1992)

[evva]

Bahaus


Uma das minhas bandas favoritas de sempre actuou hoje no Porto. Confesso que não pensei sequer em reservar bilhete.

Deixei-me de lirismos há uns anos, depois de uma série de desilusões com bandas que actuam em Portugal já passado o prazo de validade. The Waterboys sem violino não são os Waterboys, entendem? Podiam ao menos ter arranjado alguém que substituísse o violinista naquele concerto do Hard Club... Foi a gota de água.

O tempo não volta atrás. Prefiro pôr a rodar os velhinhos discos de vinil e voltar a saltar bem alto com o Kick In The Eye, ou dançar o Bela Lugosi's Dead com aquele ondear com que o Peter Murphy nos interrogava no teledisco. Ou ainda gritar o The Passion Of Lovers até enrouquecer. Há letras que nunca se esquecem:

She had nut painted arms
That were hers to keep
And in her fear
She sought cracked pleasures
The passion of lovers is for death said she
Licked her lips
And turned to feather

And as I watched from underneath
I came aware of all that she keep
The little foxes so safe and sound
They were not dead
They'd gone to ground

The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death

She breaks her hear
Just a little too much
And her jokes attract the lucky bad type
As she dips and wails
And slips her banshee smile
She gets the better of the bigger to the letter

The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she
The passion of lovers is for death
The passion of lovers is for death said she

evva

P.S.: Não trocava o meu mergulho a pique desta noite na filologia medieval pelo concerto dos Bahaus no Coliseu. Estarei a ficar velha? Alguém consegue imaginar o gozo enorme que é justificar a ausência de ressonância nasal no adjectivo 'boo' e argumentar com uma série de ocorrências em textos coevos? Indescritível!



Adenda: Ainda não descobri como se coloca música no blog, mas se quiserem vibrar com Peter Murphy e sus muchachos visitem o Queridos Anos 80, um blog que acompanho assiduamente (o que também é válido para os 0,0000000001% de infiéis que nunca ouviram falar dos Bauhaus... Cinquenta chibatadas ao som do She's In Parties!)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O elogio da Filologia


«um sentimento íntimo da vida da linguagem, um tacto fino e delicado no discriminar e apreciar os fenómenos, mesmo os que ao primeiro exame parecem mais subtis, estranhos e contraditórios»

Elogio académico do Professor José Joaquim Nunes, Gustavo Cordeiro Ramos, antigo ministro da Educação Nacional, 27 de Fevereiro de 1937


evva

A irrelevância de muitos Mestrados dava uma óptima Tese de Doutoramento

A ler: Mestrado em Irrelevância, por Rui Ângelo de Araújo, n' Os Canhões de Navarone.

Um dia, quando se redigir a história do ensino superior português na alvorada do século XXI, ficará registado como, por motivos de sobrevivência e escassez de alunos de licenciatura, pulularam neste país pós-graduações e mestrados absolutamente medíocres.

Pior: as gerações vindouras conseguirão compreender como se poderá recusar uma Dissertação de Mestrado sobre Filosofia ou Narrativa Medievais para creditação na carreira docente do Ensino Não-Superior, com base no argumento único e inquestionável de que o Mestrado se intitulava 'História e Cultura Medievais' e nada disso contribui para a valorização científica e pedagógica de professores de português e filosofia do ensino secundário, e se continue a aceitar, para os mesmos grupos disciplinares, a creditação de Dissertações em Administração, Estatística, Ciências da Educação (se alguém me conseguir explicar o que significa, agradeço; eu que estou há mais de um década no ramo ainda não consegui perceber...), "A angústia (ou falta dela) do cábula antes do teste de avaliação", ou "Mil e uma maneiras de passar de ano os alunos preguiçosos para melhorar as estatísticas de 'sucesso educativo' "...?


