segunda-feira, março 26, 2007

Reviver o passado…

… não. Não é em Brightshead, embora as imagens e a música de entrada da série sejam uma das mais antigas memórias recorrentes que tenho.

A votação do programa da RTP parece ter dado início a uma discussão em relação ao nosso passado dictatorial mais recente. É um tema muito delicado, mas cujo luto é importante fazer.

Eu gostava que o programa da televisão do Estado, junto com movimentos como o Não Apaguem a Memória conseguissem criar a vontade política para a produção de um museu que pudesse mostrar aquilo que fomos durante quase 50 anos. É verdade que ninguém gosta de ver no espelho imagens que envergonhem, mas se as continuarmos a negar ou a esconder, corremos o risco de darmos com elas quando menos esperamos, como parece estar a acontecer em Espanha nas recentes manifestações promovidas pelo Partido Popular.

Cada vez que surge um debate em torno do antigo presidente do Conselho, parece que o país entra em pânico, com o receio que algo profundo e medonho acorde e renasça.
Se calhar é por isso que nos ensinam na escola a glorificar os descobrimentos, para ver se nos põem a olhar, ainda que de forma esquizofrénica, para aquilo que de bom fizemos.

Ai, ai… o Eduardo Lourenço tinha mesmo razão. A nossa saudade é mesmo um labirinto.
E eu não consigo descobrir porquê.


andré

Senhoras e senhores, apresento-vos...



... o MAIOR PORTUGUÊS DE TODOS OS TEMPOS.






(ainda me dói a barriga de tanto rir)

evva

domingo, março 25, 2007

sábado, março 24, 2007

Primavera...





Uma semana de tanto trabalho que mal a senti chegar (a propósito, que lindo poema, laerce), mas quando sinto aproximar o tempo 'prin' recordo-me sempre dos primeiros versos de La Nuit de Mai, de Alfred de Musset (1810–1857), em que uma musa chama pelo seu poeta e lhe pede um beijo, na noite em que a Primavera se inicia. Por que razão o intitulou Musset La Nuit de Mai, nunca o soube, mas na adolescência, idade de todos os romantismos, era um dos meus poemas preferidos.


LA MUSE



Poète, prends ton luth et me donne un baiser;
La fleur de l’églantier sent ses bourgeons éclore.
Le printemps naît ce soir; les vents vont s’embraser;
Et la bergeronnette, en attendant l’aurore,
Aux premiers buissons verts commence à se poser;
Poète, prends ton luth et me donne un baiser.






evva





P.S.: O poema é muito longo, com as respostas sucessivas do poeta, perdido na seu egocentrismo, a não reconhecer o 'fantasma' que o chama e a musa a insistir no seu pedido. Para o lerem na íntegra, podem clicar aqui.

quarta-feira, março 21, 2007

domingo, março 18, 2007

Tem toda a razão.

Num ambiente extremado, sabe bem ouvir uma opinião equilibrada. Extracto da coluna de Daniel Sampaio, este domingo, na Pública:

"Segundo equívoco: os relatos confundem sempre indisciplina com violência. Temos em Portugal um gravíssimo problema de indisciplina em meio escolar, que não pode ser confundido com a ideia de que a escola portuguesa é sede sistemática de violência (na esmagadora maioria das nossas escolas não há violência). A indisciplina é frequente e deriva, em geral, de causas bem diferentes. Apontemos algumas: 1) insegurança familiar na transmissão de regras e incapacidade de muitos pais para utilizarem uma dose adequada de frustração como ingrediente essencial na educação dos filhos, delegando na escola essa tarefa; 2) falta de autoridade de professores, por desvalorização social do seu papel e exagero conferido aos “direitos” dos mais novos; 3) programas escolares sem articulação entre si, extensos, dispersos por um número excessivo de disciplinas; 4) salas de aula com poucos materiais, sem utilização de novas tecnologias, com professores a insistirem em métodos expositivos, em prejuízo de uma prática pedagógica que transforme a turma num grupo de trabalho cooperativo; 5) ausência de uma liderança forte em muitas escolas, diluída num Conselho Executivo (que nome...) em que as funções de cada um não são claras; muitas escolas são raras as reuniões dos Conselhos de Turma para a definição de estratégias comuns para lidar com a indisciplina; 6) fracasso das intenções de autonomia verbalizadas por professores e tutela: predomina o discurso paradoxal em que o Ministério não confere verdadeira autonomia e as escolas, nos poucos sectores onde ela existe, não se sente capaz de a pôr em prática; 7) pouca participação de alunos e pais em questões onde seria importante ouvir a sua opinião, como é o caso da indisciplina."
(…)
"Concordo que a agressão a um professor seja crime público: o efeito dissuasor dessa medida pode ser significativo. Importa, no entanto, perceber que só se obtêm respostas a questões complexas através da análise sistémica de todas as variáveis em jogo, na busca permanente de respostas integradas."

Srs/as professores/as, Sr.ª Ministra, vamos lá pensar um bocadinho.

andré

Primavera em Azevedo

Ameixoeira em flor. Ontem, ao entardecer.


evva

quinta-feira, março 15, 2007

Já apetece...


evva

Hoje continuamos a demandar o Graal

(clicar na imgam para aumentar)


Quando, no fim do século XII, Chrétien de Troyes escreve o seu último romance, o enigmático «Conto do Graal», inaugura uma das mais férteis tradições literárias e estéticas do Ocidente. Emblema de soberania, relíquia cristã ou símbolo espiritual, este objecto inspirará inúmeras recriações ao longo da Idade Média, ressurgindo com o Romantismo. Já nos séculos XX-XXI, o tema da demanda espiritual e as raízes pré-cristãs do Graal estimulam o imaginário New Age; a sua ligação à Idade das Trevas e a rituais de iniciação dá origem a uma abundante produção para-literária: prova de que o mito continua bem vivo no início do terceiro milénio.

Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

17h30

EXCALIBUR, de Jonh Boorman

Apresentação de José Carlos Miranda (FLUP)
e
Beatriz Pacheco Pereira (Cinema Novo)

ENTRADA LIVRE



evva

quarta-feira, março 14, 2007

Heroína do dia, com direito a prémio do Ministério da Educação

Manhã solarenga. Sala de professores de uma escola secundária nos arredores do Porto.
Uma colega entra exaltada depois de telefonar a uma encarregada de (des)educação, a comunicar-lhe o elevado número de faltas injustificadas do (des)educando. Resposta vociferada da interlocutora:
«- É a primeira vez que uma Directora de Turma tem a distinta lata de me telefonar para casa a chatear-me com uma coisa dessas!».
«- E continuou a gritar e a insultar-me, imaginem. Nem me deixou falar. Com receio de ficar surda, desliguei-lhe o telefone.».

evva

terça-feira, março 13, 2007

domingo, março 11, 2007

Broken Social Scene II

Perante o entusiasmo da plateia aqui vão links para alguns videos da banda:

Anthems for a 17 year old girl
Lovers' spit
7/4 shorline
Stars and sons
Looks just like the sun
Almost crimes
Fire eyed boy

E para terminar, dois bónus, a minha versão preferida do Mushaboom da Feist e o And I was a boy from School dos meus queridos electrónicos Hot Chip:

Espero que gostem

andré

MIL E UMA RAZÕES PARA NÃO VER A RTP

TAKE 1:

Uma semana inteira à espera e... NADA! Seus #*§+%€!


evva

sábado, março 10, 2007

Broken Social Scene



Há bandas assim, onde a música mais parece o resultado de uma diversão, de uma experiência ou projecto casual de um grupo de amigos.
Não sei se este é o caso dos Broken Social Scene, mas é assim que eles me soam. E ainda bem.
No mundo da Pop, sabe cada vez melhor ouvir coisas autênticas… e sobretudo diferentes.

Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me
Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me
Park that car, Drop that phone, Sleep on the floor, Dream about me

Refrão de Anthems For a Seventeen Year-old Girl, do álbum You forgot it People


PS: Por falar em coisas novas, estou a ouvir uma banda austríaca chamada TNT Jacksons. O álbum: Lovers. Fan-tás-ti-co!