Ou ainda: como compreender que se aprovem (por vezes com Muito Bom, quando essa classificação existe) certas Dissertações de Mestrado ou Teses de Doutoramento fraquíssimas só porque o candidato em causa é docente da casa (apesar do arguente não o ser, eu sei) e, coitado, tem de defender depressa a tese ou então, coitadinho, vai para a rua...? Já agora, alguém me explica o que é o Português Arcaico Médio?


As Instituições portuguesas de Ensino Superior, sobretudo as Faculdades de Letras, têm de repensar com urgência a sua função e estratégia e questionar se serão ou querem ser meros redutos de formação de professores para o desemprego ou preferem tornar-se centros de excelência, de investigação, defesa e publicação de um saber que é a pedra angular da formação de qualquer indivíduo.


Nada melhor do que os medievais para nos recordarem, lá dos confins da sua Tenebrosa Idade, o que um intelectual que se preze devia valorizar, sempre:


«Somos anões aos ombros de gigantes: vemos mais longe».


evva

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Philologia


«para mim, filologia tem verdadeiramente coincidido com busca da verdade num sentido total, absoluto, na vida mais ainda que nos textos literários»

Luciana Steggagno Pichio
A Lição do Texto. Filologia e Literatura. I A Idade Média, Edições 70, Lisboa, 1979

evva

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Esplendor

Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.

Ruy Belo

[evva)

É triste, muito triste, o politicamente correcto deste país

"Gaspar Castelo-Branco – foi decidido esquecê-lo

Com este título, o hoje moribundo jornal “O Semanário”, nomeava Gaspar Castelo-Branco como a figura nacional do ano de 1986.

Era Director-Geral dos Serviços Prisionais quando, a 15 de Fevereiro de 1986, véspera da segunda volta das eleições presidenciais, foi assassinado pelas FP-25 Abril com dois tiros na nuca. Foi o mais alto cargo dirigente do Estado a ser vítima de um brutal e cobarde ataque no pleno exercício das suas funções.

Nessa altura, os terroristas das FP-25A, por excesso de tolerância e decisão política, estavam em regime de cela aberta e misturados com presos de delito comum. Após a fuga de um grupo dos mais perigosos terroristas da Penitenciária de Lisboa, em Setembro de 1985, impôs medidas e condições duras de isolamento e separação entre reclusos. Estas eram contestadas pelos terroristas com uma pretensa “greve da fome”. Não cedeu. “Em países ocidentais os governos não cedem às greves da fome e pouca importância lhes dão” dizia. Mas por cá, era constantemente pressionado pela Comissão Parlamentar de Direitos Liberdades e Garantias, em particular por alguns deputados socialistas, bem como alguns movimentos cívicos de duvidosa parcialidade, mas que obtinham ainda assim algum eco na imprensa.

Perante as críticas da comunicação social e dos ditos movimentos, o Ministro da tutela, Mário Raposo, declinava responsabilidades encaminhando-as para o seu director-geral, como se a orientação deste não fosse tomada de acordo com o próprio Ministro. O culpado seria o Director-Geral. Perante a demissão dos seus superiores hierárquicos e o silêncio imposto pelo governo, Gaspar Castelo-Branco assumiu as responsabilidades, que verdadeiramente não lhe cabiam, em circunstâncias particularmente difíceis. Só isso fazia sentido: por personalidade era um homem corajoso e frontal com um enorme sentido do dever e do bem público. Tornou-se o bode expiatório e pagou-o com a vida.

O Governo acobardou-se e quinze dias após o seu brutal assassinato, os presos retomaram a cela aberta durante o dia, apenas fechada durante a noite. Conforme escreveu na altura José Miguel Júdice, parecia que afinal o assassinato teve uma justificação e uma razão de ser.
A partir desse dia, o País apercebeu-se que o terrorismo era uma ameaça real. Nos dias seguintes, Cavaco Silva, então primeiro-ministro, mudou-se com a família para a residência oficial em São Bento. Todos os ministros, sem excepção, passaram a andar com guarda-costas e escoltados por vários seguranças pessoais. Os juízes e procuradores do processo FP-25A passaram a ser guardados dia e noite, pernoitando, às vezes, em locais alternados e sempre secretos.