PS2: A rapariga da foto é a Leslie Feist, que colaborou com o grupo e que se tornou conhecida com o álbum a solo, sobretudo com o single Mushaboom.

andré

MODAS

«O QUE RESTA

Está na moda bater nos professores. Pais histéricos e boçais, avôs, primas e primos, as amantes do pai corno e os amantes da mãe promíscua, tudo serve para arremeter contra os professores das horríveis crias. Já aqui escrevi que estas "crianças" e adolescentes que frequentam as escolas públicas, pagas com os nossos impostos, deviam ser sumariamente corridas - suspensas e expulsas- quando o seu comportamento se confunde com o de secções do jardim zoológico. O primitivismo comportamental não tem perdão, sobretudo quando praticado em lugares supostamente destinados a formar futuros cidadãos responsáveis (consegui escrever isto sem me rir). O ministério da Educação, eventualmente em conjunto com os dos drs. Costa, devia prestar mais atenção a isto em vez de passar a vida a vexar gratuitamente os docentes, metendo tudo e todos no mesmo saco, esvaíndo a sua já parca autoridade. Todavia, não nos devemos admirar de as coisas terem atingido esta proporção com as escolas a serem invadidas por famílias - vou utilizar o jargão assistencialista - "disfuncionais". A esquerda no poder na Europa é a principal responsável por este entorse nas funções nucleares das escolas públicas. O politicamente correcto quis transformar os liceus em prolongamentos de gabinetes de psicologia e de serviço social, como Judi Dench "explica" magnificamente em "off" nos primeiros minutos do filme "Diário de um escândalo". Aliás, a história do filme é uma consequência do optimismo "blairista" aplicado ao sistema de ensino. A professora de arte que "come" o rapaz de 15 anos é o equivalente, num país periférico e analfabeto como o nosso, ao avô que bate no professor. Judi Dench encarna uma personagem magnífica, não tanto por causa da trama - também magnífica - mas pelo que as suas "notas" (a partir do livro homónimo de Zoë Heller) revelam sobre a escola pública da "terceira via" do sr. Blair, esse exemplo de modernidade e de "esperança" para tanto socialista "pragmático" do século XXI. Se estes socialistas "pragmáticos" andassem mais por aí em vez de viverem atafulhados em fantasias inócuas, talvez parte da realidade pudesse entrar nas suas duras cabeças. Enquanto isso não acontecer, o "progresso" continuará tranquilamente a dar cabo do que resta da ideia de escola ou de liceu e, inevitavelmente, de professor no sentido nobre do termo. Quem é que está disposto a trocar uma aula por uma cadeira na cabeça, atirada pelo primeiro "coitadinho" do sistema? Quem?»

João Gonçalves, num blogue de leitura obrigatória, Portugal dos Pequeninos.


Leiam também este comentário avisado ao post de João Gonçalves, por josé gomes andré:


«A degradação da escola está relacionada com a aplicação de uma teoria "psicologista" pós-moderna de consequências terríveis: a ideia de que a escola não é um lugar de aprendizagem, mas sim de "adequação social" ou de "ambientação ao mundo", onde é mais importante "crescer" e "socializar" do que aprender o conteúdos dos programas. Enquanto se continuar a dizer aos miúdos que não saber nada da matéria não é grave, e que isso pode ser compensado com uma boa "participação pedagógica" na dimensão de "integração social" - não vamos lá.»


Pois é, mas nós é que os temos de aturar todos os dias, mais os paizinhos do "juro-lhe que ele em casa não fala assim", os que nunca aparecem, os que não acordam os filhos para ir às aulas e têm o desplante de justificar a falta do educando com um 'adormeceu' ou 'o despertador não tocou', os que deixam os filhos ver as telenovelas e os filmes todos até às tantas da madrugada, os que se queixam de não ter dinheiro para os livros e o material escolar e vociferam por não terem sido contemplados com o subsídio, mas não se esquecem de comprar à filharada o telemóvel de última geração e o ipod, os que se insurgem porque o filhinho pródigo não foi seleccionado para aulas de apoio pedagógico acrescido, mas que nada fazem para obrigar os rebentos a realizar os trabalhos de casa ou a trazer o caderno e o manual escolar todos os dias, ou a estarem virados para a frente nas aulas e calados e atentos e responsáveis, em vez de as interromperem constantemente com comentários despropositados e insultuosos, para os colegas e para os professores, "deixe lá, não ligue, ele em casa também é assim", etc, etc, etc.
A nossa sorte é que ainda conseguimos encontrar um ou outro aluno por quem valha a pena ir trabalhar todos os dias. Mas esses são cada vez mais a excepção.

evva

«O menino menos zeloso

– Professora, eu não consigo perceber por que motivo tenho menos um valor do que o Rui. Afinal, tivemos exactamente os mesmos resultados nos testes, nos trabalhos e na participação…
– Mas não na assiduidade, Jorge. O Rui nunca faltou e o Jorge tem cinco faltas.
– Justificadas, professora, todas justificadas. Faltei dois dias pela morte do meu avô e os outros três porque torci um pé na aula de Educação Física. O médico obrigou­‑me a descansar três dias, até me passou um atestado…
– Não me interessa. Se tivesse ouvido o meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, como eu ouvi, saberia muito bem que o importante é ter faltado, não interessam as razões, não interessa quem morreu, nem se torceu o pé ou partiu a perna ou entortou o pescoço. As palavras do meu superior hierárquico, o Secretário de Estado, que eu ouvi com toda a atenção, como sempre faço em relação aos meus superiores hierárquicos – e o menino devia fazer o mesmo –, foram absolutamente claras: para todos os efeitos, quem faltou foi menos zeloso do que quem não faltou. Por isso, não quero saber da morte do seu avô nem do pé torcido nem da unha encravada. Vai ter menos um valor do que o Rui e ponto final.»

João Paulo Sousa, no Da Literatura.


Quantas vezes terá faltado o menino Sócrates, desde que iniciou funções? Reuniões partidárias, jornadas do grupo parlamentar, daquela vez que partiu o pé na estância de esqui... Não é também Funcionário Público? Tirem-lhe as férias, se faz favor.

evva


P.S.: E, já agora, ponham-no a dar umas aulinhas numa escola pública, em par pedagógico com a Lurdinhas e os secretários. Ah... a licenciatura não é reconhecida pela Ordem dos Engenheiros, oops...

Faltará muito para o regresso a Camalot?

(BMDijon, ms. 0527, f. 162v)

evva

Enfim(!)-de-semana



evva

quarta-feira, março 07, 2007

'RETRATO DE MÓNICA'

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.


Sophia de Mello Breyner Andresen


Contos Exemplares (1962)
Porto, Figueirinhas.

[evva]

terça-feira, março 06, 2007

Ainda as 'Variações em Sousa'

Fernando Assis Pacheco tu-cá, tu-lá com o leitor, encerra exemplarmente e sem rodeios o livro que assina:

F. A. P. Fecit

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saudades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desampatraste

*

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde


[evva]

segunda-feira, março 05, 2007

O dia amanheceu azul . Há um cheiro intenso a relva cortada no ar, o ronronar da cortadora ainda se ouve ao longe, nos canteiros do fundo da rua. As magnólias já floriram e derramam rosa e branco nas calçadas. As mimosas já invadem os caminhos. Mas ainda me ressoa na memória a chuva de ontem e os versos da Rosário Pedreira. Tarda muito, a Primavera?

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca

foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira
Nenhum Nome Depois (2005), Gótica, p. 11

domingo, março 04, 2007

Já foi há alguns anos, mas revivo esse domingo como se fosse hoje. Trabalhava e vivia lá perto, choveu intensamente nesse dia e nos precedentes, houve ameaça de inundação lá em casa, água em demasia na varanda dos vizinhos de cima, e preparava-me para deitar e adormecer com a TSF dos velhos tempos quando um anúncio de tragédia interrompeu a emissão. Tentei contactar os primos com família em Castelo de Paiva, não tinham notícias, as linhas móveis e imóveis não funcionavam, por excesso de tráfego ou excesso de chuva, mais tarde o alívio, todos estavam bem. Bem? Nenhum de nós ficou 'bem' depois daquele dia, um pedaço de nós morreu naquela torrente cor de lama rio abaixo e as amendoeiras nunca mais floriram como antes, o anúncio da Primavera que se aproxima e a esperança na renovação.

Sobre a memória de 4 de Março, um excelente texto de uma amiga recente, autora de um blogue a descobrir:

«amendoeiras em flor


És tu, deus talhado na fronteira da bruma, que te revelas na cidade de granito e respiras o rio revolto de quatro de março próximo em amendoeiras desfeitas e anjos pelas margens? Descubro-te no ciclo da memória auditiva que a ponte deixou sobre as asas inertes aparecidas mais tarde, rebocadas por legiões de muito boa vontade, homens cavaleiros de miragens enquanto as velas e as flores se consumiam e as lágrimas enchiam o rio douro dizem sob outras pontes, ali uma garganta sôfrega a sugar vorazmente o quarto pilar, a quatro de março. Todos te perguntaram porquê, todos. E o teu silêncio espalhou-se pelo rio triste e terrivelmente vazio, uma água pesada de tanta ausência. Espreitas de novo, deus, esperas que te rezem e te façam promessas em sacrifício do corpo que chegou ao mar sem ser doce morrer no mar como diz a canção da bahia mar morto de jorge amado lá e cá. O rio também tem lágrimas de portugal, mas não o soubemos fazer nosso. Por isso, deus, acalma a memória neste dia e alerta o dia seguinte, aquele em que qualquer ponte é de mágoa e de contrição.»