Apesar disso o Presidente da República em exercício Ramalho Eanes ou o recém-eleito Mário Soares não estiveram presentes no enterro tal como faltou o primeiro-ministro Cavaco Silva. Não houve um gesto visível de apoio público à vítima pelos seus superiores hierárquicos e membros dos órgãos de soberania. Curiosamente, nesse mesmo mês, na vizinha Espanha, um agente da Guardia Civil era assassinado pela ETA. O seu funeral teve honras de estado e contou com a presença de Felipe Gonzalez e Juan Carlos.

“Se me derem um tiro, como reagirão os defensores dos direitos humanos, os mesmos que pretendem condições mais brandas para os terroristas?” - afirmava numa entrevista a um jornal 15 dias antes de morrer. A verdade, é que a sua profecia se realizou e não houve um único acto de repúdio público aos ditos movimentos.

Em Outubro do mesmo ano começava o julgamento da organização. O maior fracasso do Estado de Direito do Portugal democrático. Não conseguiu condenar quem contra ele atentou.

Mário Soares, com uma visão muito própria sobre a justiça, preferiu primeiro indultar e depois amnistiar as FP-25A com total passividade do governo PSD. Preferiu cumprimentar Otelo Saraiva de Carvalho após a sua saída da prisão e recusou uma legítima condecoração, proposta pelo governo, para o mais alto funcionário do Estado a cair no cumprimento do seu dever no Portugal democrático. Para ele, as vitimas e as suas famílias eram um pormenor desagradável num processo que queria resolver politicamente.

O tempo pode atenuar a dor de um filho, mas não apaga a vergonha que o País sente por não ter sido feita justiça: os assassinos não cumpriram a pena, apesar de julgados e condenados em tribunal, e as vítimas foram esquecidas.

[Manuel Castelo-Branco]"


evva

Doctor Subtilis


JOHN DUNS SCOTUS (1265-1308), um dos mais 'difíceis' filósofos da Escolástica, cuja complexidade muitos apelidaram de apurada subtileza. Escutêmo-lo:
«Todo o filósofo estava certo de que o que postulava como primeiro princípio era um ser; por exemplo, um estava certo e que o fogo era um ser e outro de que a água era um ser. Mas não estava certo de que era um ser criado ou incriado, primeiro ou não-primeiro. De facto, não estava certo de que era primeiro, pois então estaria certo de algo falso e o falso não é susceptível de saber rigoroso. Nem estava certo de que fosse um ser não-primeiro, porque então não teria postulado o oposto.
Este primeiro argumento é confirmado da seguinte maneira: Alguém, vendo os filósofos discordarem entre si, pode estar certo de que o que quer que seja que qualquer um deles postulou como primeiro princípio é um ser. No entanto, por causa da contrariedade das opiniões dos filósofos, poderia duvidar se o primeiro princípio é este ou aquele ser. Se se fizesse, para tal pessoa em dúvida, a demonstração conclusiva ou refutativa de algum destes conceitos inferiores, por exemplo, de que o fogo não é o ser primeiro, mas um determinado ser posterior ao ser primeiro, não se destruiria o primeiro conceito certo que esta pessoa teve [de que é um ser], mas tal conceito ainda se encontraria no conceito particular que fosse provado do fogo. Assim prova-se a proposição suposta na última consequência deste argumento, isto é, que o conceito que de si não é nenhum dos dois conceitos duvidosos encontra-se em ambos.» Opus Oxoniense, I, d. 3, parte 1, q. 1 (tradução de C. A. Nascimento e R. Vier).

[Subtilezas destas conseguem dar um 'nó escolástico' no raciocínio mais exercitado...]

evva

Calendário

O fabuloso Calendário 2006 da Federação Portuguesa de Hóquei



Direcção artística, fotografia e design de Armando Vilas Boas.


evva

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor


agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente


lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


valter hugo mãe

O Resto Da Minha Vida seguido de A Remoção das Almas (2003)
Porto, Cadernos do Campo Alegre

[evva]