evva

sábado, março 03, 2007

Colheita de 2 de Março


Tenho o vício caro de não conseguir resistir a livrarias, alfarrábios, feiras do livro novo, do livro velho, do livro raro, do livro usado... Ontem, aproveitando a hora de almoço para abastecer a despensa numa grande superfície cá do burgo, mal tinha percorrido uns míseros metros de carro ainda vazio quando paralisei diante de uma pilha que apregoava sem qualquer erro ortográfico "LIVROS EM SALDO'. Lá me pus a demandar o Graal por entre resmas de inanidades e eis que, qual limpa-vias no subway perante o arroz do céu, mal pude conter um grito quando vi as Variações em Sousa do velho Pacheco, edição 2004 da Angelus Novus - Cotovia, por cinco euros.


Aqui fica Canção do Ano 86, Fernando Assis Pacheco na sua melhor auto-ironia:


Agora quando volto
quando é raro voltar e sempre por um dia
estou à minha espera na ponte de Santa Clara
com um ramo de rosas que levanto
à aproximação do carro
saudando-te caro Fernando Assis Pacheco
filho pródigo destes quintais floridos

quando acontece que volto
que assim volto por pouquíssimo tempo dou comigo
na berma da EN1 a olhar à esquerda o Vale do Inferno
hoje estragado por um sacana qualquer dum engenheiro
dizendo adeus adeus Fernando Assis Pacheco
menino antigamente sem cuidado

se é que volto intimado pela agenda
do jornal em Condeixa já inquieto espreito
a ver se vens dos lados de Pombal
oitavo duma fila atrás dum camião
coçando a barba gesto bem teu
com que disfarças o nervoso e a pressa

volto sem querer quando decerto
mais não queria voltar
encasacado anónimo de olho circunvago
Leiria num relance prego no fundo
apetecia parar ao pé de ti Fernendo Assis Pacheco
cálido aceno do que morreu
conversarmos os dois sobre esse século esses
cafés com quatro mesas e matraquilhos na cave a
cheirar a bolor
essas aulas a que faltávamos no último período para
empatar cinco a cinco com os varões todos torcidos

consta que desde então
não fazes mais do que perder

[evva]


P.S.: Curiosamente, também lá estava o segundo livro que conheci da Ilse Losa, Na Quinta das Cerejeiras, requisitado na biblioteca do colégio, mas que nunca conseguiu suplantar a devoção pela Flor Azul, para sempre no patamar dos patamares da minha infância.
Abandonei o recinto em plena euforia e sem mercearia.

sexta-feira, março 02, 2007

Uf! Adiada para as férias da Páscoa...


evva

Este mês demandamos o Santo Graal

(clicar na imagem para aumentar)

evva

Grandes confusões…

















…podia ser o título do programa que a RTP está a promover sobre os portugueses que mais se distinguiram na história do país.

Por coincidência, estava eu ontem a desabafar sobre o quanto nós precisamos de debater e de falar sobre a ditadura e sobre o nosso passado, e eis que hoje dou de caras com este fan-tás-ti-co concurso onde as misses e os misters são apresentados em catálogo e escolhidos a 0,60€ + IVA.

Enfim… não era bem isto que eu tinha em mente. E pelos vistos muitos historiadores concordam (ver o P2 de hoje). Agrada-me porém a liberdade a que o pessoal da publicidade se deu na abordagem do assunto.
Fico no entanto com muita pena que uma estação pública, para comemorar 50 anos, não consiga fazer melhor do que algo parecido com o festival da canção, ou discos pedidos.

Assim sendo, espero sinceramente que os abaixos assinados e todos os movimentos de protesto consigam criar espaço na consciência dos autores desta infeliz ideia, para que nas comemorações dos 75 anos alguém se lembre de fazer algo igualmente irreverente mas não tão saloio.


andré